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Para a inserção no cotidiano das escolas e análise sobre as práticas pedagógicas das professoras da rede pública de ensino de Belo Horizonte, no contexto da aplicação da PB, particularmente no ano de 2009, adotou-se uma abordagem qualitativa. Ao se propor conhecer o modo como as professoras se apropriam da proposta avaliativa da PB, partiu-se do pressuposto de que o pesquisador é um sujeito social inserido em uma

comunidade ou em um grupo social desempenhando atividades profissionais e participando das ações pedagógicas desenvolvidas nesse contexto. Considera-se, como afirma Minayo (1994, p.13), que as sociedades humanas existem num determinado tempo, cuja formação social e a configuração são específicas.

Para isso, foram consideradas as relações que envolvem o trabalho das professoras, suas concepções acerca do que pensam sobre as avaliações externas e os significados construídos a partir da aplicação desse tipo de instrumento com a finalidade de orientar o planejamento de sua prática de alfabetização. Uma pesquisa qualitativa é entendida como aquela cujas formas de pesquisa priorizam a compreensão, além da explicação, dos sentidos dos fenômenos (MONTEIRO, 1998. p.7). Assim, pretendeu-se apreender a realidade observada a partir dos sentidos que emergem por meio das falas das professoras. Como lembra Alves (1991, p. 54), a oposição entre qualitativo e quantitativo deve ser descartada: a questão é de ênfase e não de exclusividade.

Nesse sentido, alguns pressupostos teóricos orientaram a análise dos dados desta pesquisa. Os conceitos de alfabetização, letramento e leitura – Soares (2001), Kleiman (1995), Sole (1998) – perpassam toda a pesquisa sobre a avaliação externa na alfabetização. Dessa forma, o conceito de “letramento”, segundo Soares (1997), é entendido como o estado ou condição que assume aquele que aprende a ler e a escrever. Implícita nesse conceito está a ideia de que aprender a ler e a escrever tem consequências sobre o indivíduo e altera sua condição do ponto de vista social, cultural, político e outros, ou seja, o letramento pode ser definido como a capacidade de um indivíduo de se apropriar da escrita, sendo capaz de utilizá-la em diversas situações exigidas no cotidiano.

No que diz respeito à produção de conhecimentos e informações úteis para a elaboração de políticas educacionais e propostas pedagógicas, os estudos sobre o letramento trazem problemas metodológicos crescentes, quando se trata de construção de indicadores que sirvam à avaliação do letramento como problema educacional e social. Soares (2004) analisa como o problema se concretiza em diferentes estratégias de avaliação: os censos populacionais, as avaliações do desempenho de alunos em diferentes níveis do sistema de ensino e os estudos por amostragem populacional. Sendo que essa última é a que mais traz possibilidades para se entender a complexidade do fenômeno do letramento, tanto na sua dimensão individual (a posse de determinadas habilidades de leitura e escrita), quanto na sua dimensão social (práticas de leitura e de escrita em diferentes contextos). A pesquisadora alerta para os problemas relacionados à interpretação dos resultados, que precisam considerar um amplo conjunto de determinantes contextuais, que vão da estrutura dos sistemas escolares da região às condições da coleta de dados.

Pensando a Provinha Brasil como um teste avaliativo, adota-se, ainda, a perspectiva de Soares (2004). Para a autora, os testes externos são construídos segundo

critérios, os quais definem o que é letramento em contextos escolares, o que nem sempre condiz com as habilidades de leitura e de escrita e as práticas sociais fora da escola. Neste sentido, esta pesquisa busca fazer uma discussão sobre esse instrumento diagnóstico que pode ser utilizado pelos docentes com a finalidade de orientar o trabalho durante o ano letivo.

Outra pesquisadora, Kleiman (2004) ressalta que a avaliação das aprendizagens variadas dos alunos (inclusive fora da escola), abre um campo importante para o professor pesquisar as práticas próprias do grupo a que pertencem seus alunos e refletir sobre o valor e a necessidade de algumas aprendizagens, que às vezes negam a cultura de determinados grupos ou entram em conflito com ela. Por isso, a escola deve assumir a função de proporcionar aos alunos o contato com diversos gêneros textuais, com o objetivo de criar situações significativas de uso.

Segundo Soares (2008), “todo aluno tem o direito de ser avaliado”, porque a avaliação é o único meio de encontrar formas de trabalhar com as dificuldades de aprendizagem de cada criança. Uma das competências cognitivas a serem adquiridas na alfabetização é a leitura, sem a qual não se adquire outras competências. Dessa forma, a avaliação na alfabetização “deve ser parte fundamental da rotina do ensino.

Nesse sentido, a PB tem várias finalidades, e como avaliação diagnóstica, possibilita ao professor tomar decisões sobre o planejamento e o trabalho em sua sala de aula com base em sua observação e seu diagnóstico da situação. Aos professores, cabe decidir questões relativas à seleção dos materiais, saberes e práticas que se situam entre “o local, o aplicado e o funcional” com a finalidade de orientar seu grupo.

Portanto, a Provinha Brasil é um instrumento que permite ao professor acompanhar, avaliar e melhorar a qualidade da alfabetização e do letramento inicial oferecidos às crianças. Por isso, não se pode negar que também é um instrumento para o professor pesquisar as práticas do seu grupo de alunos e ressaltar as questões do processo da alfabetização que precisam ser trabalhadas, retomadas ou consolidadas. Mas, em contrapartida, observa-se que esse instrumento não comporta a diversidade de ritmos de aprendizagens dos alunos durante o processo de alfabetização.

Outra concepção que perpassa todo o objeto de pesquisa é a concepção bakhtiniana de língua, uma vez que, a língua dura e perdura em um processo construído historicamente, sua natureza é dialógica e o indivíduo (no caso, o professor alfabetizador) é fruto da interação social e coletiva. Bakhtin (2006, p. 32) traz o conceito de Enunciação, que compreende a ideia de que todo discurso está imerso em significações sociais nas quais se coloca nossa compreensão. Nesse sentido, as falas das docentes só se realizam por meio da interação verbal e social e a enunciação só é efetiva se existirem falantes que se compreendam, ou seja, toda palavra (o que é dito) se dirige a alguém e, para compreendê-

la, é necessário algo mais que decodificação, é necessário uma compreensão ativa, uma resposta.

Considerando esses pressupostos teóricos e a avaliação realizada no ano de 2009 nas escolas públicas do país – Provinha Brasil –, destinada aos alunos do segundo ano do Ensino Fundamental em fase de consolidação do processo de alfabetização, essa pesquisa pretende investigar as contribuições e os efeitos dessa política do governo federal nas práticas pedagógicas de duas escolas públicas de Belo Horizonte. A tarefa central colocada consiste em conhecer determinada realidade vivida socialmente, buscando compreender essas relações como fenômeno em um contexto pedagógico. Esse é o fundamento da pesquisa qualitativa que se preocupa com a compreensão de fenômenos sociais com base na perspectiva dos atores por meio do conhecimento da prática e do modo como se organizam.

Para o estudo proposto, três eixos foram delimitados para a organização deste trabalho:

 O discurso da teoria: a concepção teórica das professoras em relação à avaliação da aprendizagem dos alunos e a compreensão dos pressupostos que fundamentam a avaliação diagnóstica da PB;

 O discurso sobre a prática: a concepção das professoras sobre a prática avaliativa, os objetivos e as formas de uso do instrumento da PB e a análise dos desempenhos dos seus alunos na avaliação;

 O discurso da prática: evidências, por meio de levantamento de depoimentos e atividades, sobre as contribuições da PB na organização do trabalho das professoras.

Em decorrência desses três eixos, alguns objetivos específicos foram definidos:

 Investigar as concepções de avaliação das professoras;

 Compreender os efeitos de uma avaliação externa nas práticas das escolas públicas;

 Identificar e analisar as contribuições da Provinha Brasil na organização das práticas de alfabetização das escolas.

Portanto, visando examinar os efeitos e contribuições da PB na prática dos professores alfabetizadores, elegem-se os seguintes questionamentos para guiar a pesquisa:

 De que forma as professoras se apropriam da proposta avaliativa da PB?

 Que tipos de repercussões trazem as avaliações externas para o trabalho das escolas?

 Até que ponto os resultados da avaliação da PB são utilizados para organizar as práticas de alfabetização das escolas?

Benzer Belgeler