• Sonuç bulunamadı

A turma de alunos escolhida como campo de trabalho era composta, em 2006, por 15 educandos de idades variadas entre 16 e 73 anos, com predominância de sujeitos acima de 60 anos.

Em funcionamento desde meados de 2004, o núcleo de alfabetização atendia, além das mulheres idosas, homens com idade entre 20 e 40 anos que trabalhavam no período noturno ou que tinham o horário de trabalho flexível (como um dono de Casa do Norte, um vendedor de churrasquinho e um trabalhador da construção civil que estava “na Caixa”35 por causa de um acidente de trabalho que quase lhe tirou a vida), algumas donas de casa e uma jovem que trabalhava como diarista.

Curiosamente, apesar de haver quatro educandos do sexo masculino na sala de aula, nenhum deles tinha idade superior a 60 anos. Portanto, o grupo selecionando para participar da pesquisa continha apenas mulheres. Destacamos que não era nossa intenção fazer um estudo direcionado para a questão de gênero e, portanto, a constituição feminina do grupo foi uma mera casualidade que acompanha a tendência demográfica de predominância do gênero feminino na população idosa36 tanto na composição dos habitantes do País, como no universo de educandos do MOVA-Guarulhos, conforme visto anteriormente.

Os encontros de construção de história de vida ocorreram na sala da Pastoral da Criança, localizada no andar superior das dependências da Comunidade Santa Teresa

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As falas dos sujeitos serão apresentadas em fonte itálica e entre aspas em citações de até três linhas e em fonte reduzida e recuo à esquerda, em citações com mais de três linhas. Com o fim de simplificarmos a apresentação dos dados, optamos por suprimir a repetição da norma que estabelece a necessidade de indicarmos “informação verbal” ou “informação pessoal” a cada citação de trechos das narrativas, depoimentos ou entrevistas. Para todas as citações de falas de sujeitos expostas neste trabalho, adiantamos que foram informadas oralmente durante a pesquisa de campo conforme descrita adiante. A única exceção para a forma oral das informações é a definição de “ser idoso”, extraída dos diários de bordo e exposta na primeira seção desta dissertação.

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De acordo com o Censo 2000, as mulheres compunham 55% do grupo etário acima de 60 anos e quanto mais velho o contingente, maior a proporção feminina. Por exemplo, para o grupo com mais de 80 anos o percentual comparativo eleva-se para 60%.

D’Ávila. O acesso à sala se dava por meio de uma escada com corrimão, utilizada sem grandes dificuldades pelas colaboradoras37. Com exceção do quinto encontro, realizado na área livre em frente a esta sala em virtude de um problema com a fechadura da porta, todos os encontros foram feitos neste ambiente: um misto de sala de reuniões com cozinha improvisada para preparo da sopa oferecida às crianças atendidas pela Pastoral da Criança em dias de pesagem e palestra para as mães.

A duração de cada um dos 19 encontros foi de aproximadamente 1h30 nas manhãs de quarta-feira, das 9h às 10h30, durante o horário das aulas que acontecem das 8h às 10h30, de segunda-feira a quinta-feira. A duração e o horário foram negociados junto ao grupo e à sua educadora, considerando as disponibilidades de todos os envolvidos no trabalho. A maioria dos encontros foi registrada em fitas de áudio, posteriormente submetidas a transcrição38 e análise. No caso dos encontros que não foram gravados, temos registro escrito, de modo que cada uma das dezenove reuniões gerou um respectivo relatório de observação. Como pode ser verificado nas transcrições anexas em mídia digital, os encontros foram direcionados por um tema sobre o qual cada participante narrou, espontaneamente: trechos de sua vida, lições

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De acordo com MEIHY (2006), utilizamos o termo “colaboradoras” para designar os sujeitos participantes desta pesquisa: “as implicações de uma colaboração ditam formas de condução de uma entrevista. O diálogo seria uma decorrência natural da interação. A cordialidade e o compromisso com a construção da conversa/entrevista deveriam ser abertos para gerar a franqueza capaz de dar forma, ritmo e rumo a um tema. Assim, consagrava-se a lógica que diz que a história de vida é mais espontânea e não comporta questionários fechados nem os esquemas herméticos de perguntas e respostas” (MEIHY, 2006, p. 136).

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Após acurada reflexão, pautada nos trabalhos de Marcos Bagno (1997, 1999) sobre o preconceito lingüístico, optamos pela transcrição de acordo com a norma culta da língua escrita pela seguinte razão: não é intenção deste trabalho analisar a linguagem dos sujeitos; portanto, o destaque de suas diferenças lingüísticas estaria a serviço apenas da estigmatização de pessoas que tão gentilmente colaboraram com a pesquisa. A transcrição fonética em nada auxiliaria nosso trabalho e, por esse motivo, ela foi substituída pelo registro em língua escrita convencional, conforme pode ser verificado no CD anexo.

Foto 1 03/05/2006

Primeiro encontro de narração de histórias de vida. Sentadas da esquerda para a direita: Maria Ribeiro, Maria Sousa, Édina, Daura, Maria Oliveira e Maria Chacon. De pé: “Tiana”, a educadora popular responsável pelo grupo.

aprendidas com erros e acertos, comentários de situações vividas pelas participantes do grupo, reflexões sobre sua trajetória de vida e suas características particulares.

Ao longo do trabalho, os eixos percebidos pela pesquisadora foram: religiosidade; tensão entre submissão ao esposo e esgarçamento da dominação com o avançar da idade; preocupação com a saúde; vivência, por vezes conflituosa, com netos e filhos que estudam (em contraponto à sua própria infância não-escolarizada). Do ponto de vista das colaboradoras, os eixos39 deveriam ser os seguintes: violetas (em alusão à dinâmica de apresentação na qual cada participante recebeu um vaso de flores, situação em que estabelecemos nosso primeiro pilar de cordialidade), baile (relacionado a uma festa promovida pela comunidade cuja resistência à adesão decepcionou Daura, que vendia os convites), estudo e escola. A partir dos eixos, variados assuntos / temas surgiam como mote desencadeador das narrativas.

O primeiro contato entre pesquisadora e o grupo aconteceu no início do mês de abril, quando aquela fez uma visita à sala de aula selecionada para participar da pesquisa com a finalidade de apresentar a proposta de trabalho. À primeira vista, o grupo pareceu tímido, porém receptivo. Algumas semanas depois, os encontros40 passaram a ocorrer de forma regular e sistemática. O avançar dos contatos abriu caminho para a instalação de um clima de espontaneidade e cordialidade entre todas as envolvidas.

Além dos encontros semanais, o grupo também participou de três atividades externas41. A primeira delas foi realizada em 28/06/2006, quando visitamos a Hípica Recanto dos Cavaleiros, em Santo Amaro.

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Para simplificar a escolha, pedimos que as colaboradoras destacassem quais foram os assuntos ou coisas que marcaram nossos encontros. Percebemos que os eixos por elas apontados não correspondiam exatamente aos eixos pensados pela pesquisadora. Os encontros que se seguiram ao levantamento dos eixos foram planejados de modo a conciliar as duas frentes de escolha.

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Os encontros de pesquisa – ou encontros de narração de histórias de vida, como também foram chamados – desenvolveram-se a partir de diversas dinâmicas desencadeadoras de narrativas. No intuito de restringir o volume dos dados expostos, não mencionaremos as referidas dinâmicas, assim como, o desenvolvimento integral de cada encontro. Sugerimos ao leitor interessado nos detalhes do trabalho de campo que consulte o CD anexo.

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A atividade fez parte das ações do Grupo Acolhendo42 e reuniu cerca de sessenta educandos e educadores de EJA – de espaços de educação formal e não-formal – com pesquisadoras e estagiárias do curso de Pedagogia da FEUSP, que promoveram atividades alfabetizadoras durante o passeio. A saída, em todos os aspectos, foi um momento de grande emoção, especialmente para algumas de nossas colaboradoras que encontraram nos cavalos um importante ponto de apoio de suas memórias: falaram sobre as saudades do tempo em que eram donas de cavalos ou praticavam alguma forma de montaria (lazer, trabalho e transporte).

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A atividade contou com o apoio da Pró-Reitoria de Graduação da USP, que forneceu o ônibus utilizado para transportar outro grupo de sujeitos participante das ações do Grupo Acolhendo: os educandos do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA) da Vila Brasilândia, acompanhados de uma turma de estagiárias do Curso de Pedagogia da FEUSP e pela professora Sandra Graciano. O transporte das colaboradoras desta pesquisa ficou por conta da Secretaria Municipal de Educação de Guarulhos.

Foto 2 28/06/2006

Maria Sousa relembrando os tempos em que era charreteira, na Hípica Recanto dos Cavaleiros.

Foto 3 28/06/2006

Grupo em visita à Hípica Recanto dos Cavaleiros. Da esquerda para a direita: “Tiana” a educadora popular, Maria Chacon, Daura, “Seu” Adonias (motorista da prefeitura que acompanhou o grupo nas atividades externas, muito querido pelas senhoras), Maria Ribeiro, Édina, Maria Sousa e Maria Oliveira.

A segunda atividade fora dos muros da igreja consistiu na participação de parte do grupo na II Conferência Municipal do Idoso, no dia 27/09/2006. O evento proporcionou excelente oportunidade de observação de nossos sujeitos diante de diversos desafios do mundo letrado: preencher um cadastro simples solicitado pela organização do evento; demonstrar (ou não) interesse pelo material publicitário que compunha a pasta distribuída aos participantes; acompanhar palestra cujas informações-chave eram projetadas em telão; integrar um Grupo de Trabalho sobre Educação cujas falas de encaminhamento foram objeto de relatoria para posterior leitura em plenária; assinar moções; e, no final, preencher um certificado com seu próprio nome.

A terceira atividade externa, sob pretexto de comemorar (ainda que tardiamente) o Dia do Idoso, foi uma visita43, em 25/10/2006, ao Zoológico Municipal de Guarulhos e ao Lago dos Patos, dois importantes pontos turísticos da cidade. Pela primeira vez, pudemos contar com a presença de todos os sujeitos da pesquisa e, ainda, do esposo de Maria Oliveira, esta negociada antecipadamente com o grupo que o acolheu muito bem. O ambiente suscitou comentários sobre a infância, supostamente feliz, valorizada tardiamente. Houve troca de comentários sobre as frutas, as brincadeiras, as cachoeiras, os banhos de rios... O passeio teve ritmo lento e contemplativo. Pudemos observar que apenas Maria Chacon e Daura recorriam às placas informativas para saber o nome dos animais.

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Mais uma vez, foi possível contar com o apoio da Prefeitura de Guarulhos que cedeu o transporte para realização da atividade. Ao contrário do primeiro passeio, no qual o trajeto de ida para Santo Amaro manteve as idosas praticamente caladas, o trajeto para o Zoológico foi animado com muitas conversas que corriam paralelamente, demonstrando um avanço na integração do grupo.

Foto 4 27/09/2006

Daura preenche certificado de sua participação na II Conferência Municipal do Idoso, realizada na Universidade de Guarulhos.

A fim de verificar ou confirmar suposições, no mês de dezembro, foram realizadas entrevistas individuais com duração média de uma hora. Com o intuito de finalizar a coleta de dados, foi criado um roteiro básico de entrevista, conforme Apêndice A. No entanto, as particularidades de cada sujeito proporcionaram inclusão e supressão de algumas questões que podem ser observadas nas transcrições das entrevistas e suas respectivas análises encontradas na mídia digital anexa.

Além do registro escrito e de áudio, algumas imagens44 também subsidiam a análise que segue. São fotografias – produzidas pela pesquisadora para retratar as mais distintas situações vivenciadas durante o trabalho de campo – e cópia digitalizada dos diários de bordo.

A fim de otimizar a exposição da densa base de dados gerada a partir dos procedimentos acima mencionados, tivemos que realizar várias reescritas do conteúdo das

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Parte do acervo visual integra o CD anexo.

Foto 5 25/10/2006

Maria Chacon aprecia o leão, seu animal preferido, durante visita ao Zoológico Municipal de Guarulhos. Foto 6

25/10/2006

Maria Oliveira e seu esposo preparam-se para passear de pedalinho no Lago dos Patos da Vila Rosália – Guarulhos, durante nossa terceira atividade externa.

narrativas de modo que o volume de informações divulgadas fosse compatível com os limites de uma dissertação e, ao mesmo tempo, suficiente para ilustrar a conclusão do estudo.

Sendo assim, esclarecemos que as informações integrais passaram pelo seguinte processo de reelaboração até tomar a forma do conteúdo da próxima seção: 1. Todo o conteúdo gravado em fita cassete foi transcrito integralmente; 2. As transcrições das entrevistas foram utilizadas como estrutura das transcriações45 das histórias de vida; 3. Para chegarmos ao formato final das transcriações, acrescentamos ao conteúdo textual fornecido pelas entrevistas as informações advindas dos relatórios dos 19 encontros e das três atividades externas. Em alguns casos também recorremos à análise dos diários de bordo e às fotografias; 4. Concluída a transcriação, elaboramos um cuidadoso texto de análise para cada história de vida transcriada; 5. Após analisar as sete histórias de vida, percebemos a pertinência de elencarmos os principais pontos de análise, aqueles que serviriam para organizar a exposição dos dados obtidos. Em função do imenso volume de dados, a melhor forma de organização, de modo a facilitar a visualização e a compreensão dos mesmos, foi a construção de uma tabela para agrupar os pontos em comum e as características dessemelhantes, evidenciados nas histórias de vida disponíveis; 6. Finalizada a tabela, percebemos a fecundidade dos dados reunidos e nos debruçamos diante do problema: como apresentá-los sem perder a qualidade dos detalhes, a riqueza das repetições e os limites de uma dissertação?

Tendo percorrido esse caminho no sentido da organização dos dados e da definição da melhor forma de apresentação final, percebemos a inviabilidade de trazer o conjunto das sete transcriações com seus respectivos textos de análise para compor o corpo desta dissertação. Por isso, incluímos todo esse material escrito no CD anexo e apresentamos, apenas para dar uma mostra do conteúdo da referida produção textual, como Apêndice B algumas transcriações. Observamos também que as tabelas construídas no intuito de facilitar a sistematização dos dados não deveriam ser convenientemente integrantes do corpo deste trabalho. Contudo, elas também foram incluídas no CD anexo para atender a algum leitor que por elas venha a ter interesse.

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De acordo com Bom Meihy (2006), compreendemos por transcriação o produto escrito final, pronto para publicação, resultante do esforço do pesquisador em reunir, de forma sistematizada e mais elucidativa possível, as informações que lhes foram confiadas de maneira espontânea ou em condição de entrevista. A transcriação é, portanto, o passo final de um longo processo que vai desde a gravação das informações orais, passando pela transcrição literal, até chegar a um texto criado com base no conjunto de dados atribuídos ao sujeito da pesquisa. Esse texto deve ser um registro coerente e sem excessos das informações principais que compõe o trabalho proposto, organizado em torno de um “tom vital”. O tom vital, por sua vez, consiste em uma frase do próprio sujeito que expresse o cerne da história exposta. Ele é algo como a idéia central do discurso, um elemento de aglutinação de sentidos. No caso do presente estudo, temos algumas transcriações cujo tom vital é composto por uma idéia cuja expressão demandou mais de uma frase. Esperamos que o leitor compreenda e aprecie as escolhas de tom vital nesta pesquisa.

Isso posto, compusemos o seguinte itinerário de apreciação de dados: a terceira seção traz como conteúdo a apresentação dos sujeitos, preparada a partir do conteúdo mencionado acima. Na quarta seção, propomos a análise de alguns pontos reveladores do objeto pesquisado, pontos esses que permearam as narrativas de histórias de vida sinteticamente expostas a seguir.

Benzer Belgeler