Rapidly spreading multi-drug resistant yeast: Candida auris
T. AYHANCI ve M. ALTINDİŞ
O que quer dizer diz. Não fica fazendo o que, um dia, eu sempre fiz. Não fica só querendo, querendo, coisa que eu nunca quis. O que quer dizer, diz. Só se dizendo num outro o que, um dia, se disse, um dia, vai ser feliz. Paulo Leminski21
Após ter concluído do percurso aqui empreendido, estamos em condições de explicitar o privilégio dado à ressonância no presente estudo. Em primeiro lugar, discorremos a respeito das primeiras ideias a respeito da persuasão, a partir da Retórica de Aristóteles (2007). Em seguida, com base nos estudos de Perelman e Olbrechts-Tyteca (2006), verificamos como a retórica desenvolveu-se a partir do renascimento e atestamos a necessidade de atualizar o con- ceito. Na sequência, examinamos os estudos a respeito da publicidade atual, atentando para os modos de persuadir que são eficazes nos dias de hoje. Finalmente, discorremos acerca da cons- trução do conceito de ressonância, elaborado por Jacques Lacan (LACAN, 1975-1976/ 2007).
De acordo com o que desenvolvemos até o momento, podemos afirmar que, atualmente, os fundamentos da persuasão, em suma, são:
94 1) Sugerir, não impor;
2) Fazer com que o público considere a ideia ou conceito anunciado;
3) Gerar adesão, não necessariamente racional. O importante é que a marca esteja acessível na memória do público;
4) Procurar meios de inserir a ideia anunciada na memória sentimental do público. É preciso, portanto, considerar os sentimentos e sensações antes mesmo de pensar em argumentos lógicos e racionais;
5) Fazer como que o conteúdo da mensagem apresente algo que se destaque em meio ao tur- bilhão de informações veiculadas pela mídia. A mensagem precisa ressoar.
À vista disso, aquele que se interessa em conseguir a adesão de um grande público, seja um político, um religioso e, claro, um publicitário, precisa buscar significantes que ressoem em um grande número de pessoas. Para tanto, como cada qual precisa se virar com o que se é, há que se valer do próprio sinthoma.
O publicitário, especificamente, não precisa ser alguém com uma criatividade fora do comum que, em um momento de inspiração, cria os anúncios mais espetaculares. O profissional da publicidade precisa ter um repertório diversificado, estar atento às transformações que ocor- rem nas comunicações e da sociedade (CAMPOS, 1987, p. 35). Nas palavras da autora: “[...] Do homem de marketing exige-se então sensibilidade suficiente para detectar alterações implí- citas ou latentes no mercado e a elas adaptar a produção”.
Alexandre Gama, um dos publicitários mais premiados do Brasil, afirmou, em entre- vista22, que o publicitário deve ter vocação para o improviso, uma resposta pronta e sempre bem
humorada.
22 Entrevista na íntegra através do link: <http://www.youtube.com/watch?v=OFaashxK1HQ>. Acesso em 16 jun
95 Entendemos essa improvisação como a possibilidade de utilização do saber inconsci-
ente (LACAN, 1969-1970/ 1992). Ao se servir dele, tendo, inclusive, formação técnica para
fazê-lo de diferentes maneiras, o publicitário pode colher elementos das mais diversas fontes para chegar a produzir uma criação singular.
Com relação às crianças, por serem muito novas, ainda não compõem suas obras como consequência de um sinthoma. No entanto, como os publicitários, elas também estão atentas para o que acontece no mundo. Talvez ainda não consigam criar uma campanha publicitária inovadora, mas, com certeza, estão “antenadas” ao que a mídia transmite. Como resultado desse fato, observamos que, quando solicitadas a persuadir, podem ser tão inventivas quanto os pro- fissionais da área, por isso, já são pequenos publicitários.
Numa tentativa de demonstrar como os informantes se desenvolveram enquanto peque-
nos publicitários, analisaremos um manuscrito, produzido pela informante Fernanda. A ideia é
mostrar que a produção da menina apresenta os fundamentos da persuasão mencionados no início deste capítulo e, principalmente, que o texto demonstra que sua autora escreveu como uma pequena publicitária.
96 1. São Paulo, 23 de dezenbro de 2009
2. querido Vô
3. está chegando o Natal 4. e quero muito a sandalia de
5. HELLOU KITT ela tem um sautinho 6. de bico eu quero rosa pinque
7. vo eu te amo Muito
8. é Porque Meus Pais estão com 9. problemas. Bejos
Quadro T – Manuscrito produzido em novembro de 2009, por Fernanda (9 anos e 6 me- ses).
O manuscrito inserido acima foi produzido em novembro de 2009, quando Fernanda estava concluindo a segunda série e tinha oito anos de idade. De modo a comparar os modos por meio dos quais as crianças desenvolveram estratégias persuasivas durante o período de um ano, foi solicitada, novamente, a tarefa da primeira coleta: carta para pedir um presente de Natal.
As instruções que foram dadas para a realização da primeira tarefa foram repetidas: es- crever uma carta para pedir um presente de Natal, o pedido não poderia ser feito aos pais e seria preciso justificar a escolha do presente e/ ou explicar por que o remetente seria merecedor do mimo.
Em resposta à proposta, Fernanda produziu um texto com 9 linhas de extensão, no qual afirmou que o Natal estaria chegando (linha 3) e que queria muito uma sandália da personagem
97 Para conseguir a adesão do interlocutor, declarou, na sequência, que amava seu avô (linha 7) e, como justificativa para o pedido de presente, explicou que seus pais estavam com problemas (linhas 8 e 9).
Abaixo do texto, a menina fez um desenho que, provavelmente, representa um anjo, o qual tem um balão de fala com a inscrição “Por favor???”. Nossa hipótese é a de que o balão de fala representa o pedido do locutor do texto, de maneira que, a nosso ver, Fernanda fez uma tentativa de relacionar a própria imagem com a de um anjo. Ressalte-se que o “anjo” foi dese- nhado calçado com a sandália de saltinho, pedida como presente de Natal.
Dizer que uma pessoa é anjo significa que a mesma é bondosa, virtuosa ou inocente. Assim, pode-se dizer que Fernanda pode ter feito uma investida para mostrar-se merecedora de um presente, afinal, em sua perspectiva, possuía qualidades comparáveis com as de um ser celestial.
Tomando o modelo de Cacioppo e Schumann (1983), percebe-se que, nesse manuscrito, Fernanda alterna entre estratégias de persuasão via rota central e rota periférica. No texto es- crito, a persuasão ocorre prioritariamente via rota central, pois seus argumentos estão relacio- nados diretamente ao presente desejado e às razões pelas quais a menina deveria ganhá-lo. O desenho, por outro lado, é uma estratégia via rota periférica, pois, indiretamente, a menina mostrou porque seria merecedora da sandália.
Esse manuscrito chamou-nos a atenção por ter um refinamento que as outras produções não apresentam: persuadir a partir de um implícito. Esclareceremos.
A imagem de um anjo não tem relação direta com o presente ou a motivação para pedi- lo ao avô. Contudo, no contexto em que foi inserida, a figura ajuda a construir a imagem que a menina quis mostrar ao interlocutor. Além de persuadir, a inserção da imagem pode ressoar no leitor, pois é surpreende, toca.
98 Esse tipo de estratégia é comum nas propagandas atuais: usar elementos diversos, que não estejam diretamente relacionados ao tópico gerador da peça, criando uma teia de elementos que leva o expectador a aderir à proposta. Foi o que Fernanda fez: sem explicitar ou impor seu desejo, deixou claro para o avô que um anjinho como ela merecia ganhar uma sandália de sal- tinho no Natal.
Tornar-se um pequeno publicitário não exige uma graduação, contudo, pressupõe um
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