A história dos anarquismos é tão diversa quanto suas definições, proposições e produção intelectual, como mostram alguns dos principais livros que se dedicaram a apresentar uma história das ideias e dos movimentos libertários a partir de uma perspectiva anarquista. Cada um deles está atravessado pelos acontecimentos históricos imediatos e pela luta na qual está inserido. Parto dos estudos que se dedicaram a fazer uma história ampla dos anarquismos no mundo: o estudo inaugural de Max Nettlau e publicações da década de 1960. Segundo Nettlau, no momento da publicação de seu livro não havia, entre os pesquisadores e historiadores, grande interesse pelos jornais, livros e documentos relacionados à história do anarquismo. No entanto, mesmo
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ponderando haver nos dias de hoje uma extensa produção bibliográfica em termos históricos, teóricos e analíticos, sobre a história dos movimentos sociais e suas proposições políticas, os anarquistas e os anarquismos ainda despertam interesse a um reduzido número de estudiosos pouco considerados pelos demais como referência de e para análise aplicada aos movimentos sociais.
Max Nettlau (1977; 2008), durante a escrita entre 1932 e 1934, e a publicação em 1935, A anarquia através dos tempos23, traduz uma preocupação com a ascensão dos governos totalitários na Europa e explícita intenção em subsidiar as práticas dos anarquistas espanhóis, prestes a eclodir na Revolução Espanhola (1936-1939), em direção ao que será chamado de anarco-comunismo24. Mesmo relacionado a esse interesse específico e imediato, o livro de Max Nettlau se destaca não apenas pelo ineditismo no momento em que é lançado, mas também pelo esforço em sistematizar um grande número de fontes primárias. Há uma evidente preocupação em difundir a história dos anarquismos em diversas línguas, contando com o apoio de militantes e editores anarquistas. Nota-se, também, a intenção em contemplar a diversidade de experiências e proposições libertárias até o momento da escrita de seu livro, buscando procedências históricas da contestação da autoridade. O historiador austríaco não faz hierarquização das diversas proposições, movimentos e maneiras de fazer anarquismos.
23 Utilizo-me aqui de duas edições: a madrilena de 1977 e a brasileira de 2008. A anarquia através dos
tempos é o nome da edição espanhola. Nesta, Nettlau parte das primeiras contestações à autoridade em tempos modernos, localizando-as no século XVIII como revolta racional expressa pelas proposições e análises de Willian Godwin, e chega até o movimento anarquista do começo do século XX e os efeitos repressivos dos governos totalitários que se formavam na Europa no limiar da década de 1930. A edição brasileira, nomeada História da anarquia: das origens ao anarco-comunismo, é rigorosamente o texto contido na edição espanhola traduzido, mas não o livro completo. Nessa edição, há apenas os dez primeiros capítulos, sendo que os capítulos de XI a XVIII sobre os anarquismos na França, na Itália, na Espanha, na Inglaterra, nos EUA, na Rússia, Austrália e América Latina, foram suprimidos. Este corte sugere a intenção doutrinária dos editores brasileiros voltados para a teoria anarco-comunista.
24 Posição reforçada pelos apresentadores tanto da edição madrilena (1977), quanto da brasileira (2008),
respectivamente Carlos Díaz (pp. 7-12) e Frank Mintz (pp. 9-16). O pequeno livro de Nettlau é o sumário de uma extensa pesquisa, realizada como projeto político e de vida, que compila uma infinidade de jornais anarquistas do século XIX e começo do XX, reunidos por esse que ficou conhecido, segundo a designação de Rudolf Rocker, como o Heródoto da anarquia. Estas fontes primárias encontram-se hoje no
Interncional Institute of Social History, sob o nome de Max Nettlau Papers, e estão disponíveis, em versão eletrônica, no endereço http://www.iisg.nl/archives/en/files/n/ARCH01001full.php. Segundo este site a coleção recolhida por Nettlau até o início da I Guerra Mundial consiste em mais de 40.000 títulos. Destes, 3.200 são livros e panfletos anarquistas e 1.200 periódicos (incluindo o sindicalismo revolucionário), além de outra infinidade de livros, periódicos e panfletos relativos aos movimentos socialistas, de mulheres e política radical inglesa no século XVIII.
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Mesmo que o percurso traçado sugira uma confluência histórica em direção ao anarquismo comunista nas primeiras décadas do século XX, o método de exposição de Nettlau se orienta para apresentar, mesmo de modo sumário, as diversas práticas, escritos, jornais e pessoas que se fizeram em torno dos anarquismos e da contestação da autoridade instituída, seja ela estatal, escolar ou partidária, em quase todo o planeta. Ainda que, nesse esforço de não hierarquizar as diversas maneiras de se praticar os anarquismo, segure uma diferenciação, no campo da contestação à autoridade, entre anarquistas e libertários. A primeira designação se refere às formas históricas do movimento anarquista forjadas em meio às lutas operárias no século XIX; e o termo libertário, embora seja uma palavra forjada no interior das lutas anarquistas, se refere, para Nettlau, às proposições ou ações de grupos sociais que se constituíram, historicamente, antes depois da emergência do anarquismo como movimento social e político, como são libertários, para ele, Willian Godwin ou Étiene de La Boétie.
O historiador britânico, radicado no Canadá, George Woodcock (2002), escreve
Histórias das idéias e movimentos anarquistas, em dois volumes, no ano de 1961 (publicado no ano seguinte), apontando para um esgotamento histórico do movimento anarquista – posicionamento que o autor revê após os acontecimentos de 1968. Woodcock divide seu estudo de maneira que A Idéia (tomo I) antecede O Movimento (tomo II); coerente com tal divisão metodológica de exposição, sua conclusão é a morte histórica do anarquismo em 1939, com a aniquilação da Revolução Espanhola (1936- 1939) pela II Guerra Mundial (1939-1945); ainda que se retrate após o acontecimento
1968, pois segue defendendo que o anarquismo ocupa, naquele momento, um papel secundário ou menor para as lutas políticas, sendo mais influente culturalmente que nos meios operários. No post-scriptum, de 1973 (Woodcock, 2002: 299-313), ele sustenta que ―a ideia anarquista, contudo, por fim surgiu, e, notadamente, fora de grupos e federações que conservam a tradição derivada de Bakunin e Malatesta‖ (Idem: 304). O autor justifica sua escolha da data e o motivo da retratação com o seguinte argumento: ―entre 1939 e 1961 o anarquismo não desempenhou nenhum papel notável nos assuntos de qualquer país. Dessa década em diante, porém, as idéias do anarquismo tornaram a emergir, rejuvenescidas, para estimular os jovens em idade e espírito a tumultuar o
establishment da direita ou da esquerda‖ (Ibidem: 299). Após reiterar que, como movimento político e social, o anarquismo segue irrelevante e que o único movimento
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―neo-anarquista‖ entre desprivilegiados25 que ele enxerga estaria na Índia, em torno de
Gandhi e sua atualização das ideias de Tolstoi e Kropotkin (Ibidem: 312), concluirá que: ―o valor do anarquismo provavelmente residirá em primeiro lugar na força como idéia inspiradora, uma visão estimulante‖ (Ibidem: 313). Confere a essa força inspiradora o papel de uma utopia que nortearia, de maneira fecunda, as discussões e decisões políticas impossíveis de se desvencilhar dos partidos e dos governos institucionalizados. Estes, sob o crivo de uma contestação anarquista, não poderiam ignorar as exigências por mais liberdade. Após esse post-scriptum, Woodcock organiza uma extensa antologia de textos anarquistas, lançada em 1977, com o nome de The anarchist
reader’s, que receberá, quatro anos depois, uma tradução para português publicada pela
editora gaúcha, LP&M, com o nome de Os grandes escritos anarquistas (1981).
Na mesma década de 1960, mais exatamente em 1964, outro livro sobre a história do anarquismo é lançando na Inglaterra, Anarquistas e anarquismo (1977). Seu autor é o historiador e professor do St. Antony College da Universidade de Oxford, James Joll. Conclusivamente, o autor confere ao anarquismo, no momento em que escreve o trabalho, um papel de tradição cultural para uma crítica social (no que se aproxima de Woodcock), funcionando como uma espécie de má consciência moderna, que combina fé religiosa e filosofia racional. No entanto, as motivações que o levaram a realizar tal pesquisa interessam a esse trabalho. O historiador concorda com a avaliação de Woodcock de que o movimento da história atropelou a possibilidade de uma realização do anarquismo, mas reconhece a força de sua crítica e sua importante presença entre as forças de contestação da autoridade, como os escritores beats, o
dadaísmo e o surrealismo e, até mesmo, à maneira de Woodcock, na ação de Gandhi.
Conclui, portanto, que ―as contradições e as inconsistências da teoria anarquista, a dificuldade, se não a impossibilidade, de pô-la em prática, parecem ilustradas pelas experiências dos passados cento e cinqüenta anos. Não obstante, o anarquismo é uma doutrina que atraiu muitas pessoas em cada geração, e suas idéias continuam ainda a ter uma certa atração, embora talvez mais como credo ético pessoal do que como força social revolucionária. (...) Desta maneira, na prática, os anarquistas distanciaram-se
25 Entre os desprivilegiados econômica e socialmente, pois ―os anos 1950, a década da juventude
carreirista, foi um período de hibernação das idéias anarquistas‖ (Woodcock, 2002: 304). A ―retomada‖ viria a seguir em duas direções, uma acadêmica, com estudos históricos sobre o movimento; outra entre os jovens envolvidos na luta pelos direitos civis nos EUA e anti-nuclear na Europa, precisamente entre os jovens estudantes da geração seguinte aos anos 1950 (Idem: 305-306).
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deliberadamente do que a maioria das pessoas no século XX considerava como essencial para o progresso político e social‖ (Joll, 1964: 325-326). Segundo Joll, a importância de estudar a história do anarquismo deve-se ao fato de uma tendência historiográfica de sua época negligenciar as revoluções, movimentos e indivíduos fracassados. Defende que nestes fracassos podem-se encontrar, a despeito da irrelevância ou desaparecimento, importantes referências críticas à sociedade contemporânea. Sustenta o autor que ―não tem sido só o marxismo que tem olhado para história dessa maneira [esquecendo-se dos fracassados]; os historiadores cristãos pensaram o mesmo dos pagãos, e os historiadores liberais dos conservadores‖ (Idem.: 11). Ainda que defenda a importância em se conhecer a história dos anarquistas, relega a estes o papel de perdedores ou vencidos, como é possível notar em sua analogia aos pagãos e aos conservadores.
Esse interesse dos historiadores anglo-saxões pela história dos anarquismos nos anos 1960 produzirá ainda um importante trabalho sobre os anarquistas na Rússia, sua atuação nas revoluções de 1905 e 1917 e a dura repressão que sofreram após a ocupação do governo pelos bolcheviques. Trata-se de uma pesquisa empreendida na Columbia University, dos EUA, pelo historiador Paul Avrich, e publicada em 1967 pela Princeton University Press com o nome de Os anarquistas russos. Este livro logo receberá uma tradução para o espanhol, realizada pela Alianza Editorial, de Madri, em 1974. O estudo difere dos demais por não buscar uma história geral dos anarquismos, mas por se limitar a demarcar a formação e influência dos anarquistas num país que viveu uma revolução socialista. Salta aos olhos a diversidade de práticas e grupos que existiam na Rússia, ainda quase feudal, e a pouca influência que Bakunin tinha naquele país no final do século XIX e no começo do século XX. Os grupos eram animados por concepções diversas de anarquismo e inicialmente próximos de um populismo radical e do niilismo terrorista. É como se Avrich estivesse contando o entorno e o desdobramento dos personagens de Dostoiévski, em Os demônios (1872), e de Turgenyev, em Pais e filhos (1862)26. Primeiro, ele localiza três categorias do anarquismo russo — anarco-
26 Em Turgenyev, o jovem Bárzarov, personagem de Pais e filhos, lê apenas Proudhon e um tratado de
física newtoniana, levando-o a concluir que é preciso destruir tudo para que algo verdadeiramente novo se produza num mundo por demais enfadonho, e no qual sua insignificante vida se desenrola numa visita à fazenda dos pais de um amigo (Turgenyev, 1971). Esta obra foi responsável pela popularização do termo niilismo. Em Dostoiéviski, a ―tristeza cívica‖ (2005: 22) é invadida pelo assassinato de um estudante por um revolucionário, história verídica de um assassinado perpetrado por Nietcháiev. Desde então, as ideias
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comunismo, anarco-sindicalismo e anarco-individualismo —, todas atravessadas pelas práticas do terrorismo. Após expor a forte influência de Kropotkin entre camponeses, soldados e intelectuais, o que fez do anarco-comunismo a principal vertente na Rússia (Avrich, 1974: 43-63), anota que ―junto aos numerosos grupos anarquistas que apareceram em toda Rússia durante a revolução de 1905, em Odessa surgiu uma segunda rama do anarquismo, mesmo que minoritária: os anarco-sindicalistas; e ainda apareceria uma terceira: os anarco-individualistas de Moscou, São Petersburgo e Kiev. (...) Sob a influência de Max Stirner e Benjamin Tucker, teóricos alemão e estadunidense do anarco-individualismo, exigiam a liberação total da pessoa dos grilhões da sociedade organizada. Para eles, mesmo as comunas voluntárias de Kropotkin poderiam ser um freio à liberdade individual. Um certo número de anarco- individualistas encontraram na violência e no crime a forma de superar sua alienação social, outros se destacaram na cena literária e artística da época‖ (Idem: 64). A conclusão do historiador estadunidense é um pouco diversa de seus pares ingleses, embora restrita à caracterização de uma época. Avrich sustenta que ―o destino desses anarquistas era ser rechaçados, perseguidos e, finalmente, destruídos ou expulsos para exílio. Os que sobreviveram, considerando que passaram por momentos de amargura e desespero, mantiveram suas posições até o final. E se não conseguiram igualar suas posições às realidades materiais, encontraram no seio de seus pequenos círculos o calor humano, a camaradagem, uma profunda entrega à causa comum; mais que isso, ao liberar a si mesmos das convenções de um mundo que detestavam, provavelmente alcançaram como indivíduos alguma parte da ‗suprema ordem‘ que desesperadamente buscavam para toda a humanidade‖ (Ibidem: 258).
Daniel Guérin (1968; s/d), discordando dos autores de língua inglesa, publica, em 1965, O anarquismo: da doutrina à ação, interessado na potência dos anarquistas em suas práticas de autogestão e na crítica histórica ao socialismo autoritário, buscando nessa potência uma possibilidade de luta que reconciliaria tendências libertárias, identificadas por ele no marxismo (em especial no jovem Marx), com a proposta de autogestão derivada dos escritos de Pierre-Joseph Proudhon. Percebe, antecipadamente, a reviravolta que os jovens em 1968 imprimirão na vida política, possibilitando uma reativação do interesse pelas práticas dos anarquismos e/ou do socialismo libertário, que
tornam os homens possessos assassinos. Enquanto no primeiro há um impulso de ação e destruição, no segundo há apenas veneração assassina e decadência.
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o autor defende como forma de luta. O livro de Guérin, traduzido para o português exatamente no ano de 1968, subsidiou as discussões no Brasil em um momento politicamente difícil para história do país. O livro é lançado em plena vigência da ditadura civil-militar, com tradução para o português de Roberto Pedrosa e impresso e distribuído pela Editora Germinal, do anarquista-individualista Roberto das Neves, com assinatura do prefácio à edição brasileira por Pietro Ferrua27. Diferente de Woodcock e Joll, Guérin afirma uma atualidade do anarquismo e vê em sua retomada uma saída para o impasse do movimento operário europeu, mergulhado no autoritarismo bolchevista/stalinista, pela via da descentralização e da autogestão (Guérin, 2004: 176). Para Guérin, essa atualidade pode ser notada tanto nas contestações ao regime soviético na Iugoslávia, quanto em grupos de resistência à colonização francesa na Argélia, mesmo que admita uma oscilação pendular entre o que poderia tomar os rumos de uma democracia direta com autogestão e autonomia operária ou refazer o autoritarismo burocrático e dirigente do partido. Isto o leva a criticar Joll e Woodcock: ―o britânico George Woodcock acusou os anarquistas de serem idealistas que vão contra a corrente histórica predominante e se nutrem da visão de um futuro idílico, estando atados a um passado de características atraentes, mas já morto. James Joll, outro especialista inglês em anarquismo, se esforça em mostrar que os anarquistas estão fora de época, na medida em que suas concepções se opõem ao desenvolvimento da indústria, da produção e do consumo em massa, e porque suas visões se baseiam em uma visão romântica e retrógrada de uma sociedade idealizada, pertencente ao passado, composta por artesões e camponeses‖ (Idem: 185).
Não se trata, aqui, de julgar qual interpretação é a mais correta ou qual saiu vitoriosa depois que cinco décadas se passaram. Woodcock também criticará Guérin, dizendo que seu livro sobre o anarquismo é ―restrito e tendencioso, mas relatado com vivacidade‖ (Woodcock, 2002: 305). Analiticamente, interessa anotar que os
27 Por ocasião do lançamento desta edição no Brasil, um curso sobre anarquismo foi realizado na cidade
do Rio de Janeiro com a presença de Edgar Rodrigues, Carlos M. Rama, Jonh Cage e Pietro Ferrua. No prefácio de Pietro Ferrua, anarquista e integrante do C.I.R.A.-Brasil, ele afirma a forte influência do livro de Guérin entre os jovens estudantes franceses do maio de 68 e refere-se a uma afirmação de Daniel Cohn-Bendit que relata as calorosas discussões do livro de Guérin nos centros escolares e sindicais. Sobre o curso no Rio de Janeiro, ver Ferrua, 2003; sobre a influência entre os jovens franceses, ver prefácio In Guérin, 1968. Sobre essa edição no Brasil e o referido curso ver a série ―Os arquivistas C.I.R.A. Brasil‖, editada nas revistas verve 15 (2009: 130-98), 16 (2009: 85-140) e 17 (2010: 137-141). As informações sobre o livro de Guérin no Brasil podem ser consultadas na primeira parte (vol. 15 da revista) e o cartaz do curso na terceira e última (vol. 17 da revista).
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historiadores — Guérin, Woodcock e Joll — ressaltam a diversidade do anarquismo, suas inúmeras propostas e experiências, sua mudança de rumo e certo esgotamento com o final da experiência espanhola e sua postura refratária à formulação de uma teoria unificada. Avrich encontra na polimórfica atuação dos russos a possibilidade de experiências diversas no campo da liberdade de cada um. São apontamentos que imprimem um caráter local e disperso às lutas anarquistas, o que nem sempre é visto de forma positiva. A despeito de interpretações tendenciosas, é possível afirmar que as diferenças podem ser compreendidas notando de onde escreve cada autor.
Joll e Woodcock escrevem a partir de uma tradição inglesa marcadamente individualista, artística-cultural e em luta com o liberalismo democrático e seu individualismo burguês. Assim como Avrich, esses autores sugerem uma crítica ao autoritarismo e ao crescimento da presença estatal, não apenas nos países do chamado bloco soviético, sem com isso ter que abraçar as teses de uma democracia liberal incontornável, mesmo que isso fosse possível apenas em restritos círculos e na produção artística e intelectual. Na descrição dessa tradição individualista dos anglo-saxões feita por Nettlau no capítulo ―Libertários anglo-saxões‖ (2008: 59-73), compreende-se como esses historiadores verão os anarquismos apenas em sua dimensão cultural.
Guérin, por sua vez, liga-se a uma tradição coletivista-continental europeia, próxima de Mikhail Bakunin e sua interpretação das obras de Karl Marx e Pierre-Joseph Proudhon, buscando uma reconciliação que aponte saídas para o movimento operário da época, o que lhe rendeu críticas no momento de lançamento de seu livro O anarquismo (Ver Ferrua, 2009: 156-160). Essa característica, procedente do bakuninismo coletivista, pode ser localizada também em Nettlau, nos capítulos ―Bakunin‖ e ―As origens do anarquismo-comunista‖ (Nettlau, 2008: 139-154; 171-188). A postura de Guérin é confirmada por sua busca a uma formulação intermediária, entre anarquismo e marxismo, na espontaneidade revolucionária a partir da obra de Rosa Luxemburgo, sinal de sua aposta e envolvimento com os movimentos de conselhos operários que emergem tanto nos países socialistas quanto nos capitalistas (Guérin, 1982)28. Isto não implica negar a potência de liberdade do indivíduo, ao contrário, reforça essa posição na
28 Empreendimento teórico muito próximo de Guérin no Brasil pode ser notado na produção de Maurício
Tragtenberg, em especial em seu livro Reflexões sobre o socialismo (2011), no qual defende princípios de uma democracia operária, com autonomia para os conselhos, respeito à liberdade individual e métodos de produção a partir da autogestão. Sobre a crítica à burocracia como meio de dominação e seus métodos aplicados pelo governo soviético, ver Burocracia e ideologia (Tragtenberg, 2006).
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primeira parte de seu livro, afirmando como ideias-força do anarquismo a rebeldia visceral, a oposição ao Estado e à democracia burguesa e localiza como fontes de energia o indivíduo e as massas (Guérin, s/d: 39-66).
Ademais, Guérin terá grande importância. Entre os seus escritos está Um ensaio
sobre a revolução sexual, publicado em 1969, no qual analisa o controverso relatório