Foi proposta às crianças que realizassem uma criação musical sobre os sons do trânsito de Ribeirão Preto. Esta foi a terceira atividade de criação musical feita.
Durante duas aulas trabalhamos forma musical e o exemplo musical levado por mim foi a “Marcha turca” de Mozart. Após as crianças compreenderem a forma dessa obra, senti necessidade de contextualizar e contar um pouco da vida do compositor. Essa seria uma oportunidade de expandir os conhecimentos das crianças sobre o compositor e a música do período clássico e também criar uma maior familiaridade entre a música e as crianças. Contei a vida de Mozart para elas e como ele sempre gostou de criar novas músicas, também pensamos juntos como seriam as cidades daquela época.
Na aula seguinte retomamos a reflexão sobre as diferenças da época de Mozart, com o modo que vivemos atualmente. Durante essa reflexão um carro de som passou pela avenida onde a escola fica situada e atrapalhou a aula. Por conta desse acontecimento começamos a refletir sobre as diferenças do trânsito na época do compositor Mozart e o de hoje em dia em nossa cidade. Nesse momento pensei que seria interessante que criássemos algo baseado no trânsito, o que levaria a um trabalho de conscientização sobre essa problemática e ao mesmo tempo seria uma forma de criar musicalmente.
81 Após essa reflexão as crianças foram até a calçada da escola onde puderam ouvir os sons da Av Dom Pedro I, uma movimentada avenida de Ribeirão Preto, onde a escola está situada.
Figura 4: Av. Dom Pedro I Fonte: Arquivo Pessoal.
De volta à sala de aula pedi que organizassem uma música que reproduzisse os sons da avenida que havíamos ouvido, ou até mesmo de uma situação que acontece durante o trânsito movimentado. Lembrei as crianças dos problemas enfrentados quanto à dificuldade de comunicação que havia ocorrido nas atividades anteriores e as conclusões e algumas soluções que havíamos tirado dessas experiências, de modo que deveriam buscar conversarem e entrarem em um acordo.
Eles se dividiram em dois grupos de 5 crianças e começaram a conversar sobre o que fariam.
O primeiro grupo conseguiu entrar em acordo sobre o que fariam rapidamente. Conversaram e decidiram que iriam assobiar para representar os passarinhos que ficam na praça em frente à escola, fazer um ritmo batendo os lápis representando o barulho da obra que estava
82 sendo realizada na avenida, enquanto outras crianças fariam ruídos com a boca, simulando os carros e as buzinas30
Figura 5: Primeiro grupo apresentando. Fonte: Arquivo Pessoal.
No outro grupo várias crianças fizeram propostas, mas eles não conseguiam entrar em acordo sobre o que fazer. Alicia propôs que eles utilizassem uma música que ela tinha no celular, representando assim o som alto de alguns carros, mas Goku queria fazer ruídos de animais com a boca. O grupo perguntou o que tinha a ver o som de animais com o trânsito e ele respondeu que poderia ser uma invasão dos animais do zoológico à avenida. O grupo não aceitou a ideia dele.
Quando o primeiro grupo começou a ensaiar o ritmo que haviam decidido fazer com o lápis, o grupo com mais dificuldade ficou olhando o que estava sendo feito. Com isso iniciou- se uma discussão entre uma criança do primeiro grupo com outra criança do segundo grupo, pois a criança do primeiro grupo acusou que eles estavam olhando para copiar a ideia do outro grupo. Apaziguei a discussão e tive que intervir até o final da atividade.
O segundo grupo acabou decidindo que não iriam utilizar a música do celular, e sim simular discussões entre motoristas e batidas de carro. Goku iria fazer barulhos de carros freando com a boca e também sirenes de ambulâncias. Criaram um teatro musical31
30Veja esta criação musical na faixa 3 do Cd em anexo. 31 Veja esta criação musical na faixa 4 do Cd em anexo.
83 Figura 6: Crianças batendo as carteiras simulando batidas de carro.
Fonte: Arquivo Pessoal.
Ao terminarem, os grupos foram apresentar o que tinham feito, mas o clima de competição contínuou e eles se provocavam o tempo todo.
No final, fizemos uma roda de conversa e perguntei se em algum momento disse que haveria alguma avaliação sobre a melhor ou pior atividade, ou se disse que seria uma competição. Eles responderam que não.
Então perguntei o porquê de eles estarem competindo:
Anitta: Porque a Kokimoto estava olhando.
Kokimoto: Eu olho o que quiser... o olho é meu... você não manda
nele. DC5
Apaziguei novamente a discussão e perguntei se o fato de um grupo observar o que o outro estava fazendo era motivo para tamanho desentendimento e as meninas que discutiam responderam que sim, mas não souberam justificar o porquê da resposta. O restante das crianças da sala disseram que não era motivo para briga, mas que realmente queriam fazer melhor que o outro grupo, embora não soubessem explicar o motivo. Mesmo após a reflexão conjunta as crianças não souberam explicar o porquê de estarem competindo.
Finalizei dizendo que essas atividades não eram para avaliar ninguém, e que nelas não havia ideias melhores ou piores e sim ideias diferentes umas das outras. As crianças demostraram compreender o que foi dito e conversado.
84 Uma criança ainda comentou:
Davi: Prô, o tempo que a gente ficou batendo boca, poderia ter usado
pra ensaiar mais e deixar melhor. DC5
Embora tenham acontecido desavenças entre um grupo e outro, não houve discussões internas nos grupos, o que não prejudicou a criação feita. Apesar disto, a colocação de Davi foi muito pertinente.