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No presente estudo nos restringimos ao Largo Nossa Senhora do Ó, cujo principal bem material é a Capela. Mas que por si só não tem representatividade se não analisada em conjunto com seu entorno e contexto social. Ao apropriar-se do bem cultural, através do uso e de uma relação afetiva, a sociedade pode contribuir para a continuidade dos seus aspectos culturais e ambientais. Abranger diferentes protagonistas para pensar como o lugar foi vivenciado no passado e é atualmente foi uma das ferramentas que conferiram sentido legítimo à pesquisa.

A cultura manifesta singularidades que abarcam indiscutível valor humanístico. Quando se preserva legalmente e na prática, conserva-se a memória do que fomos e do que somos: a identidade. O patrimônio é riqueza comum que herdamos como cidadãos e que se vai transmitindo de geração a geração. Uma sociedade que busca o entendimento e o registro de sua evolução cultural deve preservar recursos e exigir métodos de intervenção capazes de respeitar os inúmeros elementos que compõem o seu Patrimônio Cultural. Relacionar os usos sociais desses bens no presente, conservando a produção cultural do passado é um ato de manter testemunhos que possibilitam à sociedade reconhecer e valorizar sua identidade, estabelecendo referenciais para a construção de seu futuro através da apropriação.

O Patrimônio Cultural é a soma dos bens culturais de um povo, portanto, os sentimentos que ele evoca são transcendentes, ao mesmo tempo em que sua materialidade povoa o cotidiano e referencia fortemente a vida das pessoas. Não podemos perder de vista, no entanto, que o conceito e seu tratamento, permanecem em constante transformação enquanto construtos culturais. Assim, devemos evitar críticas arbitrárias ao tratamento de outras épocas sem uma contextualização. Deve sempre existir uma postura de reflexão permanente quanto às suas práticas e conceitos. Maffesoli (1996) observa por exemplo, que a arquitetura pós-modernista não se satisfaz mais com variações no academicismo ou com as delícias da linha própria ao estilo moderno. “Em compensação, ela representa como que uma colcha de retalhos sobre a multiplicidade das maneiras, sobre a reunião de elementos heterogêneos, a fim de deixar aparecer todas as potencialidades das matérias utilizadas” (MAFFESOLI, 1996, p. 217).

De acordo com Pereira, a psicologia reforça os aportes da percepção comunicativa quando esclarece os elementos sensoriais e aspectos da experiência estética da seguinte maneira:

O ser humano é um “sistema” aberto em constante intercâmbio consigo próprio (vida interior mental e visceral) e com o mundo ambiental. Isso só é possível graças aos elementos e órgãos que formam o conjunto sensorial (órgãos do sentido, sensibilidade à dor, etc., etc.) e às funções perceptivas. [...] Durante a transmissão de sinais ou símbolos, no trabalho de comunicação, o colorido emocional e a tonalidade afetiva tem fundamental importância (PEREIRA, 1973, p. 108).

Dessa forma, o Largo do Ó se constitui como produção de sentidos consequentes da formação entre sujeitos e ambiente construído a partir da interação entre os mesmos. O patrimônio cumpre um papel além da beleza histórica e estética das técnicas de arquitetura. Gonçalves (2003, p.27) considera que enquanto símbolo, o patrimônio é usado para agir, representar e comunicar. Através da mediação entre seres humanos e passado e presente, o patrimônio é para ser contemplado assim como para representar ideias e valores abstratos, e de certo modo construindo e formando pessoas.

Há relações de interdependência entre o espaço urbano construído e o espaço simbólico. A cidade é percebida e formada pela apreensão de códigos da cidade concreta, mas também de signos projetados sobre ela e que formam a cidade percebida e vivenciada. Portanto na vida cotidiana também está fortemente presente a imagem de uma cidade desejada, de modo que os atores enxerguem e vivam a cidade que ainda não está lá. É o uso futuro que se busca inserir no presente, para formar os lugares no imaginário, de onde junto a outros elementos, os discursos são construídos.

Verificar a tessitura comunicacional do discurso patrimonial através dos interlocutores envolvidos em um acontecimento serviu como ponto de partida para reflexões no sentido de aprimorar a conexão dos processos em questão. Afinal, os sujeitos mudam com o espaço urbano quando compartilham informação, fatos sociais, políticos, históricos e culturais. Castriota observa algumas estratégias de intervenção patrimonial, e dentre elas a reavaliação da gestão do meio ambiente urbano em conjunto com a sociedade:

Antes de qualquer intervenção no tecido vivo da cidade, é muito importante a percepção dos mecanismos criadores de significado em jogo ali: é vital

perceber, acima de tudo, como os moradores e usuários utilizam e valorizam aqueles espaços que constituem o seu dia-a-dia. É necessária, para isso, a criação de mecanismos que permitam a real e efetiva participação dos agentes envolvidos no processo (CASTRIOTA, 2009, p. 91).

Observar o panorama contemporâneo implica perceber que as mudanças dos indivíduos imprimem também variações no envolvimento com a cidade e seu cenário, que podem ser parcialmente captadas em suas narrativas. Os grupos sociais, o ambiente em que se inserem e o patrimônio são agentes em constante diálogo e mutação. Assim, apreender o Projeto de Revitalização do Largo do Ó como referencial empírico foi o primeiro passo para reconhecer o acontecimento como agente e instrumento de análise da sociedade, que cada vez mais se reelabora e promove intensas trocas culturais.

Choay pontua que toda construção pode ser promovida a monumento pelas novas técnicas de comunicação com a função de legitimar a autenticidade a qual doravante se delega seu valor, não importando se tal realidade construída não coincida com as representações midiáticas (CHOAY, 2001, p.22-23). Entretanto, nossas análises apontam para uma abordagem mais ampla, onde a recepção do acontecimento vai além da ótica midiática, por mais força que esta possua. A natureza perturbadora do acontecimento leva em conta outros protagonistas na ordem social, que também são afetados e compõem o quadro. Não existe uma relação de causalidade direta e objetiva entre acontecimento e o papel da mídia. Ela é um dos componentes que contribui em conjunto com outros agentes para a representatividade e significação dos fenômenos experienciados coletivamente. Enfim, é importante estar atento a variedade dos protagonistas que conformam cada situação e os discursos que se fazem possíveis através de um mesmo acontecimento. As narrativas descortinam a complexidade das percepções voltadas ao patrimônio cultural, assim como a transitoriedade e peculiaridade de seus valores em cada contexto. É a leitura de um emaranhado de experiências cotidianas que se sobrepõem e convivem em conjunto.

Benzer Belgeler