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Na busca por referências teóricas para fundamentar a construção do modelo de mediação da informação para nossa pesquisa, nos interessamos pelos trabalhos de Wilson, que versam sobre modelos de comportamento informacional. Wilson criou um modelo de comportamento de informação em 1981, e em 1996 desenvolveu uma versão deste modelo como uma revisão expandida. A motivação para isso foi, de acordo com o autor, o fornecimento de uma estrutura geral, que atendesse eficazmente aos aspectos do comportamento de busca de informação.

Conforme Garcia (2007, p. 84), o modelo de Wilson pode auxiliar os programas de capacitação de usuários frente à busca por informação ou se constituir como uma fonte de hipóteses para pesquisas empíricas de estudos de usuário, servindo como dispositivo para identificar “[...] a necessidade de informação em relação a um determinado contexto ou ainda, na identificação de características positivas e negativas dos usuários que influem na busca de informação.” Corroboramos com a autora, principalmente, no que se refere à utilização dos pressupostos teóricos do modelo de Wilson para auxiliar nos programas de capacitação de usuários na busca por informação.

No nosso campo de pesquisa, enquanto os sujeitos participavam de uma capacitação, procedemos com a coleta de dados, com o uso da observação participante e diário de campo, e na sequência examinamos como se comportaram os participantes, procurando descrever seu comportamento informacional. As teorias de Wilson nos forneceram elementos para esse momento da observação e da análise, e também para a construção do modelo.

Além das motivações acima mencionadas, a escolha pelo modelo de Wilson também se deu, porque é preciso pensar o usuário (sujeitos da pesquisa) em seu contexto social, em sua realidade. Silva (2012, p. 119) entende que essa questão se

pauta “[...] no contexto do paradigma sócio-cognitivo e interacionista de usuários pensando o usuário a partir de uma autonomia no processo de construção de sentidos.” Por isso, de acordo com o autor, é necessário:

[...] ver as necessidades de informação e satisfação dos usuários como fenômeno social considerando que é o ser que promove a consciência e não o contrário significando dizer que uma necessidade de informação não é simplesmente sentida por um usuário, mas é construída diante das necessidades básicas dos usuários. [...] Isso significa dizer que as necessidades de informação surgem como corolário de um processo básico do cotidiano humano considerando que uma necessidade de informação deve ser pensada indissociavelmente aos contextos da satisfação, de modo que se entenda como processo socialmente construído no âmbito das interferências dos centros de informação e da autonomia dos usuários da informação. (SILVA, 2012, p. 119).

As teorias de Wilson, em torno do modelo de comportamento informacional, também sugerem que, quando um usuário deseja satisfazer sua necessidade de informação “[...] faz exigências sobre as fontes e serviços de informação formais ou informais, que resultam em sucesso ou fracasso para achar a informação relevante.” (WILSON, 1999, p. 251). Para o autor, quando essa busca é bem sucedida, o usuário usa as informações encontradas e, ou pode total ou parcialmente satisfazer a necessidade percebida - ou, na verdade, não consegue satisfazer a necessidade e tem de repetir o processo de pesquisa. Além disso, o modelo ainda mostra que parte das informações de comportamento de busca pode envolver outras pessoas “[...] através da troca de informação e que a informação percebida como útil pode ser transmitida para outras pessoas, além de ser utilizada pela própria pessoa.” Entretanto, é preciso refletir que essa informação percebida é útil para atender a alguma necessidade momentânea, mas ela precisa ser útil para o desenvolvimento do protagonismo social.

O modelo de comportamento informacional de Wilson (1981) traz três figuras: a primeira intitulada, a model of information behaviour, (um modelo de comportamento informacional representando na Figura 7), a segunda trata do the

context of information seeking (o contexto da busca de informação - Figura 8), e a

última information needs and seeking (a necessidade e busca por informação - Figura 9). Uma revisão desse modelo de 1981 resultou no modelo de 1996, que está no corpo desse texto na Figura 10. Apresentamos o modelo de comportamento informacional, que, conforme Wilson (1981, p. 05), sugere um modo de pensar do campo "estudos de usuários". O seu objetivo não é o de "modelo" de comportamento

de procura de informação, “[...] mas chamar a atenção para as inter-relações entre os conceitos utilizados no campo.”

Figura 7 - Modelo geral de comportamento informacional

Fonte: Wilson (1981).

De acordo com Wilson (1981), o usuário pode buscar informações de outras pessoas, ao invés de sistemas, e isso é expresso no diagrama como envolvendo "troca de informações". O uso da palavra exchange (troca) pretende chamar a atenção para o elemento de reciprocidade, reconhecido por sociólogos e psicólogos sociais como um aspecto fundamental da interação humana. O autor alerta que, em qualquer um dos casos de comportamento de busca de informação, failure (falha) pode ser constatada:

[...] isto é indicado no diagrama pela utilização de sistemas, mas, obviamente, pode também ser experimentado na busca da informação a partir de outras pessoas. Qualquer que seja a fonte da informação em algum momento seria used (usado), apenas no sentido de ser avaliado para descobrir sua relação com a necessidade do usuário. Esse use (uso) pode satisfazer ou deixar de satisfazer a necessidade e, em qualquer caso, também pode ser reconhecido como sendo de potencial relevância para a necessidade de outra pessoa. (WILSON, 1981, p. 5, tradução nossa).

Apesar de todas essas áreas, descritas no diagrama acima, serem de potencial interesse para o campo de estudos de usuários, Wilson (1981, p. 5) explica que a “[...] a atenção vem sendo dada, principalmente para as demandas que as pessoas fazem sobre sistemas de informação formais.” Ele ainda ressalta que o “[...] uso da informação (que deve apontar mais diretamente para as necessidades sentidas pelas pessoas) é uma das áreas mais negligenciadas, e a information

exchange” (troca de informações), tende a cair dentro da esfera de interesse de

sociólogos e teóricos da organização, e não na esfera dos cientistas da informação. Observamos na figura 7 que a necessidade (need) é vista de forma destoante do contexto, esse pode ser considerado um dos problemas de se fazer um recorte da realidade por meio de um modelo, uma crítica também estabelecida pelo próprio Wilson.

No caso da information (informação), do diagrama, pode ser entendida em qualquer um dos sentidos mencionados anteriormente. “Assim, na troca de informações, um indivíduo pode estar à procura de fatos, conselhos e opiniões, e pode receber qualquer um destes, por escrito ou oralmente.” (WILSON, 1981, p. 5).

No universo do conhecimento, os problemas citados acima por Wilson, são segundo ele, em parte, resultado de uma incapacidade de identificar o contexto no qual a investigação da busca por informação deve ser efetuada. Ele elaborou outro diagrama (Figura 8), em uma tentativa de mostrar alguns dos possíveis contextos, e ressalta que a Figura 7 pode ser considerada como um sub-gráfico da Figura 8, centrado no utilizador. Wilson (1981, p. 7) diz ser difícil, “[...] em qualquer esquema bidimensional transmitir a complexidade do ‘mundo real’ e elementos abstratos desse mundo real.”

Figura 8 - O contexto da busca de informação

Fonte: Wilson (1981, tradução nossa).

Como pode ser visto na figura acima o Universe of knowledge (universo de conhecimento) é, por exemplo,

[...] um conceito abstrato, que abrange todos os objetos relacionados ao conhecimento, eventos e fenômenos e, como tal, interage bem com o ‘universo físico’. Para mostrar as interações complexas dos universos físicos e abstratos, no entanto, precisaríamos de um diagrama multidimensional, que seria extremamente difícil, se não impossível, para expressar sobre uma folha de papel. Aceitando essa dificuldade, no entanto, o "mundo da vida do usuário" pode ser definido como o conjunto de experiências centradas no indivíduo como um usuário da informação. Dentro desse mundo-vida, um submundo importante, será o mundo do trabalho, no qual existirão vários "grupos de referência" com o qual o usuário identifica: colegas profissionais, o grupo de pares dentro de uma organização e assim por diante. (WILSON, 1981, p. 7, tradução nossa).

Além disso, o usuário também estará, como esclarece Wilson (1981, p. 08), em contato com uma variedade de "sistemas de informação", dos quais “[...] apenas um é mostrado no diagrama, por isso a sobreposição indicada com o usuário e seu mundo-vida.” Wilson (1981, p. 08) explica ainda que dentro do sistema de informação de dois subsistemas são mostrados: o mediador, que ele define como um sistema vivo, ou seja, um ser humano e a tecnologia, utilizada nesse caso no “[...] sentido geral de qualquer combinação de técnicas, ferramentas e máquinas constituem a procura da informação subsistema.” Para o autor, o sistema de informação deve ter acesso “[...] a várias ‘incorporações do conhecimento’,

formuladas de uma maneira geral, para indicar que essas formas de realização podem ser documentos ou pessoas.”

Os caminhos apontados pelas letras no diagrama objetivam mostrar alguns dos possíveis caminhos de pesquisa, que podem ser utilizados por quem busca informações diretamente ou pelo sistema de informação e seus subsistemas. (WILSON, 1981). Eles não abrangem todos os possíveis caminhos de pesquisa, mas identificam quatro grupos relevantes:

1) caminhos a, b, c, d - identificam estratégias de busca por um usuário independente de qualquer sistema de informação, referido como "Categoria a";

2) caminhos e, f - identificam caminhos de pesquisa que envolve ou um mediador ou a tecnologia de um sistema de informação (arquivo de cartão manual, terminal de computador, etc.) - Categoria b;

3) caminhos g, h, i - identificam estratégias de busca empregadas por um mediador para satisfazer a demanda de um usuário para obter informações - Categoria c;

4) caminhos j, k - identificam estratégias empregadas por uma sofisticada tecnologia em nome de qualquer usuário ou o mediador - Categoria d. (WILSON, 1981, p. 08).

O autor dá um exemplo da última categoria (d): “[...] um sistema poderia ser considerado, em que uma rede de computadores pode ser pesquisada por iniciativa de um computador, o qual é um membro do referido sistema.” (WILSON, 1981, p. 08). Segundo ele, a rede pode incluir “[...] arquivos de conhecimento no processo de criação, como arquivos de pesquisa de dados, arquivos de conferência de computador, etc.”

Já no terceiro diagrama construído por Wilson (1981, p. 11), apresentado na Figura 9, observamos as inter-relações prováveis entre necessidades pessoais e outros fatores, cujo objetivo é sugerir que, quando falamos de ‘necessidades de informação’ dos usuários não devemos “[...] ter em mente alguma concepção de um direito fundamental, inato, cognitivo ou emocional de ‘necessidade’ de informação, mas uma concepção de informação (fatos, dados, opiniões, conselhos), como um meio para satisfazer tais necessidades fundamentais.”

As bases deste diagrama têm duas proposições principais: a necessidade de informação não é uma necessidade primária, mas uma necessidade secundária que surge a partir das necessidades de um tipo mais básico e; no esforço para descobrir informações para satisfazer uma necessidade, o requerente deverá encontrar barreiras de diferentes tipos. (WILSON, 1999, p. 252). O autor propõe, com base em definições na psicologia, “[...] que as necessidades básicas podem ser definidas como fisiológica, cognitiva ou afetiva.” Para ele, o contexto de qualquer uma dessas necessidades pode ser “[...] a pessoa por si própria ou a função de exigências do trabalho ou da vida da pessoa, ou os ambientes (político, econômico, tecnológico, etc) dentro do qual a vida ou o trabalho ocorrem.” As barreiras pessoais, interpessoais e ambientais que impedem a busca de informações irão surgir, conforme Wilson (1999), a partir do mesmo conjunto de contextos.

Figura 9 - Necessidade e busca da informação

Fonte: Wilson (1981, tradução nossa).

Segundo Wilson (1981, p. 13), ao construir esses diagramas e ao interpretá- los, objetivou-se sugerir que “[...] uma análise pode ser utilizada como ponto de partida para uma pesquisa baseada numa visão holística dos usuários de informação.” Dessa forma, essa visão significa ser percebido não apenas como um indivíduo impulsionado a buscar informações para fins cognitivos, “[...] mas como viver e trabalhar em ambientes sociais que criam suas próprias motivações para buscar informações, para ajudar a satisfazer grandes necessidades afetivas.”

Para fornecer um quadro geral mais eficaz para a reflexão sobre o comportamento de busca de informação, Wilson publicou em 1996 uma revisão sobre o modelo de 1981, com base na pesquisa de uma variedade de outros campos da CI, “[...] incluindo a tomada de decisões, psicologia, inovação, comunicação em saúde e pesquisa do consumidor.” (WILSON, 1999, p. 256). Segundo Wilson (1996, p. 36), essa revisão foi necessária, pois percebeu-se a necessidade de incluir uma etapa entre, “[...] o que deve ser chamado a pessoa-em- contexto e a decisão de buscar informações [...]”. Além disso, Wilson (1996, p. 36) sentiu que era preciso elaborar o conceito de variáveis intervenientes ou barreiras, para especificar “[...] o fato de que as características da fonte de informação podem constituir uma barreira para o comportamento de busca de informação ou processamento de informações, e que as variáveis pessoais podem ser psicológicas ou demográficas.”

Figura 10 - Modelo de comportamento informacional de Wilson de 1996

Fonte: Wilson (1999, tradução nossa).

Essa pesquisa promovida por Wilson (1996, p. 36) também proporcionou ao autor visualizar a “[...] necessidade de mais um estágio intermediário (ou mecanismo

de ativação) entre a determinação da necessidade e o início de ação para satisfazer a necessidade.” De acordo com ele, a proposta é a:

[...] teoria do risco/recompensa, a teoria da aprendizagem social e do conceito de autoeficácia, como conceitos de intervenção. Dada a relação de autoeficácia, é discutível se o conceito deve aparecer aqui ou como parte do esforço/elemento de enfrentamento, mas, dada a sua relação com a teoria da aprendizagem social, a localização mostrada parece pelo menos apropriada. Finalmente, o modelo precisa de extensão para incluir o processamento e uso de informações, que são os estágios, além da busca de informação e que fornecem o link de volta para a situação de necessidade da pessoa-em-contexto. (WILSON, 1996, p. 36, tradução nossa).

Além das duas teorias acima citadas, há ainda uma terceira, nessa revisão do modelo, a teoria do estresse/enfrentamento, que oferece possibilidades de explicar porque algumas necessidades não invocam o comportamento de busca por informações (WILSON, 1999). Como se pode observar, essa versão expandida do modelo de 1981, foi criada, como explica Wilson (1996), para ser aplicada ao comportamento informacional mais geral, ao invés de apenas um comportamento de busca de informação. Entretanto, como o próprio Wilson (1999, p. 251) explica esse tipo de modelo tem suas limitações, o fato é “[...] que ele faz pouco mais do que fornecer um mapa da área e chamar a atenção para as lacunas na pesquisa”, não ofertando sugestões de “[...] fatores causais do comportamento da informação e, consequentemente, não indica diretamente hipóteses a serem testadas.” Wilson tentou mostrar de forma mais completa como ocorre o comportamento informacional de uma pessoa considerando toda a complexidade em torno do contexto.

A partir das observações de Wilson quanto às possibilidades de pesquisa para análise do comportamento informacional e dos modelos de Belmonte, criamos um mapa conceitual para uma orientação inicial na construção do modelo de mediação da informação para a Comunidade Santa Clara, apresentado na figura abaixo.

Figura 11 – Mapa conceitual do modelo de mediação da informação

Fonte: Dados da pesquisa, 2013.

O percurso teórico exposto na figura tem como base a revisão de literatura da tese, que teve como intuito nos fornecer todos os elementos necessários para a atuação no campo de pesquisa, uma preparação essencial para o entendimento de como um profissional da informação deve compreender o contexto social, onde irá trabalhar, bem como a realidade dos sujeitos de pesquisa, refletindo sobre os princípios epistemológicos e sobre o paradigma social da Ciência da Informação. É preciso ressaltar, que esse modelo de mediação da informação teve como inspiração filosófica a teoria de Paulo Freire, pois objetivou promover competências em informação nos moradores da Comunidade Santa Clara, bem como conscientização do poder transformador de cada sujeito para si mesmo e para a realidade onde atuam.

Benzer Belgeler