O Direito do Trabalho foi influenciado pelo momento histórico em que emergiu. Surgiu como meio de fixação de controles para o sistema capitalista deflagrado com a Revolução Industrial, no século XVIII, na Inglaterra, sendo um produto do capitalismo.
O Direito do Trabalho é, pois, produto cultural do século XIX e das transformações econômico-sociais e políticas ali vivenciadas transformações todas que colocam a relação de trabalho subordinado como núcleo motor do processo produtivo característico daquela sociedade.19
As condições de trabalho eram aviltantes: baixos salários, jornadas de trabalho extenuantes, havia total falta de higiene e segurança no trabalho. Em algumas regiões industriais da Inglaterra, os menores de idade eram entregues aos empregadores em troca de alimentação para a família, constituindo uma forma de tráfico, muitas vezes organizada pelos próprios órgãos públicos, atendendo a um dispositivo legal chamado de Lei dos Pobres. Crianças com até 5 anos trabalhavam regularmente. Mulheres e crianças laboravam em igualdade de condições com os homens adultos. Formou-se a classe dos proletários, os trabalhadores, que não tinham oportunidade para o desenvolvimento intelectual e habitavam em condições precárias, com família numerosa e má alimentação.
A existência de tal ramo especializado do Direito supõe a presença de elementos socioeconômicos, políticos e culturais que somente
despontaram, de forma significativa e conjugada, com o advento e evolução capitalistas.
Porém o Direito do Trabalho não apenas serviu ao sistema econômico deflagrado com a Revolução Industrial, no século XVIII, na Inglaterra; na verdade, ele fixou controles para esse sistema, conferiu-lhe certa medida de civilidade, inclusive buscando eliminar as formas mais perversas de utilização da força de trabalho pela economia.20
Tentando amenizar essas péssimas condições de trabalho, bem como a desigualdade existente entre os detentores da força de trabalho e os dos meios de produção, surge o Direito do Trabalho e o Direito Processual do Trabalho que, por meio de concessões buscaram proteger empregado em detrimento do empregador, tratando-os de forma desigual. Objetivava, com a desigualdade de tratamento, beneficiar o hipossuficiente econômico, igualando os desiguais.
A chamada “questão operária” produziu várias tentativas de solução e, por fim, fez surgir uma nova especialidade na Ciência do Direito: o Direito do Trabalho.21
Pautado nesse protecionismo exacerbado ao hipossuficiente, foram criados alguns institutos processuais trabalhistas, dentre os quais, o jus postulandipessoal das partes. Inúmeros são os países onde o jus postulandi é sobejamente aplicado.
A Espanha, pelo Real Decreto Legislativo N° 1568/80, no art. 10, assegura o direito de postulação, pela parte, somente lhe exigindo o patrocínio por advogado ante o Tribunal Supremo e o Tribunal Central do Trabalho. Já o art. 470 do Código de Trabalho da República Dominicana também assegura o jus postulandi pela parte.
20 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho, 4ª ed., LTr, São Paulo, 2005, p.81. 21Zimmermann Neto, Carlos F. Direito do Trabalho. São Paulo. Editora Saraiva, 2005, (Coleção curso
A Lei 18.345, da Argentina, legitima o exercício do direito de postular sozinho, no art. 35, impondo aos empregadores que, sendo pessoas jurídicas, sejam representados por diretores, sócios, gerentes e altos empregados.
Pelo art. 691 da Lei do Contrato de Trabalho do México, também se assegura, em meio ao exame da capacidade postulatória, o exercício do direito de postular em juízo. Sua prática é observada, também, na Europa e nos Estados Unidos da América do Norte, notadamente nos conflitos de interesse do consumidor. Oportuno destacar o ensinamento do professor Sérgio Pinto Martins:
É certo que em alguns países não há necessidade da presença de advogado para se postular em juízo, como nos Conselhos de Prud’hommes,
visando com isso celeridade e maior informalidade.22
A capacidade postulatória, outorgada as partes no processo trabalhista, tem sua origem no Estado Novo, quando os órgãos da justiça do trabalho integravam o poder executivo e concebia-se um mero procedimento administrativo, marcado pela simplicidade e oralidade, para compor os conflitos individuais entre o capital e o trabalho.
Assim, nasce na jurisdição trabalhista a possibilidade de postulação direta pelo empregador ou empregado, que foi catalogada de maneira ampla e irrestrita pelo legislador ordinário, possibilitando, inclusive, a impetração de recursos perante Tribunais Superiores da Justiça do Trabalho, com exceção de recurso extraordinário perante o Supremo Tribunal Federal ou recurso especial junto ao Superior Tribunal de Justiça – na hipótese de conflito de competência. Frise-se que, após a EC n°. 45/2004, que ampliou a competência material da Justiça do Trabalho para processar
22 MARTINS, Sérgio Pinto. Direito Processual do Trabalho. 26ª edição São Paulo, Atlas, 2006
e julgar qualquer demanda envolvendo relação de trabalho (Art. 114 da CF/88), o jus
postulandi da parte é restrito às demandas que envolvam relação de emprego.
O jus postulandi não é restrito ao processo do trabalho, estando previsto, para situações especiais, em legislação esparsa Dessa maneira, o legislador pátrio consagrou outras hipóteses em que também é dispensável a postulação por advogado.
Existe a possibilidade concedida ao credor nas Ações de Alimentos, art. 2º da Lei n°. 5.478/68, in verbis:
O credor, pessoalmente, ou por intermédio de advogado, dirigir-se-á ao juiz competente, qualificando-se, e exporá suas necessidades, provando, apenas, o parentesco ou a obrigação de alimentar do devedor, indicando seu nome e sobrenome, residência ou local de trabalho, profissão e naturalidade, quanto ganha aproximadamente ou os recursos de que dispõe.
Quando o cidadão busca retificações no Registro Civil, art. 109 da Lei n°. 6.015/73, in verbis:
Quem pretender que se restaure, supra ou retifique assentamento no Registro Civil, requererá, em petição fundamentada e instruída com documentos ou com indicação de testemunhas, que o Juiz o ordene, ouvido o órgão do Ministério Público e os interessados, no prazo de cinco dias, que correrá em cartório.
É também assegurado às partes no direito processual penal, facultando-se a qualquer pessoa do povo requerer hábeas corpus, liberatório ou preventivo, em próprio favor ou de terceiros (art. 654, do CPC).
O STF, julgando matéria penal, habeas corpus, afirmou que a CF não teria revogado as normas legais que autorizavam expressamente os atos processuais das partes. (STF, TP, HC 67.390-2, DJ, 6.4.90).23
23CARRION, Valentin. Comentários à Consolidação das Leis do Trabalho. 30ª ed. São Paulo. Editora
No regime da Lei 9.099/95, lei dos juizados Especiais Cíveis e Criminais, nas causas com o valor de até vinte salários mínimos, as partes têm capacidade postulatória, podendo comparecer pessoalmente no processo, sem que estejam representadas por advogados, contudo nas causas acima daquele valor, a assistência é obrigatória,conforme o disposto no art. 9° da referida lei.
Existe, ainda, a possibilidade de a parte rogar em causa própria, quando não houver advogado habilitado na comarca ou, havendo, o causídico venha a recusar o patrocínio ou estiver impedido, conforme o previsto no art. 36 do Código de Processo Civil, in verbis:
A parte será representada em juízo por advogado legalmente habilitado. Ser-lhe-á lícito, no entanto, postular em causa própria, quando tiver habilitação legal ou, não a tendo, no caso de falta de advogado no lugar ou recusa ou impedimento dos que houver.
Atualmente, porém, tal possibilidade é de difícil aplicabilidade, tendo em vista ser incomum encontrar comarca em que não tenha advogado legalmente habilitado para os atos profissionais.
Por último, consoante o disposto no art.791 da Consolidação das Leis do Trabalho, temos a aplicação do instituto no processo do trabalho, in verbis:
Art 791 - Os empregados e os empregadores poderão reclamar pessoalmente perante a Justiça do Trabalho e acompanhar as suas reclamações até o final.
A instituição do jus postulandi, no processo trabalhista, foi resultado da preocupação do legislador com os entraves que a situação econômica dos trabalhadores, hipossuficientes economicamente na relação laboral, e os altos custos processuais ocasionam ao acesso à justiça. Tratou-se de conferir um maior grau de oralidade ao processo trabalhista eliminando a obrigatoriedade de
representação por advogado, de modo a reduzir os custos processuais despendidos, estendendo o acesso à justiça aos menos favorecidos.
Dessa forma, o jus postulandi das partes tem como fundamento o próprio fim da Justiça do Trabalho, qual seja: ofertar uma prestação jurisdicional menos formal e onerosa, mais célere e eficaz ao trabalhador.
O instituo pode ser definido como sendo a faculdade de demandar ou defender-se sem intermediação de advogado, ou seja, poderão as partes requer em juízo e acompanhar até o final, suas reclamações na Justiça do Trabalho, independentemente de terem constituído procurador legalmente habilitado.
INTIMAÇÃO FEITA DIRETAMENTE À PARTE QUANDO ESTA POSSUI ADVOGADO CONSTITUÍDO. CONSEQUÊNCIAS. O jus postulandi é uma faculdade das partes, sendo que na hipótese de possuírem advogados constituídos nos autos demonstra que não quiseram valer-se da referida faculdade legal. Havendo advogado constituído nos autos, com endereço correto, as intimações devem a ele ser dirigidas, pois só assim se resguarda a ampla defesa, que é direito fundamental de aplicação imediata (artigo 5º LV e § 1º, da Constituição Federal), uma vez que não é razoável que a parte seja chamada à prática de ato processual, que dela não é exclusivo, quando constituiu advogado para que representasse os seus interesses. Desta forma é nula a notificação dirigida apenas à própria parte, salvo as exceções legais (Código de Processo Civil, artigos 343, § 1º e 267, § 1º), que obrigam, contudo, simultânea notificação ao advogado. (TRT 23ª Região. AP-0204/96, Ac. TP n.º 0872/96, 1ª JCJ de Cuiabá/MT, Relator Juiz Roberto Benatar, 27/06/96, página 10)."
Esta faculdade, conforme mencionado alhures, constitui exceção à regra geral do Processo Civil, segundo a qual, as partes, em juízo, não podem requerer pessoalmente seus direitos, devendo sempre fazê-lo através de advogado.
Urge, novamente, ressaltar que o jus postulandi e a capacidade postulatória possuem noções diferentes. A capacidade postulatória é atributo do sujeito, já o jus
postulandi é o exercício de direito que este atributo possibilita.
Jus Postulandi pessoal, simples efeito da capacidade postulatória, não é uma peculiaridade legal, em si. Esta se traduz no reconhecimento da capacidade de postular em juízo a quem não está legalmente habilitado ao exercício da advocacia, quebrando o principio geral da tríplice manifestação
de capacidade, em processo (capacidade ad processum, capacidade ad causam e capacidade postulatória), esta ultima só pode ser reconhecida ao advogado, ou seja, ao Bacharel em direito regularmente escrito na Ordem dos Advogados do Brasil, de modo a facultar-lhe o exercício da profissão. 24
Objetiva o jus postulandi solucionar o problema do acesso à Justiça, posto permitir que o cidadão comum ingresse em juízo sem ter que arcar com despesas de honorários advocatícios. Assim sendo, é para parte uma faculdade fazer-se acompanhar por um advogado.
No que pertine ao Processo do Trabalho, o direito de demandar sem necessidade de advogados habilitados está ínsito no art. 791 da CLT. Para o dispositivo em questão é imprescindível uma atenta reanálise, em face do desequilíbrio processual ocasionado por eventuais despreparos técnicos e intelectuais principalmente do empregado com menor nível de instrução, o que, aliado à habitual complexidade do processo trabalhista, poderá comprometer seriamente a eficácia de sua litigância.
Outra questão, ainda, como conseqüência desse dispositivo, é que não há na justiça obreira condenação em honorários advocatícios decorrentes da sucumbência tendo em vista não ser obrigatória a presença do advogado, salvo quando a parte for beneficiária da assistência judiciária prestada pelo sindicato, entendimento esboçado no Enunciado 219 do TST, ratificado, posteriormente, pelo Enunciado 329 do TST.
Assim, evita-se que esta parte beneficiária venha a arcar com o ônus oriundo da atuação de seu defensor, mas por outro lado presta-se uma tutela incompleta e inadequada àquele que foi vencedor na demanda sem, contudo ter demonstrado
24 RODRIGUES PINTO, José Augusto, Processo Trabalhista de Conhecimento, 4º ed, São Paulo:
penosa situação econômica, visto que parcela de seus direitos deverá ser repassada ao advogado, conforme estipulação contratual, caso queira ser por ele representado.