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A estrutura social, o tipo de socialização, a educação e os valores aos quais o indivíduo está submetido acabam por interferir no tipo de representação que o ator social tem do mundo, de sua sociedade e de si mesmo, orientando suas ações e os sentidos delas. É o que alguns

autores chamam de “cultura de risco”, quando esta estrutura apresenta problemas ou

desigualdades:

Um dos primeiros elementos que singularizam a “cultura de risco” na sociedade brasileira é a disseminação, no universo social das classes populares, do fenômeno que o sociólogo Jessé Sousa, em leitura inspirada na obra de Bourdieu, denominou de “habitus precário” (Sousa, 2003), o qual se traduz, na vida cotidiana de milhões de pessoas, na in-corporação (o hífen aqui não é gratuito) da desigualdade social como algo “natural” e na insegurança do seu lugar no mundo (alimentada pela ausência de espaço e situações positivas de reconhecimento social), algo que se traduz na percepção do próprio corpo como uma duvidosa fortaleza. (LOPES Jr, 2009, p.59).

E neste ponto que elaboramos os mapas sociais-mentais, no momento em que focalizamos as estruturas agindo no comportamento social através de valores interiorizados pelos atores sociais, captáveis em suas cognições através de seus discursos e orientando suas ações, inclusive extremas, como cometer um homicídio.

A morte de muitos jovens, no bairro Nossa Senhora da Apresentação, está diretamente ligado às idéias de que seus algozes tinham da vida, do seu lugar no mundo, do que é ser gente, corajoso, ser homem, ter atitude, ser considerado. Idéias estas provenientes da estrutura social à qual estão submetidos, e perceptíveis através das categorias analisardas.

A tese a qual defendemos aqui, determina que quando estas idéias são interiorizadas de tal maneira que passa a orientar as ações dos indivíduos temos a criação do mapa social- mental, que no caso do bairro Nossa Senhora da Apresentação, os MSPs criados pela estrutura social teve força suficiente para contribuir na criação da situação problema que é o elevado número de mortes que foram relatadas durante este trabalho.

Ficam mais inteligíveis, e talvez menos aceitáveis, ações como matar outra pessoa por causa de uma bandeira, por um tapa no rosto, atirar no meio da rua em um grupo de pessoas. Trocas de tiros que mais parecem tiros a esmo, quando se tem como algo real e arraigado na mente dos agentes sociais ideias que foram apresentadas aqui como categorias que servem como orientação em suas vidas.

Categorias

Atitude Consideração

Arrumado

Apanhar da polícia não ser humilhante Brigas e torcidas organizadas

Ser ou não um “comédia”

Em um local onde estes valores têm força suficientes para se tornarem mapas sociais- mentais, ou seja, servem para orientar a imagem do mundo de muitos jovens, a polícia é vista através do olhar da desconfiança, estruturas como participação em Gangues, torcidas organizadas, e grupos que participam de ações de vandalismo como pichações e brigas, em muitos casos atraem mais que a instituição escolar, mesmo que esta hipoteticamente se

apresente como “legal”; determinaria um local potencialmente favorável ao aumento de atos

ilícitos, entre eles o homicídio.

As estruturas de social são o que formam os mapas-sociais-mentais, portanto uma modificação nos termos de eliminação dos indivíduos que detêm estes valores significa apenas uma contração e não solução do problema, uma vez que a estrutura que determina os mapas estão ainda latentes, no menor recuo da situação que causou a contração, acabam por reaparecer, podendo de manifestar nos números de homicídios.

É convincente que esta ação que visa os indivíduos como forma de eliminar problemas sociais, e não a estrutura social, como exemplo, um aumento da repressão, ou até mesmo o crescente número de homicídios é o que determina a subida no sentido escadaria nos números de assassinatos, ou seja, ações policiais de maior repressão ou os próprios assassinatos

eliminando um grande número de atores sociais envolvidos em crimes de assassinato, fazem decrescer um pouco os números referentes aos homicídios após uma ano de crescimento, para no ano seguinte os números voltarem a subir.

Portanto, depreende-se que as categorias relatadas acima que são apenas algumas de inúmeras que poderiam ser expressas, criam uma visão de mundo, que chamamos de mapas sociais-mentais, tendo o efeito de impulsionar os indivíduos para ações que acabam muitas vezes terminando em homicídios, no caso das estruturas aqui abordadas; mesmo quando esta não era a intenção, mesmo que amiúde seja. Deste modo, os MPS teriam uma relação maior

com a entrada dos atores sociais no chamado “mundo do crime” jogando-os em estruturas

que implicam em violência, trocas de tiros, mortes, inimigos, do qual terá dificuldade em sair, vivo!

Entende-se o que a elaboração dos mapas-sociais-mentais determina ao mesmo tempo uma imensa simplicidade e uma gigantesca complexidade: se quiséssemos mudar a realidade, bastaria mudar a estrutura social.

A integração, a socialização e exibição de certas características, valorizadas pelos pares dos indivíduos que cometem homicídios, está muitas vezes por trás do sentido que estes atribuem a seus atos. Matar significa, para alguns, ter atitude, ser cabra homem, ser

considerado, ser boy doido. O resultado disto a estatística expressa e as famílias sentem...

Enquanto ações estruturantes baseada em visões mais realistas sobre o problema dos homicídios não ocorrerem, ficando estas ações restritas à repressão após o ato violento, e

modificações bruscas em cada mandato no estilo de “combate ao crime”, ou seja, não haver

continuidade em um planejamento que focalize o que produz o problema, observar-se-ão análises sociais como a transcorrida nesta tese, além de outras até terrivelmente mais realistas:

Geralmente o crime fica impune não porque se ignore a identidade do assassino, mas porque não há nada a ser feito para transformar esse conhecimento em punição legal. E esse conhecimento torna-se uma violência

cotidiana para quem precisa conviver de perto não apenas com a impunidade, mas com os próprios homicidas (SOARES; MIRANDA; BORGES, 2006, p.13)

O número total de nomes de jovens mortos que foram citados pelos oito entrevistados, neste trabalho, ultrapassa facilmente os cento e cinqüenta, mostrando uma pequena parte da dimensão grotesca do problema.