A definição do estudo de caso comparativo ocorreu durante o segundo ano da pesquisa, entre os meses de março e dezembro de 2009 por meio da observação participante do tema mais amplo da investigação – personagens inseridas no contexto da mídia. O terreno da pesquisa nos parecia amplo, pois uma grande variedade de personagens públicas ocupava (e ainda ocupa) a atenção das pessoas cotidianamente. Na época, por exemplo, a atriz Camila Pitanga despertava o debate sobre a prostituição; o presidente Lula, fotografado ao lado da Rainha Elisabeth II no encontro do “G20”, indicava um novo lugar para o Brasil nas relações internacionais; a cantora Susan Boyle colocava em tensão os limites da celebrização de uma participante de reality show. Esse universo tão variado de temas e de personagens correspondia ao terreno da pesquisa, que tinha por objetivo problematizar características mais gerais das personagens públicas no cenário da mídia.
O trabalho teve início com uma organização temática da atuação pública dessas personagens. O procedimento consistia em acompanhar diariamente sites de grande audiência no Brasil (como Uol, G1, Terra, emissoras de televisão, revistas, blogs de celebridades, entre outros ambientes que estabelecessem conexão com temas populares) e selecionar as notícias
mais populares, identificadas em seções específicas (“as mais lidas” ou “as mais comentadas”). Inicialmente, a captação desse conteúdo era feita a partir de um procedimento de flanêrie, por meio de um passeio curioso em sites populares sem uma trajetória predefinida, buscando – nos tópicos mais lidos, nas imagens mais visualizadas e nas seções mais comentadas – curiosidades, estranhamentos, pistas, consonância e dissonâncias. Essa turnê, em um segundo tempo, transformava-se em uma varredura de conteúdo, desenvolvendo uma leitura cruzada nos diferentes sites, cujo critério era a seleção de tópicos com popularidade para além de apenas um dos sites.
Depois de identificar esse conteúdo, os eventos eram descritos em pequenos textos, acompanhados muitas vezes de imagens ilustrativas, reproduzidas dos próprios sites visitados. Essas anotações constituíam um diário de campo, que apresentavam o conteúdo baseado na técnica da observação participante (MALINOWSKI, 1984). Os textos eram imbuídos do olhar da pesquisa e da vivência empírica da coleta, lançando questões, dúvidas ou críticas, assumindo a autoria do trabalho.1 Não havia um único critério de formulação ou um tom acadêmico. As características comuns aos textos referiam-se a alguns aspectos da técnica jornalística, sobretudo relacionados à simplicidade, à atualidade, à coerência e à concisão. Esses textos eram publicados em um site da internet, no endereço http://ligialana.wordpress.com/.2 As ferramentas mais importantes da publicação on-line eram o recurso do hiperlink, que associava o texto ao local onde a informação havia sido originalmente publicada, e a caixa de comentários, que não sofria nenhum tipo de mediação e muitas vezes propunha debates. O diário de campo on-line foi desenvolvido por três motivações centrais.3
Inicialmente, o site surgiu como uma técnica para armazenamento, catalogação e visualização de conteúdo. A varredura de informações e a coleta de imagens e textos, desenvolvidas nas etapas anteriores, criavam um grande volume de dados, que precisavam de tratamento para serem visualizados de maneira apropriada. O Wordpress permitia que os dados fossem visualizados de maneira cronológica e integrada com todos os tópicos que
1
Uma metodologia semelhante, a flanêrie, seguida das anotações em um diário de bordo, foi desenvolvida por Flávia Ayer de Noronha (2007) em uma pesquisa a respeito da disseminação do jornal popular Super em Belo Horizonte. Eu tive a oportunidade de acompanhar o trabalho como co-orientadora.
2
A autoria explícita no endereço relaciona-se à ideia de criar um espaço próprio para a organização dos dados, que funcionasse como um terreno pessoal de trabalho.
3
A metodologia foi discutida por Ana Lúcia de Medeiros Batista e Antônio Marcos Nogueira da Costa na revista Ínterim. “Outros pontos positivos identificados na análise empírica da experiência do blog de Lígia Lana a serem destacados: 1) Funciona como pesquisa exploratória, no sentido de que os dados passam a ser levantados à medida que são postados e colocados em discussão. 2) Ajuda a recortar ainda mais o problema da pesquisa porque os dados vão surgindo a partir de uma análise despretensiosa. (…) 5) Proporciona o arquivamento das informações.” (BATISTA; COSTA, 2009, p.8).
faziam parte do conteúdo selecionado em uma mesma postagem. Em segundo lugar, a publicação do diário de campo problematizava, de maneira empírica, a própria investigação. As preocupações que orientavam a flanêrie na internet e a observação participante eram a experiência pública. Os dados selecionados referiam-se aos conteúdos que mobilizavam os indivíduos em um determinado dia ou semana, que criavam formatos comuns de experimentar um evento ou um acontecimento no espaço público da mídia. Ao tornar público o diário de campo, a metodologia da pesquisa passava a fazer parte também desse mesmo espaço, ainda que menos visível. As contingências e as restrições do dispositivo midiático, da mesma maneira, também faziam parte dos procedimentos de observação. A terceira motivação relacionou-se aos comentários. Por se tratar de um tema cotidiano e ligado ao senso comum, a fala das ruas enriquecia o olhar da observação desenvolvida pela pesquisa. Os comentários acrescentavam outras informações, elogiavam/criticavam os textos e propunham debates a respeito do tema.
Entre março e dezembro de 2009, foram publicados 260 textos (em média, um por dia), organizados em 25 categorias, definidas ao longo dos meses, e 404 comentários. O site possuía aproximadamente 100 visitas diárias – a maioria das pessoas conhecia a pesquisa (colegas, amigos e alunos) e outras acessavam por diversos caminhos (oriundos de conexões feitas por outros sites, por pesquisa no Google etc.).4 As categorias em que os textos eram publicados não eram pré-estabelecidas, tendo surgido junto com a publicação dos dados.5
Duas categorias de publicações se destacaram com um número mais elevado de publicações: Pela internet (79 ocorrências) e Celebridade (73 ocorrências). Em seguida, em uma faixa intermediária, a categoria Celebridade e Imagem trouxe 37 ocorrências e, um pouco mais abaixo, as categorias Assistindo à TV (23 ocorrências) e Pós-graduação em Comunicação (21 ocorrências). A partir dessas cinco categorias, selecionamos as publicações com mais de seis comentários para desenhar o mapa de temas mais populares.
QUADRO 1 – Textos mais populares do diário de campo on-line
Comentários Título e data de publicação Resumo da postagem
12 “Por que me interesso por
moda e estilo” (17/05/2009)
A visibilidade da mídia e a preparação para a performance. Listagem com alguns de sites de moda.
4
Em setembro de 2010, o site foi encerrado e, para manter o ineditismo da pesquisa, apenas 32 textos foram mantidos públicos. Os demais dados permanecem na plataforma Wordpress, mas de maneira privativa.
5
As categorias foram A semana, Assistindo à TV, Celebridade, Celebridade e acontecimento, Celebridade e
imagem, Ciências Sociais, Cinema, Contexto institucional, Cotidiano, EHESS, Fotografia, Gisele Bündchen, Livros, Luciana Gimenez, Mídias, Moda, Mulher e política, Paris, Pós-graduação em Comunicação, Pela internet, Sem categoria, Situações, Televisão, Tipos de celebridade e UFMG.
Comentários Título e data de publicação Resumo da postagem
10 “Os pegadores” (23/08/2009) Crítica à declaração da cantora Cláudia Leitte
sobre o filho de Ivete Sangalo ser um “pegador” como o dela.
9 “Polêmica: Cláudia Leitte e o
papel social da mãe” (17/04/2009)
Divulgação de endereço do texto que criticava Cláudia Leitte (“Ser mãe é se divertir no trio elétrico”), retirado do site do jornal O Tempo
9 “Marisa Monte e a intimidade”
(03/05/2009)
Resenha do documentário do canal GNT a respeito de Marisa Monte.
8 “Telefoninho” (15/12/2009) Comentário sobre promoção comemorativa do
site de Gisele Bündchen.
8 “O problema da pesquisa”
(27/04/2009)
Observação a respeito da pergunta inicial da pesquisa: por que as celebridades difundem o desejo por aparecer?
7 “Top 10 blog de celebridades”
(25/03/2009)
Avaliação e divulgação de 10 melhores blogs de personalidades.
7 “Registro de minicelebridades”
(28/10/2009)
Crítica a um site de fofoca que ridicularizou Sasha, filha de Xuxa.
6 “We live in public”
(05/07/2009)
Comentário do filme de Ondi Timoner a respeito de experiências de transmissão de som e imagem pela internet.
6 “O corpo feminino das
celebridades” (14/04/2009)
Associação entre a revista Elle France (edição de abril, “Estrelas sem maquiagem”) e a exposição das roupas de Marilyn Monroe.
6 “A questão financeira”
(1/10/2009)
Crítica à piada em torno do casamento por interesse e a especulação com o dinheiro de personalidades femininas.
6 “Três blogs amigos”
(15/09/2009)
Divulgação de endereços de blogs.
6 “As celebridades gorjeiam (e
muito)” (03/10/2009)
Divulgação de 10 endereços de twitter de celebridades e seleção de declarações curiosas.
6 “Celebridades e o novo visual”
(10/06/2009)
Crítica à divulgação de Wanessa de seu novo visual.
6 “Três capas” (26/06/2009) Reprodução de capas de revistas antigas com
Michael Jackson após o anúncio de sua morte. Fonte: Dados da pesquisa
Nos textos mais populares, quatro eixos temáticos foram identificados: a construção da imagem das personagens públicas6, os papéis da mulher como pessoa pública7, informações curiosas sobre as personagens públicas8 e assuntos internos ao diário de campo9. A partir desses quatro eixos, os dois primeiros foram selecionados como ferramentas para organizar o terreno de pesquisa. No amplo universo da relação com as personagens públicas, a construção da imagem das personagens públicas e os papéis da mulher como
6
“Por que me interesso por moda e estilo”, “Marisa Monte e a intimidade”, “Registro de minicelebridades”, “We live in public”, “Celebridades e o novo visual”.
7
“Os pegadores”, “Polêmica: Cláudia Leitte e o papel social da mãe”, “O corpo feminino das celebridades”, “A questão financeira”.
8
“Telefoninho”, “Top 10 blog de celebridades”, “As celebridades gorjeiam (e muito)”, “Três capas”.
9
pessoa pública se tornaram os instrumentos da delimitação do caminho. Os dois últimos foram avaliados como temáticas que refletiam a pesquisa de maneira mais imediata, não possuindo um desdobramento analítico relevante para as demais fases.
Primeiramente, a construção da imagem das personagens públicas delimitou questões relacionadas à imagem pública e à visibilidade. Como elementos específicos, as publicações ressaltaram:
a) a preparação para a atuação em público, seus aspectos empíricos (roupas, cabelo, maquiagem) e simbólicos (estratégias de marketing, elaboração de posicionamentos e declarações);
b) os dilemas de conduta em público, a exposição da intimidade e os limites da exploração da imagem pública.
O primeiro eixo trouxe a proposta de análise da condução da trajetória pública, entendida como um caminho processual de produção de performances em público, em diferentes momentos e espaços, em situações específicas A preparação para a aparição pública e a popularidade das personagens oriundas do sistema midiático, assuntos recorrentes durante a coleta de dados, delinearam o universo dos heróis do consumo/das celebridades como o terreno mais específico da pesquisa. O recorte de personagens da própria mídia inseriu a ênfase nos aspectos midiáticos da aparição pública.
O segundo eixo, os papéis da mulher como pessoa pública, demarcou o problema das desigualdades entre homens e mulheres como figuras públicas. Especificamente, as publicações indicaram:
- a posição da mulher pública diante do homem e do universo do trabalho (a maternidade, a conquista amorosa, a variedade de papéis assumidos em casa e na vida social);
- a construção do corpo feminino no espaço de visibilidade (padrões de beleza exigentes, valorização do corpo em detrimento de outros atributos);
- enquetes sobre o sucesso financeiro das personagens públicas femininas e curiosidades a respeito das trajetórias consideradas como bem-sucedidas.
O segundo eixo indicou que a trajetória a ser analisada deveria ser de uma mulher. É provável que tenha havido uma predisposição para a observação do universo feminino, já
que na época as pesquisas desenvolvidas pelos participantes do Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade (GRIS), em diferentes níveis, propunham também análises relacionadas a esse conteúdo.10 Mais tarde, como será apresentado no próximo capítulo, a compreensão da distinção de “homens públicos” (políticos, homens voltados ao debate do bem comum) e “mulheres celebridades” (personagens oriundas da própria mídia, mulheres impedidas por muito tempo de ocupar a vida pública, tendo sido os meios de comunicação uma das vias para a participação na experiência pública) mostrou a relevância do recorte para a compreensão do fenômeno contemporâneo. A democratização da fama refere-se à modernidade, que associa a consolidação da mídia e a possibilidade da fala pública feminina.