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OTĠZMLĠ BĠREYLERĠN FĠZĠKSEL AKTĠVĠTE PROGRAMLARINA KATILIMINI ENGELLEYEN FAKTÖRLERĠN ĠNCELENMESĠ

Dito isso, temos também outra faceta da prática lingüística e conceitual encontrável no espaço científico. Não há um purismo conceitual nos usos de termos científicos. Haveria sempre uma tentativa de exprimir em palavras aquilo que melhor se adapta aos nossos propósitos. Ocorre uma espécie de ancoragem da linguagem, quando, por exemplo, uma determinada especialidade científica utiliza o jargão conceitual de outra especialidade. A sociologia já tinha se apropriado de metáforas biológicas quando da sua fundação. O próprio Bourdieu faz uso de termos econômicos para dar conta das dinâmicas sociais. Isso significa que a idéia de que as semelhanças de família, uma característica dos jogos de linguagem – no sentido de entrelaçamento os componentes lingüísticos de um idioma –, não é somente válida para os casos elementares da linguagem, mas também os esquemas teóricos de campos diferentes se assemelham, por conterem traços analógicos oriundos das estruturas simbólicas similares das idéias e teorias, trazendo intuições a respeito daquilo que muito dificilmente não poderia ser objeto de apreciação teórica sem o recurso dessas analogias. Ou seja, esses empréstimos auxiliam na formação de esquemas cognitivos e interpretativos entre áreas ou matrizes conceituais que guardam alguma semelhança. Isso não se constitui um problema se houver as devidas adaptações necessárias para expressar as especificidades de cada nova aplicação desse jogo de linguagem. Sabemos que nem sempre isso é possível. Podem acontecer usos exagerados que destoam das necessidades da pesquisa, ferindo os limites de cada área teórica. Karl Marx criticava certos filósofos que usavam idéias e conceitos válidos retirados de uma determinada sociedade para teorizar sobre outro contexto histórico e social que, fatalmente, não apresentaria as mesmas condições econômicas e práticas para justificar a

144 importação de tais idéias. De forma semelhante, pode acontecer a transferência de idéias de outras áreas do conhecimento que em nada contribuem para a elucidação de questões sociológicas.

Bourdieu também observa que, na sua metodologia dos campos, ocorre também um fenômeno interessante quanto ao uso de certas noções originárias da religião – do campo religioso – quando são transpostas para o campo de produção cultural21. Existe uma forte estruturação dos campos, seu conteúdo eminentemente sociológico, que nos permite observar o efeito de campo sob o qual seus protagonistas assumem determinadas posições diferenciais, que acabam por transparecer em certas fórmulas semelhantes a de outros campos. Esses empréstimos representam e demonstram que, além dos abusos dos filósofos pós-modernos, existem outras formas de pensarmos sociologicamente como se dão essas semelhanças e incorporações de jargões de outras áreas. De forma geral, ocorre algo que nos remete ao processo de ancoragem lingüística proporcionada pela própria forma como a linguagem funciona. Como os discursos não aparecem por geração espontânea, é de se supor que em algum momento haverá a recorrência desses fenômenos que conectam a linguagem de uma área à outra, que potencialmente podem ser produtivos ou obscurantistas.

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Estar dentro de um campo é construir um nome dentro dele; é elaborar uma carreira universitária na qual se teve a oportunidade e o tempo para formar um esquema incorporado que servirá de matriz geradora para formas futuras de problematização da realidade. Os esquemas próprios de cada área do saber também exemplificam de que forma a linguagem de certos autores é recursiva e funciona como uma fonte cognitiva de classificação e categorização da realidade, ao mesmo tempo em que limita a probabilidade de propor um problema teórico noutros termos.

O peso das tradições filosóficas, o aprisionamento à nossa linguagem e hábitos mentais, é ilustrado por John Searle, por exemplo, quando ele identifica que, por trás das resistências que se erguem contra sua concepção de filosofia da mente, estão não apenas divergências teóricas, mas resistências da ordem da pregnância dos nossos jogos de linguagem. Vejamos o que Searle diz a respeito de sua polêmica contra o filósofo Daniel Dennett quando este último, entre outros pesquisadores, se recusa a aceitar o argumento de Searle sobre a consciência, a saber, que ela é resultado da atividade causal do cérebro, mas que a consciência não é redutível simplesmente ao funcionamento cerebral, já que a

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145 experiência da consciência tem o estatuto de ser apenas acessível para a pessoa que experimenta os seus estados mentais:

... aceitá-lo é muito difícil devido ao poder de nossa herança cartesiana. Em minha experiência, percebi que alunos de graduação podem compreender este ponto com facilidade, os de pós-graduação com uma certa dificuldade, os filósofos profissionais, entretanto, com muita dificuldade. Para eles, minha posição deve ser ou o “materialismo” ou o “dualismo de propriedade”. Como poderia alguém não ser nem materialista, nem dualista – uma idéia tão absurda quanto não ser nem Republicano, nem Democrata! (SEARLE, p. 208: 1998).

Assim, podemos dizer que, a despeito das análises que podemos fazer (e que Bourdieu provavelmente faria sobre o campo filosófico no qual existe a luta pela autoridade de versar sobre algum assunto em particular), há igualmente as estruturas do habitus que, uma vez consolidadas na forma naturalizada de abordar algum problema teórico, se constituem, posteriormente, ao que se pode aduzir pelo depoimento de Searle, nas mesmas estruturas cognitivas “conversadoras”, o “aprisionamento pragmático” do pensamento e das práticas. Por trás de contestações lógicas e filosóficas, está um habitus formado para defender certas idéias filosóficas, como observa Searle, que podem ser o indicativo do peso “dos mortos nos cérebros dos vivos”: o pano de fundo, o peso da tradição congelada, a herança de que não se consegue se livrar facilmente, tal como os óculos de que não se lembra de tirar, pois aparenta ser a condição natural das coisas. No caso exemplar apontado por Searle, vê-se que o peso da herança cartesiana se transforma com o tempo, sendo reeditada nas suas atualizações contemporâneas.

A crítica de Searle a Dennett não diz respeito apenas à resistência apontada no trecho acima, mas há também uma tentativa de usar o jargão da computação para elaborar uma teoria sobre a constituição e o funcionamento da consciência. Esse caso é ilustrativo porque expressa uma tendência, dentro das investigações humanas, que remete à tendência da combinação entre uma área do saber emergente e outra que atualmente está em voga. Da mesma forma que a biologia serviu para ancorar teoricamente as intuições sociológicas de Durkheim, a informática, para Dennett e outros, serve como base e inspiração conceitual (tecnologia informacional) para formular conceitos sobre a existência ou não da consciência. Nos dois casos, temos a apropriação do jogo de linguagem de uma ciência que de certa forma expressa, experimenta um momento de hegemonia, e que, cada um à sua época, são vistos como o auge do desenvolvimento científico e do prestígio social daí decorrente.

146 Portanto, o termo “jogo de linguagem”, além de seu sentido mais corriqueiro nas

Investigações, serve também como um auxiliar para analisar as dinâmicas lingüísticas que

existem quando percebemos as semelhanças e dessemelhanças dos usos que na área científica aparecem através dos empréstimos conceituais encontráveis no próprio Bourdieu (uso do jargão financeiro), mas que podem também ser controversos, como nos exemplos ilustrativos citados acima. De qualquer maneira, mesmo os casos problemáticos podem ser abordados sociologicamente, numa sociologia do conhecimento.

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