Para coletar os dados, observamos diretamente os livros didáticos. Registramos72, através de anotações, todas as explanações e atividades sobre verbos e advérbios, assinalamos a numeração das páginas para melhor mostrar os exemplos e escrevemos detalhes das imagens, quando houve necessidade. Após fazer a seleção das partes que interessam ao nosso estudo, aplicamos um roteiro com perguntas, dividido em três blocos, para analisar e interpretar os dados. O roteiro foi elaborado com base nos pressupostos teóricos adotados nesta pesquisa. Apresentamos a seguir o roteiro:
Quadro 7: roteiro para analisar os livros didáticos. I. Tempo
O autor do livro didático:
a) faz distinção entre tempo verbal e tempo cronológico?
b) explica que o Tempo pode ser marcado por verbos, advérbios ou pelo contexto? c) explora o uso de tempos característicos em alguns gêneros e tipos textuais73?
d) ressalta a relação entre os tempos verbais e os adjuntos adverbiais para localizar eventos no tempo? e) mostra que uma forma verbal pode ter mais de uma função?
II. Aspecto
O autor do livro didático:
a) leva em consideração noções como duratividade, habitualidade, telicidade, iteratividade, dinamicidade, entre outras?
72 A Biblioteca Pública não faz empréstimo dos livros do setor de Obras Gerais, onde se encontram os livros
pesquisados, nem permitia fotocopiar as obras até o término da coleta, ainda que para fins de pesquisa. A coleta de dados consistiu em um trabalho de anotações detalhadas dos livros. Estes foram observados página a página.
73 Como tipo textual, estamos considerando: a narração, a descrição e a dissertação ou argumentação. Segundo
Marcuschi (2002, p. 27), ―quando se nomeia um certo texto como ‗narrativo‘, ‗descritivo‘ ou ‗argumentativo‘, não se está nomeando o gênero e sim o predomínio de um tipo de seqüência de base‖. Os tipos não ocorrem independentemente dos gêneros, um mesmo gênero pode realizar vários tipos textuais. São exemplos de gêneros: o conto, a carta, a propaganda, a crônica, o artigo, a fábula, o seminário, o ensaio, a receita etc. Para Marcuschi (2002, p. 20), ―os gêneros textuais são fenômenos históricos, profundamente vinculados à vida cultural e social, [...] contribuem para ordenar e estabilizar as atividades comunicativas do dia-a-dia. São entidades sócio- discursivas e formas de ação social incontornáveis em qualquer situação comunicativa‖.
b) diferencia o uso do perfeito e do imperfeito?
c) mostra o papel do particípio para expressar o aspecto conclusivo? d) ressalta o aspecto progressivo do gerúndio?
e) trabalha os usos/funções dos verbos auxiliares aspectuais (começar, acabar de...)?
f) explora os sufixos marcadores de Aspecto (como -ear: cabecear; -ecer: envelhecer; -ejar: pestanejar...)?
III. Modalidade
O autor do livro didático:
a) associa os Modos indicativo, subjuntivo e imperativo à certeza, incerteza e ordem, respectivamente? Ou correlaciona os Modos ao contexto de uso?
b) diferencia Modo de Modalidade?
c) evidencia os efeitos de sentido provocados pela escolha de determinadas formas verbais? d) faz ligação entre a Modalidade e o posicionamento do falante?
e) trabalha os usos/funções dos verbos auxiliares modais (dever, poder, ter que...)? f) mostra que a Modalidade pode ser expressa pelo advérbio?
No primeiro bloco, sobre o Tempo, examinaremos como esta categoria é tratada pelos autores dos livros didáticos. Partimos da hipótese de que para que o aluno compreenda a marcação de Tempo na Língua Portuguesa, é preciso que ele reflita sobre a língua e seus marcadores temporais (verbos, advérbios, contexto), ou seja, aprenda a diferenciar o tempo verbal do tempo cronológico, observe a temporalidade nos gêneros e tipos textuais, entenda os usos/funções dos tempos e a variação linguística nos tempos verbais. Além disso, um tempo pode ser expresso por mais de uma forma, conforme demonstrado por pesquisas variacionistas, ou uma forma pode representar várias noções temporais, segundo mostram pesquisas de cunho funcionalista. É importante e necessário trabalhar essas correlações em sala de aula.
No segundo bloco, sobre o Aspecto, buscamos saber como são trabalhadas as noções aspectuais nos livros didáticos. Refletindo a constituição temporal interna dos enunciados, o Aspecto deveria fazer parte da discussão sobre verbos e advérbios nos livros didáticos, para que o aluno aprendesse, por exemplo, o papel dos pretéritos perfeito e imperfeito e compreendesse os usos/funções dos auxiliares aspectuais.
No último bloco, sobre Modalidade, desejamos analisar como esta categoria tem sido conceituada, qual sua abrangência e meios de expressão74 nos livros didáticos. A nossa hipótese é a de que os autores dos livros restringem a Modalidade aos Modos verbais, deixando de lado o fato de que todo enunciado é caracterizado por uma Modalidade. Além disso, é essencial o estudo dos usos/funções dos auxiliares modais.
Ao final da análise das categorias, faremos um resumo do tratamento dado a cada uma, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, por meio de gráficos. Os gráficos têm apenas fins ilustrativos. Não queremos ―medir‖ quem trabalhou melhor ou pior, mas o quanto de respostas positivas e negativas obtivemos. A porcentagem (0% a 100%) está associada diretamente às perguntas do roteiro, que são cinco no bloco I e seis nos blocos II e III: se respondermos sim para as cinco ou seis perguntas do roteiro, marcaremos 100% para a década no gráfico; se respondermos sim para duas ou três perguntas, marcaremos no gráfico: 40% ou 50% e, assim, sucessivamente. Consideramos a resposta como parcial, quando o autor trabalhou de modo restrito ou apenas apresentou indícios no livro didático.
Considerações finais do capítulo
Neste capítulo, apresentamos todas as coleções analisadas (e o resumo delas) e o roteiro que guiou a nossa coleta e análise dos dados. Mostramos, ainda, como se deu o processo de coleta, por meio de anotações, e o que nos levou a selecionar estes livros e não outros. A seguir, apresentamos a análise dos livros didáticos, a partir do roteiro proposto.
5. ANÁLISE DAS CATEGORIAS TEMPO, ASPECTO E MODALIDADE NOS