As abordagens psicológicas tratam a constituição do sujeito de formas bem diferenciadas, de acordo com suas diferentes concepções. Nosso objetivo nesse momento é elencar diferenciações apresentadas em diferentes teorias psicológicas. Mesmo com as polêmicas em torno do objeto da psicologia, inclusive no que se refere à psicanálise, pois se estaria nesse campo por ela ter como objeto o inconsciente e não o comportamento. Optamos em trazê-la como uma das bases teóricas do campo de estudo da psicologia para visualizar possíveis pistas que possam contribuir em nossas argumentações referentes à constituição da subjetividade e do sujeito. Para tanto, longe de dar conta de todo o campo teórico epistemológico, traremos algumas indagações pertinentes ao nosso atual campo de investigação, situando a discussão em torno do sujeito e a da subjetividade.
De acordo com a versão comportamentalista baseada em autores como o russo Pavlov (1849-1936) e estadunidenses como Watson (1878-1958) e Skinner (1904-1990), o behaviorismo ganha espaço. Teve e tem um papel significativo no campo da educação. Essa concepção teórica buscou transpor os fundamentos do método científico das ciências da natureza para a psicologia e, consequentemente, para a educação. Nesse panorama, só teria validade o que pudesse ser observado nesse molde experimental (e estatístico) de comprovação científica. No entanto, a base de investigação era o comportamento manifesto, deixando os processos de subjetivação que poderiam então invalidar a cientificidade do conhecimento. Subjetividade seriam abstrações que não teriam nenhum valor científico, e para a educação valeria exclusivamente aquilo que pode ser observado e objetivamente comprovado. Assim, as notas, os reforços, as motivações, as punições, os condicionamentos (clássico e operante) são elementos que constituem essas abordagens e que ainda se evidenciam no cenário educativo.
O comportamentalismo, na forma de uma psicologia diferencial e psicométrica, teve importância fundamental já na I Guerra Mundial, na seleção das habilidades dos soldados destinados aos campos. A abordagem comportamentalista se fundamenta nas ideias positivistas que preconizam a predominância de uma dada forma de razão, da objetividade empiricamente observável. O que interessa são os comportamentos emitidos pelos indivíduos e definidos operacionalmente, os quais podem ser observados empiricamente. Suas bases filosóficas preconizam a razão como fundamento da existência
humana. De acordo com o positivismo o que diferencia o humano dos animais é a razão. Para Descartes (2006, p.29):
Algumas vezes, desejei possuir o pensamento rápido ou a imaginação tão clara e distinta, ou a memória tão ampla e vivaz como a de outras pessoas. E que eu não conheço outras qualidades senão estas, capazes de contribuir para perfeição do espírito, pois quanto à razão, ou o sentido, sendo a única coisa que nos torna seres humanos e nos distingue dos animais.
Essa versão deixa clara a prevalência da razão na descrição dos humanos. Para este filósofo seu método era uma forma de conduzir à verdade, que não podia ser vista por mais ou menos, mas de forma clara. Para tanto, preconizava a observação da realidade em que o intelectual deve basear em tempos de contemplação e trabalho.
Para Pavlov (1984, p.14), sobre a discussão do método como forma de apreensão:
De fato, apenas uma coisa na vida tem um interesse verdadeiro - nossa experiência psíquica. Mas o seu mecanismo foi e permanece ainda coberto de mistérios. Todos os recursos humanos - arte religião, literatura, filosofia, e ciência histórica - se combinaram para dá luz a escuridão. O homem tem a sua disposição ainda outro recurso poderoso - a ciência natural com seus métodos estritamente objetivos. Essa ciência, como todos sabemos, está fazendo grandes avanços todos os dias.
Como era de se esperar o comportamentalismo busca seus fundamentos estritamente através do método experimental pertinente às ciências naturais, buscando a compreensão humana através de resultados obtidos através da observação, inclusive de outros animais, como é o caso clássico dos experimentos desenvolvidos por Pavlov, depois por Skinner. O comportamentalismo esteve ligado ao tecnicismo: “no Brasil, o comportamentalismo esteve em voga justamente no período áureo da ditadura militar instalada em 1964” (CUNHA, 2008, p.59).
Entretanto, não é nosso intuito dar conta de todas as teorias, então, optamos em trazer fragmentos da psicanálise clássica a partir de Freud e da psicologia sócio-histórica através dos trabalhos de Vygotsky. Nenhuma teoria pode ser desvencilhada do percurso histórico em que se desenvolveu, logo, buscaremos trazer algumas dimensões históricas que vinham ocorrendo durante o desenvolvimento das referidas teorias.
A teoria psicanalítica, fundada no final do século XIX e início do século XX a partir da obra de Sigmund Freud (1856-1939) apresenta polêmicas que, um século depois, ainda provocam discussões. Dentre as quais, a ideia de que a sexualidade se inicia desde os primeiros dias de vida infantil, nas primeiras relações que se estabelece com a mãe, além de defender que os humanos são movidos por uma energia libidinal que impulsiona o indivíduo, sendo canalizada através do processo de sublimação para diversas dimensões da vida como a cultura, a arte, o trabalho ou outras formas de realização. Porém, a fonte de energia é eminentemente sexual.
Há concepções defendidas por Freud (1996) de que o homem não tem inteiro domínio consciente sobre si mesmo, pois existem instâncias inconscientes que comandam a nossa existência. O que nos impulsiona é o desejo, somos movidos pelo desejo. E mesmo esse desejo, sendo originalmente da ordem da sexualidade, tende a mover nossa vida durante toda nossa existência. Entretanto, a nossa formação psicossexual se dá nas primeiras fases de desenvolvimento da criança, dependendo das relações que são estabelecidas com os nossos pais ou substitutos. Dessa forma, a criança se fixa em uma das fases de desenvolvimento psicossexual, podendo desenvolver neuroses que terão desdobramento subsequente. Posteriormente, tendemos a repetir nossas neuroses em situações que nos remetem a sinalizações da infância.
Na perspectiva freudiana, estamos presos a um passado que permanece conosco e que define a maneira como lidamos com o mundo e com os outros. Depende não daquilo que ocorre na realidade, mas da forma como percebemos essas relações que decorrem de relações anteriormente vivenciadas e transferidas para a situação atual.
A psicanálise nos mostrou que as atitudes emocionais para com as outras pessoas que são de tão extrema importância para seu comportamento posterior, já estão estabelecidas numa idade surpreendentemente precoce. A natureza e a qualidade das relações da criança com as pessoas de seu próprio sexo e do sexo oposto, já foi firmada nos primeiros seis anos de sua vida. Ela pode posteriormente desenvolvê-la ou transformá-la em certas direções mas não pode mais se livrar delas. (FREUD, 1996, p.248)
Para tanto, Freud (Idem) pensa o desenvolvimento a partir de fases de desenvolvimento psicossexual do sujeito, denominadas fase oral, anal, fálica, período de latência e fase genital.
O conceito de inconsciente é central para a abordagem psicanalítica e remete a uma dimensão que não é de domínio consciente do sujeito, visto que nem o próprio se dá conta das elucubrações às quais está ligado inconscientemente. De acordo com a teoria em questão, os humanos não têm domínio dos próprios desejos. E o inconsciente se manifesta através de representações, sonhos, lapsos.
Contrariamente ao positivismo, Freud sinaliza para existência de um aparelho psíquico que traz dimensões que vão além da razão, logo, os humanos apresentam dimensões inconscientes que estariam presentes na vida e que direcionam as ações. Os humanos não teriam domínio racional sobre si mesmos, pois desconhecem aquilo que provoca a realização de determinadas atividades, do desejo de ir em determinadas direções que podem estar contrárias ao racional. Isso se apresentou como uma ferida narcísica para humanidade, pois não somos donos de nossa própria vontade consciente, movidos pelos desejos inconscientes.
Alguns teóricos tentaram fazer uma relação entre a teoria psicanalítica de Freud e o marxismo, entre os quais podemos destacar na Alemanha Wilhelm Reich (1897-1957), Erick Fromm e os pensadores da escola crítica como Marcuse. Reich foi um revolucionário no campo da psicologia e defendia que era na sociedade e nas relações patriarcais que as neuroses eram formadas.
[...] cada organização social produz as estruturas de caráter de que necessita para existir. Na sociedade de classes, a classe dominante existente assegura seu domínio com o auxílio da educação e da instituição da família, tornando suas ideologias dominantes de todos os membros da sociedade. (REICH, 1995, p.4)
Todo grupo que esteja no poder se encarregará de alimentar ideologicamente os seus interesses em todas as instituições e entidades possíveis. No entanto, nenhum poder, por mais autoritário que seja, dominará completamente uma sociedade, porém, tentará carregar suas ideias, desejos, abstrações a todas as instâncias possíveis.
Entretanto, é a capacidade de criticidade que polemiza dialeticamente as significações da realidade. Isso significa que em cada momento histórico se constituem sujeitos humanos com peculiaridades do seu tempo histórico, de acordo com a sociedade vigente, considerando as devidas ideologias presentes e dominantes em sua organização, não apenas econômica, mas social, subjetiva, afetiva, singular, ambiental.
A psicologia sócio-histórica tem suas raízes no pensamento de Lev Semenovich Vygotsky17 (1896-1934), que nasceu na atual República da Bielorússia, que fora integrada à antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Viveu em um período de rupturas e transformações profundas na sociedade, com a revolução de 1917. Elaborou suas concepções num período pós-revolucionário, em que era proeminente responder aos problemas de seu tempo histórico. Além da conjuntura da sociedade, em termos tão singulares, o autor vinha de ambiente familiar instigante ao desenvolvimento intelectual, com acesso a tutor, biblioteca particular e grupo de estudo. Teve acesso não só à literatura russa, mas à teoria desenvolvida de outros países e continentes, visto que dominava outros idiomas.
Vygotsky transitava em diversas áreas do conhecimento, entre as quais destacava- se a medicina, filosofia, literatura, artes, pedologia, educação. Teve acesso aos escritos de Piaget18, Freud e outros grandes teóricos, elaborando sobre eles uma crítica ao seu pensamento . Teve também influência do pensamento marxista, construindo suas concepções a partir dos pressupostos teóricos do materialismo histórico e dialético. Em seus trabalhos teve como colaboradores que mais se destacaram os pesquisadores Lúria e Leontiev.