No ensaio “A adaptação da família à criança”, de 1928, Ferenczi afirma que da mesma forma que o bebê necessitaria se adaptar ao novo meio, como se pensava até então na psicanálise, também o meio precisaria se adaptar àquele que chega, recebendo-o ativamente. E caso esses hóspedes não tivessem sido bem-vindos em suas famílias, ao psicanalista caberia, então,
42 acolhê-los, para que desenvolvessem suas competências simbólicas e capacidades criativas.
Assim, na perspectiva ferencziana, a hospitalidade se configuraria como o primeiro dos princípios da ética do cuidado na psicanálise (KUPERMANN, 2009).
De fato, como bem destaca Safra (2004a), a entrada de um novo membro na história familiar nos coloca a questão da necessidade de a criança ser concebida, antes da fecundação, ou seja, ser gestada na subjetividade de seus pais, o que traz o sentimento de ser aparentada a todos os homens – faceta do holding winnicottiano. Trata-se de uma necessidade presente em todo o percurso do amadurecimento pessoal, de, ao chegar, encontrar no mundo um olhar com a marca da esperança.
E esse olhar se concretizaria, primordialmente, na oferta de cuidados16 por parte do ambiente, que exerce as funções de “acolher, hospedar, agasalhar, sustentar” (FIGUEIREDO, 2012, p.135, grifo nosso), garantindo assim a conquista de um senso de realidade, pela experiência de continuidade, tanto somato-psíquica como simbólica: “Diante dos percalços da vida – das necessidades e desejos, e das relações com os outros – a continuidade não está assegurada e precisa ir sendo construída e reconstruída a cada passo, tarefa do agente de cuidados que dá sustentação (...)” (op. cit., p. 136, grifo do autor).
Agente de cuidados que transita, de acordo com as necessidades de quem é cuidado, entre presença implicada e reservada, como bem destaca o autor, descrevendo então outras funções a serem exercidas, como a de reconhecimento, enfatizada, segundo o autor, por Winnicott (1971) e Kohut (1978)17: “Muitas vezes, cuidar é, basicamente, ser capaz de prestar atenção e reconhecer o objeto dos cuidados no que ele tem de próprio e singular, dando
16 Interessante ter em mente a origem de cuidar: deriva de cogitar – pensar demoradamente, discorrer,
meditar; “... antes, [cuidar] significava ‘pensar’, depois ‘preocupar-se com algo’, por fim ‘tomar conta’” (VIARO, 2004, p. 154).
17Heinz Kohut (1913 – 1981), psiquiatra e psicanalista austríaco, criador da escola psicanalítica da
Psicologia do Self: “De acordo com uma analogia feita por Kohut, assim como a fisiologia do aparelho respiratório de um bebê necessita de uma atmosfera que contenha oxigênio para sobreviver, o self nascente de um bebê necessita de um ambiente que contenha self-objetos respondendo empaticamente às suas necessidades psicológicas”.
http://febrapsi.org.br/resenha.php?texto=resenha_Kohut, acessado em 04/04/2013.
43 disso testemunho e, se possível, levando de volta ao sujeito sua própria imagem”(FIGUEIREDO, 2012, p. 138). Seria aqui um cuidar silencioso, próprio da mãe ambiente winnicottiana, que “presta atenção e responde na medida”.
E ainda as funções de interpelar e reclamar, “chamar à vida, chamar às falas, chamar à ordem”, o que a mãe faz quando se comunica com o bebê, com gestos, olhares, palavras, mesmo que ele ainda não fale propriamente - ela assim “reclama sua presença viva e interativa” (FIGUEIREDO, 2012, p. 139).
Porém, como adverte o autor, as modalidades de cuidado, acolher, reconhecer, questionar, “precisam agir em equilíbrio dinâmico para que os cuidados efetivamente proporcionem a instalação de uma capacidade de fazer sentido ao indivíduo” (FIGUEIREDO, 2012, p. 140) – não podem ser excessivos, e sim dosados, de acordo com o processo de amadurecimento pessoal, com as necessidades próprias de cada momento, lembrando que a falta ou ausência também impedem a integração e senso de continuidade de si. Além disso, há outro aspecto igualmente fundamental, e que remete à dinâmica própria da hospitalidade anteriormente abordada: o retribuir. O cuidador precisa aceitar sua dependência do outro, sua necessidade de também ser cuidado, de delegar funções – por exemplo, a mãe que divide tarefas com o pai do bebê, permitindo-se ser atendida por este ou recebendo orientações de médicos, etc.; e até mesmo sendo cuidada pelo próprio objeto de cuidados: “a mutualidade nos cuidados é um dos mais fundamentais princípios éticos a ser exercitado e transmitido” (FIGUEIREDO, 2012, p. 141) – estando presente, possibilita tanto uma empatia maior com quem é cuidado, pela semelhança da experiência, como significa um reconhecimento do outro, confiança em sua potencialidade de vida e capacidade de se tornar, ele mesmo, um cuidador. Estando ausente essa mutualidade, o cuidador se torna onipotente, correndo o risco de desqualificar e aprisionar seus objetos de cuidado, obstruindo, com uma presença excessiva, os espaços para o sonhar, brincar, pensar.
... cuidar bem é, entre outras coisas, transmitir bem as funções cuidadoras, mesmo que em uma dose modesta e limitada. O bom professor ensina a aprender e a ensinar, os bons pais geram bons filhos e bons pais, o bom médico ou o bom enfermeiro fazem de seu paciente um
44 agente de saúde, e assim por diante. Não conseguir transmitir a capacidade cuidadora é prova, em última análise, de que ela não pôde ser bem exercitada (FIGUEIREDO, 2012, p. 145).
Em contraposição, temos o cuidar exercido de modo tirânico a partir de ideais de perfeição que desconsideram o outro a ser cuidado, sem empatia, portanto, sendo a preocupação maior corrigir supostas imperfeições – seria o que Figueiredo (2012, p.147) denomina “perversão do cuidado”, podendo gerar “sujeitos extremamente propensos a manter-se na dependência dos seus cuidados e maus-tratos, repetindo este padrão pela vida afora”. E, ainda, os cuidados exercidos de modo mecânico e estereotipado, comumente exercido em ambientes hospitalares, muito mais voltados a procedimentos padrões, mas que encontramos também no ambiente familiar, por parte de mães que mantêm um distanciamento afetivo de seus bebês, embora os mantenham trocados, limpos, alimentados. Ambos - o exercido de modo tirânico e o exercido de modo mecânico - impossibilitam a experiência de integração inerente ao ser cuidado e também ao cuidar.
Todas as funções de cuidado aqui enumeradas, suas dinâmicas e os modos de praticá-las, nos remetem à mãe (ambiente) suficientemente boa de Winnicott e sua analogia com as funções a serem exercidas por terapeutas e outros profissionais da saúde, bem como da educação.
Para aprofundar essas questões e lembrando a interlocução entre D. W. Winnicott e Clare Winnicott, trago a seguir então as contribuições originais desta autora, retomando as relações entre hospitalidade e cuidados iniciais e como isso se configura no campo da comunicação, tanto de modo a potencializar como obturar a expressão de si diante do mundo.
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