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Nos ensinamentos de Nucci (2006, p. 38), o princípio da presunção de inocência, “conhecido, igualmente, como princípio do estado de inocência ou da não culpabilidade, significa que todo acusado é presumido inocente, até que seja declarado culpado por sentença condenatória, com trânsito em julgado”, permitindo- nos deduzir que tal princípio protege os acusados da imposição de medidas inerentes aos considerados condenados definitivamente.

Quanto às suas origens históricas, Távora e Sampaio (2008), referenciando Luigi Ferrajoli, ensinam que:

O Princípio da Presunção de Inocência remonta ao direito romano, tendo sido ofuscado ou até mesmo invertido, salvo surjam privas diferentes, pela inquisição na Baixa Idade Média, época em que o processo penal dava valor de semiprova à suspeita ou dúvida de culpabilidade, já induzindo a um juízo de semiculpabilidade e a uma semicondenação a uma pena mais leve.

Prosseguindo em suas ideias, eles relatam que esse princípio “permaneceu assim ofuscado até o final do século XVIII quando, simultaneamente com outros postulados jurídicos, veio a ser efetivamente afirmado, não tardando a ocupar uma posição de destaque, haja vista sua aptidão para informar a ordem jurídica que se anunciava e substituiria o absolutismo, no seio do qual a estrutura repressiva era notadamente robusta, em especial na área penal”.

Esses autores também informam que:

De forma indireta e atrelado a outros princípios garantidores de liberdades individuais em face do Estado, o princípio da Presunção de Inocência foi

referenciado pela primeira vez no bojo do Due Process of Law, na Declaração de Direitos do Povo de Virgínia, de 2 de junho de 1776.

Por sua vez, segundo Rangel (2007, p. 23),

O princípio da presunção de inocência tem seu marco principal no final do século XVIII, em pleno Iluminismo, quando, na Europa Continental, surgiu a necessidade de se insurgir contra o sistema processual penal inquisitório, de base romano-canônica, que vigia desde o século XII. Nesse período e sistema o acusado era desprovido de toda e qualquer garantia. Surgiu a necessidade de proteger o cidadão do Estado que, a qualquer preço, queria sua condenação, presumindo-o, como regra, culpado. Com a eclosão da Revolução Francesa, nasce o diploma marco dos direitos e garantias fundamentais do homem: a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Nesta fica consignado, em seu art. 9º, que: ‘todo o homem é considerado inocente, até ao momento em que, reconhecido como culpado, se julgar indispensável a sua prisão: todo o rigor o desnecessário, empregado para a efetuar deve ser severamente reprimido pela lei’.

Para esse renomado mestre, teria sido com Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, que o sistema processual penal europeu começou a ser influenciado pelo sistema acusatório, tratando o acusado com mais dignidade e garantindo-lhe maior proteção contra as ingerências do Estado. E continua: “a Constituição da República Federativa do Brasil, pela primeira vez, consagrou o chamado princípio da presunção de inocência, proclamado, em 1948, na Declaração Universal dos Direitos do Homem, da ONU”.

Como se percebe, esse princípio foi erigido em meio ao fervor revolucionário, uma vez que também surge na França através da Declaração dos direitos do homem e do Cidadão, em 26 de agosto de 1789, insculpido em seu artigo 9º.

O mestre Távora e Sampaio (2008) também destaca que o princípio da presunção de inocência reapareceu em um período em que havia a cultura da repressão social, recuando e cedendo espaço diante dos constantes ataques dessa estrutura repressiva, que aparece como solução para reprimir os conflitos sociais gerados no seio da Revolução Industrial.

Todavia, nas palavras de Távora e Sampaio (2008), essa repulsa dura pouco tempo, posto que:

Os fatos ocorridos nas guerras mundiais da primeira metade do século XX revelaram ao mundo a necessidade de mudanças substanciais capazes de promover mais justiça social e assegurar a paz mundial, dando ensejo ao movimento dos países para firmarem declarações conjuntas, com normas garantistas abundantes, voltadas para obter o compromisso dos signatários de respeitarem, em seus territórios, os direitos fundamentais inerentes ao

indivíduo. Neste contexto foi criada a Organização das Nações Unidas que, em 10 de dezembro de 1948, na sua Terceira Assembléia Geral proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento composto de 30 artigos e destinado a orientar a reestruturação dos Estados no pós-guerra, bem como assegurar a paz mundial, mediante a promoção da justiça social a todos os povos, que acolheu o Princípio da Presunção de Inocência, conforme nos ensina Grandinetti ao registrar que ‘a Declaração universal dos Direitos do Homem da ONU acolheu-o em 1948. Posteriormente, na Assembléia geral de 16 de dezembro de 1966, foi selado o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos que agasalhou o princípio no seu art. 14, 2. A carta de adesão a esse pacto o Brasil veio a depositar 26 anos depois, em 24 de janeiro de 1992.

E completam dizendo que,

Em 22 de novembro de 1969, a Convenção Americana de Direitos humanos -Pacto de São José da Costa Rica- assentou o princípio no seu art.8º, 2 firmando que ‘toda pessoa acusada de um delito tem direito a que se presuma sua inocência, enquanto não for legalmente comprovada sua culpa. Durante o processo, toda pessoa tem direito, em plena igualdade, às seguintes garantias mínimas(...)’.

Perfilhando os ensinamentos de Nucci (2006, p. 78),o princípio em questão:

Tem por objetivo garantir, primordialmente, que o ônus da prova cabe à acusação e não à defesa. As pessoas nascem inocentes, sendo esse o seu estado natural, razão pela qual, para quebrar tal regra, torna-se indispensável que o Estado-acusação evidencie, com provas suficientes, ao Estado-juiz a culpa do réu.

Não obstante essa proposital exaustiva explicação dos liames do princípio em questão, o seu reconhecimento, como uma das conquista mais garantista da pessoa humana, entendo que não implica a exclusão de uma possível execução provisória da pena.

Prova disso é a necessidade que há de se analisar cada caso concreto, com o objetivo de verificar, à luz da razoabilidade, se o réu não está agindo sob o manto da ilicitude para se beneficiar um uma garantia assegurada-lhe por lei.

No leading case, nossa Suprema Corte menciona, inclusive, a análise dos pressupostos autorizadores da decretação da prisão preventiva.

Note que esse princípio seria excepcionado por uma determinação infraconstitucional, fato que reforça que motivos (limites) outros, mais fortes até, por estarem previstos mo próprio texto constitucional, são perfeitamente aceitáveis em nosso ordenamento.

Segundo as lições de Alexadrino e Paulo (2008), nenhum direito teria feição absoluta, exigindo, mesmo por sua natureza, limitações que o ponha em suas certas medidas.

3.2.2 A possibilidade da execução provisória da pena frente ao princípio

Benzer Belgeler