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Büyükşehirlerin Kırsal Altyapı İhtiyacının Karşılanması Projesi (KIRDES)

III. KIRSAL KALKINMANIN PROJE EKSENLİ UYGULAMALAR ELİYLE

6. Büyükşehirlerin Kırsal Altyapı İhtiyacının Karşılanması Projesi (KIRDES)

Na primeira eleição, as situações sem explicação começam a suceder, como se o dever cívico impulsionasse os indivíduos, e ninguém sabia explicar por que motivo, fazendo com que:

[...] às quatro horas da tarde, precisamente a uma hora que não é tarde nem cedo, que não é carne nem peixe, os eleitores que até então se tinham deixado ficar na tranquilidade dos seus lares, parecendo ignorar abertamente o acto eleitoral, começaram a sair para a rua, a maioria pelos seus próprios meios, mas outros graças à benemérita ajuda de bombeiros e de voluntários porque os lugares onde moravam ainda se encontravam alagados e intransitáveis, e todos, todos, os sãos e os enfermos, aqueles por seu pé, estes em cadeiras de rodas, em macas, em ambulâncias, confluíam para as suas respectivas assembleias eleitorais como rios que não conhecem outro caminho que não seja o do mar. (SARAMAGO, 2004, p. 20).

Era de fato um acontecimento sem igual, “sem paralelo na história da nossa democracia”. Os três partidos em disputa – o p.d.d. (partido da direta), o p.d.m. (partido do meio) e o p.d.e. (partido da esquerda) – declaravam que a democracia “estava de parabéns”, todos na expectativa de que o maior número de votos fosse seu – e parece que apenas por essa esperança – “Tudo se resume à contabilidade dos votos, à cegueira, à obsessão de querer ter mais votos do que o vizinho, parceiro ou inimigo [...]” (SARAMAGO, 2014, p. 237). Porém, frustram-se, quando o resultado indica a maioria dos votos em branco.

A investigação do governo tem início, com

[...] suas câmaras de vídeo de alta definição e microfones da última geração para um quadro gráfico as emoções que aparentemente se ocultam no sussurrar diverso de um grupo de pessoas que creem, estar a pensar noutra coisa. Gravou-se a palavra, mas também se desenhou a emoção. Já ninguém pode estar seguro. (SARAMAGO, 2004, p. 29).

Mesmo que, no restante do romance, os recursos tecnológicos de que se vale o governo para a investigação e repressão da população sejam nossos conhecidos, chama a atenção o vocabulário utilizado – os equipamentos são de “alta definição”, de “última geração” –, similar ao dos livros distópicos, em que a tecnologia (também a biologia, a psicologia) é usada no controle dos indivíduos. Esses recursos não são indispensáveis ao governo, pois ele tem a seu favor outros meios para tentar ludibriar e manipular a massa: a televisão, as rádios, os jornais. Bittencourt (2010) cita a interpretação de Marilena Chauí sobre 1984, de George Orwell; a filósofa observa que essas táticas de opressão não são exclusividade dos sistemas totalitários:

Os que julgam que 1984 se refere aos regimes totalitários tornaram-se incapazes de perceber que nos chamados países democráticos os procedimentos orwellianos são usados cotidianamente, diante de nossos olhos e ouvidos, não apenas enquanto ouvintes, telespectadores e leitores, mas de maneira mais assustadora quando somos protagonistas daquilo que o formador de opinião (o jornalista no rádio, na televisão e na imprensa) descreve e narra e que nada tem a ver com o acontecimento ou o fato de que fomos testemunhas diretas ou participantes diretos. (CHAUÍ apud BITTENCOURT, 2010, p. 68).

As tentativas de enganar a população são similares. Porém, como a narrativa saramaguiana subverte essas expectativas, a população surpreende: “[...] cedo se tomou evidente que o interesse pela leitura dos jornais havia decaído muito.” (SARAMAGO, 2004, p. 44). Essa recepção singular das notícias e editoriais, já no início das tentativas da televisão e dos jornais de ludibriar a população, é outra atitude, no conjunto daquelas tomadas pelos brancosos, que confirma o caráter extraordinário dessas pessoas, vacinadas contra toda sorte

de mentiras e estratégias midiáticas. Sobre elas, não tem nenhuma influência “[...] a exibição de intimidades pouco asseadas, de escândalos e vergonhas de toda a espécie, a velha roda das virtudes públicas mascarando os vícios privados [...] Realmente, parecia que a maior parte dos habitantes da capital estavam decididos a mudar de vida, de gostos e de estilo.” (SARAMAGO, 2004, p. 45).

Já em seu início, a “revolução branca” se insinua como sinalizadora de uma utopia para a qual converge o interesse da maioria dos habitantes:

A utopia tem por meta fazer a crítica ao poder institucionalizado, mas ela mesma corre o risco de ser cooptada por este. Discursos utópicos podem vir a se materializar nas instituições em forma de poder arbitrário, desencantando e matando o próprio horizonte utópico. Uma verdadeira utopia construída e que encanta é aquela que tem o aparato e participação do maior número possível de segmentos da sociedade. (ARAÚJO, 2009, p. 16).

O romance de Saramago consegue representar diferentes facetas das utopias e das distopias. Por um lado, no ESL, a utopia, enquanto projeto comum dos habitantes da capital, mostra-se claramente: quase todos que fizeram o protesto de insatisfação contra o modelo de sociedade e o poder institucional que a regia, embora não saibam como dar continuidade a esse projeto, só demonstrar sinais (de paz e harmonia) compactuam da mudança. Por outro lado, a narrativa não representa a passagem da utopia à distopia – o que a inseriria totalmente neste último gênero –, mas um governo desacreditado que, ele sim, se relaciona com os estados opressores das narrativas distópicas.

Na segunda eleição, a quantidade de votos em branco é ainda mais impressionante – oitenta e três por cento do total, e o que parecia, após o primeiro resultado, ser apenas uma possibilidade – “deixar as coisas como estão, o p.d.d. no governo, o p.d.d. na câmara municipal” (SARAMAGO, 2004, p. 26) – de fato se efetiva quando a o protesto das urnas se confirma. O primeiro-ministro acredita (ou finge acreditar) que o governo da nação – que acabara de anunciar o estado de exceção – interpreta “a fraternal vontade de união de todo o resto do país” (SARAMAGO, 2004, p. 36). Porém, de um governo que não sabe interpretar o protesto da população, mas que, antes, crê que ela “se desviou do recto caminho”, não se poderia esperar senão o pior, assim como a mais temerosa reação: houve pessoas “[...] que passaram o resto do serão a rasgar e a queimar papéis. Não eram conspiradores, simplesmente tinham medo.” (SARAMAGO, 2004, p. 38). Mesmo antes da aplicação de todas as medidas repressivas do governo, esse breve trecho é suficiente, porque representa o sentimento de algumas pessoas, para mostrar o caráter repressivo do governo, como nas distopias: “As

utopias negativas representadas pela literatura ocidental do séc. XX retratam claramente o futuro tenebroso que o controle social, em sua expressão mais repressiva conforme o modelo do Panóptico e de seu exercício total de poder disciplinador, representaria para o desenvolvimento saudável da condição humana, destruindo as suas bases valorativas e existenciais.” (BITTENCOURT, 2010, p. 64). Depois da primeira eleição, o governo já tinha nas ruas, nas filas, nos bares e onde se encontrasse alguém a conversar seus espias, com microfones, a tentar encontrar um culpado. De fora da cidade, o “modelo do Panóptico” não é de todo abandonado, pois, de fora e de dentro, tenta-se encontrar a razão da “revolução branca” e seus supostos organizadores.

Após esses acontecimentos, diferentemente do que acontece no ESC, o narrador não se volta para aqueles que seriam os autores da ação, a gente comum e “aleatória”, que tenta lidar com os dessabores ao longo do enredo (como o racionamento de comida e o regime autoritário do manicômio); mas para personagens que ocupam posições de destaque no governo e nas estratégias de repressão e investigação: o presidente da câmara municipal, os ministros e o presidente e, por fim, o comissário e seus dois subordinados. Isso faz com que o clima de mistério sobre as intenções da “revolução branca” e sobre sua desconhecida autoria seja mantido até o final do romance, isto é, que não seja expressamente falado por qualquer dos brancosos, como são chamados pejorativamente os que votaram em branco – um “espesso muro de silêncio, como um mistério de todos que todos tivessem jurado defender.” (SARAMAGO, 2004, p. 33).

Se considerarmos mais uma vez o Quadro 1, fundamental para compreendermos as nuanças ideológicas deste romance – a “força constituinte do texto”, para usar a expressão de Portella (1981) –, é possível observar a tensão entre o segredo (aquilo que não parece, mas é) democrático e a mentira (aquilo não é, mas parece) antidemocrática. A revolução é vitoriosa pelo segredo, não pela mentira – daí a crítica ao voto meramente formal e portanto falso e autoritário.