Como dito anteriormente, o direito à informação é mais restrito que a liberdade de expressão, aquele só abarca as informações verdadeiras, enquanto a liberdade de expressão engloba qualquer manifestação de pensamento, independentemente de ser verdadeira.
Apesar da proteção conferida a informação verdadeira, esta não deve ser algo necessariamente incontestável, ou seja, para que a informação não cause dano a terceiro ela deve ter um mínimo de verdade. Exemplo disso é quando jornalistas têm acesso ao inquérito policial de uma investigação, mesmo que no fim do processo chegue-se à conclusão que o inquérito não estava correto, não pode ser o jornalista responsabilizado, porque havia um mínimo de verdade na informação e, no caso, prevalece o interesse social de informar a coletividade do ocorrido43.
Quando se trata de meio de comunicação de caráter comercial deve observar o Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/90), que proíbe a propaganda enganosa e vincula o comerciante aos termos do anúncio44. Nesse caso, deve haver uma verdade completa, não um mínimo de verdade no que foi divulgado, em proteção ao hipossuficiente da relação comercial, o consumidor.
43 APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS - MATÉRIA VEICULADA NO JORNAL HOJE LTDA DA CIDADE DE CASCAVEL - DESTAQUE PARA A MANCHETE "POLICIAL É DETIDO APÓS CONFUSÃO NO AUTÓDROMO", REFERINDO-SE AO RECORRENTE ADESIVO - NECESSIDADE DE ANÁLISE DO CONTEXTO EM QUE A MATÉRIA ESTÁ INSERIDA - AUSÊNCIA DE EXCESSO NO DIREITO DE INFORMACAO E LIBERDADE DE EXPRESSÃO E DE IMPRENSA - CONTEÚDO SEM APTIDÃO PARA CAUSAR DANO MORAL AO AUTOR - FATOS VERDADEIROS E DE INTERESSE SOCIAL - INFORMAÇÕES OBTIDAS ATRAVÉS DOS DEPOIMENTOS EXTRAJUDICIAIS EXTRAÍDOS DO INQUÉRITO POLICIAL - INEXISTÊNCIA DE ATO ILÍCITO E DANO MORAL A FIM DE CARACTERIZAR A PRETENDIDA INDENIZAÇÃO - SENTENÇA REFORMADA - RECURSO DE APELAÇÃO PROVIDO. RECURSO ADESIVO PREJUDICADO. 1. A Constituição Federal assegura todas as formas de liberdade de expressão, pensamento, opinião, informação e de informação jornalística (artigo 5º, IV, IX, XIV e XXXIII). 2. No Estado Democrático a liberdade de informação jornalística é necessária aos membros da sociedade, exigindo-se uma imprensa atuante, reconhecida a limitação de respeito à honra. 3. No caso dos autos, a informação do crime em questão não cometeu excesso nem extrapolou a liberdade de imprensa, deixando de cometer ato ilícito. 4. O interesse social e a verdade são os limites naturais da imprensa que propiciam consciente e propositadamente a formação de opinião pública através do pensamento crítico, visando garantir o pluralismo de tendências, com redução da unificação dos enfoques jornalísticos. O valor social da notícia vem aferido pela potencialidade de oportunizar reflexões construtivas para que os indivíduos possam decidir e optar pelas escolhas que a sociedade lhes exige. (TJ-PR 8555955 PR 855595- 5 (Acórdão), Relator: José Laurindo de Souza Netto, Data de Julgamento: 26/07/2012, 8ª Câmara Cível)
44 Código de Defesa do Consumidor: “Art.30 Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.”
A informação falsa não pode ser abarcada pelo direito à informação porque estaria em desacordo com a função social da liberdade de informação, ou seja, esta informação geraria uma formação de opinião errada daquele que está sendo informado, o que desvincularia a ideia básica do direito de ser informado.
Os jornalistas e as empresas de comunicação costumam reclamar seus direitos, muitas vezes esquecendo de seus deveres de imparcialidade. A imprensa, em todos os seus modos de comunicação da mensagem (jornal, televisão, rádio etc.), se caracteriza por ser importante instrumento de formação da opinião pública, especialmente com a evolução tecnológica dos meios de comunicação, ampliando as transmissões de informação, notícia, ideia, incluído aqui até o sensacionalismo. Assim, diz-se que a imprensa adota uma função social, primeiramente servindo de meio de propagação da vontade do povo aos governantes, quase constituindo um quarto poder ao lado do Legislativo, Executivo e Judiciário. Nesse contexto, a imprensa serve como meio de controle das atividades estatais, evitando os excessos possivelmente cometidos, assim como serve de defesa aos abusos cometidos contra a coletividade. Por último, a função social da imprensa serve como meio de assegurar a ampliação da liberdade humana.45
As pessoas se informam para que possam exercer plenamente as suas capacidades, ao serem informadas elas tomam decisões que influenciam na coletividade. O Estado Democrático de Direito, baseado na soberania popular, não pode atuar corretamente quando aquele que toma as decisões (povo) tem opinião distorcida em virtude de uma informação falsa recebida.
A regra de que a verdade afasta a responsabilidade de indenizar daquele que causou prejuízo a terceiro por informação divulgada admite exceção. A Lei de Imprensa (Lei nº 5.250/67), em seu art. 49, prevê a exceção da verdade nos casos de calúnia e difamação, porém não protege a verdade quando esta invade a privacidade de outra pessoa. Assim, mesmo tratando-se de verdade, cabe ao autor da informação responsabilizar a vítima, porque a privacidade de alguém não caracteriza um interesse público. 46
45 SILVA. José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 17ªed. São Paulo: Malheiros, 2000.p 250
46 Lei 5.250/67: “Art. 49 Aquele que no exercício da liberdade de manifestação de pensamento e de informação, com dolo ou culpa, viola direito, ou causa prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar:
I - os danos morais e materiais, nos casos previstos no art. 16, números II e IV, no art. 18 e de calúnia, difamação ou injúrias;
II - os danos materiais, nos demais casos.
§ 1º Nos casos de calúnia e difamação, a prova da verdade, desde que admissível na forma dos arts. 20 e 21, excepcionada no prazo da contestação, excluirá a responsabilidade civil, salvo se o fato imputado, embora verdadeiro, diz respeito à vida privada do ofendido e a divulgação não foi motivada em razão de interêsse público.”
Porém, a Lei de Imprensa foi objeto de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), ajuizada pelo Partido Democrático Trabalhista, com o argumento de que essa lei não havia sido recepcionado pelo ordenamento constitucional atual, ferindo os princípios contidos na Constituição Federal de 1988. Em 30 de abril de 2009, O Supremo Tribunal Federal julgou procedente o pedido, declarando incompatível a lei de imprensa com a Constituição.47
Com o não recepcionamento da Lei de Imprensa pelo nova ordem constitucional, cabe ao Congresso Nacional, representante do povo brasileiro, a criação de uma lei que a substitua. Enquanto essa edição não acontece, cabe aos magistrados a aplicação de dispositivos da Constituição Federal, Código Civil e Código Penal, para a resolução de conflitos envolvendo jornalistas e empresa de comunicação.48
A liberdade de imprensa também está protegida quando a informação divulgada é desmentida, ou seja, o jornalista responsável pela informação a divulgou achando que era uma verdade, não tendo a intenção de prejudicar terceiros. Entende-se que o jornalista ou a empresa de comunicação tomaram cuidado ao divulgar a informação, pesquisando primeiro, utilizando fontes confiáveis, tentando reconstruir os fatos ocorridos na realidade. Aqui, encontra-se o dever de cautela do comunicador, pois deve este se precaver ao noticiar algo, não admitindo-se possível ingenuidade em relação as fontes da informação.49
Apesar de o erro estar abarcado na liberdade é imprensa, este não pode ser usado pelos jornalistas como desculpas para afastar sua responsabilidade em caso de dano a outrem. É preciso apurar no caso concreto a culpa do jornalista, não podendo se escusar de seu dever de diligência. Se o erro pudesse ser usado para afastar a responsabilidade da imprensa em todos os casos de publicação de inverdades, estaria configurada a imunidade dos meios de
47 STF, ADPF nº 130/DF
48 Ementa: [...]11. EFEITOS JURÍDICOS DA DECISÃO. Aplicam-se as normas da legislação comum, notadamente o Código Civil, o Código Penal, o Código de Processo Civil e o Código de Processo Penal às causas decorrentes das relações de imprensa. O direito de resposta, que se manifesta como ação de replicar ou de retificar matéria publicada é exercitável por parte daquele que se vê ofendido em sua honra objetiva, ou então subjetiva, conforme estampado no inciso V do art. 5º da Constituição Federal. Norma, essa, "de eficácia plena e de aplicabilidade imediata", conforme classificação de José Afonso da Silva. "Norma de pronta aplicação", na linguagem de Celso Ribeiro Bastos e Carlos Ayres Britto, em obra doutrinária conjunta. 12. PROCEDÊNCIA DA AÇÃO. Total procedência da ADPF, para o efeito de declarar como não recepcionado pela Constituição de 1988 todo o conjunto de dispositivos da Lei federal nº 5.250, de 9 de fevereiro de 1967. (STF - ADPF: 130 DF, Relator: Min. CARLOS BRITTO, Data de Julgamento: 30/04/2009, Tribunal Pleno, Data de Publicação: DJe- 208 DIVULG 05-11-2009 PUBLIC 06-11-2009 EMENT VOL-02381-01 PP-00001).
49 MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de
comunicação, podendo esta publicar qualquer assunto sem a devida fonte confiável ou pesquisa necessária.50
Assim, cabe ao comunicador procurar fontes confiáveis51, fazer pesquisas sobre o fato narrado, pois só assim poderá se aproximar da verdade. Claro que não haverá verdades absolutas, porque sempre há certa parcialidade ao comunicar algo a alguém, porém, deve-se tentar alcançar ao máximo a verossimilhança. Mesmo que a verdade cause prejuízo a terceiro, o seu comunicador não pode ser responsabilizado quando trata-se de notícia com relevância social.
50 MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2007.p 362-363
51Importante frisar que as noções de “verdade”, “mínimo de verdade” e “fonte confiáveis” são vagas. Elas ensejam muitos posicionamentos sobre o que poderiam ser. Esta monografia não pretende discutir o tema. Aqui, esses termos são utilizados apenas para explicar a responsabilidade da imprensa.
4 BIOGRAFIAS NÃO AUTORIZADAS
A biografia consiste em um gênero literário que narra a história de vida de uma certa pessoa, tendo as primeiras obras biográficas sido escritas na Antiguidade, especialmente pelos gregos. Para a criação de uma biografia podem ser utilizados diversos documentos, como fotos, vídeos, cartas, relatos, entrevistas etc. A existência de obras biográficas se confunde com a própria narrativa da História de certa sociedade, pois normalmente, retratam- se figuras que se destacam no meio social em que vivem, como políticos, escritores, cientistas, esportistas, artistas ou qualquer outra pessoa que teve contribuição para certo País ou até mesmo para o mundo.
A ideia é que ao contar a vida daquela pessoa notória está recriando-se a própria História, exemplo disso é contar a trajetória de certo monarca que reinou por anos em certo localidade, é lógico que a trajetória de vida, as ambições, pensamentos e influências dessa pessoa se confundem com a história do País que governou.
Porém, em um segundo momento, chega-se a um conflito existente entre o direito de informar e a vida privada, intimidade e honra do biografado, quando este não autoriza a publicação da obra anteriormente. O presente capítulo visa aprofundar a análise do conflito entre esses direitos fundamentais no caso concreto, delineando quais os seus limites e como é possível conciliá-los no âmbito do Estado Democrático de Direito.