No Estado Democrático de Direito, as Constituições representam ditames supralegais que determinam a essência do ordenamento jurídico. São “o conjunto de normas pertinentes à organização do poder, à distribuição da competência, ao exercício da autoridade, à forma de governo, aos direitos da pessoa humana, tanto individuais como sociais” (BONAVIDES, 2012, p.84). A Carta Magna elenca os princípios que deverão ser utilizados como o fundamento de todas as outras normas do sistema jurídico (REALE, 2004).
Sob o tema, Bobbio (1998, p.258) afirma que:
Com a Constituição são então fixadas múltiplas garantias para defesa da elogia dominante e dos institutos constitucionais fundamentais. Diversas modalidades, que vão da proibição da revisão constitucional às garantias oferecidas pelas sanções penais, a um sistema orgânico de controles jurisdicionais e à organização da administração militar e civil.
Os princípios elencados no texto constitucional são a “chave de todo o sistema normativo” (BONAVIDES, 2012, p.267). Eles estão associados à concepção de dever- ser, expressam ideais de algo transcendental inerente à condição da existência humana. Assim, essa característica universal permite que os princípios adotados pelo texto constitucional se adaptem às constantes transformações que fazem parte da vida em sociedade. Portanto, os aplicadores do direito devem utilizar seus enunciados genéricos para sanar os conflitos que surgem ao longo do tempo.
A Constituição Federal brasileira de 1988, em seu art. 1º, inciso III, inclui a dignidade da pessoa humana entre seus princípios:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[...]
III - a dignidade da pessoa humana;
Assim, pode-se inferir, por meio da inclusão do aludido princípio no Texto Constitucional, que faz parte das obrigações do Estado brasileiro garantir a dignidade de sua população. Nesse sentido, é imprescindível salientar que o indivíduo alcança sua dignidade ao conseguir constituir sua própria identidade e exercer a sua vontade.
Dessa forma, a CRFB sugere a ideia de que todo ser humano tem direito a uma vida digna ao estabelecer, no art. 5º, III, que “ninguém será submetido a tortura nem
a tratamento desumano ou degradante”55. Inicialmente, o constituinte aspirou utilizar o
próprio termo vida digna, porém, por recear que o direito à vida não seria protegido em situações em que houvesse ausência de dignidade.
Assim, ao se observar os depoimentos emitidos por pacientes em estágios terminais, é de fácil percepção o fato de que, para muitos, encontram-se em estado semelhante à tortura. São forçados a existirem em condições em condições de dor corporal, a qual gera, outrossim, o sofrimento psicológico, sem possuírem o mínimo de controle sobre suas ações. Estão, portanto, destituídos de sua principal característica como ser humano: o seu livre arbítrio.
Nesse diapasão, é possível entender que o texto constitucional, por meio do
caput de seu art. 5º56, acata a percepção de que o direito à vida seria absoluto,
assegurando-o a todos os presentes em seu território. O constituinte decidiu atribuí-lo caráter inviolável ao elencá-lo como cláusula pétrea57, impedindo que pudesse ser
excluída do ordenamento jurídico.
Ao elaborar um conceito para vida, Silva (2005, p. 197) procura elaborá-lo conforme os ditames do artigo supracitado:
[...] no texto constitucional (art. 5o, caput) não será considerada apenas no seu sentido biológico de incessante auto-atividade (sic) funcional, peculiar à matéria orgânica, mas na sua acepção biográfica mais compreensiva. Sua riqueza significativa é de difícil apreensão porque é algo dinâmico, que se transforma incessantemente sem perder sua própria identidade.
Resta salientar que o entendimento do STF é de que inexiste direito fundamental absoluto58. Em diversas situações, os princípios entrarão em conflito, sendo
55 Brasil. Constituição Federal: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...]III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
56 Idem.
57 Brasil. Constituição Federal: Art. 60. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta: [...]§ 4º
Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: [...]IV - os direitos e garantias individuais.
58 Os direitos e garantias individuais não têm caráter absoluto. Não há, no sistema constitucional brasileiro,
direitos ou garantias que se revistam de caráter absoluto, mesmo porque razões de relevante interesse público ou exigências derivadas do princípio de convivência das liberdades legitimam, ainda que excepcionalmente, a adoção, por parte dos órgãos estatais, de medidas restritivas das prerrogativas individuais ou coletivas, desde que respeitados os termos estabelecidos pela própria Constituição. O estatuto constitucional das liberdades públicas, ao delinear o regime jurídico a que estas estão sujeitas – e considerado o substrato ético que as informa – permite que sobre elas incidam limitações de ordem jurídica, destinadas, de um lado, a proteger a integridade do interesse social e, de outro, a assegurar a coexistência harmoniosa das liberdades, pois nenhum direito ou garantia pode ser exercido em detrimento da ordem pública ou com desrespeito aos direitos e garantias de terceiros. [MS 23.452, rel. min. Celso de Mello, j.
necessário analisar as consequências do prevalecimento de um ideal a outro, buscando encontrar a solução que cause danos com menor intensidade.
Recentemente, na decisão por permitir aborto em caso de fetos anencéfalos, a Ministra Cármen Lúcia destacou que, nesses casos, busca-se preservar a dignidade da vida, pois “a Constituição assegura como o princípio fundamental do constitucionalismo contemporâneo“59. Demonstrou-se, portanto, que o direito à vida não está superior à
Dignidade da Pessoa Humana, iniciando o debate em relação a quais circunstância implicam a manutenção incondicional da vida.
Por todo o exposto, pode-se depreender que o suicídio assistido, com base nos ditames constitucionais poderia vir a ser permitido por meio de legislação ordinária, quando se tratar de doenças terminais ou degenerativas. Não obstante, este não é o entendimento aplicado à legislação infraconstitucional.