Em vista da escassez de fontes, a pesquisadora pôs-se a campo, a levantar fontes históricas sobre a bacia hidrográfica de pertencimento da Fazenda-Escola Fundamar.
Quanto a isso, tinha-se como certa a sua inserção em território da bacia hidrográfica do Rio Machado, curso d‟água que deságua no reservatório de Furnas e que atravessa dois bairros rurais da área de atendimento da Fundamar. Nas incursões da pesquisadora por este território, notadamente, nos meses de janeiro para realização da matrícula domiciliar dos alunos da zona rural da Fazenda-Escola Fundamar, encontrava o rio Machado no bairro Ouro Verde, no município de Machado
33 No livro “Brasil, Terra & Alma – Minas Gerais”, coletânea de textos e poesias
organizada por Carlos Drummond de Andrade, há apenas uma referência ao rio Sapucaí no conto “O Pescador de Itajubá” de Marques Rebelo, alusivo ao político Wenceslau Brás (1868-1966), natural daquela cidade. (ANDRADE, 1967)
e no bairro Chico dos Santos, no município de Paraguaçu. Este era o rio que a pesquisadora tinha como o mais próximo da Fundamar. As estórias que os alunos contavam sobre pescarias, cachoeiras, pontes interditadas e, infelizmente, mortes por afogamento eram do rio Machado.
Mas, após a realização do diagnóstico ambiental da Fazenda-Escola Fundamar – etapa constituinte desse projeto de pesquisa, e realizada pelo geógrafo Diego Rodrigues Macedo34, em dezembro de 2009, constatou-se a inserção da Fundamar na bacia do rio Sapucaí, no baixo vale, colada à linha de borda entre a bacia deste rio e a bacia do Reservatório de Furnas. Ambos, tributários do rio Grande, que por sua vez é tributário do rio Paraná.35
A figura 1 traz o Mapa de Localização da Fazenda-Escola Fundamar.
34 Diego Rodrigues Macedo possui graduação em Geografia pela Universidade Federal de
Minas Gerais - UFMG (2005), especialização em Geoprocessamento pela UFMG (2006), Mestrado em Geografia pela UFMG (2009) e atualmente é doutorando em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre UFMG. Disponível em: <http://lattes.cnpq.br/0805217613268162> Acesso em: 08 jun. 2010.
35 Segundo página eletrônica da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o
município de Paraguaçu recebeu em 2009 o total de R$26.261,49, referente aos royalties pagos pela Itaipu Binacional, hidrelétrica do rio Paraná. (ANEEL, 2010). Recebe ainda Compensação Financeira pela utilização de recursos hídricos referente às seguintes usinas hidrelétricas: Água Vermelha; Estreito; Furnas (única que mantém represa no município); Igarapava; Ilha Solteira; Jaguara; Jupiá; Marechal Mascarenhas de Morais; Marimbondo; Porto Colômbia; Porto Primavera e Volta Grande. (ANEEL, 2010)
A percepção ambiental da pesquisadora sobre a bacia hidrográfica de inserção da Fazenda-Escola Fundamar não coincidia, portanto, com os dados objetivos do georreferenciamento e da hidrografia, conforme o indicado pelo diagnóstico de Diego Macedo.
Aqui é necessário se reportar mais uma vez ao sociólogo português Boaventura Sousa Santos quando invoca o paradigma do senso comum. Na percepção ambiental da pesquisadora, a bacia hidrográfica de pertencimento de sua casa de morada e local de trabalho há mais de vinte anos não deixa de ser a do Reservatório de Furnas, mesmo quando se apropria do conhecimento de que a drenagem das águas que vertem da Fazenda-Escola Fundamar acumula-se na bacia hidrográfica do rio Sapucaí. Conhecimento científico e conhecimento do senso comum advindo da percepção da pesquisadora se contrapõem, se sobrepõem e tornam um pouco mais complexa e nuançada a idéia de pertença, tão cara à educação patrimonial.
Em vista dessa nova informação, expandiu-se a área deste estudo para ambas sub-bacias. Foram contatados para coleta de dados, os dois Comitês de Bacia Hidrográfica: o CBH do Reservatório de Furnas e o CBH do rio Sapucaí.
O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Sapucaí (CBH-SAPUCAÍ) foi instituído pelo decreto estadual n. 39.911 de 22 de setembro de 1998, um ano após a lei que instituiu a Política Estadual de Recursos Hídricos em Minas Gerais.
Já o Comitê da Bacia Hidrográfica do Reservatório de Furnas (CBH – RESERVATÓRIO DE FURNAS) foi criado pelo decreto estadual n. 42.596 de 23 de maio de 2002.
Segundo sua página eletrônica, o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM) tem como meta elaborar até o final de 2010 todos os Planos de
Recursos Hídricos das trinta e seis Unidades de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos do Estado (UPGRH):
Para iniciar o processo de gestão das águas é necessária a criação e a estruturação dos comitês de bacia hidrográfica, já que são órgãos normativos e deliberativos que têm por finalidade promover o gerenciamento de recursos hídricos nas suas respectivas áreas de atuação e inclusive, aprovar e acompanhar a execução do plano de recursos hídricos. Hoje existem 34 UPGRHs com seus comitês já instituídos e legalizados, com previsão de criação para as demais até o final de 2010. (MINAS GERAIS, 2009)
A sub-bacia hidrográfica do Reservatório de Furnas é a GD-3 e a sub-bacia hidrográfica do rio Sapucaí é a GD-5, sendo GD a sigla para a Bacia do Rio Grande, para a qual convergem ambas sub-bacias.
À época dessa dissertação (2009/2010) os dois comitês estavam elaborando o Plano Diretor de suas respectivas bacias. E nenhum deles tinha projetos de Educação Ambiental em execução.36
Também os CBHs aqui referidos inserem-se como entidades híbridas, segundo conceito já analisado em seção anterior dessa dissertação.
A figura 2 traz o Mapa da Unidade de Planejamento e Gestão dos Recursos Hídricos da Bacia do Rio Grande – GD3, do Reservatório de Furnas, com respectivos fragmentos ampliados onde se visualiza o do município de Paraguaçu, dividido entre ambos territórios.
36 Celem Mohalem, presidente do CHB-Sapucaí, informou que não existe programa de
educação ambiental executado pelo órgão. O que existe são ações pontuais e a participação de membros do CBH numa comissão estadual que cuida do assunto. Mensagem pessoal recebida por [email protected]. em 08 jul. 2010. Provavelmente a depoente se referia à CIEA.