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O período colonial brasileiro foi definido pela historiografia como aquele que marca o início do povoamento português, em 1530, se estendendo até a sua elevação a Reino Unido com Portugal, em 1815. Uma característica marcante dessa época reside no fato de que a exploração da natureza se deu de forma mais intensiva e foi acompanhada pela escravização de indígenas e negros para a manutenção dos grandes ciclos de produção como o da cana de açúcar. O território brasileiro era visto pelos exploradores portugueses como uma fonte inesgotável de

recursos naturais a serem utilizados para o avanço econômico do império em sua

expansão mercantil pelo mundo.

A água não chegou a se configurar como elemento específico de disputa, visto que sua exploração estava fortemente atrelada à exploração da terra. A titularidade de um curso d’água não trazia consequências práticas no que tange a sua utilização, pois aquele que tinha a posse da terra poderia dispor livremente de suas águas. Era comum que os conflitos relativos ao uso da água fossem tratados como conflitos de terra (SILVESTRE, 2003).

Até o início do século XIX, a utilização de água praticamente se restringia às atividades domésticas e a dessendentação de animais. De acordo com Costa (1994), as questões relativas ao abastecimento de água e tratamento de dejetos

eram praticamente de responsabilidade individual de modo que o abastecimento era realizado através dos próprios mananciais que não possuíam regulação de uso.

Embora as aglomerações humanas estivessem quase sempre alocadas nas proximidades de mananciais de água, os problemas relacionados à falta de políticas públicas voltadas para o abastecimento se mostravam frequentes e ganhavam expressão mais forte devido à extrema desigualdade social. Exemplo disso era o que acontecia nas cidades de Recife e Olinda que, embora estivessem cercadas por água, viviam problemas crônicos em relação ao abastecimento. A divisão social se evidenciava fortemente no uso da água, pois negros escravizados eram obrigados a carregar enormes tonéis para abastecer as casas dos senhores, assim como também eram obrigados a atravessar a cidade carregando grandes barris repletos de dejetos provenientes das casas para serem lançados nos rios (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS, 2007).

A história do abastecimento de água no Brasil teve início no Rio de Janeiro. Segundo a Agência Nacional de Águas (2007), o primeiro aqueduto construído no Brasil, em 1723, foi o aqueduto do Carioca, que captava água no Alto de Santa Tereza e levava até o local onde atualmente ficam os Arcos da Lapa, lá havia um chafariz do qual os escravizados recolhiam a água e levavam para a casa de “seus” senhores. Esse modelo posteriormente se espalharia por outras cidades.

No entanto, assim como em outras cidades que nasciam no Brasil, a utilização das águas para consumo humano e a destinação dos dejetos ainda eram realizadas sem maiores planejamentos e isso agravava o cenário de desigualdades e ocasionava impactos ambientais como a contaminação das fontes de água.

Quando a corte portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro, em 1808, a cidade possuía uma população de 60 mil pessoas das quais 40 mil eram negros e negras submetidos à escravidão. A situação em relação à utilização das águas configurava um problema grave. A água era levada para as casas por negros através de barris semelhantes aos que no fim da tarde carregavam dejetos a serem lançados no mar. Segundo a descrição de uma viajante francesa na época “[...] as margens da baía não passam de um vaso sanitário infecto e as praias que pareciam tão belas do navio, eram o receptáculo das imundícies de toda a cidade.” (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS, 2007, p. 221).

Já sob o Governo Imperial, no ano de 1876, teve início a construção da rede de abastecimento de água domiciliar abolindo os antigos barris. Em 1898,

iniciou-se a instalação de hidrômetros e a regulamentação da arrecadação de taxas de consumo na capital federal. Mais uma vez esse modelo seria expandido para outras cidades do país iniciando a cobrança de fornecimento de água domiciliar.

Em relação ao uso da água para atividades econômicas agrícolas, durante o período colonial, não existiam políticas específicas uma vez que os ciclos econômicos eram regionalizados e se adequavam a disponibilidade hídrica local. A monocultura da cana, por exemplo, se fixou no Recôncavo Baiano e na Zona da Mata, onde havia terras férteis e bom índice pluviométrico. Fato também verificado na cultura do café no vale do Paraíba do Sul (SILVEIRA, 2003).

O mesmo não ocorreu em relação ao ciclo econômico da mineração. Segundo Queiroz (1999), registravam-se graves conflitos pelo domínio dos cursos d´água em Minas Gerais, pois era comum o desvio dos rios ou o estabelecimento de barragens de modo que os mais poderosos se apoderavam das águas e as destinavam para suas lavras enquanto os demais eram forçados a comprá-la a preços altos. Isso resultou numa determinação real denominada de “Regimento das Águas” que concedia ao mineiro o uso da água para o trabalho, mas esclarecia que uma vez que esse se encerrasse a repartição das águas deveria ser de determinação do guarda-mor “[...] por isso o mineiro empossado das águas não as pode dar, nem vender a outrem, nem também mineiro algum pode apropriar-se das águas sem ter concessão delas por escrito do guarda-mor, o que regularmente chamamos provisão d´águas.” (SILVEIRA, 1999, p. 680).

Em relação ao semiárido nordestino, Silveira (2003) afirma que a falta de água só se tornaria um fator de conflito no final do século XIX, após a decadência do ciclo da pecuária e a expansão da cultura de subsistência. No entanto, devido ao pequeno peso político e econômico atribuído a região, as primeiras políticas públicas para tratar da questão só começariam a ser desenhadas na metade do século XX.

Verifica-se que os primeiros levantamentos hídricos realizados no Brasil se atrelavam a necessidade de fornecimento de água vinculada a atividade de mineração. A água era compreendida como mais um recurso mineral de pertencimento do proprietário da terra. Fato que ficou expresso na primeira constituição da República, de 1891, que ainda vinculava inequivocamente a propriedade dos minérios à propriedade da terra. No entanto, essa determinação ia de encontro às expectativas da elite brasileira que começava a esboçar o desejo pelo início da industrialização do país. Na medida em que a economia do país se

diversificava crescia a necessidade de desvincular a posse dos minerais, entre eles a água, da propriedade da terra. O ciclo do café garantiu a geração de capital monetário concentrado nas mãos de uma elite social, transformou a força de trabalho em mercadoria e deu bases para a criação de um mercado interno que finalmente propiciou as condições para o nascimento do capital industrial (SILVESTRE, 2003).

A ambição de fazer emergir o processo de industrialização levou a novos levantamentos hidrológicos, pois diferente da produção agrícola, a indústria exigia que o fornecimento de água fosse garantido durante todo o ano. Além disso, aumentava a necessidade de produção de energia através da utilização da força das águas.

Foi então que entre 1890 e 1900 surgiram as primeiras usinas hidrelétricas do país com a finalidade de fornecer energia para iluminação das cidades, industriais e mineração. Em 1920, a hidroeletricidade já produzia 77,8% da energia consumida no país, acompanhando o crescimento das cidades e da indústria. Na década de 1920, a produção hidroelétrica duplicou passando de 370,1 MW para 615, 2 MW em 1930 (SILVEIRA, 1999).

[...] parece claro que são os interesses do setor urbano-industrial que prevalecem neste momento, forçando o Estado a regulamentar a propriedade da água para, ao dissociá-la da propriedade da terra, remover os obstáculos legais que impediam ou restringiam o aproveitamento de seu potencial hidrelétrico e, [...] limitavam a produção da energia necessária à expansão das manufaturas. (LACORTE, 1994, p.24).

Desse modo, percebemos que ainda no Brasil Agrário começava a emergir a percepção de que novas definições legais em relação à água se faziam necessárias para garantir o processo de “modernização” do país. Embora algumas tentativas de preparar uma legislação específica sobre as águas tivessem falhado até o início da década de 1920, a preocupação crescente com o processo de modernização fez com que, em 1926, a Constituição recebesse emendas em relação ao tema. Mesmo mantendo a extensão da propriedade da terra para a propriedade do subsolo, o artigo 72, parágrafo 17 da Constituição passou a determinar que “as minas e jazidas minerais necessárias à segurança e defesa nacionais e as terras onde existirem não podem ser transferidas a estrangeiros” (SILVESTRE, 2003, p. 56). Finalmente, em 1934, através do Decreto 24.643,

entraria em vigor o Código das Águas, elemento fundamental para o surgimento e consolidação da era urbana e industrial do Brasil.

2.3.3 Código das Águas – água como força motriz para a industrialização do

Benzer Belgeler