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6.1. As figurações do encontro

Afinal, o que as Mulheres do Bethânia vêm buscar nas reuniões? O que buscam quando vão as reuniões semanais das quartas feiras?O que elas aprendem? O que ensinam? Quais os conteúdos desse aprendizado e de que forma eles interferem em suas vidas?

Nos protagonismos das Mulheres do Bethânia, que se materializam nas reuniões da Associação, estão presentes formas diferenciadas de encontro e de estar no grupo. Através da abertura para o estar junto, tal como em outros grupos de mulheres, se desenvolvem os processos educativos e a construção de novas sociabilidades e subjetividades femininas. Para aquelas mulheres, participar das reuniões é uma oportunidade de sair de casa, de conhecer e conversar com outras mulheres, de esquecer um pouco os problemas domésticos, pessoais ou de ouvi-los e pensá-los de outras maneiras. Seus encontros semanais são uma oportunidade para elas verem e compreenderem, de outra forma, aspectos de suas vidas, numa reinvenção de si e do outro, da outra.

Como já apresentado no primeiro capítulo, mais do que indicar a possibilidade de estarem fisicamente reunidas em um mesmo espaço, a palavra “encontro” aqui analisada, apresenta uma dimensão mais abrangente, que ultrapassa a dimensão física. Constitui-se em um elemento simbólico da troca e da reciprocidade, mediando aquela convivência entre mulheres, companheiras, como pares. As relações, as ações e práticas ali compartilhadas inscrita em pensamentos e sentimentos ali tecidos, por entre linhas e pontos do bordado e da vida, vão (re)constituindo e (trans)formando a história da Associação e delas mesmas, daquelas mulheres, individualmente (THOMPSON, 1981).

Lembrando a narrativa de uma das entrevistadas, na maioria das vezes e para quase todas as associadas, aquela convivência só ocorre nas reuniões semanais, pois não

há para muitas delas, o hábito de irem às casas umas das outras ou de estarem juntas em outros espaços e tempos. Isso só acontece com poucas delas e em situações muito específicas, como uma festa de confraternização realizada na casa de uma das associadas, ocorrida no passado. Pelo fato de morarem no mesmo bairro e de serem católicas em número significativo, algumas vezes, parte delas costumam também estar juntas em atividades da igreja ou durante as missas, como Rosa e Ione relatam:

“Os encdntrds acdntecer na igreja, na feira. Mas a raidria das vezes é na igreja. O raidr cdntatd cdr as pessdas dd grupd é lá nd grupd resrd. Nd bairrd nãd cdnheçd ruita gente, pdis nãd said, ner cdnversd ruitd cdr vizinhds.”(Ddra - entrevista er 25/06/2008).

“Às vezes, nd ddringd na igreja eu vejd alguras. Eu fui à casa de ura, ura vez, pdrque teve ur churrascd lá e aí, a gente fdi. Mas a cdisa rais difícil que ter é issd: eu ir a casa delas e elas irer lá er casa. Achd que é pdr causa dd terpd resrd. É tudd cdrreria.” (Idne - entrevista er 18/06/2008).

As horas vividas semanalmente por aquelas mulheres assumem, portanto, um importante significado por serem momentos coletivos diferenciados de sua rotina no lar, pois ali são outras suas práticas e relações sociais. Essas situações que elas vivem e experienciam juntas nos encontros semanais contém as descobertas que essa vivência enseja e se constituem em processos existenciais e educativos que, não raro, lhes permitem sentir e pensar suas vidas e a si mesmas de uma outra forma, como nos revela uma das associadas, ainda que uma e outra delas se diferenciem nas formas como vivenciam isso. A esse respeito, Carmem observa:

“Olha, eu gdstd rais de tá lá dentrd dd grupd. Pdrque vdcê estandd ali cdnvivendd cdr pessdas diferentes cdr idéias diferentes, vdcê esquece ds seus prdbleras de dentrd de casa, vdcê esquece que ter ur rundd que vdcê ter pra resdlver e passa rdrentds cdrpletarente diferentes. Mesrd que vdcê vai ali e nãd faz nada, ras só de vdcê estar ali cdnversandd cdr aquelas pessdas é ruitd gdstdsd! (Carrer - entrevista er 04/06/2008).”

Tendo por suposto que existe uma pedagogia do encontro, da experiência do estar junto, bordando, conversando, tecendo relações de troca, de dádiva, de fratria, volto à discussão de Simmel (1983:164-180) sobre a sociabilidade. O autor a considera como a fdrra lúdica da sdciaçãd/interaçãd sendo esta última constituída por todos os interesses, impulsos, propósitos, estados psíquicos, desejos, enfim, todos os conteúdos

das interações sociais que fazem com que as pessoas interajam e convivam, formando um coletivo, uma sociedade105. Defende, ainda, o autor, que a sociabilidade é gestada a

partir das múltiplas combinações presentes nessa interação, mas de forma muito peculiar, pois,

o impulso de sociabilidade extrai das realidades da vida social o puro processo da sociação como valor apreciado e através disso, constitui a sociabilidade no sentido estrito da palavra. [...] Na pureza de suas manifestações a sociabilidade não tem propósitos, objetivos, nem conteúdo, nem resultados exteriores, ela depende inteiramente das personalidades entre as quais ocorre. Seu alvo não é nada além do sucesso no momento sociável e, quando muito, da lembrança dele. Em consequência disso, as condições e os resultados do processo de sociabilidade são exclusivamente as pessoas que se encontram numa reunião social (SIMMEL, 1983:170)

De outra parte, as Mulheres do Bethânia, ao participarem e conviverem num ambiente em que compartilham experiências comuns se enredam em maneiras de agir socialmente aprovadas pelo grupo, de forma a interferir no convívio entre elas, dando forma à sociação/interação que vai sendo estabelecida. Trata-se de um jogo social, no qual ações, tatos sociais106 e estratégias de relacionamento vão sendo disponibilizadas,

permitindo que os laços entre elas sejam construídos, reforçados e ganhem vida própria. Nesse sentido, a sociabilidade diz do sentimento delas de estarem interagindo e da satisfação que essa interação proporciona às integrantes do grupo. Essa satisfação pode ser verificada, também, em algumas falas daquelas mulheres sobre mudanças percebidas, depois que ingressaram grupo. Assim elas disseram:

-“ Muddu ruitd, fiquei rais alegre e bdnita;” - “Cdnheci ndvas cdlegas;”

-“Percebi que pdssd fazer algd que re tdrna útil ads dutrds;” -“ Muddu a rinha raneira de ser;”

-“Minha vida teve dutrd sentidd, er tudd ficd a vdntade;” -“ Parece que re libertd quandd eu estdu aqui;”

-“ Gdstd de participar;”

-“ Said de casa, dcupd d terpd e er casa eu ficd ruitd sdzinha.

105

Para Simmel a sociedade é um permanente vir a ser, pois só existe a partir da interação entre as pessoas. Portanto, um indivíduo só está em sociedade se está com um outro indivíduo, está para um outro indivíduo, está contra um outro indivíduo.

106

Trata-se de um termo utilizado por Simmel e, como bem analisa Alcântara Junior (2005), o termo refere-se a um conjunto de maneiras, trejeitos socialmente sancionados, prestando-se à efetivação das conexões, das interações e relações sociais, que permitem aglutinar os indivíduos em torno de indeterminados interesses motivacionais. Simmel, ainda aponta que o tato social cumpre uma função reguladora quanto aos impulsos do indivíduo, impedindo-o de exibir sua singularidade e peculiaridade de forma exacerbada e de manifestar algum interesse egoísta imediato, traçando seus limites de atuação. (2003:170)

Benzer Belgeler