1.2. Sivil Toplum Örgütlerinin Kavramsal Analizi…
1.2.2. Avrupa’da Sivil Toplum Örgütlerinin Tanım Ve Kapsamı
Vitor Lebow, um economista americano, declarou em 1955 para o “Journal of Retailing” (Story of the stuff, 2008):
Nossa enorme economia produtiva exige que façamos do consumo o nosso modo de vida, que devemos converter a compra e o uso de bens em rituais, que busquemos nossa satisfação espiritual e a satisfação do nosso ego no consumo. Nós precisamos das coisas consumidas, gastas, substituídas e descartadas de modo cada vez mais acelerado.
A declaração pode ter parecido polêmica para alguns, mas, na verdade, não destoa em nada dos ensinamentos das teorias econômicas vistas no capítulo 1 desta obra. Se posto um olhar de materialismo sobre a questão, percebe-se uma forte influência da ciência/ideologia na estrutura econômica e vice-versa. A teoria vem sendo construída e reformulada sobre as égides capitalistas, acompanhando o desenvolvimento deste sistema de produção e compartilhando a responsabilidade da mazela gerada por ele.
O que assusta é que todos os danos causados por este sistema têm como único álibi para sua reprodução os benefícios no consumo. A inquestionável busca pela maximização do bem-estar vem gerando problemas negligenciados pela teoria do mainstream sobre a resposta
de ferir a inviolabilidade do bem-estar individual. Segundo o jargão, o objetivo primeiro da economia é a satisfação das necessidades humanas. A frase é simpática a todos e dificilmente alguém se arriscaria a refutá-la. O problema, porém, reside na subjetividade destas necessidades e na insaciabilidade do “homo economicus”.
Já percebendo esta propensão do ser humano moderno, Smith adverte que
O desejo de alimento é limitado em todos os homens pela pequena capacidade de seu estômago, mas o desejo de confortos e de ornamentos nas residências , roupas, carruagens e mobiliário doméstico parece ilimitado, ou pelo menos, sem limites determinados (1974, p. 203).
Dada esta fonte de demanda ilimitada, a teoria econômica nos séculos XIX e XX deixou de se preocupar com as necessidades básicas da humanidade para atender a um consumo extra, a supervalorização da produção frente o atendimento das reais necessidades de toda a sociedade. Sobre a importância da implementação do consumo pelo consumo, Schumpeter expõe que
Certamente devemos sempre começar da satisfação das necessidades, uma vez que são o fim de toda produção, e a situação econômica dada em qualquer momento deve ser entendida a partir desse aspecto. No entanto, as inovações no sistema econômico não aparecem, via de regra, de tal maneira que primeiramente as novas necessidades surgem espontaneamente nos consumidores e então o aparato produtivo se modifica sob sua pressão. Não negamos a presença desse nexo. Entretanto é o produtor que, via de regra, inicia a mudança econômica, e os consumidores são educados por ele, se necessário: são por assim dizer, ensinados a querer coisas novas (1982, p. 48).
Este mesmo discurso schumpeteriano aparece ainda na fala de um industrial que revolucionou a escala de produção da indústria automobilística. Sobre a criação de necessidades, Henry Ford arguiu que se perguntasse às pessoas o que elas realmente queriam, elas pediriam um cavalo mais rápido.
Desta maneira, a ideologia econômica interfere no modo de produção, aproveitando-se dos lugares comuns, como o de “satisfação humana’’. No caso da escola neoclássica, tal jargão é o seu próprio aparato metodológico utilitarista. A interferência da teoria busca se certificar de que as necessidades sejam as do consumo (de preferência o descartável) e de que esses humanos sejam exclusivamente os possuidores de renda.
Aos desprovidos de meios de pagamento que estão na periferia do sistema e à finitude dos recursos naturais, sobra o silêncio metodológico neoclássico e a solução assistencialista do Welfare State. Como cita Furtado (1974), o economista limita o seu campo de observação a processos parciais, pretendendo ignorar que esse processo provocam crescentes
modificações no mundo físico. Parafraseando Raul Seixas, a teoria econômica está sentada dentro de sua redoma “com a boca aberta, cheia de dentes, esperando o fim chegar”.
Falando mais especificamente da economia neoclássica, que é a corrente que mais avidamente busca o crescimento econômico, Yves Cochet afirma que
A teoria econômica neoclássica contemporânea mascara sob uma elegância matemática sua indiferença às leis fundamentais da biologia, da química e da física, sobretudo as da termodinâmica. Ela é um dis parate ecológico (Pétrole Apocalypse, 2005, p. 147 apud LATOUCHE, 2009, p. 15).
O sucesso desta escola e do discurso econômico em geral se dá, sobretudo, ao mutualismo com a prática política. As teorias da primeira e os discursos da segunda encontram um no outro suas próprias justificativas. Este ponto fica mais claro quando exemplificamos a fala de um famoso presidente norteamericano.
Em 2002, George w. Bush teorizou que o crescimento é a chave do progresso ambiental, na medida em que proporciona os recursos que permitem investir nas tecnologias apropriadas: é a solução, não o problema.
A justificativa social do crescimento não varia no discurso, é sempre a mesma: maior produção significa maior bem estar para todos. O argumento ambiental, por sua vez, é o de que o crescimento proporciona os meios para o investimento em tecnologias mais limpas. Assim vem-se caminhando há alguns anos, dando passos na conquista de “bem estar’’, de “progresso técnico ambiental”, do fim dos recursos naturais e da própria existência humana.
Segundo Furtado (19), a atitude ingênua consiste em imaginar que problemas dessa ordem serão solucionados necessariamente pelo progresso tecnológico, como se a atual aceleração do progresso tecnológico não estivesse contribuindo para agravá-los.
Continuando as citações a respeito de conceitos e de teorias, analisa-se agora o posicionamento da CMMD (World Commission on Environment and Development). A definição seguinte vem de um documento que alguns ecologistas esperavam ser o primeiro passo na mudança de direção da economia. Refere-se aqui ao relatório ‘’Our common futue’’ de 1987 que criou o que hoje é o mais utilizado conceito de desenvolvimento sustentável. Um dos três pilares desta definição consiste justamente na manutenção e ampliação da “qualidade de vida” dos países desenvolvidos numa perspectiva de longo prazo.
Note que não se pensa em nenhum momento em redução de produção/consumo, apenas na elevação da “qualidade de vida”. Este é o mesmo prisma econocêntrico do
mainstream neoclássico. Ainda sobre a definição de desenvolvimento sustentável, a CMMD
pontua que
A satisfação das necessidades humanas é o objetivo máximo do desenvolvimento. o desenvolvimento sustentável requer que as necessidades básicas de todos sejam atendidas e que sejam estendidas a todos a oportunidade de satisfazer suas aspirações por uma vida melho r(1987, p. 40).
O desenvolvimento sustentável da CMMD não traz nada de inovador e provavelmente repetirá as mesmas estruturas vigentes. Sobre os limites impostos pela economia e natureza, a Comissão afirma serem passíveis de superação abrindo caminho a nova era do crescimento econômico (CMMD, 1987).
Conforme consta no livro de Charles Mueller, “Os economistas e as relações entre o sistema econômico e o meio ambiente’’, o relatório do Banco Mundial de 1992 insiste em que políticas e instituições apropriadas de manejo e ordenamento ambiental – em associação ao desenvolvimento tecnológico – podem compatibilizar o crescimento com a proteção do meio ambiente.
Charles diz que o relatório não nega que o crescimento econômico significa usos cada vez maiores de materiais e de energia e a produção ascendente de resíduos e dejetos, mas argumenta que só seria direta a relação entre o crescimento (entre o aumento da escala) e danos ao meio ambiente se vivêssemos em um mundo de tecnologias imutáveis e de coeficientes fixos de usos de recursos naturais.
Viu-se até então citações que comprovam que a ideologia é produzida (teoria econômica), reafirmada (organismo internacionais ligados ao meio ambiente) e consumida (discurso politico) em nossa sociedade. Falta dizer o mecanismo por qual ela é difundida: a publicidade.
Serge Latouche, economista do decrescimento, considera a publicidade um dos três ingredientes necessários para que a sociedade de consumo possa prosseguir na sua ronda diabólica. O autor Afirma ainda que a publicidade nos faz desejar o que não temos e desprezar aquilo que já desfrutamos. Ela cria e recria a insatisfação e a tensão do desejo frustrante (LATOUCHE, 2009).
Tal publicidade se encontra no “empreendorismo’’ de Schumpeter, na antecipação de necessidades de Ford, nas propagandas televisivas, no rádio, nos outdoors, nos próprios produtos, nas camisas, calças, sapatos. O cidadão é a própria propaganda ambulante. Sua capilaridade é quase onisciente. Sua evolução, preocupante. Quando se diz que “deixamos de
ser para ter’’, não se está dizendo nenhum absurdo, pois as duas coisas hoje tem o mesmo significado.
É fácil notar a discrepância das propagandas de outrora que vendiam as qualidades do produto e as de hoje, que vendem as qualidades que o ser humano vai ter (status, beleza, estilo) depois que comprar o produto. A propaganda atual é psicológica, não técnica.
É importante salientar que este segmento produtivo não tem peso irrelevante. Segundo o mesmo autor, a publicidade constitui o segundo maior orçamento mundial depois da indústria de armamentos. Considerando o conjunto do globo, são mais de 500 bilhões de despesas anuais neste setor. Tais investimentos consolidam um modelo de realização pessoal e social baseado na obtenção do maior número de produtos, muitas vezes supérfluos e com alto grau de descartabilidade.
Bernard Maris, outro teórico pró-decrescimento, afirma que
Toda a atividade dos comerciantes e dos publicitários consiste em criar necessidades num mundo que desmorona sob as produções. Isso exige uma taxa de rotatividade e de consumo dos produtos cada vez mais rápida e, portanto, uma fabricação de resíduos cada vez mais intensa e uma atividade de tratamento dos resíduos cada vez maior (Antimanuel d’economie, 2006, p. 49 apud LATOUCHE, 2009, p. 16),.
A teoria capitalista endogeniza a expansão, a política a sustenta e a publicidade a reproduz. Galbraith vai mais longe, superando a necessidade destes pilares estarem juntos. Para ele, não é necessário nem mesmo ter vinculação ideológica com o pensamento crítico para realizá-lo:
A taxa de aumento da renda e produção na Renda Nacional e no Produto Nacional Bruto, juntamente com o número desempregados, permanece a medida por assim dizer exclusiva da realização social. Essa é a moralidade moderna. Supõe-se que São Pedro apenas pergunte aos candidatos ao paraíso o que fizeram para aumentar o Produto Nacional Bruto. (1988, p, 293).
Desta maneira, o modo de produção cria formas ideológicas e institucionais que garantem sua reprodução, resultando em um sistema intrinsecamente expansivo. Este é o papel da ideologia do crescimento.
4.2 O indicador do Crescimento (PIB)
A população mais instruída ao ver, em jornais e revistas, notícias a respeito da elevação do PIB associa imediatamente este momento a um processo de crescimento econômico. Sobre este ponto, não há muitas divergências. Porém, uma vez constatado que houve o crescimento, que ideias paralelas surgem no imaginário popular? Em outras palavras, o que representa, para a população, o crescimento em termos de propaganda política?
Para se obter uma resposta científica a esta pergunta, seria necessária uma pesquisa empírica de grandes proporções. Entretanto, como foi dito no capítulo 1 desta obra, não seria muito forçoso dizer que enraizadas à noção de crescimento estão conclusões precipitadas de melhoria na qualidade de vida, de mais desenvolvimento e oportunidades.
O capítulo 3 desta monografia mostrou que o processo de crescimento econômico global não trouxe desenvolvimento sob alguns aspectos sociais e ambientais. Talvez fazer algumas considerações sobre o seu indicador ajude a explicar melhor este fracasso. O aumento da produção acarreta muitas implicações que não só a própria produção, assim como é o aumento da utilização do PIB como principal indicador de uma economia.
Para melhor entender isto, uma boa analogia a se fazer é com uma mercadoria na estante da loja. O consumidor vê o produto final na estante, em sua embalagem colorida e atraente e o compra, sem maiores análises, confiando nos dizeres da própria embalagem, estudada e feita para parecer o mais desejável possível. Não está, ali na embalagem, o total de recursos naturais que foram utilizados na produção, o tanto de agrotóxicos que foram inseridos no alimento, o seu nível de qualidade sanitário, as condições trabalhistas que (não) existiram para a produção do mesmo.
No caso do PIB, a situação é semelhante. O economista ou o politiqueiro expõe o indicador nas maiores páginas dos jornais, a população aceita aquele indicador e até comemora sua alteração algumas vezes, sem maiores análises, confiando nos dizeres “da embalagem jornalística’’. Porém, não está, ali no jornal, contabilizada toda a mazela social e ambiental gerada no processo produtivo.
Sobre a maquiagem socioambiental deste indicador, Celso Furtado pergunta
Por que ignorar na medição do PIB o custo para a coletividade da destruição dos recursos naturais não renováveis, e o dos solos e florestas (dificilmente renováveis)? Por que ignorar a poluição das águas e a destruição total dos peixes nos rios em que as usinas despejam os seus resíduos? Se o aumento da taxa de crescimento do PIB é acompanhado de baixa do salário real e esse salário está no nível de subsistência fisiológica, é de admitir que estará havendo um desgaste humano (1974, p. 116).