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Além das barreiras citadas no item 1.3 que estão relacionadas ao uso da ventilação natural em ambiente urbano, existem diversas outras. Segundo Cotting, é importante identificar as barreiras vistas pelos projetistas e tomadores de decisão que restringem a implementação da ventilação natural e promovem a decisão de instalar a ventilação mecânica nos edifícios, mesmo naquela onde esta não é estritamente necessária. O conhecimento destas barreiras é o primeiro passo para o desenvolvimento das soluções (COTTING, 1998).

As barreiras para utilização da ventilação natural em edifícios de escritórios podem ser divididas em três grupos.

O primeiro grupo se refere às barreiras encontradas durante o projeto do edifício. Neste grupo, estão incluídas as normas técnicas específicas de ventilação, ou a falta delas, e outras que tratam de assuntos que podem entrar em conflito com a sua utilização, tais como as normas de segurança contra fogo e também as normas de acústica.

A falta de conhecimento, por parte dos projetistas dos processos da ventilação natural e a dificuldade de utilização das ferramentas disponíveis implicam em risco de funcionamento inadequado, o que, aliado a não remuneração pelo projeto específico, desencorajam os projetistas tornando- se barreiras para o uso da ventilação natural durante a fase de projeto.

Ferramentas simples de projeto, softwares ou diagramas aplicáveis no desenvolvimento de projetos por arquitetos, engenheiros, consultores ou projetistas para analisar as vantagens e desvantagens dos diferentes conceitos de ventilação precisam ser desenvolvidos (COTTING, 1998). Durante o processo de projeto as soluções de arquitetura e engenharia propostas devem ser checadas em relação a sua performance em condições normais ou extremas. Para isso os projetistas precisam ter ferramentas confiáveis e acessíveis. A ventilação natural é uma área onde as ferramentas são particularmente escassas ou difíceis de serem manipuladas (ALLARD, 1998). Isso gera desconforto para o projetista, pois

além da modelagem ser complicada, a análise dos dados pode ser confusa para não especialistas. Esta dificuldade pode ser minimizada com a elaboração de novas ferramentas, mais acessíveis para a maior parte de projetistas, o que seria suficiente nos casos mais simples, mas também com a conscientização de que algumas tipologias arquitetônicas ou edifícios específicos, como é muitas vezes o caso dos edifícios de escritórios, demandam um trabalho mais complexo, onde somente especialistas são capazes de escolher as melhores soluções a serem implementadas e desta forma precisam estar envolvidos o quanto antes no projeto.

As diferentes barreiras para implementação da ventilação natural como única ou a principal estratégia de resfriamento do edifício, bem como a incerteza sobre a habilidade de controle dos ambientes internos em diversas circunstâncias, certamente significam um risco para o projetista de que o empreendedor ou os próprios usuários não fiquem satisfeitos com o seu projeto. É certamente mais fácil e mais confortável a adoção de soluções mecânicas convencionais por parte do projetista com desempenho garantido apesar do maior custo.

O segundo grupo se refere às atividades exercidas nos edifícios de escritórios e barreiras durante a sua operação.

Em climas frios, a movimentação do ar no interior do edifício pode causar incômodo, efeito “draught”. Este efeito ocorre quando se exercem atividades sedentárias e o ar frio provoca o resfriamento excessivo do corpo como um todo ou de uma de suas partes. Também é desagradável a sensação provocada pela colisão de ar em alta velocidade contra as pessoas ou a movimentação indevida de materiais, este último bastante indesejável em ambientes de escritórios (RUAS e LABAKI, 2001). Neste grupo podemos incluir ainda a poluição e os altos níveis de ruído externo existentes nos meios urbanos, e outras questões como a segurança contra invasões ou a segurança física dos usuários e a necessidade de controles para que o edifício possa funcionar bem com a utilização da ventilação natural.

Um dos pontos mais importantes para os ocupantes dos edifícios é a segurança contra a entrada de pessoas não autorizadas. Segundo Allard, isso implica em que todas as aberturas no fechamento do edifício sejam

fácil. Existem outros intrusos indesejados como pequenos animais, pássaros, por exemplo, e também insetos que podem entrar através de aberturas grandes ou pequenas, baixas ou altas para as quais são necessárias soluções específicas. As grades de proteção e telas têm sido artifícios bastante utilizados para solucionar a questão da segurança (ALLARD, 1998).

O tamanho reduzido das aberturas para evitar a entrada de intrusos pode causar limitações na intensidade da ventilação natural, enquanto grades ou telas são bastante rejeitadas por diminuir a entrada de luz e prejudicar o contato com o meio externo, além de representarem um custo extra. As grades ainda representam uma grande barreira às rotas de escape e requerem compensação com outras soluções.

A chuva também pode ser uma barreira. As aberturas para ventilação natural também podem permitir a entrada de chuva causando danos aos materiais de acabamento interno, mobiliário, equipamentos, etc. Para preveni-la as aberturas devem ser controladas, seja pelos próprios usuários ou por algum tipo de controle automático. O controle manual requer a presença dos usuários no edifício, o que implica no fechamento das mesmas por razões de segurança, quando estes não estiverem presentes e desta forma compromete a ventilação natural - principalmente resfriamento noturno. A alternativa neste caso seria a utilização de janelas com soluções inteligentes de design como palhetas especiais que podem proteger contra a entrada de intrusos, insetos e também da chuva, entre outras soluções de projeto em esquadrias.

A ventilação natural se baseia no fluxo de ar por pressão dos ventos ou diferença de temperatura, porém estes requisitos não são constantes durante todo o ano, estações e mesmo durante um dia, e a suas variações podem gerar desconforto por vários motivos aos usuários de edifícios ventilados naturalmente. Assim algum tipo de controle é fundamental para ajuste das aberturas de acordo com as necessidades de cada momento. Estes controles podem ser manuais ou automáticos. No caso de controle manual, o usuário precisa ter um nível mínimo de conhecimento para operar as aberturas adequadamente e as mesmas precisam ser suficientemente simples para oferecer diferentes possibilidades de ventilação e ainda assim serem operáveis pelo usuário comum. De outra forma a automação se torna fundamental para

A escolha pelo tipo de controle não é tarefa tão simples, pois envolve a análise de outros sistemas como resfriamento ou aquecimento, arquitetura (divisões internas layout, etc), capacidade dos ocupantes de operarem apropriadamente o sistema, além do custo total (ALLARD, 1998).

Existe uma grande falta de conhecimento em termos de integração com outros componentes, mas também em relação a performance do sistema. Sistemas de controle simples e eficientes precisam estar disponíveis para tornar o usuário independente em sua operação. Seria também interessante o desenvolvimento de novas tipologias de esquadrias para promover melhor o fluxo do ar, evitar o “efeito draught”, facilitar o controle com melhor design (COTTING, 1998).

Tanto os sistemas manuais quanto os automáticos têm vantagens e desvantagens que devem ser avaliadas. Em geral um sistema automatizado oferece maiores vantagens em edifícios de escritórios (onde as cargas internas costumam ser maiores que 40W/m2), sendo que se o mesmo oferecer um mínimo de controle por parte do usuário se torna mais interessante apesar de ser tecnicamente mais complexo e mais caro (ALLARD, 1998).

O terceiro grupo de barreiras ao uso da ventilação natural se refere aos mitos na especificação das esquadrias.

Existe o receio dos projetistas de que as soluções necessárias ao bom funcionamento da ventilação natural possam impactar negativamente na arquitetura, além de alguns mitos como a geração de fluxos de ar incontroláveis por janelas abertas em edifícios altos, ou a possível perda de energia em caso de edifícios que combinam ar condicionado e ventilação natural, entre outros (BOERSTRA e KURVERS, 2000).

Benzer Belgeler