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Meados de 2000 e início de 2001, o movimento GLBT de Belo Horizonte viveu um momento de cordialidade entre os militantes. Um clima de união pairava entre os grupos, que passaram a dialogar de forma mais cordial e solidária, o que influenciou enormemente a Parada GLBT, aumentando a diversidade dos grupos em sua organização. Isto levantou a possibilidade de um CNPJ para um novo grupo: Associação do Comando da Parada de Belo Horizonte.

Embora não tenhamos realizado nenhum acompanhamento etnográfico dos grupos neste período e não tenhamos aprofundado em entrevistas como se deu essa aproximação e suas dinâmicas internas, este é um acontecimento político importante e que nos ajudará a mapear aspectos cruciais para a compreensão do histórico da militância GLBT em Belo Horizonte.

É importante ressaltarmos que o Prefeito Célio de Castro, algum tempo antes desse acontecimento, havia feito uma declaração homofóbica, pela qual teve que pedir desculpas publicamente.

Célio de Castro era prefeito e se candidatou a reeleição, perguntado por um repórter da Bandeirantes sobre o que ele pensava da homossexualidade, ele disse que isso era um desvio de conduta. Vindo de um médico e de um político nós estranhamos profundamente o fato. Como ele era médico, deveria ter conhecimento que a medicina já havia excluído essa conclusão, que ele expressou, como errônea pela própria medicina, que não há nenhuma anomalia em ser homossexual, muito menos crime ou pecado, então nós nos unimos e cobramos uma postura dele através da imprensa, e ele publicamente reconheceu o erro pediu que nos perdoasse e prometeu nos apoiar (Danilo Ramos, 2003).

O fato que analisamos foi deflagrado pelo veto contra o projeto de lei 1.672 (atual lei 8.176), pelo prefeito Célio de Castro (ANEXO VI). Este veto fez com que os grupos se mobilizassem e exigissem uma posição do prefeito. Interessante observarmos que, todos os grupos relataram este momento como uma de suas mais importantes conquistas. No Jornal Rainbow (n.7) de fevereiro de 2001 foram publicadas duas matérias que descrevem este acontecimento e seus desdobramentos. Na capa do jornal, com grande destaque, aparece o texto abaixo:

MHM

Unindo forças em busca de vitórias.

MHM – Movimento Homossexual de Minas, composto pelos grupos CLUBE RAINBOW, ALEM, MGM, ASSTRAV E GURI, já nasce com uma vitória

importantíssima em defesa dos direitos homossexuais em Belo Horizonte. Como foi amplamente divulgado pela imprensa mineira, o veto do Sr. Prefeito Célio de Castro à Lei Leonardo Mattos Causou uma enorme indignação em toda a comunidade homossexual de Minas e do Brasil. O Clube Rainbow participou ativamente do

aberta162 à população foi entregue à imprensa numa coletiva em que participaram todos os grupos militantes do movimento homossexual. Diante de nossa indignação, e atitude imediata, o Sr. Prefeito retrocedeu e sancionou a lei. Desta união saiu um grupo novo intitulado MHM – Movimento Homossexual de Minas, em que todos os grupos atuam em conjunto em atos de interesse comum. Ficamos mais fortalecidos. Isto significa que unidos poderemos mover uma sociedade. Que o leitor se conscientiza para este fato e apóie um dos grupos dentro de suas possibilidades, ou mesmo o MHM. A internet foi um força adicional nesta conquista. Homossexuais, militantes ou não, de todo o Brasil enviaram e-mails para a Prefeitura, congestionando seu correio eletrônico. Personalidades dos Direitos Humanos Nacionais e Internacionais nos apoiaram enviando mails para o Clube e para a Prefeitura. Nós da comunidade homossexual não podemos ficar alheios a estes fatos e que sirvam de exemplo aos acomodados que só sabem reclamar e se esconder dentro de seu “armário” sem tomar ao menos a atitude de apoiar. Este apoio não significa ir para a rua como muitos de nós fomos, significa participar, com colaborações às entidades, financeira (os que puderem), comprando o Jornal Rainbow que já se encontra em algumas bancas de Belo Horizonte, ou menos enviando mails para as entidades e órgãos públicos que estão empenhados em lutar em seu benefício. Uma boa causa precisa de soldados, muitos, os mais corajosos vão ao front, outros não menos corajosos lutam nos bastidores, mas lutam, não ficam apáticos esperando que outros façam por si o que devem fazer. Não é necessário que se mostre, mas há várias formas de apoiar e lutar sem que se transforme em algo visível. Procure e saiba como. É o que podemos lhe dizer.

O EDITOR

Dentro do jornal, numa sessão intitulada Destaque, aparece à cronologia do incidente, que dá grande ênfase na participação e união dos grupos, reforçando ainda mais o clima entusiasmado de militância, ativismo e mobilização política:

UNIÃO QUE FORTALECE!

NASCE O MHM – MOVIMENTO HOMOSSEXUAL DE MINAS

DEZ/2000 – O Vereador Leonardo Mattos consegue por unanimidade na câmara municipal a aprovação da Lei 1.672, e é encaminhada ao Prefeito para sanção.

20.01.2001 – Decorrido o prazo legal, o Prefeito veta na íntegra a Lei 1.672.

22.01.2001 – Todos os grupos são mobilizados via internet. É informado pelo Rody, Clube Rainbow e MGM a toda comunidade Gay do Brasil os e-mail da Prefeitura, solicitando apoio e protesto via e-mail. Líderes de representatividade, como Luis Mott,João Silvério Trevisan, Sávio Reale e defensores dos direitos humanos, protestaram junto ao prefeito sobre o veto. Congestionam-se os e-mails da Prefeitura. 25.01.2001 – O Clube Rainbow, convoca os líderes da comunidade homossexual e os Vereadores Leonardo Mattos e Neila Batista para uma reunião, comparecem: Vereador Leonardo Mattos, Vereadora Neila Batista, Danilo R. Oliveira e Reginaldo Fernando (Clube Rainbow), Soraya Menezes (Alem), Itamar Santos (Guri) Oswaldo Braga(MGM) Porcina D’Alessandro (Asstrav) Rod (Lista do Rody) Luiz Morando (Gapa) e muitos militantes do movimento, além de assessores dos vereadores presentes. Fica estabelecido que o movimento fizesse Carta Aberta à População, e uma nova reunião dia 29.01.01 na Câmara Municipal para complementar as estratégias.

29.01.2001 – Os grupos CLUBE RAINBOW, ALEM, ASSTRAV, GURI E MGM, se reúnem na Câmara Municipal às 10:00 H e a carta Aberta à População assinada pelo MHM – Movimento Homossexual de Minas, a que todos os grupos integram, é aprovada e confirmada entrevista coletiva a imprensa para as 15:00 Horas.

29.01.2001 – O MHM – Movimento Homossexual de Minas, composto pelos grupos CLUBE RAINBOW, ALEM, MGM, ASSTRAV E GURI se colocam à disposição da imprensa para perguntas sobre os atos programados em protesto ao veto. A Carta Aberta á População é distribuída para a imprensa.

162

29.01.2001 – Às 17:00 Horas, o Sr. Prefeito Célio de Castro revoga o veto a Lei 1.672, sancionando-a na íntegra. VITÓRIA.

30.01.2001 – Todos os jornais de Minas e todas as Home-pages na internet ligadas a comunidade homossexual noticiam a vitória de Minas. Consolida-se o nascimento do MHM – MOVIMENTO HOMOSSEXUAL DE MINAS, composta pelos grupos: CLUBE RAINBOW, ALEM, MGM, ASSTRAV E GURI.

Ao se manifestar sobre este fato, Danilo Ramos afirma que,

(...) nós provocamos um fato histórico e político inédito no país. É a primeira vez que um governante, um membro do executivo, tinha voltado atrás de um veto e sancionado a lei, o que gerou um fato político inédito na história do Brasil, desde a história da republica (Danilo Ramos, 2003).

Ao que parece, este fato realmente provocou algum impacto na mídia, sendo amplamente noticiado e, sobretudo, marcou fortemente a trajetória dos grupos militantes. Tivemos acesso a uma cópia de uma matéria do Jornal Estado de Minas, intitulada: PBH recua e sanciona lei dos homossexuais: Veto a projeto que pune a

discriminação cai sob pressão da comunidade gay. Nesta matéria constava uma foto

dos quatro principais militantes da cidade, Soraya Menezes, Porcina D’Alessanro, Danilo Ramos e Itamar Santos, e é bastante ilustrativa do contexto da militância GLBT daquela época.

Outros fatos que mostram o clima de união entre os grupos da cidade neste mesmo número do Jornal Rainbow são: uma nota divulgando a nova diretoria da ALEM e uma nota divulgando o programa de rádio apresentado por Itamar Santos.

Esse período não durou muito tempo, na Edição 14 do Jornal Rainbow sai uma nota relatando que o CRS e o MGM haviam proposto a implementação do Centro de Referencia do Homossexual, previsto na Lei 14.170, e que as outras ONG’s da cidade (ALEM, CELLOS, ASSTRAV e GURI) haviam embargado a autorização do Governo Estadual por não haverem sido comunicadas. Nesta mesma página do jornal, sai uma matéria com a cobertura do I ENCONTRO MINEIRO DE NÚCLEOS GLBT, realizado em Juiz de Fora nos dias 14, 15 e 16 de março de 2003. Nesta reportagem consta a fundação da FMH – Federação Mineira de Homossexuais, formada por ONG’s de Juiz de Fora, Belo Horizonte, Alfenas, Viçosa, Ouro Preto, Mariana, Governador Valadares, Montes Claros, Ipatinga, Varginha e Betim.

Benzer Belgeler