• Sonuç bulunamadı

“A vida imita o vídeo, Garotos inventam um novo inglês,

Vivendo num país sedento, Um momento de embriagues, Somos quem podemos ser, Sonhos que podemos ter”.

(Somos Quem Podemos Ser, Engenheiros do Hawaí)

O uso intensivo e extensivo de drogas, que há milhares de anos faz parte da história da humanidade, tem se configurado num dos grandes problemas da atualidade com enorme

repercussão social e econômica para a sociedade contemporânea, entendo-se essa “contemporaneidade”, como um tempo social, marcado pelo movimento de ordem e desordem, que segundo Balandier (1997), são característicos da Modernidade cujos aspectos são as incertezas, as instabilidades a lógica da fragmentação e da descontinuidade e, a velocidade das mudanças.

Sobre o momento atual, Vieira (2002, p.34) assim se refere:

A sociedade Contemporânea tem de fato características que a especifica. O inédito, o destaque, o efêmero, a ruptura são traços do seu movimento que dão ritmo à produção humana e também definem as relações dos homens entre si e o mundo.

E, dentre essas relações do homem com o mundo e vice-versa encontram-se as relações estabelecidas entre o homem e as drogas, tendo como conseqüências desastrosas questões associadas à saúde pública e de ordem jurídica transnacional.

A origem das drogas e seus desdobramentos são bastante complexos. Embora incluam determinantes psicológicos e biológicos dos indivíduos, a apresentação do fenômeno abrange, seguramente, motivações e repercussões de ordem política, econômica, social e cultural.

Na contemporaneidade, os referenciais de sucesso e de vitória são inatingíveis, exaurem as forças dos indivíduos. Esta é a marca principal que diferencia os tempos atuais de épocas anteriores. [...] A sociedade Contemporânea esvazia o sujeito, retira dele a capacidade de conduzir sua história. O sentimento de impotência o invade. (VIEIRA, 2002, p. 36-37).

Seguramente, esses componentes citados acima, possibilitam sensações de vazio, uma vez não atingidos e, por não se sentirem condutores de suas histórias, os sujeitos, vão se inscrevendo como impotentes e fracassados, procurando encontrar outras formas de minimização desse “mal-estar” individual e social.

De fato, os dados sobre o crescimento do uso de drogas, principalmente entre jovens, são amedrontadores. A explosão demográfica, a avalanche da urbanização e suas

metamorfoses sociais com diversas implicações negativas na qualidade de vida da nossa população acarretam uma “desfiguração comportamental” do ser humano, principalmente do jovem e adolescente, que busca sua identidade o seu espaço dentro do contexto pessoal, familiar e social. Na realidade, utilizadas por muitos, para curar males tanto físicos quanto psíquicos e espirituais, vem alimentando ideais nem sempre compatíveis com o desejo de que ao usá-las, haveria diminuição ou alívio dos padecimentos.

Pode-se pressupor que esta tendência atinge uma grande parte da população de jovens de diversos estados brasileiros que estão vivenciando este processo, pelas mais variadas causas, seja pela curiosidade, seja pelo desejo de fugir a dura realidade que lhes é imposta, em função da perda de direitos básicos de sobrevivência na qual há a exclusão de uma participação social plena enquanto cidadãos em desenvolvimento, seja pela diminuição do poder econômico de suas famílias que, cada vez mais, situam-se num mercado marginal, ou seja, nosso jovem vive, as conseqüências desse processo de carências diversas: habitação, alimentação, educação, cultura, lazer etc.

Estamos enfrentando as doenças da modernidade, como a depressão, o pânico, a toxicomania e outras compulsões, que são patologias psicossomáticas da atualidade, de origem social que afetam a saúde física e mental. A saúde da humanidade está fragilizada (BIRMAN, 1999).

Há, portanto, a necessidade de um maior comprometimento de toda a sociedade com tal questão, pois os prejuízos, além de individuais e familiares, implicam altos custos sociais e econômicos (MARTINS, 2002, p.19-20).

Segundo Martins (2002, p.13), na Grécia antiga, denominava-se a droga de

pharmakon, que tinha um duplo significado, sendo remédio e veneno, mostrava “a

tentativa dos gregos de traduzir o poderoso efeito dessas substâncias sobre a mente e o corpo do indivíduo”.

Freud (1930) já as colocava num contexto de minimização de sofrimentos para aqueles que se decepcionavam e não conseguiam desempenhar a contento, tarefas tidas como impossíveis, e assim acreditava:

Há vários métodos para evitar o sofrimento, contudo os métodos mais interessantes são os que procuram influenciar nosso próprio organismo. O mais eficaz é a intoxicação. O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício, que tantos indivíduos quanto povos lhe concederam um lugar permanente na economia da libido. Com o auxílio desses amortecedores de preocupações, é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio (FREUD, 1996, p. 85-86). Mas, nas diversas sociedades, as drogas aparecem como elemento importante no contexto de socialização e de lazer.

Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS), define droga como qualquer substância de origem natural ou sintética que, administrada por qualquer via orgânica, afeta sua estrutura ou função. Há outros conceitos sobre droga:

Toda substância natural ou sintética que usada de maneira indefinida, modifica o comportamento emocional das pessoas, que procuram em sua ação euforizante a minimização dos sofrimentos, paralelamente à busca do fantástico e controvertido mundo das viagens enganosas com suas falsas emoções e prazeres (FILHO, 2001, p. 163).

As drogas se classificam sobre vários aspectos, dentre os quais estão os aspectos relacionados com a origem (naturais: de origem vegetal; semi-sintéticas: de origem vegetal que passam por processos químicos em laboratórios; e sintéticas: produzidas em laboratórios), mecanismos de ação (depressoras, estimulantes e perturbadoras) e legalidade (lícitas e ilícitas).

Dentre as drogas depressoras, que são as que atuam no Sistema Nervoso Central (SNC) diminuindo a atividade mental, tem-se os tranqüilizantes ou ansiolíticos: os benzodiazepinicos; os calmantes e sedativos: os barbitúricos; o álcool: fermentados como vinho e cerveja e destilados, como pinga, vodka, whisky etc; os opiáceos ou narcóticos:

morfina, heroína, codeína etc; os inalantes ou solventes: colas, tintas, removedores, clorofórmio, éter, querosene, gasolina; a codeína: xaropes e outros.

As drogas estimulantes atuam no SNC, aumentando a atividade cerebral: os

anorexígenos: anfetaminas ou bolinhas ou rebites; a cocaína: o craque, a pasta de merla; a cafeína; a nicotina: tabaco e outras.

As drogas perturbadoras atuam no SNC, desorganizando os neurônios, alterando a

percepção, provocando delírios e alucinações, por exemplo, o THC da maconha; a mescalina do cacto mexicano; a psilocibina de certos cogumelos; o lírio: trombeteira, zabumba ou saia branca; o LSD-25; os anticolinérgicos: Artane, Bentil e o Êxtase.

Contudo, são as características da prevalência do uso que de acordo com Martins (2002, p. 18) “[...] reflete as normas culturais e valores da sociedade [...]”. E continua: “Uma perspectiva histórica dos padrões de consumo das substâncias psicoativas mostra importantes variações ao longo do tempo, que retratam, em linhas gerais, as diversas mudanças culturais nas sociedades, os movimentos migratórios e o contemporâneo fenômeno da globalização”.

“Por que as pessoas se drogam, se seus males são tão conhecidos e bem estabelecidos?” pergunta Sucar (2002, p.29) e responde, enfatizando o aspecto fisiológico do produto:

A resposta mais plausível, pressupõe que as substâncias, desde a cafeína até os alucinógenos, independente de suas diferenças químicas de atuação, produzem um efeito comum a todas elas de elevar num dado momento as concentrações de neurotransmissores cerebrais (serotonina, noradrenalina e dopamina) que provocam o aumento da liberação das endorfinas cerebrais, responsáveis pela sensação e, neste caso, ampliação da sensação de prazer, sendo os demais fatores coadjuvantes reforçadores e condicionadores para ao ato repetitivo de busca e utilização das substâncias de forma abusiva.

Significa, então, que o prazer quimicamente produzido substitui o prazer que o ato de viver deveria produzir.

Segundo Le Breton (2000), os jovens procuram o sentido de existir ao se lançarem aos riscos e menciona a “estrutura ordálica da toxicomania”, como um juízo que os faz merecedores ou não de viver, quando lançam suas vidas as sortes ou azares de viver ou morrer. Suas vidas “sem sentido e sem direção” estão lançadas a sorte e “a droga funciona como “simulacro simbólico” da morte do sujeito”. Porém, “ela sempre restaura o mínimo de sentido que torna possível a continuidade da vida”, mesmo “que em torno do produto”.

Vieira (2002, p.25-26) aborda em sua tese a interpretação de Weber sobre o desencantamento do mundo, que “[...] dominado pela racionalidade técnica e pelo império da ciência”, [...] baniu o sagrado, destruiu as utopias do Iluminismo e, conforme Freud (1997), lançou os indivíduos à condição de desamparo social.

Prosseguindo, Vieira (2002) aborda a utilização das drogas, por sujeitos que tentam “desafiar um mundo espetacular”, vislumbrando encantos e desencantos, propiciados pelo seu uso e mostra, a partir de Balandier e Birman, que a atualidade “cobre o mundo de desesperanças, intensificando as impossibilidades de satisfação psíquicas do sujeito e o abandono, e diz que “assim, o amparo propiciado pela droga, embora inconsistentemente sustentado na euforia e na onipotência narcísica, restitui, ao menos provisoriamente, o entusiasmo e o encanto pela vida e cria o fascínio pela substância”.

Parte-se, então, do pressuposto que, aqueles que a utilizam, assim o fazem como um mecanismo de buscarem minimizar seus processos de angústia, pois ao vivenciarem dificuldades e impedimentos surgidos ao tentarem alcançar limites inatingíveis, necessitam de algo que dilua um pouco tais sensações desagradáveis e, procurando parcerias com a droga, torna-se possível um enfrentamento com mais segurança acerca de tais desafios.

“A droga eclode, pois, no atual contexto, auxiliando os sujeitos no confronto com os obstáculos do dia-a-dia. Torna-se importante suporte para que o indivíduo possa, sozinho, enfrentar suas crises, seus medos”. (VIEIRA, 2002, p. 9-10). A citada autora faz uma

apresentação dos dois lados em que a droga pode ter sua significação, apontando o lado do prazer, na busca de quem procura euforia, o risco ou o auxílio para seu enfrentamento, e do aplacamento do desprazer provocado pelas angústias do cotidiano e assim menciona:

De um lado, ela fomenta euforia, ânimo e coragem que lhe permitem permanecer na luta para alcançar a vitória; de outro, atua como anestésico, aplacando a angústia e o sofrimento psíquico causados pelos sentimentos de incompetência e de fracasso cotidiano, pelo desalento da incapacidade de vencer.(VIEIRA, 2002, p. 9-10).

Ela aponta a inclusão da dimensão social em 1926, no conceito de adição (aquele que adere à droga), pela OMS, quando alegou que a droga “leva o adito a refugiar-se da realidade”, isto por imperativos sociais. Enfoca o Princípio do Prazer, destacado por Freud, mencionando como naturais do ser humano, a busca pelo prazer e pela felicidade, como definidores do propósito de vida, havendo também uma conversão do prazer pela fuga ao desprazer, ocasionado pelo uso intensivo da droga, ou pela sua ausência após longo tempo de uso. Continua dizendo que Freud classificou como “grosseiro” e mais “eficaz”, um dos métodos de se obter felicidade, que é o químico, dizendo ser àquele que mais se distancia das “satisfações substitutivas”. “A droga, que sempre esteve presente nas histórias das civilizações, no atual contexto de crises, riscos e incertezas, amplia seu leque de funções, apresentando-se como elemento mediador e atenuante daquelas relações” (VIEIRA, 2002, p.19-23).

É bom mencionar fatores outros que levam os indivíduos a usarem drogas, tais como: fatores genéticos, hereditários, cognitivos, todos importantes. Porém, numa compreensão integral do sujeito, a este leque de fatores devem ser atrelados outros aspectos: os familiares e os sociais, que compreendem motivações primordiais, intrínsecas nestas relações, indivíduo, droga e contexto.

A toxicomania, segundo Birman (1999), é tida como uma das “psicopatologias da atualidade”, estando próxima da depressão e síndrome do pânico, as quais ele atribui, suas existências em decorrência da fragilidade de alguns sujeitos por estarem expostos a esse frenetismo social de mudanças, daí a toxicomania “sintomatiza o sofrimento psíquico do sujeito e seus apelos dramáticos para preencher o vazio existencial e restituir a plenitude narcísica que possibilita sua sobrevivência psíquica na sociedade do espetáculo” (VIEIRA, 2002, p.25).

Dentre os fatores citados acima, na busca do jovem por desafios e riscos, impulsionados a experimentar novas sensações e prazeres, seguramente, pode-se incluir outros, tais como a curiosidade natural dos adolescentes, influência do hábito de consumo por amigos e pelo contexto familiar, e facilidade de obtenção de substâncias e modismos.

Na atualidade, como já foi mencionado, adolescentes vivem relações de curto prazo cujas realizações são também de curto prazo, vive o “aqui e agora”, e buscam satisfações imediatas, em que a sedução da droga apela para realizações instantâneas e sem requerer muitos esforços e, num “contexto de vida atual muitas vezes é mais fácil fumar um cigarro de maconha do que desgastar a imaginação e driblar as dificuldades de tempo, violência e problemas econômicos para sentir prazer” (SCIVOLETTO; FERREIRA, 2002, p.123)

Para as autoras, (2002, p.124-125), “[...] o adolescente seria como uma “esponja” absorvendo todas as novas tendências”, enfatizando que na busca de conquista de “[...] sua própria identidade, sua auto-confiança e na busca de sua independência, o adolescente experimenta diferentes comportamentos e atitudes”, “[...] o desejo de ser visto como um indivíduo autônomo, adulto.” “[...] o adolescente se baseia, questiona, adapta e adota os modelos de comportamento adulto de que dispõe, sendo o uso de álcool, tabaco e outras drogas apenas mais um entre vários modelos”.

Os jovens, nos dias atuais, estão tentando definir um estilo próprio, em relação ao que vestem, a música, a dança, ao lazer em geral, às crenças, aos desejos, quase formando uma cultura própria, sem ter muita certeza do amanhã, jogam toda a sua energia no hoje e lançam-se cada vez mais aos riscos, buscando sempre “uma solução mágica” na resolução dos problemas. Tais soluções aparecem de várias maneiras: uma delas é na oferta de medicamentos como uma solução química, para relaxar, excitar, ter melhor desempenho sexual, enfim, criando uma relação entre o sujeito e a droga, como se ela fizesse parte necessariamente deste contexto, e as soluções magicamente aparecem, “[...] não requer grandes esforços e de ação rápida, vai ao encontro do imediatismo característico da juventude” (SCIVOLETTO; FERREIRA, 2002, p.125). Fazem ainda a seguinte afirmação: “o adolescente que não consegue se destacar em esportes, estudos, relacionamentos sociais, entre outros, pode buscar nas drogas a sua identificação: será aquele que mais consome cocaína no grupo, ou aquele que mais entende de drogas”.

Para a insegurança, a tristeza, o desânimo, a ansiedade, a angústia, a droga aparece como “remédio” para estes males, segundo as autoras.

A inserção de jovens no mundo das drogas, uma vez iniciada, torna-se cada vez mais incutida e cultuada, nos espaços onde a sociabilidade é evidente. Utilizando-se de códigos muitas vezes indecifráveis (causando sentimentos de segurança), o desejo de serem socialmente aceitos, impõe formas arriscadas (não seguras) de convivência, arremetendo- os a espaços que, lúdicos ou não, despertam o desejo do uso como se fosse o mesmo, um ingresso ou ticket para a entrada junto a novos grupos de amigos.

A droga possibilita esta inserção nos grupos, uma vez que carrega um estigma de algo poderoso, que, ao ser utilizado, além de produzir sensações de bem-estar, traz a atenção para quem a usa, despertando sensações de coragem, de se lançar ao desconhecido, trazendo como resultado, mesmo que ilusório, a impressão de ser aceito como alguém que

não teme desafios e enfrenta o novo, ou seja, o reconhecimento pelo grupo de sua importância enquanto um ser social que acompanha o movimento que a contemporaneidade exige.

Em diversas sociedades, as drogas aparecem como elemento importante no contexto de socialização e de lazer.

Os espaços de sociabilidade freqüentados por jovens, favorecem diferentes maneiras de diversão cujas situações de risco, inclusive o uso de drogas, são inerentes.

A socialização de muitos de nossos jovens nos espaços de lazer reafirma um comportamento de uso de drogas aceitas socialmente, incutido há muito tempo, tanto nas classes sócio-econômicas mais favorecidas quanto naquelas de menor poder aquisitivo. Ao se reunirem em momentos de diversão, o objetivo passa a ser não apenas usar o que é permitido, como também utilizar algo e adotar comportamentos que venham transgredir normas impostas socialmente, a exemplo do uso de drogas ilícitas e de outras práticas de risco.

Através do uso do álcool e outras drogas, os jovens conjugam maneiras e vivências sociais que lhes possibilitam a construção de trajetórias de vida, mesmo que, pelo veio da transgressão.

Contudo, é preciso considerar que existem outras motivações sociais que impulsionam o jovem hoje para o uso excessivo de drogas - curiosidade em experimentar novas sensações cada vez mais incentivadas pela mídia, o prazer que estas substâncias impõem aos indivíduos que já se tornaram dependentes, o efeito anestésico que faz diminuir o desconforto em conseqüência da interrupção do uso, a influência do grupo familiar e de amigos nas práticas de uso. Mas a leitura que deve ser feita da expansão do consumo de drogas é também no sentido de compreender as exigências da

contemporaneidade dos contextos de sociabilidade sobre o desempenho dos jovens. São estas relações que esta pesquisa se propôs investigar.

Portanto, o uso de drogas em uma sociedade, é um fenômeno dinâmico, multifacetado e de difícil apreensão. Estão em jogo os fatores que fazem despertar nos jovens o desejo pelo uso, entendendo o momento de vulnerabilidade a que estão expostos, afetados pelas mudanças corporais e psicológicas, como também por determinantes familiares e sociais.

Benzer Belgeler