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BÖLÜM: STRATEJİ GELİŞTİRME, AMAÇ, HEDEF VE STRATEJİLERİN BELİRLENMESİ18

O romance O Cortiço (1890) era parte de um grande projeto de Aluísio Azevedo inspirado no projeto naturalista de Émile Zola em Les Rougon-macquart. Um esboço desse projeto foi publicado na revista A Semana em outubro de 1885.

Seguindo as informações de Menezes (1958) e Mérian (2013), seus biógrafos, no projeto literário de Azevedo intitulado Brasileiros antigos e modernos, o autor imaginou um retrato da sociedade brasileira em cinco romances, abarcando-a do Império desde o seu início até sua ruína, que ele sentia próxima. Os cinco volumes seriam, nesta ordem, O Cortiço, A Família brasileira, O Felizardo, A Loureira e A Bola

Preta. A ação se iniciaria em 1820 e acabaria em 1887. De todos os volumes

planejados, apenas O Cortiço foi finalizado e publicado em 1890. Os outros volumes não chegaram a ser escritos. O romancista explica que esses romances utilizariam como pano de fundo “fatos da nossa vida pública que jamais serão apresentados pela História”:

A ação principia no tempo da independência e acabará pelos meados de 1886 ou 1887.... Tenciona pintar cinco épocas distintas, durante as quais o Brasil se vai transformando até chegar, ou a um completo desmoronamento político e social, ou a uma completa regeneração de costumes imposta pela revolução. O primeiro romance O Cortiço, faz-nos ver um colono analfabeto, que de Portugal vem com a mulher trabalhar no Brasil, trazendo consigo uma filhinha de dois anos. Essa criança vem a ser a menina do cortiço. (...) O colono deixa a mulher por uma mulatinha, e deste novo enlace surgem o Felizardo e a Loureira. Participa deste grupo o tipo de capadócio, o pai avô do capoeira, que mais tarde é chefe de malta e força ativa nas eleições. Ligado a este chefe de malta está um tipo que contrasta com ele: é o antigo Conselheiro de Estado, político formado durante a menoridade do sr. D. Pedro II e graduado pelos seus serviços à causa da revolução mineira. Do Conselheiro nasce a família brasileira, composta por quatro figuras, a saber: O chefe, Conselheiro (...), conservador e lírico, a esposa deste, senhora de quarenta, muito apaixonada pela História dos Girondinos de Lamartine, sonhando reformas e lamentando não ser homem para desenvolver o que ela julga possuir de ambição política em seu espírito; a filha,(...) prática e

interesseira, vendo as coisas sempre pelo prisma das comodidades e das conveniências sociais; e o filho, rapaz, (...) presumido filósofo e muito convencido de que está senhor de toda a ciência de Augusto Comte. É sobre essa família que tem de agir o Felizardo e a Loureira: é nesta família que a Loureira vai buscar o amante, o filósofo de dezesseis anos, a quem não valerá toda a teoria científica de Comte e Spencer e que dará um dos bilontras da Bola Preta, enquanto que o Felizardo, conseguindo casar a com a filha do Conselheiro e conseguindo, uma vez rico, fazer carreira política vai influenciar nos destinos do Brasil e comprometer a posição do monarca como se verá no último livro. (MENEZES, 1958, p. 213).

A autora Flora Süssekind (1983) comenta o projeto literário do romancista afirmando que ele era na verdade um ciclo romanesco. Ela afirma que esse ciclo planejado de Aluísio Azevedo era como o ciclo dos Rougon-Macquart de Émile Zola, um ciclo familiar. As relações entre as personagens previstas para os cinco romances são laços de família ou de caráter sexual principalmente. Fala-se em “enlace”, “casamentos”, “família brasileira”. E as situações previstas, desde a carreira política de Felizardo à decadência imperial, se apresentam como decorrentes de fatos significativos na vida familiar das personagens. Não se fala no artigo de Aluísio Azevedo em classes, em relações econômicas, mas em raça e filiação. Daí toda hora surgirem palavras como “filho”, “filha”, “filhinha”, “mulher”, “esposa”; ou, “preta”, “mulatinha”. O ciclo não realizado teria por base, portanto os laços da hereditariedade e do atavismo.

A pesquisadora Ângela Maria Rubel Fanini (2003) também faz considerações importantes, no que diz respeito a esse projeto de Aluísio Azevedo. Ela afirma que tal projeto é importante para entendermos obras como O Cortiço, O

homem, O coruja, e o Casa de pensão. De acordo com a autora, essa publicação é

um verdadeiro documento das mudanças sociais e urbanas que ocorreram no período final do século XIX e ele também esclarece a ligação entre literatura e realidade social proposta pelo autor. Aluísio Azevedo, influenciado pelo naturalismo, filtrava a forma importada de Zola acomodando-a aos propósitos de sua literatura “empenhada”. O documento também revela os propósitos estéticos e políticos de Aluísio Azevedo, pois ao estabelecer um plano para a obra, ele também estabelece vínculo com a sociedade imperial, com a formação e deformação da família brasileira e da política nacional. A autora ainda afirma que Aluísio Azevedo tinha intenção de instruir os seus leitores.

(Fanini, 2003, p.66.).

De acordo com Raimundo de Menezes (1958) os primeiros apontamentos para O Cortiço foram colhidos em excursões para “estudar costumes”, na companhia

de Pardal Mallet, em 1884. Segundo relatos do amigo, ambos saíam “disfarçados” com vestimentas populares, tamancos sem meias, velhas calças de zuarte remendadas, camisas de meia rôtas nos cotovelos, chapéus forrados e cachimbo no canto da boca. (MENEZES, 1958, p. 175).

Na revista Vida Fluminense de 28 de maio de 1890. Temos uma nota do diretor do periódico Henrique Fleiüss que atesta o fato acima. Diz a nota:

Aluísio Azevedo ofereceu-me um exemplar do Cortiço. Entre muitas coisas bonitas que se tem escrito em relação ao livro do romancista brasileiro, a melhor, a que maior sabor me afigurou ter, foi aquela declaração de Mallet de que o autor do Cortiço andou em sua companhia, de tamancos, cotovelos rotos, camisa de meia e paletó sebento, a coligir documentos humanos. E digam os românticos que tudo aquilo é fantasia. (FLEIÜSS.H. Por um oculo.

Vida Fluminense, Rio de Janeiro, p. 6, 28 maio 1890).

Oliveira e Silva, também faz alusão ao fato de Aluísio ter ido morar nos cortiços disfarçado para melhor observar o objeto de seu enredo.

Não fraqueou um só instante; nota-se do começo ao fim da obra, em todas as páginas, o desejo ardente de dizer exatamente o que viu, o que examinou, pessoalmente, transfigurado em simples operário, nos momentos mais próprios para apanhar em flagrante as aglomerações humanas que pretendia analisar. (OLIVEIRA e SILVA. O Cortiço, Diário do Comércio, Rio de Janeiro, p. 1, 5 jun. 1890).

De acordo com o biógrafo Menezes (1958), Aluísio Azevedo chegou mesmo a ser perseguido por um “capoeira”9, que acreditava ser o escritor um “secreta” (isto é, um policial) disfarçado quando o reconheceu na rua do Ouvidor trajando roupas finas. Aluísio frequentava estalagens, ia às pedreiras, familiarizava-se com cavouqueiros comia em casas de pasto e conversava com os trabalhadores, estudava-lhes os tipos, os costumes, ria e até se comovia com eles. (MENEZES, 1958, p. 173 a 175).

Ainda sobre o romance, Jean-Yves Mérian (2013) aponta que “a ação do mesmo se desenvolve entre 1872 e 1880, aproximadamente quinze anos antes da realização do romance”. (MÉRIAN, 2013, p. 509). O autor ainda afirma que O Cortiço era a abordagem do romancista, de cunho profundamente político. Os comerciantes portugueses do período, ao lerem o romance, consideraram-no uma agressão e não uma interpretação estética da vida social carioca. Para Mérian (2013), Aluísio Azevedo

9 Malandro típico do século XIX, lutador de rua que usava a capoeira ('arte marcial') para provocar

desordem e para combater bandos rivais. Não raro, usavam navalhas ou facas. Eram considerados marginais pelo poder público.

deixava transparecer suas ideias sobre a sociedade e sua época por meio da relevância que conferiam a certos episódios. O Cortiço era uma denúncia do sistema de exploração sob o qual os comerciantes portugueses mantinham o Brasil. Um ano após a deposição do Imperador e a instauração da República, este romance, mesmo falando da sociedade dos anos anteriores, lembrava que o Brasil vivia ainda sob um regime neocolonialista que só explorava o povo e enriquecia “aventureiros portugueses sem escrúpulos”. O Cortiço foi publicado na data em que a abolição da escravatura no Brasil completava dois anos, e muitos leitores ficaram chocados com o desfecho do romance e com a suposta existência de abolicionistas de última hora até então escravocratas. Aluísio Azevedo descrevia a sociedade do Rio de Janeiro tentando revelar seus mecanismos na intenção de compreendê-la. (MÉRIAN, 2013, p. 528-529).

Benzer Belgeler