O pedido de anulação de parte da ata da reunião da Câmara, no dia 13 daquele mês, acusando a falta de decoro e dignidade com que se tratou a dissolução da Assembléia, é um indicativo de que a notícia desagradou, significativamente, os que ali se encontravam reunidos, ou, pelo menos, demonstra uma reação contundente daqueles que não estavam contentes com o Imperador ou não confiavam nele, ou na forma de governo estabelecido no Brasil, haja vista o que também acontecia nas ruas da cidade.
Feito os devidos esclarecimentos sobre os motivos da dissolução, as pessoas em Conselho se deram por satisfeitas e, mesmo condenando os excessos, não deixaram de registrar “a profunda mágoa dos baianos pela dissolução da Assembléia Geral Constituinte e Legislativa (...) que reunia a grande Família Brasileira formada pelas diferentes províncias do Império” (ACI, p. 72). Ao mesmo tempo, não deixaram de exercer certa pressão sobre o Imperador, na medida em que reafirmavam sua confiança no mesmo, cobrando o cumprimento de sua palavra e juramento, ou seja, a garantia de um regime constitucional e liberal, esperando que se apresentasse, brevemente, um projeto “para que a Câmara interpondo sobre ele seu juízo”, pudesse transmitir aos deputados das respectivas províncias sua opinião e pudesse, por estes, ser aprovado.118 O que significava acreditar que era possível
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APEJE. Correspondência recebida. P.P 06, p.83.
118 Segundo Arnold Wildberger, logo após a posse do presidente Viana, chegaram à província os primeiros
exemplares do projeto de Constituição, que, apreciado e aceito pela Câmara, não impediu que os baianos ali reunidos sugerissem ao Imperador algumas reflexões sobre o mesmo. As observações se referiram ao Conselho de Estado, cujos membros, na opinião dos baianos, deveriam ser eleitos e demitidos pelo chefe do Estado, se contrapondo, portanto, à vitaliciedade do Conselho; e que os corpos de 2ª linha não fossem obrigados a sair de seus distritos senão quando perigasse a independência e integridade do Império. Propostas e reflexões inúteis, pois a Constituição foi jurada tal qual quis o Imperador. Cf. Wildberger ( 1949, p. 13).
opinar e compartilhar com seus representantes políticos, no Legislativo, a participação política garantida num regime que se dizia liberal e representativo.
Para acentuar a confiança nos propósitos de D. Pedro I e, ao mesmo tempo, expressando submissão, agradeciam a nomeação exclusiva de brasileiros para o Ministério e para o Conselho de Estado119 e suplicavam pelo retorno dos deputados presos e expulsos do Brasil “ ao seio de suas respectivas províncias, e a consideração do Imperador pelo deputado Barata, cujas (ilegível) imoderadas eram mais filhas do seu patriotismo exaltado, que de maldade de seu coração” (ACI, p.73).120 Tal intervenção em favor de Barata é compreensível,
considerando a presença de Lino Coutinho e Francisco Agostinho Gomes, antigos companheiros e aliados políticos de Cipriano nas Cortes, de Lisboa, em 1820.
Na avaliação dos que se achavam reunidos, o cumprimento da palavra empenhada era importante para dirimir a desconfiança dos povos em relação aos boatos que se espalhavam sobre as intenções absolutistas do Imperador e as possibilidades de reunificação dos Reinos. Daí o registro de que se esperava que D. Pedro I mantivesse o propósito de garantir a separação entre o Brasil e Portugal e aprovasse a expulsão daqueles portugueses que estavam na província e se constituíam em motivos de descontentamentos e perturbações do sossego público.
Dessa forma, solicitavam a expulsão da ordem religiosa dos Carmelitas descalços e dos Missionários Apostólicos, vulgos Barbadinhos, pois “os membros de suas Comunidades são todos os estrangeiros nossos inimigos, que nos fizeram a guerra no campo de batalha, no púlpito e confessionário”, bem como os portugueses prisioneiros de guerra, enviados do
119 Em seu trabalho sobre a elite imperial, José Murilo de Carvalho identifica os ministros como um dos mais
importantes grupos da elite política. Eram agentes do poder Executivo, escolhidos pelo Imperador. A partir de 1847, foi instituído o Conselho de Ministros e o Imperador passou a escolher apenas o seu presidente que, por sua vez, escolhia seus auxiliares em consulta com o chefe do governo. Durante os nove anos do Primeiro Reinado, D. Pedro organizou dez ministérios, com a presença de baianos em muitos deles, a exemplo de Luis José de Carvalho e Melo, ministro dos Estrangeiros, Clemente Ferreira França, ministro da Justiça, Miguel Calmon Du Pin,Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Fazenda. Durante o Segundo Reinado, os políticos baianos estiveram na maioria dos Ministérios. Dos 36, em apenas 5 estiveram ausentes; dos 30 presidentes do Conselho de Ministros, 11 eram da Bahia. Quanto ao Conselho de Estado, ele foi organizado, em 1823, para elaborar a Constituição e foi confirmado e regulamentado pela Constituição que manteve seus integrantes e, portanto, a presença baiana. Seus integrantes conviveram com D. Rodrigo Coutinho, importante ministro português, e entraram para o serviço da Coroa no reinado de D. João VI. O Conselho era ouvido em todas as questões graves e medidas sobre a administração, principalmente em questões de guerra, paz, tratados com nações estrangeiras, escolha de senadores e comutação de pena. Como foi grande a instabilidade dos ministérios, o Conselho, aliado ao Senado, se constituiu no grande apoio ao Imperador. Cf. Carvalho (1980, p.46-47 e 171); Castro (1984, p. 18), Fernandes (2000, p.239).
120 Enviado de Pernambuco para a Corte, sob o argumento de que precisava tomar posse na Assembléia,
Cipriano Barata chegara preso ao Rio de Janeiro, em 4 de dezembro de 1823. Permanecera encarcerado, mas não calado, durante todo o restante do Primeiro Reinado, constituindo-se num exemplo vivo da arbitrariedade e autoritarismo do governo de Pedro I, que contou com aliados na Bahia e em Pernambuco para forjar o processo- crime. Sobre a trajetória desse líder político, ver interessante trabalho de Marco Morel, citado anteriormente.
Maranhão, entre eles alguns frades; portugueses solteiros e brasileiros que haviam servido como voluntários nos batalhões lusitanos; portugueses casados sem filhos; militares portugueses “que estando a serviço da província tomaram o partido inimigo”; alguns portugueses casados e com filhos que “se bandearam para o inimigo e nos fizeram a guerra”; “oficiais quer portugueses quer brasileiros que permaneceram na cidade durante a ocupação do General Madeira e que, mesmo não tendo pego em armas deviam ser submetidos a um Conselho de Guerra para serem investigados e dado o destino conveniente”(ACI, p.73-74).
Apesar das minúcias com que foram enumeradas as situações em que se achavam os portugueses e, também, brasileiros, que deveriam ser expulsos da província, algumas ressalvas foram feitas e denotam tratamentos diferenciados para os portugueses ricos e honrados. A expulsão dos que foram arrolados, visava, também, garantir a vida e o sossego dos “Portugueses honrados e pacíficos, que hoje são cidadãos brasileiros” e que pretendiam e podiam permanecer na província. Outra situação diz respeito aos portugueses ricos. Estes deveriam ter passaporte, deixar procuradores para cuidar de suas casas e negócios, uma vez que seus bens não seriam seqüestrados e poderiam regressar depois do reconhecimento da Independência brasileira por Portugal.
Com relação à organização do Estado na província, as medidas solicitadas disseram respeito à organização administrativa e ao aparato repressivo, ambos indicados como importantes para a manutenção da ordem. Apontavam a necessidade de nomeação de empregados públicos, com a observação de que “deveria recair em súditos nascidos no Brasil e nunca em Portugal”. Os oficiais que deveriam comandar os batalhões de primeira e segunda linha, precisavam ser nomeados com brevidade e encaminhados para a aprovação do Imperador “a fim de que os soldados tivessem conhecimento daqueles a quem servem e que os oficiais pudessem usar a energia necessária para garantir a subordinação e a disciplina” (ACI, p.76-77).
As medidas com a segurança se relacionavam com as ameaças de possível invasão portuguesa e com distúrbios em algumas vilas do Recôncavo. Daí a recomendação para que houvesse no porto uma embarcação de registro bem tripulada para examinar as pessoas que “entram e saem desta província por quanto convem ocorrer ao abuso que tem havido de entrarem e saírem indivíduos perigosos sem passaporte” (ACI, p. 75); de que o governo provincial, juntamente com o governo das armas, cuidasse da artilharia que estivesse nas fortalezas e fizesse os reparos necessários nas fortificações para prevenir qualquer ataque externo.
A complexa composição social das forças militares baianas implicava em constantes considerações sobre a formação dos batalhões e os seus comandos. Assim, as sugestões de formação dos batalhões para cuidar da segurança da cidade e das vilas desassossegadas eram acompanhadas dos alertas de que deveriam ser formadas por soldados disciplinados e comandados por oficiais de conhecida probidade e prudência, que tinham autorização, inclusive, para “subordinar seus soldados, não poupando ocasião de os castigar por suas faltas, e delitos e fazendo-os ocupar em freqüentes e aturados exercícios, meios de os adestrar e conter” (ACI, p. 76). Tais recomendações revelam a dificuldade de garantir a disciplina entre os soldados e o tratamento muitas vezes desrespeitoso e humilhante a que eram submetidos, o que contribuía para o desprestígio da carreira militar, fortemente marcada por uma hierarquia não só baseada na carreira como, também, na condição social. Boa parte desses soldados era oriunda das camadas mais baixas da população, predominantemente homens de cor, daí porque precisavam ser adestrados e contidos, uma alusão mais apropriada para o tratamento de animais.
Nas vilas, os oficiais deveriam, juntamente com os comandantes das milícias, atender as requisições da Autoridade Civil e tomar as medidas necessárias para garantir a ordem, inclusive, conduzir sob custódia, ao governo, os portugueses que porventura causassem desordem.
As medidas tomadas “tendo somente em vista arredar a anarquia, que ameaçava esta fatigada Província (...) apesar de conhecer que algumas se ajustam pouco a justiça (ilegível) humanidade, e que excediam as suas atribuições”, reafirma as preocupações do Conselho com a ordem na província e a “justa confiança, que devemos [o Conselho] ter nas retas intenções de sua Majestade Imperial”. Os espíritos, na Bahia, continuavam agitados e aqueles que tinham o que perder, agiram com rapidez para que a situação não piorasse ainda mais.
Como a dissolução da Constituinte repercutiu negativamente em várias províncias do Norte, o Imperador, para angariar apoio e minimizar as resistências, nomeou para presidir as províncias, em substituição às Juntas Governativas, e de acordo com a lei de 20 de outubro de 1823, pessoas de sua confiança e naturais do lugar, pelo menos, é o que se pode confirmar para Bahia, Pernambuco e Sergipe.121
121 Para a Bahia, foi nomeado o baiano Francisco Vicente Viana; para Pernambuco, Pais Barreto, natural da