DE INTERVENÇÃO.
Durante a década de noventa do século XX, em função de mudanças teóricas advindas principalmente da linguística, passou-se a ter outra visão do ensino e da aprendizagem, fundamentada em uma concepção de língua e de linguagem como instrumento de comunicação e linguagem como forma de interação.
Tais concepções apresentam-se no contexto educacional, voltando-se aos papéis do professor e do aluno em sala de aula. A esse respeito, Geraldi (1997) postula que, antes de qualquer atividade em sala de aula, é necessário considerar que toda e qualquer metodologia de ensino relaciona-se a uma opção política que envolve teorias de compreensão e de interpretação da realidade com mecanismos usados em sala de aula.
Houve um aumento muito significativo na quantidade de pesquisas desenvolvidas nessa última década, demonstrando uma preocupação com o ensino e a aprendizagem. Contudo, ainda se percebe pouco reflexo nas salas de aula, como a visão da sala de aula como ambiente de pesquisa, um laboratório, onde podemos refletir sobre a prática.
Conforme Bortoni-Ricardo (2008):
O professor pesquisador não se vê apenas como um usuário de conhecimento produzido por outros pesquisadores, mas se propõe também a produzir conhecimentos sobre seus problemas profissionais, de forma a melhorar sua prática. O que distingue um professor pesquisador dos demais professores é seu compromisso de refletir sobre a própria prática, buscando reforçar e desenvolver aspectos positivos e superar as próprias deficiências. Para isso ele se mantém aberto a novas idéias e estratégias. (BORTONI-RICARDO, 2008, p. 46).
Refletindo sobre a prática de sala de aula e observando o comportamento e as reações dos alunos diante de sua língua, o presente trabalho apresenta uma intervenção pedagógica de base teórico-prático apoiando-se na pesquisa qualitativa, que, em geral, não está preocupada com a quantidade do corpus a ser utilizado.
A princípio, o que a caracteriza é a opção pela interpretação do fenômeno a ser observado, predominando a capacidade de análise dos dados, de cunho subjetivo. De acordo com Bortoni-Ricardo (2011, p. 58), “a pesquisa qualitativa reconhece que o olho do pesquisador já é uma espécie de filtro no processo de interpretação da realidade com a qual se defronta”. O ambiente natural é a fonte direta para coleta de dados e o pesquisador é o instrumento- chave para descrever a realidade investigada.
Durante a investigação foi trabalhado o método indutivo, que, conforme Gil (2008) é aquele em que se utiliza a indução, processo mental em que, partindo-se de dados particulares, devidamente constatados, pode-se inferir uma verdade geral ou universal não contida nas partes examinadas. O processo e seu significado são os focos principais de abordagem.
A pesquisa se caracteriza como pesquisa-ação da qual a professora- pesquisadora participou com ações diretas em sala de aula, selecionando textos e materiais didáticos que refletiram tanto no aluno como em sua própria prática. Acerca disso, Miller (2013, p. 109) afirma “essas práticas evidenciam a força com que se estabeleceu a presença da reflexão e da pesquisa do professor, do futuro professor e do professor-formador”.
Sendo assim, esse tipo de pesquisa tem uma base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.
Para realização desse trabalho, o lócus escolhido foi constituído por 33 alunos do III e IV ciclo da Educação de Jovens e Adultos (EJA), ao que corresponde o 9º Ano do Ensino Fundamental II, funcionando numa escola pública, localizada no Seridó Paraibano. Pensou-se nesse público, em virtude de tamanha resistência por parte dos alunos em assumir um papel mais ativo em sala de aula, e, por inúmeras exclusões que esse público sofre na sociedade por questões políticas, sociais e educacionais, como também a motivação de verificar até que ponto o professor pode promover ações que intervenham nas habilidades de leitura e escrita em sala de aula.
A fim de responder aos questionamentos apontados inicialmente neste trabalho, pensou-se, como instrumento de pesquisa, a aplicação de uma
sequência de atividades com o gênero jornalístico “entrevista” e a produção de um diário de bordo, ferramenta a qual proporcionou aos alunos praticar a escrita e a compreensão das leituras no decorrer do semestre 2016.1.
Na medida em que o trabalho ia sendo desenvolvido, constatou-se que os alunos não estavam correspondendo às expectativas ao que diz respeito às reflexões escritas que deveriam produzir nos diários de bordo, pois a intenção de produzir o diário objetivava que os alunos percebessem aplicabilidade e a importância do domínio das práticas sociais de linguagem por meio do gênero estudado que estavam aprendendo em sala de aula.
Veremos na análise dos dados que os alunos até conseguiram fazer algumas descrições das aulas, mas ficou muito no campo da “cópia” do que a professora falava. Por essa razão, pensou-se em mudar de estratégia em relação ao gênero trabalhado na intenção de alcançar o objetivo inicial: fazer com que o aluno refletisse sobre a prática de linguagem e suas experiências fora da sala de aula, por meio de um gênero textual. Assim, pensamos numa proposta com o gênero “memória literária”. Pra tanto, foi proposta mais uma sequência de atividades, sendo dessa vez, mais curta: com apenas seis aulas.
Sendo assim, foram feitas seleções de textos que contemplassem temas dos quais os alunos sabiam fazer alguma inferência, retirados de revistas e internet que faziam parte do contexto que o aluno tinha conhecimento prévio, como por exemplo, leitura do gênero entrevista com o tema “trabalho e emprego”, que possibilitou uma prática da oralidade e o contato com outros textos escritos jornalísticos (notícia, reportagem, entrevistas) que apresentaram assuntos dos quais os alunos conseguiam discutir, refletir e repensá-los nas práticas sociais de linguagem presente.
Para promover a leitura com o gênero “memória literária” foram apresentados alguns textos da “Olimpíada de Língua Portuguesa: escrevendo o futuro” – OLPEF, de 2012, objetivando envolver o alunado no citado gênero e reconhecer suas características e sua função social. Assim, foram lidas e discutidas algumas memórias literárias finalistas referentes a 2012 e 2014. Assim, os alunos puderam ter modelos de textos, os quais serviram de base para a elaboração das suas produções.
4.1 Sequência de atividades com o gênero textual “entrevista”
A sequência de atividades tem o objetivo de apresentar um roteiro para o trabalho com o gênero textual “entrevista”, que foi desenvolvido com os alunos do III e IV ciclo da Educação de Jovens e Adultos. Para tanto, se utilizou dos estudos do letramento para destacar conhecimentos que refletissem no processo da aprendizagem, e os níveis de conhecimentos de cada cidadão, que são essenciais no processo educativo do jovem/adulto.
Sendo assim, sabemos que a sala de aula constitui-se em um lócus de atuação extremamente complexo. Existe, nela, uma diversidade de fatores (internos e externos, cognitivos e afetivos, humanos e materiais) a interferir em sua prática, que exigem do professor uma constante reflexão acerca de sua prática pedagógica, para que seja avaliada sua adequação aos objetivos de ensino e aprendizagem por ele pretendidos.
Para isso, apresentamos ao aluno a definição do gênero textual e seu meio de circulação e suporte. Sob a base teórica de ANTUNES (2009),FERRAZ (2011), MARCUSCHI (2008), PCN EF(1998), entre outros que defendem que o estudo da língua vai muito além da análise metalinguística. Foram feitas perguntas investigativas a respeito do gênero para nortear os alunos e expor algumas imagens, destacando várias profissões e depois, solicitamos que os discentes elaborassem um roteiro para fazer a entrevista com um colega de sala.
Após essa atividade, realizamos uma leitura/discussão de uma entrevista cujo tema foi “o trabalho dignifica o ser humano”, com o médico Ronald Selle Wolff, retirada do “Jornal Mundo Jovem”. Após isso, exibimos um vídeo com uma entrevista com o professor e escritor Carlos Prates sobre “a importância da motivação e da criatividade na carreira profissional”.
O tema “trabalho” nessa sequência é bastante pertinente por falar de questões do trabalho que faz parte do contexto que o aluno já tenha alguma noção ou pretensão, que possibilita o aluno a fazer inferências e refletir sobre o tema. Para trabalhar com a escrita, foram solicitados aos alunos a produção e as entrevistas e/a reelaboração e exposição oral.
Gênero Textual – a entrevista e sua função social
A entrevista é um tipo de texto que tem a utilidade de informar às pessoas sobre algum acontecimento social ou fazer com que o público conheça sobre as ideias e opiniões da pessoa que é entrevistada. Estruturalmente, a entrevista compõe-se dos seguintes elementos:
Manchete ou título – Essa é uma parte que deverá despertar interesse no interlocutor envolvido, podendo ser uma frase criativa ou pergunta interessante.
Apresentação – É o momento em que se apresentam os pontos de maior relevância da entrevista, como também se destacam o perfil do entrevistado, sua experiência profissional e seu domínio em relação ao assunto abordado.
Perguntas e respostas – Basicamente, é a entrevista propriamente dita, na qual são retratadas as falas de cada um dos envolvidos.