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Dentre as diversas substâncias químicas ou poluentes lançados de modo indiscriminado no meio ambiente se destacam os agrotóxicos, surfactantes, fármacos, corantes têxteis, além dos inúmeros poluentes que caracterizam o esgoto doméstico, sendo relevante o seu monitoramento nos diversos segmentos do meio ambiente, assim como a realização de estudos que permitam avaliar o seu comportamento, destino e persistência tanto no meio aquático e como no meio terrestre (DURIGAN, 2011).

Fármacos são moléculas complexas que possuem diferentes propriedades físicas e biológicas com diversas funcionalidades. São definidas como substâncias responsáveis pela fisiologia ou ação farmacológica, utilizada no diagnóstico e cura, tratamento ou prevenção de doença, podendo afetar a estrutura ou função do corpo humano ou de animais (CARDOSO, 2011). Eles são compostos químicos moderadamente solúveis em água, lipofílicos e biologicamente ativos e frequentemente apresentam baixa biodegradabilidade no ambiente. Estas propriedades intrínsecas apresentam um grande potencial para bioacumulação e persistência no ambiente (AMÉRICO, 2010).

Após a administração, esses compostos são absorvidos, distribuídos, parcialmente metabolizados, e finalmente excretadas do corpo na forma original, associada ou como metabólitos. Uma quantidade significativa dessas substâncias originais e seus metabólitos são excretados na urina, fezes ou esterco animal, se estendendo até as estações de tratamento de esgoto (QUEIROZ, 2011; HÖRSING

et al., 2011).

Compostos farmacológicos são desenvolvidos e utilizados para exercerem efeitos biológicos específicos (CREANE et al., 2006). Devido as suas propriedades físico-químicas e biológicas, existe a preocupação em relação ao seu potencial impacto no meio ambiente. Embora uma variedade de combinações farmacêuticas tenha sido detectada no meio ambiente (DÍAZ-CRUZ et al., 2008; AL-

RIFAI et al., 2011;KUNKEL; RADKE, 2012; FANG et al.,2012; SAMARAS et al., 2013), a sua significância ecológica ainda não é completamente conhecida (KIM et

al., 2007).

Recentemente, a ocorrência de resíduos de fármacos no meio ambiente vem gerando uma nova preocupação. Grande quantidade e variedade de resíduos de medicamentos vêm sendo detectados em diferentes matrizes ambientais, em especial, os cursos d`água e efluentes (DÍAZ-CRUZ et al., 2008).

Uma fonte de contaminação ambiental de fármacos resulta da disposição de resíduos provenientes das indústrias farmacêuticas em aterros sanitários ou da deposição inapropriada dos medicamentos que estão fora do prazo de validade nos esgotos domésticos. As águas residuais hospitalares contribuem igualmente para a contaminação ambiental com esta classe de compostos (SILVA, 2010). Portanto, é fundamental que os medicamentos indesejados sejam eliminados de forma segura (BERGEN et al., 2015).

Esses compostos chegam ao meio aquático quando o esgoto é diretamente lançado nos rios, ou quando estes resíduos não são completamente eliminados nas estações de tratamento. Desta forma, há uma crescente preocupação sobre os possíveis efeitos adversos que estes resíduos podem provocar nos animais e em humanos, além do desenvolvimento de microrganismos mais resistentes (VIEIRA, 2011).

A preocupação com a presença desse tipo de contaminante ocorre por causa da atividade farmacológica que muitos apresentam, fazendo parte de uma família de contaminantes denominada PhACs, do inglês: Pharmaceutically-active

Compounds, que possuem toxicidade aguda similar à apresentada por substratos

que caracterizam resíduos industriais. Adicionalmente, estas espécies podem manifestar toxicidade crônica e ecotoxicidade, mesmo em concentrações tão baixas quanto 1 μg/L (YU et al, 2006). Segundo estudos realizados por Mulroy (2001) mostram que 50% a 90% de uma dosagem do fármaco são excretadas inalteradas, sendo também persistente no meio ambiente.

As implicações de sua presença, principalmente no ambiente aquático, não são completamente conhecidas, no entanto, esses compostos vem despertando o interesse da comunidade científica do mundo inteiro (KÜMMERER, 2009; VON WOLFF, 2011).

A confirmação de mais de 160 compostos farmacêuticos em estações de tratamento de esgoto, mostra que essas substâncias também podem provocar alterações bioquímicas e fisiológicas no solo e nos organismos aquáticos. Por esta razão, o interesse científico nos últimos anos tem aumentado por causa das consequências que esses fármacos trazem para os ecossistemas e para a saúde pública, quando este se encontra no ambiente (TOURAUD et al., 2011; KÜMMERER, 2009; FATTA-KASSINOS et al., 2011; DING; HE, 2010).

A exposição humana a esses compostos pode acontecer de duas formas: a primeira, através do consumo de água tratada destinada ao abastecimento público e a segunda através do consumo animais aquáticos, como exemplo o peixe, que acumula resíduos de produtos farmacêuticos. Dessa forma, há preocupação crescente em relação aos possíveis efeitos à saúde humana devido aos fármacos e seus metabólitos (TOURAUD et al., 2011; AMÉRICO, 2010; GHISELLI, 2006).

Os fármacos biologicamente ativos presentes no ambiente interagem com a biota do meio interferindo significativamente na fisiologia, no metabolismo e no comportamento das espécies, como exemplo a feminização de peixes machos presentes em rios contaminados com descarte de efluentes de Estações de Tratamento de Esgoto (ZAPPAROLI et al., 2011). Alguns causam efeitos secundários como a alteração na defesa imunológica de organismos tornando-os mais suscetíveis a doenças (BILA; DEZOTTI, 2003; REIS FILHO et al., 2007).

Estudos mostram que a maioria dos fármacos apresenta toxicidade aguda aos animais em concentrações muito elevadas, cerca de 100 a 1000 vezes, àquelas geralmente encontradas no meio ambiente (FARRÉ et al., 2008; ZHANG et al., 2008). No entanto, observa-se que os fármacos são encontrados misturados no meio ambiente e os efeitos tóxicos ainda são pouco conhecidos. Experimentos de toxicidade em misturas de anti-inflamatórios demonstraram efeitos sinérgicos em concentrações em que o fármaco sozinho não havia oferecido risco (CLEUVERS, 2004).

Estudos realizados sobre efeitos dos fármacos em sistemas aquáticos revelam que antibióticos, antineoplásicos, hormônios sexuais e outros são extremamente tóxicos para organismos vivos como algas e peixes (SANDESON et

Dentre os efeitos deletérios que a presença desses compostos pode provocar, destaca-se o desequilíbrio da ecologia microbiana, a proliferação de agentes patogênicos resistentes, além de efeitos inespecíficos na saúde humana, destacando a ocorrência de processos alérgicos, o que representa um alerta para a necessidade de se desenvolver tecnologias de tratamento adequadas (ZAPPAROLI

et al., 2011).

O crescente interesse na determinação desses contaminantes ocorre pelo fato da não inserção de tais compostos em legislações que regulamentam a qualidade da água e, portanto, podem ser inseridos em futuras legislações, dependendo das pesquisas sobre a sua toxicidade e efeitos potenciais ao meio ambiente e a saúde humana (HERNANDEZ et al., 2007; AMÉRICO, 2010).

Benzer Belgeler