A angústia foi e será aqui tratada não só como uma característica peculiar ao humano, mas, sobretudo, como o afeto que se encontra na fundação do humano. É um afeto fundador não só do aparelho psíquico e das psicopatologias, mas também com a angústia estariam sendo formados os fundamentos metapsicológicos da constituição do humano.
6 Pathos é uma palavra grega que significa paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade,
O ser humano sofre o excesso da pulsão que o afeta de modo passivo, ou seja, sob a forma da vivência de afetos. A vivência que caracteriza a pulsão, de excesso, sofrimento passivo, que faz a passagem entre o psíquico e o somático, é o que afeta a espécie, é o afeto. Ainda, esta paixão, que caracteriza a pulsão, se expressa primordialmente pelo afeto fundamental, a angústia.
Fenomenologicamente, a angústia é uma vivência emocional penosa, imprecisa, que se faz acompanhar por excitações dos órgãos internos do corpo, governados pelo sistema nervoso autônomo. Quando alguém se percebe angustiado, a angústia aí é sempre um estado consciente, facilmente reconhecível por quem a vivencia e que facilmente a diferencia de outros estados. Contudo, a partir da Dissertação, foi introduzida a possibilidade fenomenológica de uma angústia que se manifesta sem que haja qualquer vivência subjetiva de sentimento de angústia. A questão da angústia passou a incluir a possibilidade de sua manifestação somática ocorrer sem o acompanhamento do afeto consciente de angústia, sem a possibilidade de o sujeito descrever aquele estado somático como angústia vivida, enquanto vivência subjetiva. E a isto entendi como um dos aspectos da angústia somática, em que a manifestação somática é a própria angústia (e não manifestação de uma angústia que a acompanha ou precede). Por exemplo, a presença isolada da vivência de taquicardia, ou dificuldade respiratória, que normalmente são manifestações somáticas típicas de angústia, sem a presença de qualquer vivência subjetiva do afeto consciente de angústia. Ou, então, a presença apenas de alterações funcionais do soma consideradas não típicas da angústia (fadiga súbita; vertigem; distúrbios digestivos, como vômitos, diarreia, incontinência urinária; alterações circulatórias; dores musculares, tais como dores nas costas, dores nas pernas, dores de cabeça), no lugar de um ataque de angústia em que a vivência subjetiva de angústia teria vindo em conjunto com as manifestações somáticas que a caracterizam. Ou, ainda, na doença orgânica reconhecidamente psicossomática: asma, bronquite, úlcera péptica, colite crônica, gastrite, enterite, doenças cardiovasculares. Ou, ainda, na enfermidade somática degenerativa, como em um caso de diabetes, em que as crises de hipoglicemia, ou de hipertensão, são vividas como verdadeiros equivalentes somáticos de crises de angústia. Os pacientes afirmam que é a dose de glicose ou o nível da pressão arterial o que se altera e não sua subjetividade. Não dizem ter ocorrido qualquer
presença da angústia vivenciada como tal. O perigo é colocado na exterioridade do soma e não é vivido subjetivamente como angústia.
Por que denominei isto de angústia? Porque foi o que encontrei, parafraseando Freud7, no exame rigoroso da atividade anímica na clínica: Estas são manifestações de uma angústia somática. São angústias de um sujeito que só pode vivenciar a angústia como soma, enquanto soma apenas. Ela é vivida subjetivamente não como angústia, mas como a exterioridade do soma perturbado. Mas este soma perturbado é a angústia deste sujeito, que só assim pode vivenciá- la, sem conseguir percebê-la e nomeá-la como tal.
Entretanto, não basta a descrição fenomenológica para se ter uma pesquisa em psicanálise. Para definir a angústia, em psicanálise, é necessário abandonar qualquer tentativa de definição fenomenológica e, no lugar, enveredar pela pesquisa metapsicológica a partir da clínica psicanalítica. Foi o que fiz na Dissertação e que continuarei a fazer neste trabalho.
A angústia, um dos conceitos fundamentais da metapsicologia freudiana, referida pelo próprio Freud como “um ponto nodal para o qual convergem as mais diversas e importantes questões”8 da pesquisa metapsicológica em psicanálise. E é grande a importância e a dificuldade de trabalhar o conceito de angústia, que aumenta ante os textos kleinianos, dada a importância central da angústia na clínica e na teoria kleiniana.
Desde a Dissertação afirmei a opção pelo uso do termo angústia em psicanálise, recortando, definindo e diferenciando-o do de ansiedade9. Não tomo o
7 FREUD, Sigmund (1905a). Tratamento psíquico (ou mental). In: _____. E. S. B.. Tradução por
Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. VII, p. 300.
8 Id. (1917a). Conferência XXV: A ansiedade. In: _____. E. S. B.. Tradução por Jayme Salomão.
Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. XVI.
9 No início da busca da fundamentação do conceito de angústia somática, abandonei o uso
generalizado do termo ansiedade por ser esta apenas o polo psíquico de algo verdadeiramente mais amplo, que é a angústia, a qual se apresenta com dois polos, um psíquico e outro somático. Na Dissertação, após um breve estudo terminológico dos termos angústia e ansiedade, não só no português, mas nas línguas latinas, sobretudo o francês, e nas anglo-saxônicas, alemão e inglês, concluí por uma posição totalmente oposta daquela do tradutor de Freud para o português da Standard Edition Inglesa, que afirma, em nota de rodapé, logo no início da Conferência XXV: “Em português, existem os termos ‘ansiedade’ e ‘angústia’. Preferimos usar ‘ansiedade’ para nos referir à vivência de sofrimento psíquico determinado por um conflito interno. Designa, pois, predominantemente, o aspecto mental do fenômeno e se aproxima certamente mais da abordagem metapsicológica. Já o termo angústia designa de preferência o aspecto global, abrangendo o componente psíquico, ansiedade, mais as manifestações somáticas decorrentes do estado de tensão
termo ansiedade como sinônimo de angústia em português. Considero que a ansiedade é apenas um aspecto, o polo psíquico da angústia e não deve ser usada como sinônimo de angústia. Não é o que está no texto freudiano quando ele fala da Angst e não tem a ver com o encontrado em minha clínica psicanalítica.
Freud, ao definir angústia, a inclui na teoria do afeto e o faz de modo a provocar que devemos escolher, no português, o termo angústia em detrimento do termo ansiedade para traduzir a Angst de Freud. Pois Angst representa, na sua obra, muito mais do que um estado subjetivo ou sofrimento psíquico, figurando também um sofrimento caracterizado por alterações somáticas muito definidas, manifestadas no soma, como descarga.
Não lhes terá passado despercebida alguma ambiguidade e imprecisão no uso da palavra “Angst”. Por Angst geralmente entendemos o estado subjetivo de que somos tomados ao perceber o “surgimento da Angst”, e a isto chamamos afeto. [...] Um afeto inclui, em primeiro lugar, determinadas inervações ou descargas motoras e, em segundo lugar, certos sentimentos; estes são de dois tipos: percepções das ações motoras que ocorreram e sensações diretas de prazer e desprazer que [...] dão ao afeto seu traço predominante10.
Descrevemos Angst como um estado afetivo – isto é, uma combinação de determinados sentimentos da série prazer-desprazer, com as
e sofrimento internos. Ainda assim mantivemos neurose de angústia e histeria de angústia por serem já expressões consagradas” (p.457-458, grifo meu). Vê-se que o tradutor acaba por escolher, o que considerei totalmente incorreto, o aspecto mental do fenômeno como um único sentido para traduzir Angst em Freud, quando o próprio não o fez. O tradutor comete o erro de pensar a metapsicologia da angústia apenas no plano das manifestações psíquicas e de excluir a possibilidade de uma metapsicologia das manifestações somáticas da angústia. Ao definir angústia, Freud o faz de modo a provocar que devemos escolher, no português, do termo angústia em detrimento do termo ansiedade para traduzir a Angst de Freud, pois Angst representa na sua obra muito mais do que um estado subjetivo ou sofrimento psíquico, figurando também um sofrimento caracterizado por alterações somáticas muito definidas, manifestadas no soma, como descarga. Freud, na verdade, usou o substantivo Angst – equivalendo-o ao latim angustiae, que quer dizer desfiladeiro, e ao alemão Enge, que quer dizer estreiteza, aperto, para lembrar a limitação respiratória, o estreitamento, que ocorre na angústia. Portanto, incluiu de modo claro a vertente
somática da angústia, o que confirmei na pesquisa dos seus textos metapsicológicos.
correspondentes inervações de descarga, e uma percepção dos mesmos11.
E é justamente nestes trechos12 que Freud vai deixando claro que a Angst não possui apenas uma vertente como fenômeno psíquico, ou, em outras palavras, como um quantum de afeto manifestado de modo psíquico e consciente, ou seja, que se transformou em qualidade, em estado subjetivo, em sofrimento psíquico consciente, possuindo, concomitantemente, uma vertente como fenômeno somático, como um quantum de afeto manifestado somaticamente em inervações de descargas. Freud fala em inervações de descarga motora em vários momentos. A inervação motora pode ser tanto do sistema nervoso neurovegetativo, controlando a motricidade involuntária dos órgãos, como do sistema nervoso central, controlando a motricidade voluntária do corpo.
A tradução da Angst de Freud tem sido corrigida para angústia. Infelizmente a tradução de Klein para o português continua como ansiedade. Discordo mais ainda em se tratando de Melanie Klein. Proponho que venhamos a substituir a tradução feita nos textos kleinianos em português para angústia. Pois a tradução do termo inglês anxiety, que como o angst alemão é um só termo para o estado que abarca os dois vértices (somático e psíquico), por ansiedade, é um equívoco linguístico que compromete o pensamento kleiniano. Não há nada mais propriamente Angst do que a angústia kleiniana. A meu ver é muito pouco apenas ansiedade aquilo do que trata Melanie Klein tanto na teoria das angústias arcaicas, do Édipo primitivo e do superego arcaico, como na teoria das posições e da inveja. Ela trata da angústia em seus dois vértices, somático e psíquico, sendo a angústia kleiniana apresentada com diferentes graus de elaboração psíquica do soma à psique.
Na Dissertação mostrei que a angústia, assim como todo afeto, é primeiramente uma quantidade em descarga (o quantum de excitação ou afeto). A ideia de descarga se apresenta, assim, inerente ao afeto e à angústia. A partir daí
11 FREUD, Sigmund (1933[1932]), Conferência XXXII: Ansiedade e vida instintual. In: _____. E.