3. KOLEKTİF BELLEK MEKÂNLARI VE BELLEK
3.3. BÖLÜM SONUCU
Ao visitar Washington, no auge da crise das Malvinas, Figueiredo repetidas vezes alertou para o potencial desastroso de um colapso do regime de Buenos Aires, cenário que, nos cálculos de militares e diplomatas brasileiros, poderia prejudicar a transição política do Brasil. O primeiro alerta nesse sentido foi feito ao secretário de Estado, Alexander Haig, em uma conversa na Blair House pouco após Figueiredo chegar à capital americana. A mensagem foi reforçada, em seguida, na conversa com Reagan no Salão Oval da Casa Branca125.
Aos americanos, o Brasil afirmava que a “força desproporcional” que vinha sendo empregada pelos ingleses trazia o risco de uma derrota “humilhante” da Argentina e, mais ainda, da implosão do regime de Buenos Aires. Este cenário, calculava o governo brasileiro, só poderia ter dois desfechos. O primeiro era uma saída “à Kerenski”, na qual o poder seria tomado temporariamente pelos peronistas aliados aos comunistas, com o segundo grupo conquistando, posteriormente, a hegemonia sobre o sistema político; o segundo, um “autogolpe” – Figueiredo usou o eufemismo “ruptura da hierarquia e disciplina militar” – por parte de setores mais radicais entre os generais argentinos, que aprofundariam o nacionalismo do regime. Em ambos os casos, argumentava o visitante brasileiro a Reagan e Haig, o resultado seria que a Argentina acabaria “perdida” para o bloco comunista, pois, mesmo no caso do poder ser tomado pelos mais radicais entre os generais argentinos, Buenos Aires, “no exercício do seu sentido de sobrevivência”, recorreria à URSS em busca de ajuda. “A ideologia tem força menor que a nacionalidade, e esse é um fato que certamente impeliria a Argentina a solicitar esse apoio”126, afirmou o presidente brasileiro. O que era uma crise dentro do Ocidente, assim, ganharia os contornos da disputa Leste-Oeste.
Diziam as notas consultadas pelo presidente Figueiredo para a conversa com Reagan: Uma derrota ou uma humilhação militar desestabilizaria o regime argentino, podendo ocorrer:
a) um avanço do peronismo apoiado pelos comunistas; ou b) um processo de deterioração da hierarquia e disciplina
militar, levando à ascensão de elementos extremadamente nacionalistas.
(…) Ambas as possibilidades abrem caminhos para a União Soviética: a) no primeiro caso, pelo relançamento do comunismo no plano interno;
b) no segundo caso, pelo fato de que um regime militar acuado teria que buscar apoio externo e a URSS seria um óbvio “pescador em águas turvas”. A ideologia
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Viagem do presidente aos EUA. Ultrassecreto. Arquivo Nacional, Acervo Conselho Nacional de Segurança.
AN BSB. No 8.0 PSN.EST47
é menos forte que o sentimento nacionalista127.
Na conversa a sós com Reagan, o presidente brasileiro reforçou: “Não poderemos querer a desestabilização da Argentina, pois em seguida vem os peronistas e, depois, os comunistas”. O sujeito oculto na primeira pessoa do plural indicava claramente que, para Figueiredo, também era do interesse dos EUA evitar uma situação caótica na política argentina que levasse à ascensão de forças filossoviéticas. Em seguida, o presidente brasileiro disse ao anfitrião que “ninguém quer que a Argentina vire um Vietnã da América do Sul”, pois “a única a ganhar (nessa situação) seria a União Soviética”. Figueiredo alardeou ainda sobre o risco de “uma Cuba, só que muito maior” na fronteira com o Brasil, no caso da aliança peronista-comunista prevalecer, ou “um Irã”, se a Argentina seguisse pela via nacionalista aliada à URSS128. “(Ao Brasil e aos EUA) interessa uma Argentina próspera; a desestabilização do governo argentino será um desastre”, dissera na conversa Haig. O secretário de Estado lembrou-lhe da estreita relação que Washington vinha mantendo com a junta militar argentina até o início da guerra e da “convicção (americana) de que as forças que vêm preservando a liberdade sejam preservadas”, uma alusão ao apoio dos EUA à ditadura de Buenos Aires na luta contra a subversão na América Latina.
Cabe questionar as razões por trás de tamanha ênfase de Figueiredo, nas conversas com Reagan e Haig, sobre os riscos de “perder a Argentina do Ocidente”. Certamente o presidente brasileiro entendia que os EUA eram o único ator capaz de moderar a resposta militar britânica nas Malvinas e, principalmente, evitar que Londres atacasse o território continental da Argentina, algo que elevaria tremendamente a dimensão da crise sul- americana. Figueiredo alertou que uma violação desse tipo uniria a América Latina contra a Europa – e, embora não tenha mencionado explicitamente, os EUA. Ao usar a cartada do confronto bipolar, falando em Cuba, Vietnã, Irã e URSS, o presidente tentava seduzir o governo Reagan, envolvido em uma cruzada anticomunista global, dos riscos de um desfecho extremado à crise no arquipélago gelado. O Brasil não seria o primeiro nem o último a usar o vocabulário da Guerra Fria para tentar mobilizar os EUA em causas que eram de seu interesse nacional. No entanto, essa estratégia diante de Washington fundava-se num temor real acerca
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Ibdem.
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É curioso o fato de Figueiredo usar como exemplo o Irã, palco de uma revolução islâmica que se voltara tanto contra os EUA quanto contra o bloco soviético. Cabe lembrar, porém, que em 1982 a República Islâmica tinha parcos três anos de vida, embora já tivessem ocorrido o caso da invasão da embaixada americana e o início da guerra com o Iraque de Saddam Hussein, aliado do Brasil.
dos efeitos que teriam, sobre a transição política brasileira, o desmoronamento do Estado argentino, com a emergência de um poder ainda mais radical, fosse de esquerda ou de direita.
A percepção de que a crise argentina poderia, finalmente, transbordar suas fronteiras e contaminar a política brasileira não estava restrita aos círculo de generais que preparava sua saída do Palácio do Planalto. O próprio Guerreiro adotava essa visão. Posteriormente, falando de modo mais aberto sobre esse cenário, o chanceler de Figueiredo disse ter temido uma tomada do poder pela esquerda na Argentina, a qual consolidaria um “foco de provocação muito grande” e tentaria “intervir” no Brasil, que passava por um momento de delicada transição doméstica. Disse o ministro:
Havia o risco de uma catástrofe na Argentina levar ao poder um governo de esquerda, que complicaria a transição no Brasil. Nós poderíamos ter, na Argentina, um período de anarquia, ou um período em que as forças de esquerda pudessem tomar o poder e criar um foco de provocação muito grande. Se se estabelecesse uma liderança em qualquer país vizinho nosso, tipo marxista, essa liderança ia tentar intervir nos vizinhos, inclusive no Brasil, como nós temos visto em todos os lugares onde há esse tipo de revolução. Ia nos dar uma chateação muito grande. Não ia ter êxito, mas ia nos provocar enormemente, com efeitos internos e externos num momento em que operávamos uma delicada transição129.
Contudo, o que Guerreiro omitiu em seu relato foi que o Brasil, sob este aspecto, errou grosseiramente seus cálculos. Com a Guerra das Malvinas, a Argentina de fato acabou humilhada e a “desestabilização” que se sucedeu levou ao colapso do regime militar, como previra o governo Figueiredo. Mas, no lugar da junta que governava desde 1976, não surgiu um regime peronista-comunista nem uma ditadura “extremadamente nacionalista” – os dois fantasmas que assombraram Brasília naqueles meses de tensão de 1982. Ao contrário: uma transição controlada iniciou-se naquele mesmo ano, sob o comando de Reynaldo Bignone, processo que culminou na vitória das forças democráticas e moderadas de Alfonsín, que colocariam o estreitamento das relações com o Brasil no centro de sua estratégia internacional.
A UCR – e não os peronistas130 – assumiu controle do Executivo, em 1983, e da maioria do Legislativo Federal, em 1986, e nas principais Assembleias provinciais. O peronismo consolidou-se como maior força opositora, com 35% das cadeiras do Parlamento,
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Depoimento de Guerreiro ao CPDOC-FGV. Pág. 282
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Ítalo Luder, o candidato do Partido Justicialista (peronista) obteve 40% dos votos, contra quase 52% de Alfonsín.
mas passou por um processo interno de moderação, com a chamada “corrente renovadora”. Em 1982, a guerra suja argentina já havia praticamente dizimado os montoneros e o restante da extrema esquerda, e uma ascensão súbita ao poder que contaminasse a transição brasileira era altamente improvável – a não ser nos cenários de guerra e dentro da cabeça de autoridades do regime militar brasileiro. Não à toa, as urnas colocaram os radicais praticamente à margem da política argentina; a ultradireita, do outro lado, longe de conseguir dar um golpe, passou a realizar atentados pontuais em resposta à abertura de processos contra os militares acusados de violação dos direitos humanos. Com a democracia e Alfonsín na Argentina, preparava-se o terreno para uma aproximação efetiva e inédita com o Brasil. Mas, antes, era preciso os militares de 1964 deixarem o poder.