Na seção anterior, discutimos as concepções de linguagem que defendemos e o papel que exercem na configuração do agir humano. Nesta seção, objetivamos discutir as concepções assumidas no ISD nas questões de texto e gênero de textos e seu processo de apropriação.
A abordagem dada pelo ISD aos textos e gêneros de textos segue aportes ligados ao interacionismo social, a psicologia da linguagem (no que se refere à compreensão de uma linguagem como instrumento fundador dos processos de percepção, sentimento, cognição, emoções) e a linguística.
Segundo Bronckart (2008), essa filiação faz parte de um projeto mais amplo que é o de demonstrar o papel central e fundamental da linguagem no conjunto dos aspectos do desenvolvimento humano e, consequentemente, ao importante papel das mediações educativas e formativas nas orientações dadas para esse desenvolvimento. É sobre a perspectiva de que a linguagem é o elemento central do desenvolvimento humano, que se efetiva em práticas sociais por meio das interações verbais, concretizadas nos textos, que o interacionismo sociodiscursivo se volta à problemática dos textos e gêneros de textos (BRONCKART, 1999/2007; 2006; 2008).
Tais noções de texto e gênero de texto propostas pelo Interacionismo sociodiscursivo são constituídas a partir das opções epistemológicas assumidas nesse quadro e se remetem, em partes, também à noção proposta pelo par Bakhtin /Volochinov.
Segundo Bronckart (2008; p.87), a noção de texto designa “toda unidade de produção verbal que veicula uma mensagem organizada e que visa a produzir um efeito de coerência em seu destinatário”, ou, ainda, “unidade comunicativa de nível superior, correspondente a uma determinada unidade de agir linguageiro”(ibid), podendo ser de ordem escrita ou oral.
Para esse autor, é por meio dessa unidade de produção verbal ou unidade comunicativa, o texto, que uma determinada língua natural é apreendida pelos falantes, ao mesmo tempo em que são com os recursos (lexicais e sintáticos) dessa mesma língua que um texto é produzido (BRONCKART, 2006). Assim, para ele, o texto é constituído pela mobilização das unidades linguísticas, acrescentando que as características de constituição ou composição deste texto também dependerão “das situações de interação e das atividades gerais que comentam, assim como das condições histórico-sociais de sua produção” (BRONCKART, 2008; p.113). De tal modo, o texto poderia ser visto como o correspondente empírico/linguístico de uma ação de linguagem e os textos ou conjuntos de textos ou gêneros
de textos como os correspondentes empíricos/linguísticos das atividades de linguagem de um determinado grupo. (BRONCKART, 2006).
A noção de gêneros de textos designa “espécies de textos” que apresentam “características semióticas mais ou menos identificáveis” (BRONCKART, 2008a; p. 88). Assim, ele compartilha da noção bakthiniana de que os gêneros são “tipos relativamente estáveis de enunciado” (BAKTHIN, 1953/2003; p. 262). Entretanto, assume a denominação de gênero de texto no lugar de gênero do discurso.
Segundo Bronckart, ao trabalhar com a noção gênero de texto, designa que esses são espécies de textos e não espécies de discursos, ou seja, conjunto de textos agrupados por possuírem características relativamente estáveis. Portanto, à noção bakhtiniana de discursos (religioso, literário, jornalístico), atribui as nomenclaturas “espécies de atividades” e “espécies de atividades de linguagem”, compreendendo “discurso” como os tipos discursivos que se encontram marcados nos textos, determinando a implicação ou autonomia das instâncias de agentividade ou o caráter disjunto ou conjunto em relação ao espaço-temporal.
O autor estabelece, ainda, a relação de imbricação dos gêneros de textos às situações de ação de linguagem, pois, para ele, os gêneros de textos estão organizados de acordo com os valores de uso presentes nas formações sociais. De acordo com Bronckart, as formações sociais:
elaboram diferentes espécies de textos, que apresentam características relativamente estáveis (justificando que sejam chamados de gêneros de texto) e que ficam disponíveis no intertexto como modelos indexados, para os contemporâneos e para as gerações posteriores (BRONCKART, 1999/2007, p. 137).
Assim, os gêneros de textos constituem-se como formas pré-existentes nessas formações sociais, isto é, existem antes da ação de linguagem de um determinado agente específico e são regulados pelas avaliações sociais, o que permite constituí-los, em um determinado período histórico, como uma espécie de “reservatório de modelos de referência” (MACHADO, 2007; p. 250) dos quais um produtor se serve ao realizar uma ação linguageira. De acordo com Dolz & Schneuwly (2010), os gêneros podem ser considerados como instrumentos que fundam e possibilitam a comunicação e a aprendizagem, e que permitem a realização da ação em uma determinada situação particular. Ainda de acordo com os autores a ação de falar realiza-se com a ajuda de um gênero, “que é um instrumento para agir linguisticamente”, e é em relação a esse agir de linguagem, por meio dos textos, organizados
em gêneros, que nossa pesquisa incide, ao propor um modelo didático de gênero que circula na esfera social, artística e literária.
Dessa forma, os indivíduos, em uma determinada atividade social, agem linguageiramente produzindo textos, cujos formatos e modelos já se encontram pré- estabelecidos pela atividade, num processo denominado por Bronckart (2006; p.154) de “adoção” ao gênero. Por exemplo, um aluno de 6º ano, ao produzir um texto pertencente ao gênero conto, deverá levar em consideração as características genéricas específicas desse gênero, já estabilizado socialmente. Ao se servir desse modelo, o produtor não realiza uma mera cópia simplesmente, porque ele realiza suas próprias adaptações na condição de actante15 das ações de linguagem, de acordo com os valores pessoais e subjetivos que atribui à situação de produção na qual está envolvido. Essas adaptações feitas levam em consideração a apropriação pelo produtor dos fatos sociais e dos diferentes níveis de estruturação e composição de um texto, que Bronckart (1999/2007) denomina como situação de ação de linguagem e arquitetura textual, respectivamente. Dessa forma, o produtor acaba por produzir um texto com um estilo particular, o que pode através do mesmo, contribuir para a modificação dos textos pertencentes ao gênero.
Em outras palavras, a apropriação dos gêneros textuais não provoca no indivíduo uma transformação definitiva, mas contínua, dependendo da situação em que o uso é feito, dos objetivos, dos sujeitos envolvidos, dos conteúdos veiculados, etc. E, em cada situação de uso, o gênero é modificado e “devolvido” para sociedade constituído pela propriedade do indivíduo. A apropriação desse instrumento acontece, portanto, de forma dialética em que o sujeito é transformado na e pela linguagem e transforma o social do mesmo modo.