• Sonuç bulunamadı

A favela São Judas recebeu este nome devido à marmoraria de mesmo nome que existiu por muitos anos no local onde hoje é a área da favela. Contam os moradores mais antigos que o início da ocupação desta área ocorreu a partir de 1977. Estes e outros dados expostos a seguir foram obtidos a partir da oficina de resgate histórico da comunidade das áreas da CIS Cumbica, realizada em 16 de janeiro de 2010, como parte dos trabalhos de intervenção social51 que estão sendo realizados na área pela Prefeitura

Municipal.

51 As ações de resgate histórico da comunidade da CIS Cumbica estão inclusas na proposta

do Projeto Técnico de Trabalho Social do Programa de Urbanização de Favelas da CIS Cumbica, desenvolvido pela Secretaria de Habitação de Guarulhos. A proposta inclui ainda a coleta de depoimentos dos moradores mais antigos e a confecção de vídeos e cartilhas sobre a história da comunidade. A pesquisadora realizou observação participante, acompanhando as atividades de coleta de depoimentos e a oficina de resgate histórico. A metodologia utilizada nesta oficina seguiu os preceitos de experiências com grupos focais e resgate da história oral da comunidade. Esta estratégia foi escolhida devido ao fato de não haver registros oficiais sobre o histórico desta comunidade mas, sobretudo, com o intuito de privilegiar as percepções dos moradores enquanto sujeitos históricos de suas comunidades. A oficina de resgate histórico iniciou-se com a apresentação dos participantes dizendo o nome e o local de moradia. Após a apresentação, os participantes foram convidados a construir a linha do tempo da comunidade, onde os mesmos puderam discutir a respeito dos fatos mais marcantes da comunidade desde seu surgimento até os dias atuais, tendo como pano de fundo, acontecimentos importantes em todo mundo. A partir desta perspectiva foi construída a linha do tempo da comunidade com os pontos mais abordados pelos os moradores. A construção desta linha do tempo contou ainda com a ilustração de fotos pessoais trazidas pelos participantes para esta atividade. Foram compartilhadas fotos das décadas de 70, 80 e 90, demonstrando momentos de confraternização com familiares e amigos, na comunidade São Judas.

Os moradores relatam que, naquela época, a partir de 1977, não havia luz e nem água e que a maior parte do território era constituído por matagal. Os mesmos disseram ter sofrido com a falta de infra-estrutura e que a área em seu início era despejo de cadáveres. Os moradores relataram ainda que eram vítimas constantes de repressão policial, pois eram marginalizados e tidos como bandidos. Na favela São Judas, somente em meados de 1982 foi possível obter acesso a ligações clandestinas de água e luz, sendo que, em algumas áreas, a população ficou totalmente desprovida destes serviços essenciais até 1989.

Durante a oficina, foi relatado, ainda, que, na década de 1980, havia muita oferta de emprego, o que gerou o início de grande fluxo migratório para a região. Foi constatado que a maior parte das famílias residentes atualmente na área é proveniente da região Nordeste, tendo em comum o fato de que foram atraídas pelas oportunidades de trabalho existentes na época. Os participantes lembram que, apesar das dificuldades em relação à falta de infraestrutura básica para moradia, os anos 1980 e 1990 foram melhores no sentido de que não havia dificuldades para encontrar emprego.

A oficina trouxe ainda lembranças emotivas, de festejos comemorados coletivamente pela comunidade no início de sua constituição. Possivelmente devido à influência de seus contextos de origem rural, várias festividades ganhavam o sentido mais amplo de confraternização entre os moradores. O

ano novo no núcleo São Judas52, por exemplo, era comemorado em conjunto com muita festa, onde todos contribuíam e participavam. Além disso, foi ressaltado a existência de laços de solidariedade entre os moradores, mesmo sem haver grau de parentesco entre estes. Muitos moradores afirmam que esta característica ainda persiste na área e exemplificam contando os casos em que outros moradores passavam por dificuldades e foram auxiliados pelos vizinhos e amigos próximos. Este ponto também levanta a questão da falta de confiança expressa pela maioria no poder público que, para ela, sempre se mostrou omisso tanto do ponto de vista da oferta de serviços essenciais quanto do atendimento nas situações de emergência. É importante lembrar que, além das dificuldades enfrentadas cotidianamente pela falta de serviços, os moradores desta área também são vítimas constantes de enchentes, deslizamentos de encostas e beira de córregos. Há ainda, além dos problemas decorrentes do local impróprio onde foram construídas as moradias, vários outros: em relação às condições de saúde, existe a proliferação de ratos e insetos, há registros de intoxicação por produtos químicos despejados no córrego local e o esgoto que corre a céu aberto, é ameaça constante de transmissão de doenças. Na fala dos

52 O termo núcleo é utilizado na linguagem técnica para designar áreas ou trechos com

características específicas no contexto urbano ou rural. No texto, os núcleos citados referem-se às áreas de assentamentos precários, ou favelas, do bairro da CIS Cumbica. Um núcleo pode se distinguir de outro pela sua localização espacial (separados por ruas, avenidas ou córregos, por exemplo), ou por outra especificidade que o caracterize (como os núcleos habitacionais irregulares inseridos dentro de bairros consolidados, caso dos cortiços em bairros centrais).

moradores, são recorrentes, ainda, os casos de violência a que estão sujeitos, proveniente tanto das condições do bairro – as mães preocupam-se com as filhas que voltam à noite das escolas pois estas são distantes, não há transporte público que as deixem perto de suas residências e a iluminação pública é precária, tornando os casos de estupro corriqueiros, assim como o são os casos de abuso da polícia e violência doméstica

A partir dos anos 2000, os moradores constataram que houve um grande aumento da população local, mesmo com reduções na oferta de emprego na região. Muitos citam que houve a chegada de parentes de moradores mais antigos que haviam migrado em décadas passadas, mas também a mudança de famílias novas para a área.

É importante notar que os moradores relatam sofrer discriminação por morarem na favela. Este sentimento parece perdurar ao longo dos anos e marca todas as etapas da história da comunidade. No passado, foi citado que a discriminação policial era maior, com relatos de policiais invadindo festas da comunidade e confundindo moradores com traficantes locais. Atualmente, dizem sofrer discriminações principalmente quando realizam compras, uma vez que a entrega da mercadoria é sempre um dilema por não possuírem endereço de residência. A abertura de crediários também é outro problema enfrentado e a maioria tem que recorrer ao uso de endereços e documentos de parentes e amigos que residam fora da favela.

Essas famílias, ao contrário do que possa se esperar, dado o grau extremo de dificuldades ao qual são submetidas no seu dia a dia,

demonstram sentimentos de pertencimento à área e à comunidade. É possível observar a importância dos laços de vizinhança, de religião e de amizade, além dos laços de parentesco. Mesmo inseridos num espaço físico hostil e segregador – ou ainda decorrente exatamente desta situação – os moradores estabelecem entre si vínculos de solidariedade por vezes raramente encontrados nas grandes cidades. O contexto social que vivem, desta forma, contraditoriamente, os segrega do convívio social do restante da cidade mas, ao mesmo tempo, os aproxima como grupo pertencente à uma mesma realidade socioespacial específica.

Outro aspecto importante a ser considerado é o que diz respeito ao caráter provisório conferido à favela São Judas desde as suas origens e que está intrinsecamente ligado, além dos aspectos da localização física do espaço, à constituição da segregação socioespacial em questão. Os moradores da favela São Judas estão inseridos numa situação particular que pode ser definida como provisoriedade contínua, ou espécie de arranjo provisório que não termina. Isto se explica pelo fato de que as ocupações das áreas de favelas da CIS Cumbica sempre foram vistas como temporárias pelo poder público, pois este nunca foi considerado bairro com fins habitacionais e, portanto, os invasores deveriam simplesmente ser notificados e obrigados a deixar o local. Com o passar dos anos e à luz da ineficiência do poder público em remover as famílias da área, proporcionando moradia digna em outro bairro, ou em construir moradias na própria área ocupada, fornecendo equipamentos sociais adequados à

permanência da população no local; os moradores acabaram por interiorizar e aceitar a ideia de provisoriedade da sua condição social. Contraditoriamente, isso fez com que os moradores, por um lado, aguardassem a remoção e por isso não se mobilizaram no sentido de reivindicar seus direitos como cidadãos e, por outro lado, continuassem as construir suas moradias e a criar seus filhos no local pois não tinham outro lugar para ir. Se esta dicotomia e esta tensão entre o sair e o ficar contribuíram decisivamente para a falta de mobilização dos moradores na favela São Judas, elas também permitiram que laços de vínculo fossem criados num ambiente onde nada mais poderia proporcionar-lhes o sentimento de pertencimento.

4.2 SOBRE AS FALAS DOS SUJEITOS: VIVENDO NA FAVELA

Benzer Belgeler