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Este novo modelo de gestão demandou um grande esforço para a criação de um corpo técnico capaz de fundamentar a ideia de valor econômico da água. Era preciso reconhecer a sua finitude e, sobretudo, legitimar o fator econômico como forma de racionalização do uso da água, além, é claro, de produzir um diagnóstico da situação dos recursos hídricos no Brasil. Para que este novo planejamento fosse consolidado, foram criadas diversas instâncias que atuariam na esfera nacional, estadual e municipal, configurando uma rede integrada de gerenciamento dos recursos hídricos, em que estes novos princípios seriam aplicados.

A Lei das Águas instituiu, portanto, o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, que tem como objetivos: coordenar a gestão integrada das águas; arbitrar administrativamente os conflitos relacionados aos recursos hídricos; auxiliar na implantação da Política Nacional de Recursos Hídricos; planejar, regular e controlar o uso dos recursos hídricos; além de promover a cobrança por seu uso.

O organograma que consta no sítio eletrônico do Ministério do Meio Ambiente descreve as instituições que compõem o SNGRH:

Figura 3

Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos

Principais Atribuições:

Conselhos: subsidiar a formulação da Política de Recursos Hídricos e dirimir conflitos.

MMA/SRHU: formular a Política Nacional de Recursos Hídricos e subsidiar a formulação do Orçamento da União.

ANA: implementar o Sistema Nacional de Recursos Hídricos, outorgar e fiscalizar o uso de recursos hídricos de domínio da União.

Órgão Estadual: - outorgar e fiscalizar o uso de recursos hídricos de domínio do estado.

Comitê de Bacia: decidir sobre o Plano de Recursos Hídricos (quando, quanto e para quê cobrar pelo uso de recursos hídricos).

Agência de Água: escritório técnico do Comitê de Bacia.

(Fonte: MMA. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/> Acesso em: 21/04/2011).

O Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos é composto por instâncias que atuam em diferentes esferas. Como instâncias nacionais estão o Conselho Nacional de Recursos Hídricos - CNRH e a Agência Nacional das Águas - ANA.

O CNRH é a instância mais alta na hierarquia relativa aos recursos hídricos no Brasil. É composto por representantes dos Ministérios e Secretarias da Presidência da República, com atuação no gerenciamento ou no uso de recursos hídricos, por pessoas indicadas pelos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos, por usuários de recursos hídricos e por organizações civis de recursos hídricos.

O Conselho Nacional de Recursos Hídricos é presidido pelo Ministro do Meio Ambiente e tem como Secretário Executivo o Secretário de Recursos do Ministério do Meio Ambiente. É responsável pela articulação dos planejamentos nacional, estadual e regional. Como última instância administrativa, é o principal órgão que determina as diretrizes sobre a gestão das águas, ocupando um papel central para conferir unidade à forma de gerenciamento em todas as instâncias que participam da gestão das águas.

A Agência Nacional de Águas - ANA, criada pela Lei nº 9.984/2000, executa, em nome da União, a Política Nacional de Recursos Hídricos. Compete à ANA supervisionar, controlar e avaliar as ações e atividades decorrentes do cumprimento da legislação federal pertinente aos recursos hídricos. Com um caráter normativo, é responsável pela implantação, pela operacionalização, pelo controle e pela avaliação dos instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos.

Já em um âmbito estadual estão os Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos, que se constituem em fóruns de discussão e deliberação. São braços estaduais do conselho nacional, que acompanham o desenvolvimento da nova forma de gerenciamento dos recursos hídricos relativo a seus estados.

As instâncias mais locais que compõem o sistema de gerenciamento são os Comitês de Bacia Hidrográfica. Em tese, são órgãos colegiados que atuam nas bacias hidrográficas e constituem-se como o parlamento das águas. É a instância que promove a participação da comunidade e garante que a ideia de descentralização seja consolidada.

Como citado anteriormente, os comitês têm uma composição, no caso do estado de São Paulo, tripartite. Devem ser compostos por representantes do estado, dos municípios, cujos territórios se situem, total ou parcialmente, na sua área de atuação, e da sociedade civil, representada por usuários dos recursos hídricos e pelas entidades civis de recursos hídricos que atuam em sua área.

Além do comitê, em escala regional estão presentes também as Agências de Água que foram concebidas para exercerem as funções executivas determinadas pelos Comitês de Bacia Hidrográfica. A criação de uma Agência de Água é deliberada pelo respectivo Comitê de Bacia Hidrográfica e autorizada pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos. No entanto, ainda se encontram em fase incipiente de implantação e atuação.

Em linhas gerais estas são as instâncias que atuam na gestão dos recursos hídricos no Brasil. Uma estrutura ampla de instituições que garantem não só a implantação do novo modelo de gestão como também a atuação de um grande corpo técnico responsável pela produção do saber sobre a gestão das águas. A orientação das diretrizes para a construção do Plano de Bacia está de fato relacionada às diretrizes nacionais e estaduais, como consta neste trecho do Relatório Técnico:

O primeiro PERH, implantado no período de 1994-1995 (Lei nº 9.034 de 27/12/1994), aprovou a divisão hidrográfica do estado em 22 Unidades Hidrográficas de Gerenciamento de Recursos Hídricos – UGRHIs, as quais devem, através dos próprios comitês, elaborar seus planos de Bacia. O conteúdo mínimo desses planos foi estipulado no artigo 7 da PNRH, cujo objetivo é garantir que haja subsídios técnicos que fundamentem os programas e projetos a serem elaborados e implementados por cada bacia (Comitê de Bacia Hidrográfica Tietê-Jacaré, 2008b: 49).

Logo no início do Plano de Bacia do Comitê Tietê-Jacaré são colocados os objetivos de elaboração do mesmo:

Portanto, a elaboração do Plano de Bacia objetiva, num sentido amplo e geral, organizar os elementos técnicos de interesse e estabelecer objetivos, diretrizes, critérios e intervenções ou ações necessárias para o

gerenciamento dos recursos hídricos, com inserção participativa dos diversos setores envolvidos com o tema e com horizontes de curto, médio e longo prazo, sem perder de vista a perspectiva e necessidade da realização de revisões periódicas (Comitê de Bacia Hidrográfica Tietê-Jacaré, 2008a: 2).

Como se pode observar, o novo modelo de gestão dos recursos hídricos está ancorado por uma estrutura institucional ampla, que garante que as decisões tomadas pelos comitês de bacia possam ser consolidadas e supervisionadas por toda a rede institucional. Mais uma vez, a análise de Foucault sobre a constituição dos Estados Modernos contribui para a análise do modelo descentralizado da gestão das águas.

A descentralização do poder de decisão sobre os recursos hídricos coincide com o processo que caracteriza a dinâmica de ação do poder nos Estados Modernos. Diferente da centralização de poder das monarquias soberanas, nos Estados Modernos o poder do Estado se dilui pelas instituições e pelos procedimentos, análises, cálculos e estatísticas que constituem uma produção da verdade, garantindo o exercício de uma complexa forma de poder (Foucault, 2006).

A descentralidade da gestão das águas, apesar de garantir a participação da sociedade civil, se sustenta através de um conjunto de saberes institucionalizados que orienta, normativamente, a forma de gestão das águas, limitando, portanto, as ações dos indivíduos que participam das instâncias de decisão sobre os recursos hídricos, bem como marginalizando aqueles que não dominam tal forma de conhecimento.

O referencial foucaultiano contribui para a análise do modelo descentralizado de gestão dos recursos hídricos já que, em boa parte de seu trabalho, Foucault esteve interessado na investigação de como são racionalizadas as relações de poder na história da racionalidade e como esta opera nas instituições e nas condutas humanas (Foucault, 2006).

A estrutura que garante a formação plural no parlamento das águas é também aquela que orienta e normatiza a forma como a gestão das águas deve ser realizada. A produção do

saber, como destaca Foucault, está indissociavelmente ligada ao poder e ao exercício do poder. Com base nesta argumentação é possível compreender que a estrutura de descentralização da gestão das águas está vinculada, na verdade, a um plano de intensificação de aparatos técnico-científicos capazes de produzir uma forma de saber convergente com o modelo epistemológico que caracteriza a modernidade.

Como veremos a seguir, o processo de descentralização não está relacionado à inclusão de sujeitos marginalizados das instâncias de decisão, mas sim com a consolidação de sistemas peritos capazes de promover diagnósticos sobre os recursos hídricos sobre uma mesma lógica do modelo epistemológico hegemônico.

Benzer Belgeler