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5. SAYISAL DAMGALAMA UYGULAMALARINDA KULLANILAN

5.2. Sayısal Damgalama Uygulamalarında Kullanılan Yöntemler

5.2.2. Ayrık Dalgacık DönüĢümü

Alto e devagar pousa as suas palavras. Como uma menina que amarra flores – pensativamente ensaia uma flor, outra flor, e ainda não sabe como será o conjunto – assim ele dispõe suas palavras (Rainer Maria Rilke, [190?] 1974, p. 85).

O percurso para chegar às pombagiras exigiu uma percepção cuidadosa de minha posição frente a estas entidades espirituais e, apenas quando consegui perceber a lógica de funcionamento baseada em relações de ajuda, pude transitar melhor pelo universo umbandista, uma mudança que não se deu apenas formalmente, mas corporalmente.

Havia uma linguagem para além do verbal, eram outros sentidos e visões de “mundos” invisíveis a olho nu, mas sensíveis e nebulosos. Ao longo do tempo, fui me acostumando, utilizando os termos e penetrando nesta linguagem, mas até hoje, após sete anos de convivência com a umbanda, considero-me uma aprendiz em início de carreira diante da dimensão dos saberes ali praticados.

Em nenhum momento, como já disse, entrei na gira para incorporar, mas foi com base em uma “participação observante” - invertendo o clássico “observação participante” - que pude apreender para além do discurso manifesto, para além do que se fala sobre elas.

É por este motivo também que foi difícil pensar como passar esse “encontro” para o papel. Por algum momento, cheguei a optar por categorizar as possíveis “linhas de pombagiras”, divindindo-as em “pombagiras ciganas”, “Maria Padilhas”, “Sete Saias”, e etc. Mas logo percebi que na umbanda é pouquíssimo frutífero categorizar, pois a dinamicidade é tão grande, que correria risco de mais incorrer em erros do que acertos.

Ao mesmo tempo que são todas mulheres, cada uma tem o seu individual. Todas falam sobre feminino todas falam sobre mulheres, mas cada uma fala à sua maneira. Cada uma tem a sua visão. Existem milhares de linhas. Existe uma infinidade de linhas (...) Na verdade não existem só Molambos, ciganas, sete saias, existem uma infinidade de linhas, de pombagiras. Eu não sei qual o motivo, mas existe um numero maior de ciganas, um número maior de sete saias, um número maior de molambos, mas há uma infinidade. Às vezes elas dizem...sou uma Padilha...mas será que é? Ou será que ela diz que é uma Padilha pra ficar mais fácil?...as pessoas já sabem...(Entrevista com Patrícia, médium da pombagira Língua de Fogo).

Percebi que cada pombagira, independente de sua “linha”, mostra-se de maneira peculiar. Algumas mais meretrizes do que outras, algumas mais adivinhas e ciganas do que mulheres de rua e ainda havia as mais “senhoras da noite” do que “meninas”, independentemente da “linha” a que pertenciam.

Também cheguei a pensar em comparar os três terreiros participantes, mas além de ter muita dificuldade para tal, pois não chegava a conclusões pertinentes, Dona Joana interpelou-

me com um recado a esse respeito dias depois da entrega de meu trabalho136, dizendo que gostaria de me encontrar para falar sobre o texto. Assim, fui à Jardinópolis para conversar com ela:

Chegando no ritual, fiquei feliz, como sempre, por estar lá, mas entrei meio que de cabeça baixa, como uma criança que fez alguma coisa além da conta e me sentia prestes a levar uma bronca.Não falei com Joana antes de começar a gira porque quando cheguei já estava começando. Assim, o primeiro com quem falei foi o Pai Benedito, preto-velho dela. Também cheguei um pouco receosa, com medo que ele pudesse me falar algo, mas foi receptivo como sempre, me acolheu, benzeu e pediu proteção para mim a todos os santos. No final do ritual, fui falar com ela. Pode ser fruto de minha projeção, mas assim como eu, senti que Joana estava feliz em me ver, apesar de um certo tom sem graça em nosso encontro. Então, como sempre penso que a sinceridade é a melhor saída nessas situações, ainda mais quando lidamos com pessoas que, pelo que se diz, leem pensamentos, o melhor é assumir-se de fato. Falei: Ah, Joana, então tem alguns problemas no meu

trabalho, né? E ela respondeu: „É, tem coisa...mas você tem que vir um dia

de dia pra eu te explicar”. Respondi: “Não tem problema, eu venho e a senhora me diz, não tá publicado, essa é a hora de mudar mesmo, às vezes a

gente entende errado”, e ela me interrompe: “Não é, é que eu tive um sonho,

minha mãe me falou...”. Fiquei surpresa: “Ah, sua mãe?!”. “É, ela falou que tem coisa que não dá pra comparar. Tem coisa que se compara, fica errado, e se você fizer isso no seu trabalho, ele não vai ficar bom. É que eu não li, porque eu não sei ler, mas ela me falou no sonho...”. Explico a ela que já estava pensando em vir à sua casa à tarde para conversar e ela me explicar, que iria ser muito bom, porque assim ela poderia me explicar melhor.Assim, combinamos o dia e me despeço, agradeço a atenção e digo que estava com medo de ter feito alguma coisa errada, mas que viria para conversarmos. Saí de lá com a alguns centímetros do chão. Eu não sabia o que pensar direito a respeito daquela conversa...A D. Chiquinha também participará de minha pesquisa? Ao mesmo tempo em que senti a importância disso, fiquei com medo de estar fazendo algo tão grave que lá do além, ela se remexeu a ponto de precisar mandar um recado! Comparação?!Eu já imaginava que isso seria um problema, já li que isso tem a ver com o ciúmes dos pais de santos pelos seus filhos137, tem a ver com a defesa de seu rebanho, mas o que está para além disso? Eu procurei situar e contextualizar muito bem tudo o que foi trabalhado. Mas qual será mesmo o problema da comparação? O que está implícito nisso?

O que é uma comparação? É fato que ao comparar, encontro dados para além da descrição, dados que não existiam porque fui eu quem estabeleceu correlação entre territórios que existem autonomamente. Será que ao comparar crio dados desnecessários? Será que as diferenças que procurei nos dados são realmente significativas de serem ditas? Como é que foi acolhido dizer que em um lugar o ritual é mais puro e em outro mais intelectualizado? Será que teve nisso uma valoração, uma escala de prestígio que resultam em

136 Tratava-se do meu texto de qualificação de mestrado. Assim como encaminhei o texto à banca examinadora,

também entreguei aos terreiros participantes para saber se o conteúdo descrito era coerente para eles. Coloquei- me durante todo o trabalho à disposição de conversar sobre as minhas interpretações em negociação com meus interlocutores.

uma análise precipitada?Ainda não sei, posso pensar melhor, pode ser que não tenha nada a ver com isso, como pode ser que o recado de D. Chiquinha dê uma nova guinada para meu trabalho, como pode ser nenhuma das alternativas anteriores, o que é mais provável diante da “inusitabilidade” constante destes territórios de surpresas, ou melhor, como costuma ser quando lidamos com seres humanos, estamos sempre diante do não-saber (Diário de campo, 3/9/2007)

Em seguida, fui à sua casa à tarde e em entrevista, ela me disse:

Joana: (...) quando for fazer pesquisa num centro, tem que fazer pesquisa só nesse centro, senão embanana tudo. Porque cada centro é de um jeito, porque você sabe que se você pega um pouquinho daqui, um pouquinho de lá, você cria demanda entre os guias?

Eu: Como é que é Joana?

Joana: Cria demanda. Porque cada centro é de uma linha.

Expliquei a Joana que meu trabalho, desde o começo, se propunha a dialogar com três terreiros e eu buscava justamente locais que parecessem diferentes entre si, mas que compreendia que deveria separá-los em minha descrição para melhor pensar meus dados. Dessa maneira, optei por diferenciar os terreiros na descrição para, inclusive, pontuar as possíveis diferenças.

Após essa conversa, passei a pensar que a busca por uma tentativa de comparação suplantava a percepção do que havia sido dito em repetição. Era notável perceber que os significantes que revestem esta personagem do imaginário social brasileiro circulam socialmente, mas atingem de modo singular cada mulher. Modelam-se antropomorficamente pelos discursos de seus fieis por meio de diferentes formas, mas seja por meretrizes de porte aristocrático, ciganas, mulheres de rua, ou mulheres-meninas, ao se apresentar o fenômeno, percebia que ali se condensavam reminiscências pessoais e sociais.

Ao apresentar a relação das médiuns com suas pombagiras apresento também as próprias pombagiras, que são fruto destas relações. Não se trata de acessar a “pombagira” em si, mas a pombagira da Meire, da Patrícia, da Bia, da Sílvia, da Kelly e, por mais que nos comuniquemos com as “próprias” pombagiras, todas mostram-se misteriosamente

multifacetadas, mas articulam sentidos que sutilmente enunciam algo que chamam de “ser mulher”. É também diante disso que não posso pensar a pombagira “em si”, mas pela minha fala, pelos corpos destas médium, pelos ditos, normas e fantasias dos terreiros correspondentes, pelas construções de “mulheres” de cada lugar.

Ainda assim, mais do que contrastes, o que mais se evidenciou foram as repetições. Havia uma tônica dominante que ressoava no centro do Pai Benedito, era perceptível no Ogum Rompe Mato e tornava-se crescentemente evidente na Casa Mãe Guacyara. Por mais que cada pombagira fosse única, havia algo que se repetia, e o eco mais gritante era: a pombagira é uma mulher!

Por que essa repetição? O que querem dizer esses significantes que surgem na pombagira, mas ecoam algo do que é entendido como “ser mulher”?

E, claro, seriam as pombagiras “mulheres”? E sendo mulheres, seriam, de fato, elaborações de femininos? Ou mulheres fálicas? Ou belas representantes de masculino e feminino?

Ao dizer que as pombagiras não são prostitutas como as de hoje, seriam como as prostitutas de quando? Como eram estas? É claro que minha ingenuidade não é tanta a ponto de buscar uma veracidade histórica nestas afirmações, mas o que querem dizer? Há ecos do passado que permanecem no imaginário e surgem na voz destas mulheres?

Além disso, foi unânime o pedido para que eu pudesse mostrar às pessoas que as pombagiras não são “demônios”, não fazem o mal e não prejudicam as pessoas. O terror, o medo, as maledicências que ilustravam minhas antigas ideias sobre pombagiras foram substituídas por outras questões que enunciavam e se repetiam: a troca, a sabedoria, a sedução, o desejo, a importância de se conhecer, a importância de não se expor, a importância de saber como se expor, de saber se defender, de saber se mostrar.

Ao longo dos capítulos seguintes discuto como todas estas questões mostraram-se intimamente ligadas a contornos que parecem ser fundamentais para possíveis vislumbres de femininos.

4. A POMBA QUE GIRA:

Benzer Belgeler