Dubar (1995) diz-nos que a identidade não é transmitida por uma geração à seguinte; Se ela é construída por cada geração com base em categorias e exemplos herdados da geração precedente, assenta sobretudo nas estratégias identitárias desenvolvidas pelos indivíduos e para cuja transformação real eles assim contribuem.
É pois, a relação entre formação pessoal e formação profissional que importa analisar. Na senda de Dubar, a identidade pessoal condiciona as formas de identificação societais aos diferentes grupos e resulta das escolhas pessoais que são feitas e não das imposições herdadas. Ainda assim, parece ser possível afirmar que cada pessoa pode mudar de forma identitária ao longo da vida.
No adulto, não é fácil fazer a destrinça entre o conhecimento obtido através da experiência de vida e a que foi obtida pelo estudo. Como refere Pierre Dominicé (1990. p.38), a formação comporta uma
«globalidade difícil de formular, a que se refere à relação do adulto ao saber, à realidade social, e à sua vida pessoal. A formação inclui tudo o que o adulto fez da sua história. Ela é um processo que multiplica as transições apenas sendo interrompido pela morte. A formação é um movimento que é preciso saber captar em voo.»
A este passo, entendemos que o processo de construção identitário de Domingas Valente pode ser equacionado a partir da perspectiva de Claude Dubar que, ao contrário de outros autores, afirma que a construção da identidade corresponde ao processo de comunicação e de socialização que a produz.
Na sua obra A socialização - construção das identidades sociais e profissionais (1995), Claude Dubar inicia um percurso analítico em torno das dinâmicas das identidades sociais e profissionais, com referência aos últimos anos do século XX, tentando construir uma tipologia de identidades profissionais. Este autor considera que as identidades devem ser
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estudadas no quadro do processo de socialização, que deve ser encarado como "um processo de construção, desconstrução e reconstrução de identidades ligadas às diversas esferas de actividade (principalmente profissional) que cada um encontra durante a sua vida e das quais deve aprender a tornar-se actor"
«Para estudar estes processos, Dubar desenvolve um esquema teórico que se desdobra em dois mecanismos fundamentais: aquele que o autor denomina de
transacção objectiva e o que designa de transacção subjectiva. O primeiro tipo de transacção reporta-se à dimensão relacional da construção identitária e indica o processo de relacionamento entre as identidades (socialmente) atribuídas/propostas e as identidades assumidas/incorporadas pelo indivíduo. O segundo tipo de transacção reporta-se à dimensão biográfica da construção identitária e identifica o processo de relação entre as identidades herdadas pelo indivíduo (dimensão referente às identificações anteriores) e as identidades por ele visadas (aquelas que deseja construir no futuro). De acordo com Dubar, a identidade reivindicada pelo indivíduo em função das suas transacções subjectivas pode estar em continuidade ou em ruptura com a sua identidade herdada; por outro lado, pode ou não obter o reconhecimento (transacção objectiva) do(s) outro(s). Inversamente, os actos de atribuição identitária realizados pelo(s) outro(s) podem ser ou não incorporados pelo indivíduo, em função do seu processo de transacção subjectiva.
Dubar tenta, com este esquema, interligar duas dimensões que considera fundamentais na construção das identidades sociais e profissionais: uma primeira, que remete para um eixo "sincrónico", ligado a um contexto de acção e a uma definição da situação, num determinado espaço, culturalmente marcado; uma segunda, que envia para um eixo "diacrónico", ligado a uma trajectória subjectiva e a uma interpretação da história pessoal, socialmente construída, do indivíduo.» (Martins, A. 2009)
Assim, estas duas transacções: a interna e a externa, processam-se por mecanismos de identificação e por mecanismos de atribuição, para os quais são utilizadas as categorias sociais disponíveis nos lugares e tempos em que os indivíduos vivem e que possuem uma legitimidade variável, em função de tais elementos, pelo que, só podem ser identificadas através das biografias desses mesmos indivíduos em cada um dos tempos históricos.
«tratar as questões que envolvem a formação das acções colectivas coordenadas é, em certo sentido, uma tentativa de procurar compreender do ponto de vista conceptual como é que os actores que ao longo das suas trajectórias apreendem determinadas referências (Schanapper, 2000) que os ligam a práticas profissionais específicas, neste caso o professorado, tendem a identificar-se com o seu projecto profissional, trabalhando em diferentes situações, espaços e instituições fundadoras daquelas mesmas práticas, e utilizam repertórios diversos – de hábitos corporais, gestuais e sensoriais motores a hábitos deliberativos , racionais e calculadores (Lahire,1998:89) – objectivados em formas de julgamento e modelos de justificação plural, que visam de um modo coordenado unir esforços para trabalhar pela dignificação dessa profissão em concreto.» (Resende, J. 2003. p. 199)
Para a compreensão sobre o significado e as motivações para a participação activa de Domingas Valente na vida em sociedade, tivemos em mente os trabalhos de Axel Honneth e
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Nancy Fraser num sentido em que para estes autores as concepções de justiça e de lei não dependem de um modo de raciocínio ou de certa lógica (pré-convencional, convencional ou pós-convencional) mas de um sistema de valores e de concepções de ordem social dos indivíduos e que são construídos em função de certas pertinências
sociais sendo, portanto, representações sociais que contêm aspectos cognitivos (conhecimento teórico, intuitivo ou prático), valorativos e afectivos e que se constroem (numa abordagem simples) em função de três elementos: o património cultural desses indivíduos, o decurso de suas vidas pessoais dentro desse património e as circunstâncias criadas pela sociedade em que vivem.
E se alguns jovens buscam a superação da subordinação como definida por Fraser ao lutarem pela igualdade na participação, outros jovens buscam o reconhecimento na esfera da estima social como definido por Honneth, ou seja, buscam a auto-realização através da aceitação solidária por parte dos demais, assim como o encorajamento mútuo da sua individualidade.
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