K. Ayıp ve Vasıf Muhayyerliğine Dair Güncel Bazı Örnekler
III. AYIP VE VASIF MUHAYYERLİKLERİNİN MUKAYESESİ
Esta revolução de parâmetros foi o que permitiu pensar uma Sociologia do Imaginário, surgida no elo enfraquecido da sociologia positivista causado pelas descobertas científicas e psicológicas. Esta nova sociologia, segundo Durand (1998), inicialmente teve duas ramificações. A primeira, interessada na etnologia contemporânea e iniciada por Roger Bastide, colocou os símbolos, mitos e rituais de sociedades distantes como objetos centrais de estudo, principalmente o imaginário do invisível, presente no estudo dos rituais funerários. A segunda ramificação tratava do cotidiano, das coisas mais simples, como o imaginário das lembranças infantis e o presente efêmero.
O alvorecer da Sociologia do Imaginário foi dificultado pelo ranço iconoclasta societal refletido nos campos da pesquisa. Apesar do enorme fluxo imagético e imaginário, muitos
pesquisadores ainda delegam este fenômeno ao campo da distração, não valendo um estudo aprofundado. De fato, especificamente nesta disciplina, “o reconhecimento do imaginário nas obras de sociologia é tardio e ainda hesitante”, sendo as obras dos autores da área “apresentadas como marginais, não chegando à dignidade dos clássicos” (LEGROS, 2007, p. 11).
Apesar disso, os precursores do pensamento sociológico não abandonaram completamente a temática. Já em Machiavel temos de certa forma um estudo sobre o quadro de representações partilhadas e a vida social, quando verificou que a aparência dos homens influencia e satisfaz mais do que a realidade em si. Já Hobbes escreveu que a imaginação seria uma “sensação falha”, com “qualidade empírica não-racional”, alcançando uma “sabedoria bem formada, e não um método introspectivo de inteligência dos fatos sociais” (LEGROS, 2007, p. 28) – uma perspectiva negativa, mas ainda assim preocupada em discutir o imaginário.
Entretanto, não podemos falar que existia uma teoria do imaginário entre os autores clássicos. Po começo, os símbolos pertenciam ao domínio dos teólogos, onde a imaginação oferecia ao homem uma representação de si mesmo, diferente da realidade, e a qual ele aspirava. Posteriormente, o estudo do imaginário voltou-se para “uma crítica da consciência infeliz, depois (…) abre (…) os caminhos para a utopia” (LEGROS, 2007, p. 29). Por fim, os símbolos passam a agir na interação entre as instituições, indivíduos e os processos sociais.
Exemplificações disso podem ser vistas em Marx e Engels, onde “as representações materiais das imagens reduzidas que os objetos enviam aos sentidos” (LEGROS, 2007, p. 30) são o que causam a percepção, sendo o imaginário deformado com o propósito de enganar o trabalhador, invertendo o verdadeiro sentido das coisas. Já em Le Bom, o real seria superado pelo irreal, já que as massas pensariam através de imagens, fazendo com que a consciência individual sucumbisse à força do pensamento grupal. O espaço público é visto, então, como um local atravessado por conflitos de interesses, onde as massas podem agir impulsivamente e numa coesão que enfraquece o livre arbítrio individual.
Em determinado ponto do estudo sociológico, houve a transição para uma nova visão de imaginário, proveniente da ideia de que a vida dos indivíduos e da sociedade são submetidas à impulsos imaginários que precisam ser estudados. Indo de encontro à visão geral da Sociologia, onde o imaginário seria algo inexistente e irracional, surge a Sociologia do Imaginário, produto do pensamento mítico, que apesar de se manifestar por imagens simbólicas, é um pensamento concreto (LEGROS, 2007, p. 10).
A sociologia do imaginário é “um ponto de vista sobre o social” que se interessa pela “dimensão imaginária de todas as atividades humanas” (LEGROS, 2007, p. 9). Pão sendo definida por um objeto preciso, torna-se uma ciência complexa, com uma polissemia e transversalidade temática. O imaginário alimenta o homem e o motiva a agir, por conseguinte, “uma sociologia sem
o imaginário é uma sociologia empobrecida” (LEGROS, 2007, p. 65).
O sociólogo húngaro Karl Mannheim foi um dos primeiros autores a escrever sobre a Sociologia do Imaginário. Procurou entender a “relação dialética entre a consciência que unifica um grupo em torno de um tipo de conhecimento e práxis e a sua situação histórica” (LEGROS, 2007, p. 78). Para ele, “os enunciados [nas ciências humanas] apenas conseguem alcançar um certo nível de objetividade” (LEGROS, 2007, p. 79), porque normalmente ligamos nossas formas de pensar aos nossos supostos ou reais interesses. Assim, nosso comportamento jamais é o resultado de “um racionalismo fixado ou de uma apreciação consciente” (LEGROS, 2007, p. 79), mas da representação imaginária dos dados. O conhecimento não seria resultado apenas de uma construção puramente teórica, mas também de inúmeros elementos de natureza não-teórica, provenientes de seu contexto social.
Outra pesquisa pioneira sobre imaginário foi realizada pelo sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss, autor que fez importantes ligações entre a análise das representações e do simbólico. Segundo ele, a dimensão simbólica é “um dos traços distintivos do fato social” (LEGROS, 2007, p. 82), onde a atividade do espírito coletivo é mais importante que a individual. Os símbolos seriam capazes de explicar os mitos e crenças, por exemplo, porque, considerando que estes símbolos e suas associações apenas coincidem com as coisas, seria lógico afirmar que o simbólico serviria de expressão total dessas coisas, correspondendo aos homens que os assimilam e utilizam (LEGROS, 2007).
Alguns anos mais tarde, Mauss escreveu que o símbolo comanda a ação mais que o pensamento, já que as representações constituem uma complexa estrutura semântica, “baseada na interdependência dos signos que os remetem uns aos outros, de maneira que não existe representação separada das coisas” (LEGROS, 2007, p. 82). O mesmo ocorre quando tal representação atinge um nível simbólico: “os símbolos são, igualmente, estruturados em rede, e é através de sua combinação mútua que eles passam a significar, ma ausência de um simbolizado, definitivamente, indizível” (LEGROS, 2007, p. 83). Dessa forma, o imaginário age sobre a vida social porque nossa consciência é constituída por um intrincado sistema de símbolos que englobam o espírito, o corpo e nossas atividades impessoais.
A pesquisa contemporânea sobre a Sociologia do Imaginário desenvolveu-se principalmente na França da década de 1970. Sem abandonar os objetos clássicos das ciências humanas, como a violência e a produção de bens culturais, ela abriu espaço para o estudo da cotidianidade, da religação emocional, das metamorfoses do sagrado (LEGROS, 2007), buscando a compreensão das variações do imaginário e seus efeitos na sociedade e história. Pa tentativa de construção de um conhecimento que englobe as principais contribuições sobre imaginário nas últimas décadas, escolhemos os trabalhos de Gilbert Durand e Michel Maffesoli.