Nas últimas décadas, os gêneros jornalísticos assumem papel de destaque em vários estudos na área da Linguística, compreendendo desde os aspectos estruturais até questões semântico-pragmáticas do discurso jornalístico. Nesta pesquisa, a opção residiu nos temas relacionados ao gênero notícia. Assim, foram priorizados os conceitos de superestrutura textual de van Dijk (1977), principalmente os trabalhos sobre o texto noticioso desenvolvidos posteriormente por este autor (1990, 1992), e os de sequência textual de Adam (1987, 1992), enfatizando as macroproposições da sequência narrativa aplicáveis à estrutura da notícia.
Acrescentaram-se, ainda, as contribuições de Rodrigues (1991), Bonini (1999) e Silva (2002) que propiciaram reflexões diferenciadas sobre possíveis elos de ligação nesses conceitos.
Na década de 70, van Dijk integrava o grupo de estudiosos da gramática narrativa e, tendo como base os postulados de Bartlett (1932), cria o conceito de superetrutura textual, como o esquema cognitivo capaz de abranger os elementos essenciais da caracterização de um texto. Por conseguinte, assume uma função importante no processamento da linguagem e na organização da memória.
van Dijk (1992, p. 123) enfatiza que ―o discurso noticioso tem um esquema convencional, ou seja, um ‗esquema de notícia‘, no qual os tópicos gerais ou o conteúdo global devem ser inseridos‖. Tal concepção consiste em temas, esquemas, macroestruturas e superestrutura que se apresentam interrelacionados de forma a viabilizarem a combinação e organização hierárquica de unidades sentenciais e textuais nos gêneros.
Na concepção de Bonini (1999, p. 38), a superestrutura da notícia pode ser considerada como uma ―organização textual determinada por um contexto interacional em que a informação é um produto de mercado, frente ao qual ela tem que ser imparcial e obedecer a certo espaço editorialesco‖. O que ele defende pode ser atestado em manuais de redação e estilo de empresas jornalísticas elaborados tanto para nortear a produção da notícia, em questões textuais e espaciais, como, inclusive, para exercer algum tipo de influência nos seus aspectos semânticos.
Apesar de considerar a diversidade de sentidos locais ou globais do discurso noticioso, van Dijk (1992, p. 142) propõe a existência de um esquema fixo, convencional, delimitado em categorias típicas para esse discurso, correspondendo a uma sequência própria de proposições ou sentenças do texto e formando um ―arranjo global das respectivas sequências ou episódios‖. O autor admite, quanto aos esquemas das notícias, que, ―devido à sua natureza convencional, são conhecidos, pelo menos implicitamente, pelos seus usuários em dada cultura, isto é, por jornalistas e leitores‖. (van DIJK, 1992, p. 142)
van Dijk (1992) traçou um esquema específico para o texto noticioso. Ele propôs uma série de categorias típicas do discurso da notícia, sendo que cada uma delas estaria relacionada a uma sequência específica de proposições ou sentenças do texto. O autor defende que ―a ordem das categorias, tal como é especificada pelas regras, determina também, portanto, o arranjo global das respectivas sequências ou episódios‖ (van DIJK, 1992, p. 145). Conforme Rodrigues2 (1991, p. 140), as notícias apresentam alguns princípios diferentes das narrações naturais. Podem não obedecer a ordem de importância, mas sim, a cronologia da ocorrência. O acontecimento mais recente, em geral, ocupa o primeiro lugar.
Entretanto, se a ordem de importância for estabelecida, isso pode fazer com que as consequências sejam apresentadas antes dos acontecimentos e esses, inclusive, antes das condições.
van Dijk (1992, p. 147) elaborou o seguinte esquema para o texto noticioso: Figura 1 - Esquema do texto noticioso de van Dijk.
Fonte: van Dijk (1992, p. 147).
O esquema elaborado por van Dijk (1992, p. 147) prevê que os fatos mais importantes sobre o assunto noticiado devem ser trabalhados de forma resumida. Logo na introdução do texto, o lide, que compreende o primeiro parágrafo, segue uma ordem decrescente de importância, enquanto os demais fatos são apresentados em ordem crescente de relevância ao longo da notícia.
Além da importância para a construção de sentido geral do próprio texto, os temas de uma notícia exercem um papel fundamental na ativação, recuperação e (trans)formação de modelos já existentes na memória do jornalista, então produtor textual, e o seu público, no caso, o leitor. Adotando uma estrutura hierárquica, van Dijk (1992, p. 138) defende que a estratégia de produção do discurso noticioso costuma seguir alguns movimentos ou passos capazes de fazer da produção narrativa do jornalismo algo bastante diferente de outras produções narrativas.
Mesmo que os passos apresentados sejam hipotéticos e apenas aproximados, van Dijk (1992, p. 138) estabelece a seguinte ordem de estratégias para uma notícia:
1 - ativar o modelo da situação atual;
2 - derivar uma estrutura temática global deste modelo de situação, com o objetivo de expressar esses temas através de um texto noticioso;
3 - decidir quais os temas principais da estrutura temática são os mais relevantes e importantes, dado um sistema de valores da notícia, ou outras normas, rotinas ou
Discurso da Notícia
Relato Jornalístico Sumário
Manchete Lead Episódio Comentário
Avaliação Expectativa Consequências/Reações Eventos Background Evento principal Circunstâncias História
ideologias jornalísticas;
4 - iniciar a produção real pela expressão do tema principal mais relevante como manchete, e o resto da estrutura de topo de temas como o lead de um artigo noticioso;
5 - cada parágrafo seguinte deverá desenvolver um tópico de nível intermediário inferior, de acordo com os seguintes princípios de produção (estratégias de escrita): a) consequências importantes em primeiro lugar; b) detalhes de um evento ou ator sucedem-se à menção global do evento ou pessoa; c) causas ou condições de eventos são mencionadas após o evento e suas consequências; d) informação contextual e de background vem por último. (van DIJK,1992, p. 138)
Na concepção de van Dijk (1992, p. 138), esses passos podem ser aplicados à leitura estratégica, compreensão e memorização pelo leitor. Nesse sentido, a manchete e o
lead são lidos e interpretados inicialmente, além de seu conteúdo informacional, servindo para começar o processo de compreensão do discurso noticioso. Assim, ocorre primeiro o reconhecimento da manchete e do lead como modelo de contexto comunicativo. Em seguida, são ativados conhecimentos, scripts, atitudes e modelos que determinam se o tema da notícia é ou não relevante para o leitor. Por último, vem o reconhecimento dos macrotópicos relevantes, das macroproposições e da distribuição descontínua de tópicos no texto noticioso. A possível aplicação de todas essas estratégias, tanto na produção da narrativa noticiosa, quanto na compreensão da leitura, não significa que existe um modelo canônico e firme de movimentos e passos eficazes e rígidos suficientemente para descrever os gêneros notícia e reportagem. Essas estratégias propiciam ao produtor, o jornalista, bem como ao seu público, o leitor, reconhecer que temas e que categorias foram adotadas, sua ordem e quantidade de informações em cada um dos temas ou categorias.
O linguista van Dijk (1992, p. 151) afirma que o tratamento meramente estrutural da notícia tem suas limitações, pois ―nos permite especificar estruturas noticiosas fixas, canônicas, mas diferentemente as muitas variações e as estratégias dependentes de contexto‖. van Dijk, entretanto, só contemplou o gênero notícia. O esquema proposto não oferece um maior detalhamento da organização das informações.
Outros estudiosos, como Swales, formularam concepções teóricas que suprem algumas lacunas da proposta inicial de van Dijk. Na pesquisa desenvolvida por Silva (2002), foram adotadas as contribuições de Swales (1990) que subsidiaram a caracterização da notícia e a descrição do gênero reportagem.
Uma nova visão conceitual de gênero foi desenvolvida por Swales (1990, p. 09), realçando a natureza essencialmente social da linguagem. Essa visão está atrelada à concepção de comunidades discursivas, as quais o autor define como ―redes sociorretóricas que se formam a fim de atuar em torno de um conjunto de objetivos comuns‖. Os gêneros, em
conseqüência, são entendidos como ―propriedades das comunidades discursivas, o que quer dizer que gêneros pertencem a comunidades discursivas, não a indivíduos, a outros tipos de grupos ou a vastas comunidades de fala‖ (SWALES, 1990, p. 09).
O contributo de Swales na análise de gêneros se corporifica através de um modelo de organização das informações em introduções de artigos de pesquisa, produzidos em comunidades acadêmico-científicas. Trata-se do modelo CARS (Create a research space), que reflete a distribuição de informações em movimentos (moves) e passos (steps). Os primeiros são considerados obrigatórios e os segundos são desdobramentos de cada movimento, divididos entre obrigatórios e opcionais.
O modelo oferece a vantagem de ser adaptável para análise de diferentes gêneros, acadêmicos ou não. No caso da pesquisa de Silva (2002), mostrou-se também adequado para verificar a distribuição das unidades de informação em notícias e reportagens, identificando as peculiaridades de cada um desses gêneros. Diferentemente do modelo de Van Dijk (1992), que revela exclusivamente um esquema da notícia, o modelo CARS propicia verificar, em princípio, a hierarquização das unidades temáticas em qualquer gênero.
Silva (2002) elaborou uma descrição de como se constituem a notícia e a reportagem, quais suas especificidades, verificando e atestando como gêneros distintos. Para tanto, adotou autores da área da Comunicação, destacando os citados na subunidade anterior, e da área da Linguística, priorizando as contribuições de van Dijk (2003 [1983 e 1985]) quanto ao ―Modelo Estratégico de Processamento do Discurso‖ e as ―Estruturas Temáticas do Discurso da Notícia‖ e a proposta de Swales (1981, 1984, 1990, 1992a, 1992b, 1992c) para a análise de gêneros.
A partir disso, foram considerados aspectos formais e funcionais identificados em análises de 59 notícias e 35 reportagens veiculadas pelos jornais cearenses O Povo e Diário do Nordeste12, no mês de julho de 2000. Adaptando o modelo CARS (Swales, 1990) para a análise da organização retórica de notícias, Silva (2002) identificou três unidades retóricas básicas e respectivas subunidades. A primeira unidade destinou à apresentação do fato, anunciando a informação principal da notícia que será abordada. Esta unidade consta da subunidade 1, que é obrigatória, e compreende o título da notícia, anunciando a informação principal, e da subunidade 2 que é opcional, compreendendo ao subtítulo e complementando a informação anterior.
12 Esses dois jornais são representativos na prática jornalística impressa brasileira e de maior circulação em Fortaleza, capital cearense.
A segunda unidade, representando o corpo da notícia, é dirigida ao fato abordado, abrangendo cinco subunidades. De caráter obrigatório, a subunidade 1 consiste no lead, resumindo o fato, os personagens principais, o lugar e o acontecimento em si. A subunidade 2 é o sublead, acrescentando novos dados relevantes ao resumo abordado e ainda não enfocados na subunidade 1. Apesar de ter uma função na caracterização da notícia, a subunidade 2 nem sempre aparece no corpo da notícia, que é a subunidade 4.
De caráter facultativo, a subunidade 3 é o intertítulo, ou seja, um recurso gráfico, em geral, constituído por uma ou duas palavras utilizadas para facilitar a compreensão do texto fácil de compreensão e também uma melhor divisão temática da notícia. A subunidade 4 tem caráter obrigatório e representa a continuação do corpo da notícia, com maior detalhamento do ocorrido, personagens, local(is), repercussões e desdobramentos do fato.
A terceira unidade é a forma de ilustração da notícia, dispondo geralmente de duas subunidades. A subunidade 1 é a fotografia que mostra o fato em si ou algo relacionado ao mesmo. A subunidade 2 é a legenda, compreendendo o detalhamento do que vem sendo apresentado no subunidade 1, isto é, na foto utilizada na notícia. Embora tenha importante papel na composição da informação, a unidade 3 pode estar ou não presente no gênero notícia. A utilização dessa unidade depende da área destinada pela mídia para o assunto a ser notícia.
No Jornalismo atual, a junção das subunidades 1 e 2, que são a fotografia e a legenda, respectivamente, exerce um papel fundamental em vários gêneros dessa área, podendo ser o foco principal da descrição de um acontecimento. Exemplo disso é o gênero jornalístico foto-legenda, com o principal assunto destacado na fotografia, e a legenda servir de suporte, frisando o tema ou esclarecendo alguma informação não mencionada antes.
Nesse sentido, a organização das informações verificadas nas notícias analisadas, à luz do modelo CARS, oferece subsídios para o reconhecimento desse gênero jornalístico, no que se refere à distribuição das informações, de acordo com determinadas convenções comuns ao gênero. De acordo com Silva (2002), isso permite concluir que uma notícia, independente do seu caráter político, econômico ou policial, apresenta-se com uma estrutura ou organização padrão caracterizadora do gênero notícia.
A partir do mesmo modelo CARS (Swales, 1990), Silva (2002) criou também o modelo de organização retórica para o gênero reportagem. O referido modelo se apresenta duas vezes maior que a organização retórica proposta para o gênero notícia. Além de abranger as três unidades e as oito subunidades da organização do gênero notícia, a reportagem se organiza em torno de mais três unidades e quatro subunidades. Essa proposta ratifica posições do jornalismo atual que consideram notícia e reportagem como gêneros distintos, embora
possuam algumas características semelhantes.
A unidade 1 do gênero reportagem constitui-se de forma semelhante à do gênero notícia, diferenciando-se porque a subunidade 1 - título e a subunidade 2 - subtítulo ocorrem de forma obrigatória e apresentam uma maior dependência entre si. Na unidade 2, exceto a subunidade 3 - sublead 2, que é facultativa, as subunidades 1, 2, 4 e 5 - correspondendo respectivamente aos lead, sublead 1, intertítulo e continuação da reportagem - são obrigatórias na matéria principal da reportagem.
A unidade 3 também dispõe das mesmas subunidades 1 - fotografia e subunidade 2 - legenda do gênero notícia, distinguindo-se por sua relação de dependência com a primeira e a segunda unidades. Na reportagem, a fotografia, como uma das formas de ilustração, é considerada imprescindível à sua produção. A prática jornalística demonstra que a fotografia reforça a(s) informação(ões) trabalhada(s) e acrescenta dados de caráter eminentemente visuais e desaconselhados a serem discorridos textualmente. Na notícia, essa unidade pode ser descartada, já que a prioridade da informação encontra-se no texto escrito.
A partir da unidade 4, o gênero reportagem revela as suas principais peculiaridades em relação à notícia, especialmente pelo tratamento aprofundado ao assunto abordado. As unidades 4 e 5 têm a mesma função e estrutura, trazendo informações adicionais à matéria principal. Na estrutura, essas unidades possuem, cada uma, duas subunidades constituídas por um título e por um ou mais parágrafos, dependendo da relevância do assunto, dos efeitos de visualização pretendidos e do espaço destinado à reportagem.
A unidade 6, com duas subunidades, representa um dos grandes caracterizadores do gênero reportagem em todos os sentidos, tanto pela produção, como pela função e estrutura. Quase sempre apresenta infografismo, que é mais uma forma de ilustração no gênero reportagem. A subunidade 1 é preenchida por um desenho ou ilustração capaz de reconstituir o acontecimento abordado na reportagem, enquanto a subunidade 2, como legenda ou texto-legenda, esclarece o que está sendo mostrado na ilustração. Os modelos de organização retórica da notícia e o da reportagem encontram-se no apêndice desta pesquisa.
Em síntese, estes modelos retóricos foram elaborados com base no reconhecimento das informações hierarquicamente distribuídas na notícia e na reportagem, possibilitando a distinção dos gêneros notícia e reportagem. E, no caso da notícia, foco deste estudo, pode-se verificar que o esquema de notícia de van Dijk (1982) dispõe de uma certa ordem de categorias admitindo possíveis arranjos da informação no texto e destacando a realização sequencial dos tópicos. Tal ordenação apresenta flexibilidade, possibilitando que a produção e compreensão do discurso noticioso sejam distinas de uma comunidade para outra
e, também, compartilhadas por seus usuários: jornalista e leitor.