APPENDICES A Informed Consent
F- Session Handouts
III- Başa Çıkma Yöntemler
Partindo de uma formação acadêmica baseada na proposta de pesquisa na graduação, é importante delinear uma concepção do que seja a produção escrita na universidade. Para tanto, consideraremos a acepção de escrita de Coracini (2010), o conceito de indício de autoria de Possenti (2009) e o conceito de trabalho da escrita de Riolfi (2003).
Para Coracini (2010), a escrita é um processo que permite a inscrição de quem escreve numa comunidade social como sujeito. A autora traz uma concepção de escrita que nos auxilia a pensar uma formação e um ensino de escrita. Trata-se de uma perspectiva de formação acadêmica na qual desenvolvem-se produções escritas que operacionalizam e mobilizam a fundamentação teórica de trabalhos acadêmicos com análises de dados.
O conceito de trabalho de escrita de Riolfi (2003) pode também contribuir com uma concepção de escrita mais ligada às concepções de ciência e formação que propusemos anteriormente. A autora afirma que é “a escrita que, uma vez depositada grosseiramente no suporte, trabalha no sujeito, fazendo como que ele mude de posição com relação ao próprio texto e possa, sobre ele, exercer um trabalho” (RIOLFI, 2003, p. 47). Nesse sentido, tal definição aproxima-se do que defendemos como uma implicação daquele que escreve na produção escrita que desenvolve. Trata-se de o locutor do texto não ser apenas um portador da voz de outros autores, mas também assumir-se como autor.
Possenti (2009) afirma que a autoria pode ser detectada por indícios. Segundo o linguista, os indícios que permitem delimitar as atitudes de um autor são: dar voz ao outro e manter distância em relação ao próprio texto. Quando aquele que escreve se afasta do seu texto e garante a produção do seu dizer sobre um determinado tema contribui com a formação do sujeito autor.
110 A partir do trabalho de escrita, podemos pensar em uma formação que viabilize o distanciamento entre produção escrita e registro de palavras no papel em branco. Para melhor compreensão do que estamos dizendo, retomamos o conceito de escrever, apresentado por Riolfi (2003, p. 48):
[…] realização de um trabalho singular de ficcionalização através da qual fica escondido e velado para o leitor o processo de construção da peça escrita. Operações discursivas que não se reduzem, e muito menos se definem, pelo fato de ser composto de marcas gráficas. Ações para compor uma peça com aparência de ser homogênea, como por exemplo, inverter suas diversas partes, incluir ou excluir argumentos, traduzir o jargão de uma área em linguagem corrente, trabalhar na materialidade textual para obter maior precisão linguística e assim por diante.
Ao defendermos que teses, dissertações, monografias são uma modalidade de trabalho da escrita, consideramos que o seu desenvolvimento, independentemente do nível, é uma atividade que necessita da dedicação do sujeito, pois requer o embate, de quem escreve com quem é citado, e a reflexão, algo que não é fácil, mas que consolida a construção de um sujeito como autor do seu próprio texto. Trata-se de se constituir como sujeito que se desloca da posição que estava ao produzir seu texto, por meio da realização de procedimentos que configurem sua produção como um trabalho de escrita, uma elaboração que requer alteração da posição subjetiva daquele que escreve.
A formação escrita que defendemos parte da construção de uma intimidade daquele que escreve com sua produção e as especificidades dela, que vão da dedicação à apropriação dos conceitos teóricos que podem auxiliá-lo na investigação e dar sustentação para o desenvolvimento do trabalho.
Além disso, as relações institucionais devem ser observadas com muita atenção, pois a implicação do autor com sua produção está diretamente relacionada ao desejo e à inquietude que um questionamento ou tema de pesquisa desperta no sujeito. Portanto não é somente a relação de orientação que garante a inscrição daquele que escreve no trabalho que realiza.
Por meio de uma formação baseada na pesquisa na graduação e no desenvolvimento de um trabalho da escrita, podem-se desenvolver pesquisas que entrem em conflito com produções já legitimadas, pois é assim que desenvolvem-se indícios de uma autoria daquele que escreve um trabalho acadêmico. Observamos, a partir de uma breve reflexão, que a articulação de uma proposta de ensino com a pesquisa pode desenvolver condições propícias para o ensino de escrita. Isto é, a formação organizada a partir da pesquisa na graduação possibilita a construção de um ambiente favorável para o desenvolvimento de uma prática de
111 trabalho que contribua para uma formação na qual o aluno mantenha contato e aprimore sua experiência com a produção escrita.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Iniciamos esta seção retomando a pergunta que permeou e desencadeou toda nossa proposta de investigação: como um jovem pesquisador utiliza uma teoria para se inserir em uma dada comunidade científica?
O uso de fundamentação teórica nos trabalhos de investigação é algo normal e necessário para a produção de trabalhos acadêmicos como monografias. Ele garante a credibilidade de produções escritas, funcionando como argumentação e sustentação do dizer daquele que escreve. Muitos são os modos pelos quais um jovem pesquisador se relaciona com uma teoria; um deles, no entanto, pode evidenciar o desenvolvimento de um efeito de sentido no qual o texto promove o discurso do autor utilizado como referência e fundamentação da monografia.
O desenvolvimento desse efeito de sentido pode garantir a aceitação e a aprovação do trabalho acadêmico por pares de uma comunidade científica, bem como a publicação em revistas e uma boa avaliação do trabalho em bancas de monografias, independentemente de a produção escrita desenvolver uma articulação e mobilização da fundamentação teórica com uma análise de dados que auxilie a resolução do questionamento proposto na investigação. De fato, investigações científicas que propõem a análise de um corpus articulada a conceitos teóricos e uma reflexão da teoria que fundamenta a investigação caracterizam-se por outro modo de escrita, no qual o autor do trabalho acadêmico faz uso dos discursos de outros como forma de argumentação e sustentação. Assim, estabelece-se a construção de um diálogo entre o pesquisador e outros pesquisadores que já estudaram o assunto que é tratado no trabalho.
A detecção do efeito de sentido de promoção foi possível a partir da análise dos recursos linguísticos utilizados por quem escreve. Isso nos permitiu verificar a existência de uma forma de escrita que não se utiliza da voz do outro como sustentação do seu próprio dizer, mas que repete e reproduz o que deveria ser utilizado como argumentação. Observamos que esse modo de escrita repetidora dá origem a uma ideia de hierarquia de conceitos teóricos e cria a imagem de que o texto acadêmico funciona como meio de transmissão e repetição do já-dito.
112 Nosso trabalho não desconsidera que a presença da voz do outro é constitutiva do dizer, mas procura ressaltar que há diversos modos de utilizar ou dar voz ao dizer do outro. Podemos utilizar a voz do outro como argumento do dizer ou, no lugar disso, construir um modo de escrita caracterizado pela repetição da teoria alheia. Nesse último caso, há a possibilidade de uma inversão do papel do autor com o daquele que funciona em seu texto como referência, ou seja, o discurso de quem escreve exerce a função de evidenciar a participação do outro que é citado.
Esse efeito de sentido passa a ideia de divisão da responsabilidade do dizer entre aquele que escreve e aquele que é citado. Dependendo do modo como os conceitos de outro autor são utilizados, a escrita pode também caracterizar-se por evidenciar e destacar um autor ou uma teoria que possui credibilidade na academia, silenciando o autor do texto que é produzido.
Ao analisar como uma produção acadêmica se valida por meio de um efeito de promoção, empreendemos uma reflexão sobre as condições de produção e sobre a relevância do que é produzido na universidade e aceito como produção científica. Uma reflexão que aponta para a necessidade de problematizarmos a formação do aluno de graduação, já que as produções que aqui analisamos demostram a necessidade de se questionar o modelo de formação de seus autores e rever a concepção de escrita e de produção científica transmitida aos graduandos.
É importante considerarmos a existência de diferentes concepções de pesquisa e de produção escrita. Uma delas entende que, para haver um trabalho acadêmico, precisamos da produção de conhecimentos, a partir da mobilização e cotejamento de conceitos em uma análise de dados, com propostas de intervenções baseadas na implicação de quem escreve; outra concepção é caracterizada por uma escrita que reproduz e repete, garantida e legitimada por meio do destaque dado a um autor, conceito ou teoria reconhecido.
Com os estudos de Authier-Revuz (2004, p. 14), vimos que a construção de um metadiscurso ingênuo, a partir de um controle-regulagem, ocorre quando um autor limita sua escrita a uma representação do dizer de outro, isto é, repete um discurso que já está pronto. Trata-se de uma retomada do discurso de outro sem que o locutor se posicione e construa algo que “possa ser chamado de seu”. Uma produção singular, entendida aqui como um “traço distintivo”, “que indica uma só entidade isolável” (DUBOIS, 2004, p. 555). Para isso, pressupõe-se a capacidade de quem escreve para produzir algo através da sua forma de mobilizar a teoria que utiliza como fundamentação teórica.
113 As produções escritas analisadas nos mostram a possível ausência de intimidade de seus autores com a pesquisa, visto que, em seus textos, predominam a reprodução de conceitos teóricos de um autor reconhecido na comunidade científica e a existência de um sentido de que o texto funciona como forma de demarcar a filiação teórica de quem escreve.
Esta investigação possibilitou uma reflexão sobre como uma produção escrita pode dar mostras de uma filiação teórica, priorizando a presença excessiva do discurso de outros autores e evidenciando uma possível hierarquização e sobreposição de uma teoria a outra(s) (como verificamos na análise dos nossos dados) em uma formação que, supostamente, é plural e multifacetada. Assim, esse modo de escrita indica que, durante a graduação, provavelmente, deu-se preferência a uma determinada teoria.
Encontramos, além disso, uma possível explicação para a falta de produção científica na formação acadêmica. A análise que propusemos revela um problema: estamos sendo impelidos para uma universidade em que se produz menos conhecimentos e contribui-se menos com a sociedade. Por isso, sustentamos que a falta de uma prática de escrita, que aptifique aquele que escreve a mobilizar os conceitos teóricos apreendidos na faculdade ou que aprofunde o conhecimento sobre esses conceitos, obsta a aquisição de uma escrita em que o discurso do outro, questionado e articulado, funciona como mais um argumento para o avanço do texto.
A repetição nos trabalhos acadêmicos implica certa banalização da produção científica na graduação e, consequentemente, desmotiva a produção escrita em outros níveis. Esse modo de escrita forma o sujeito através de uma metodologia que incentiva a produção por meio da repetição, e, dificilmente, haverá diferenças na produção escrita desse indivíduo em outros níveis de estudo. Para que se altere essa situação, precisaremos de uma nova formação daquele que escreve, visando ensinar que uma produção escrita, para tornar-se produção de ciência e produção de conhecimento, precisa contar com a implicação daquele que escreve com seu próprio texto e com sua pesquisa. A produção, para assim ser nomeada, necessita de um dizer e experiência próprios.
Um problema que não tratamos, mas que pudemos identificar nesta investigação, está diretamente relacionado às políticas de formação e pesquisa: a relação institucional entre um orientador e um orientando. Nos casos que analisamos, não verificamos o desenvolvimento dessa relação ajustada a uma formação escrita voltada para a realização do trabalho daquele que escreve a monografia.
114 Por fim, compreendemos que a produção escrita de trabalhos acadêmicos de graduação abrange modos de escrita construídos a partir de uma formação escrita sólida, baseada em um trabalho consolidado pela dedicação e ação daquele que escreve, que consegue se implicar como sujeito no discurso que produz.
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