2. MATERYAL VE YÖNTEM
2.1. Hava Kirliliği ve Nedenleri
2.1.4. Motorlu taşıtlarda kirletici maddelerin oluşumu ve taşıtların
2.1.4.4. Ateşleme sistemi
Escola Filomena Martins dos Santos (Canema) - Momento da disciplinano auditório escolar Segundo semestre de 2008. Disposto a desenvolver estas atividades coletivas na escola, através de oficinas de construção de instrumentos reciclados com os alunos, solicitei ao núcleo gestor um momento na disciplina243 escolar, para expor minhas ideias, que de imediato, provocaram uma certa desconfiança no ar: “Tocar em tambores de lixo? Mexer com resíduos? Latas de tinta e canos quebrados? Cabos de vassoura? Como isso irá funcionar?” Foram algumas indagações que surgiram no ato de explanação de minha proposta junto aos alunos e professores.
Esta desconfiança em torno da proposta traduziu-se em uma pequena procura por alunos interessados em participar do projeto, o qual de imediato, já estavam abertas as primeiras inscrições. Com um número de aproximadamente 19 participantes consegui atingir um percentual considerável para o desenvolvimento destas atividades, que a princípio, iriam acontecer no pós-turno escolar, aos dias de segunda e quartas- feiras, das 17 às 19hs.
Com o grupo quase formado, já colocava em ação a confecção dos referidos instrumentos percussivos. Para isso, solicitei aos integrantes que procurassem em suas comunidades, materiais inutilizados como: baldes de tintas, latas de querosene244, cabos de vassoura, frascos de aerossol, cones de linhas de costura, sandálias usadas dentre outros resíduos que os mesmos achassem adequados para a oficina criativa.
Imagem 22 - Primeira Oficina Percussiva Ecológica. (Ganzás de frascos de aerossol). Sala de aula da Escola Filomena Martins dos Santos (Agosto de 2008)
Fonte: Evaldo Vasconcelos
243 Disciplina: momento de reunião com alunos, professores e núcleo gestor, no qual antecede as aulas.
244 Querosene: destilado de petróleo muito utilizado como solvente (combustível presente na aviação, em fogareiros, lampiões e etc).
Durante estas atividades de reciclagem, um dos alunos: Gilberto Ferreira, trouxe consigo uma ideia inovadora que veio a fortalecer a sonoridade daquele recém criado grupo. O mesmo havia conseguido um velho garrafão - (galão)245 de água mineral que, ao ser repinicado246 com baquetas oriundas de galhos de bambu, produzia um timbre diferenciado, cuja sonoridade assemelhava-se à prática de caixa-clara247- muito comum em escolas de samba e em blocos percussivos afro-baianos.
Adotamos a sonoridade diferenciada do garrafão vendo-o como o instrumento responsável pela prática do “repinique”. Devidos a isto, sentimos a necessidade de ampliar o seu número, que passou de apenas um para três, durante os primeiros encontros de percepção e exploração sonora, realizados no segundo semestre do ano de 2008. A partir de então fomos confeccionando, criando, experimentando e reinventando diversas possibilidades timbrísticas que se aproximassem do estilo rítmico oriundo dos blocos percussivos afro-baianos, cuja influência despertava entre os alunos do grupo um misto de motivações e aspirações.
Imagem 23 - Alunos experimentando a sonoridade dos seus “novos instrumentos” (Garrafão repinicado) Primeira Oficina Percussiva Ecológica. Quadra da Escola de Canema. (Agosto de 2008)
Fonte: Evaldo Vasconcelos
Outros materiais diferenciados, como as latas de querosene - caracterizadas pela sua estrutura de alumínio e cuja forma circular e retangular conferiam-lhe um timbre estridente e agudo, foram incorporadas à configuração instrumental do grupo, servindo de base rítmica - (papel dos repiques) que sustentava a execução dos repinicados praticados pelos garrafões - (caixas-claras). Estas latas apresentavam uma sonoridade que variava dependendo de sua forma. Por exemplo: A lata retangular apresentava um som mais “aberto”, de certa forma um pouco mais agudo que as latas circulares. Estas últimas, localizadas na figura abaixo, emitiam
245 Galão: recipiente com capacidade líquida de 20 litros. Sua estrutura de plástico rígido confere um som estridente. É semelhante a uma garrafa de grandes dimensões.
246 Repinicado: Ato ou efeito de repinicar, ou seja, prática de execução de sons agudos repetitivos, os quais vibram com estridor. Muito praticado nos instrumentos conhecidos como “repique”, que apresenta em sua estrutura duas peles (superior e inferior) pressionadas por arcos de ferro ou alumínio.
no momento da execução instrumental, uma forte intensidade e uma altura (um pouco mais grave) bem definida, destacando-se dos demais timbres simultaneamente produzidos.
Imagem 24 - Experimentação timbrística dos materiais (latas). Primeira Oficina Percussiva Ecológica. Quadra da Escola de Canema. (Agosto de 2008)
Fonte: Evaldo Vasconcelos
Durante as oficinas realizadas ao longo do segundo semestre de 2008, fomos percebendo que os naipes dos respectivos instrumentos de som agudo já estavam quase definidos e, portanto, necessitávamos de outras sonoridades diferenciadas, cujas alturas (média e grave) conduzissem e sustentassem a marcação rítmica, auxiliando os demais instrumentistas a se concentrarem e a não se “desviarem” da métrica executada e composta pelos contratempos oriundos dos repinicados dos garrafões.
Pensando desta forma, aderimos a ideia de utilizar os baldes de plástico248 que os alunos haviam trazido, para criarmos uma outra ala, agora, com instrumentos de som médio (surdos de segunda), os quais tinham como principal tarefa, manter a métrica sonora em total constância.
Imagem 25 - Experimentação timbrística dos materiais recém-confeccionados (baldes). Primeira Oficina Percussiva Ecológica. Quadra da Escola de Canema. (Agosto de 2008)
Fonte: Evaldo Vasconcelos
248 Baldes de Plástico: recipientes circulares com capacidade líquida de aproximadamente 18L. Muito utilizados para o armazenamento de substâncias tóxicas como: tintas, massas acrílicas e venenos agropecuários, além, de serem utilizados para armazenar manteiga de padaria.
Para produzirmos as sonoridades almejadas, necessitávamos construir um acervo de baquetas, as quais auxiliariam nos exercícios rítmicos junto aos recém-confeccionados instrumentos de som médio e agudo. Estas baquetas - bem rudimentares por sinal, eram produzidas utilizando diversos materiais, os quais variavam dependendo da forma e do destino das mesmas. Por exemplo: Para os garrafões e ambas as latas, utilizavam-se varetas de aproximadamente 40 cm de comprimento, extraídas de galhos secos de Bambu. Esta ideia foi trazida por um dos estudantes: Benedito Júnior, que experimentando algumas alternativas, encontrou resistência nos galhos rígidos desta árvore, presente na sua própria comunidade, e imediatamente trouxe-os para as oficinas, incorporando-os nas experimentações sonoras com os variados materiais produzidos.
Para os instrumentos de sonoridade média, como os baldes - (surdos de segunda), desenvolvemos baquetas a partir de cabos de vassoura, cortados com aproximadamente 35 cm de comprimento e encapsulados (em uma de suas extremidades), por tecidos oriundos de camisetas velhas, as quais pertenciam aos próprios alunos e seus familiares. Estes tecidos envolviam pequenos recortes de esponja de colchão usado, o qual foi trazido por outro aluno do grupo: Antônio Marcelo Nascimento, que incrementando e produzindo estas novas técnicas de confecção, acabou por se tornar uma referência entre os outros estudantes, que o percebiam como “detentor” destes saberes relacionados a estas produções. O tecido que envolvia a esponja destas baquetas era pressionado por ligas oriundas de câmaras de ar249, cortadas aproximadamente com 1,0 cm de espessura e 30 cm de comprimento, servindo de “amarradilho” - como diziam os alunos, para evitar o desarranjo das baquetas. Por fim, estas baquetas seriam ainda envelopadas com fita gomada, conferindo mais resistência e segurança na hora da execução instrumental.
Imagem 26 e 27- Experimentação de baquetas recém-confeccionadas. Primeira Oficina Percussiva Ecológica. Quadra da Escola de Canema. (Agosto de 2008)
Fonte: Evaldo Vasconcelos
Ainda realisando testes e experimentações sonoras com os diversificados materiais recicláveis, chegamos à conclusão de que precisávamos introduzir no grupo, um naipe de instrumentos que realizasse a mesma função que os surdos graves de primeira250 exerciam em outros agrupamentos percussivos. Sentíamos que a sonoridade média extraída dos baldes - (surdos de segunda) não conseguia de fato, sustentar os compassos rítmicos. Diante desta necessidade, surgiu uma alternativa que modificou a trajetória rítmica daquele recém-formado grupo, pois, em diálogo com o coordenador do programa música na escola, José Evaldo de Vasconcelos, o mesmo mostrou interesse em apoiar a ideia criativa, levando-me ao centro de triagem251 da cidade para escolher, entre alguns materiais reutilizáveis, aqueles que possivelmente poderiam me auxiliar no balanceamento destas estruturas sonoras.
O professor montou um grupo de batuque, pensou em montar, procurou a gente, a coordenação, e aí a gente visitou um ambiente de reciclagem da prefeitura e, procurou tambores plásticos, procurou tambores de água, que tinham um som diferenciado, os tambores grandes de lixo, tambores pequenos, baldes de plástico, e outros mais, eu lembro que a gente procurou tudo, quase todo o material no lixo reciclável252.
Relembrando minha reação ao entrar no centro de triagem, comparo-a como a primeira vez em que entrei numa loja de instrumentos musicais, a qual de imediato, fez meu olhar vislumbrar a variabilidade de materiais existentes. Tateando os grandes sacos de nylon253que estavam à minha volta naquele enorme galpão, pude sentir uma curiosidade em cada abertura dos mesmos, que vinham “recheados” de bugigangas e sucatas, vistas naquele momento por mim, como um material preponderante para o desenvolvimento de projetos criativos. Àquela altura, pude perceber que os conceitos sobre reutilização e reciclagem haviam tocado profundamente meus sentidos, fazendo-me refletir sobre a necessidade de também sensibilizar os integrantes do grupo a respeito do trabalho ecológico a ser desenvolvido. Recordo-me que durante minha retirada do galpão, com o coordenador Evaldo Vasconcelos, levando alguns materiais como: garrafas pet, baldes e garrafões, canos de PVC, cones de linha de costura dentre outros resíduos descartados, não conseguimos encontrar nenhum material identificado com características timbrísticas graves. Entretanto, ao sairmos, chamou-me a atenção a presença de alguns tambores de lixo com capacidade líquida aproximada de 220 litros. Perguntando aos funcionários sobre a possibilidade de levá-los comigo para constituir o acervo instrumental de um grupo percussivo escolar, os mesmos responderam-me com ironia:
250 Surdo de primeira: considerado entre os demais surdos: (de segunda - médio/ de terceira - agudo) como sendo o mais grave.
251 Centro de triagem: O mesmo que centro de reciclagem.
252 Entrevista realizada comJosé Evaldo de Vasconcelos em 28 de Maio de 2017. 253 Nylon: tecido composto por fibras sintéticas.
- “Dá sim! Se você conseguir aguentar a catinga254deles”!
Compartilhei timidamente daquele momento de descontração, afinal de contas, realmente exisita nestes tambores um odor quase que insuportável, tanto, que ao serem transportados em uma Kombi255 da prefeitura, não tardaram em impregnar a mesma com aquele mau cheiro exalado.
A introdução destes “novos instrumentos” no grupo possibilitou, como havíamos planejado, a criação de uma referência em termos de marcação rítmica e andamento256, pois, com a sonoridade grave que os mesmos emitiam, (comparando-os com os surdos de primeira), percebia-se que havia um destaque entre os demais timbres - oriundos dos sons agudos das latas - (repique), dos repinicados dos garrafões - (caixas) e do som médio dos baldes - (surdos de segunda). A partir de então, despertamos a noção da métrica executada e dos contratempos intercalados dentro do ritmo proposto, que a priori, começou a ser desenvolvido através dos trabalhos com o Samba-Reggae257.
Para reverberar ainda mais o som extraído dos surdos de primeira e de segunda - respectivamente tambores de 220L e baldes de 18L, aderimos à proposta do já mencionado aluno Benedito Júnior, que inteligentemente potencializou a sonoridade destes recém-criados instrumentos, adesivando na parte superior destes objetos recortes de esponjas com aproximadamente 5 cm de espessura, oriundas do colchão trazido pelo aluno Antônio Marcelo Nascimento, conforme ilustra a imagem abaixo:
Imagem 28 - Experimentação timbrística dos materiais recém-confeccionados (Tambores de lixo) Primeira Oficina Percussiva Ecológica. Quadra da Escola de Canema. (Agosto de 2008)
Fonte: Evaldo Vasconcelos
Para que os alunos conseguissem tocar com uma maior liberdade, sem encaixar os instrumentos nas pernas (como antes faziam), utilizamos cordas usadas, trazidas por eles mesmos de suas próprias comunidades, sendo algumas caracterizadas pelo alto desgaste -
254 Catinga: forte odor exalado por um determinado corpo sujo.
255 Kombi: automóvel utilitário, considerado o mais antigo do Brasil. Precursora de vans de passageiros. 256 Andamento: grau de movimento em que uma determinada composição é executada.
proveniente de suas utilidades em atividades agropecuárias e em construção civil - de onde muitos de seus pais eram serventes e pedreiros.
Imagem 29 - Experimentação timbrística dos materiais recém-confeccionados (cordas de sustentação) Primeira Oficina Percussiva Ecológica. Quadra da Escola de Canema. (Agosto de 2008)
Fonte: Evaldo Vasconcelos
Ainda experimentando junto com os alunos diversas possibilidades sonoras e criativas, em contato com os materiais trazidos por eles mesmos para as oficinas percussivas, fomos percebendo que não tínhamos um naipe responsável pela presença dos chocalhos258- importantes instrumentos presentes nas escolas de samba, que, ao serem agitados, conferem um timbre agudo e diferenciado no ato da execução de todos os ritmos. Diante desta carência dos referidos instrumentos, convidei os alunos para confeccionarem alguns ganzás259, para que os mesmos fossem incorporados junto ao grupo.
Produzimos estes instrumentos utilizando cones de linhas de costura, obstruindo suas extremidades com recortes de chinelos velhos, fixados com cola quente. Em seu interior, colocamos diversas sementes de milho, que em comparação com outros ganzás feitos pelos alunos com frascos de aerossol, pedrinhas e cabo de vassoura, diferenciava-se em termos de sonoridade.
Imagem 30 e 31 - Experimentação timbrística dos materiais recém-confeccionados (ganzás) Primeira Oficina Percussiva Ecológica. Quadra da Escola de Canema. (Agosto de 2008)
Fonte: Evaldo Vasconcelos
258 Chocalhos: Op. cit. 259 Ganzá: Op. cit.
Pude observar que a maioria dos alunos não tinha interesse em tocar os ganzás, pois preferiam as latas e os baldes que utilizavam para a sua execução rítmica, baquetas de vários tamanhos. Diante disso, convidei outros alunos que já mostravam interesse em participar do grupo para aprenderem a prática dos ganzás. Como esperado, apenas alguns se candidataram e se entusiasmaram com a idéia de tocar o referido instrumento, que, a princípio, no ato de sua aprendizagem dentro dos ensaios, preencheu àquela “lacuna” que faltava para completar a sonoridade do grupo.
Após a confecção dos instrumentos, e já desenvolvendo atividades percussivas em torno do ritmo Samba-Reggae, recebemos o apoio de um músico percussionista local: Francisco Arnóbio da Silva, que, cumprindo sua carga horária contratual na banda marcial Pe. Valdery da Rocha, teria de completá-la trabalhando em algum setor público estipulado pela Secretaria de Cultura - órgão responsável pela contratação dos músicos da referida banda marcial. A pedido do coordenador de música Evaldo Vasconcelos, Arnóbio, que também era músico de várias bandas de forró pela região, passou a me auxiliar no desenvolvimento destas atividades rítmicas com os alunos da Escola Filomena Martins dos Santos, fato que contribuiu posteriormente para que este grupo viesse a se tornar referência cultural no município.
É, foi assim, foi bom no começo, o projeto começou, e eu tava na banda, e geralmente pra completar as oito horas a prefeitura colocou quatro horas pra mim completar, e aí me colocou nesse programa, aí, justamente, com o professor, foi criado o Batucan, os instrumentos era lata, aquelas lata de querosene que agora eu acho que nem existe, existe ainda né? É, aqueles galões de água, as baquetas foram feitas manualmente, com árvore mesma nativa daqui, as outras baquetas dos tambores mais graves foram feitas com pau de vassoura, com pano enrolado, justamente foi um aluno que fez e tal, e também os alunos que entraram, a maioria já tocavam, já tinham ritmo já, já sabiam o que era alguma coisa um pouco de música260.
Com o auxílio deste importante representante da cultura local, apreendemos várias técnicas de execução, como: o modo de segurar e rufar as baquetas, alguns contratempos intercalados, movimentações do antebraço, postura com os instrumentos, divisões de naipes e o mais importante: aprendemos uma variação de ritmos oriundos da cultura afro-baiana. Além do Samba- Reggae já praticado, Arnóbio introduziu outros ritmos como: Samba, Axé e Pagode, os quais foram internalizados rapidamente pelos participantes - que, dentro de um mês inclusive, já demonstravam um entrosamento eficiente.
Com os instrumentos confeccionados, ritmos ensaiados e o grupo entrosado, restava agora, escolher um nome criativo que viesse a se tornar a nossa marca registrada. Então, convoquei alunos do grupo e da própria escola para elaborarem um possível nome que se
relacionasse a estas práticas percussivas dentro da escola de Canema. Alguns estudantes trouxeram ideias como: ‘Canemanos’, ‘Batucanenses’, ‘Ritmando’ e ‘Batucanema’, porém, nenhum soou de forma criativa e convincente entre os participantes do grupo. Ao queixar-me entre alguns professores - colegas de trabalho, sobre a dificuldade de encontrar uma possível denominação que ressoasse criativamente estas práticas entre a comunidade cruzense, surgiu uma ideia exposta pela professora responsável pela Educação Ambiental na escola: a professora Cláudia Lima, que em um insight brilhante, respondeu-me rapidamente: “Batucan”!
- Você vai colocar Batucan! Que significa: “batuque da escola de Canema”!
Vendo a incessante angústia do Professor de Música de nossa Escola, Lidonildo Costa e por fazermos as atividades sempre estabelecendo parceria, tentei buscar um nome para o grupo que fosse sucinto e notável. Foi então que partiu a ideia de agregar o nome de nossa escola ao ritmo exibido pelos alunos, Batucan, batuque do Canema, que veio a calhar com o propósito musical. E foi uma marca que “pegou”. Hoje sinto orgulho de ter participado dessa simples escolha, mas que representa para a Instituição e para os que no grupo se inserem, a ousadia de alinhar ritmo, reutilização de materiais, talento e acima de tudo, a retirada de nossa clientela ao mundo obscuro oferecido pela sociedade261.
Ainda apreciando a sugestão, que de início encontrou eco em meus conceitos, tive de convocar os integrantes para indagá-los sobre a referida idéia, que de imediato, causou uma boa impressão. Unanimemente os participantes adotaram o “Batucan” como nome daquele recém-formado grupo, que não tardou em ganhar um lema: “O lixo que vira música”.
Após a concretização do nome e do lema do grupo, os alunos sugeriram a criação de uma logomarca que expressasse nossa identidade musical, cultural e ecológica. Deixando a critério dos próprios, sugeri um concurso de desenho, cujo intuito seria o de criar um emblema que unificasse a cultura afro-brasileira, os conceitos de reciclagem e a educação musical. Surgiu, portanto, da criatividade do aluno Ailton Alan de Vasconcelos, o símbolo representado abaixo:
261 Entrevista realizada com a professora Cláudia do Nascimento Lima em 29 de Maio de 2017. Professora responsável pela Educação Ambiental na Escola Filomena Martins dos Santos.
Imagem 32 - Logomarca do Grupo. Em vermelho, nome do grupo em grafia tribal africana. As setas: vermelha, amarela e verde, representam as cores do Reggae, assim como representam na forma circular os conceitos sobre reutilização. No centro,
em negrito, uma colcheia, que representa a educação musical no grupo. Encontro Percussivo com alunos do grupo Batucan (Setembro de 2008)
Fonte: Lidonildo Costa
Paralelamente aos ensaios realizados com o grupo, promovemos encontros reflexivos na perspectiva de capacitar os alunos repassando exercícios rítmicos sem a presença de instrumentos, utilizando para isso a própria percussão corporal. Estas reuniões também foram marcadas profundamente pelos constantes diálogos exercidos com os alunos a respeito de nossa própria afrodescendência, onde explicamos nossas origens e debatemos sobre o preconceito que infelizmente ainda insiste em ocupar espaço nas salas de aula. Tais reflexões, associadas a outras atividades como: confecção e reparo de instrumentos, possibilitou aos estudantes um entendimento significativo sobre a real importância do Batucan para o enriquecimento de suas relações étnico-raciais e socioambientais.
Outras competências e habilidades - não apenas voltadas ao ensino de música, tornaram-se perceptíveis durante os ensaios e encontros realizados com o grupo na escola. Como exemplo, destacamos a sociabilidade e a cooperação, estimuladas através dos trabalhos colaborativos nas oficinas de confecção de instrumentos. Nestas práticas coletivas, os alunos que sabiam mais respeitavam e ensinavam àqueles que apresentavam alguma dificuldade, havendo, portanto, um compartilhamento do saber que despertava outras capacidades educativas, como a autonomia e a motivação.
Com o passar dos encontros, foi perceptível o desenvolvimento dos alunos em termos rítmicos e em termos de entrosamento em grupo. Estes, destacavam os ensaios como um