• Sonuç bulunamadı

Asya Meyve Suları ve Gıda Sanayi Ticaret A.ù

BÖLÜM III: BEùERø COöRAFYA

4.3. SANAYø

4.3.2. Cumhuriyet Sonrası Sanayi

4.3.2.1. Asya Meyve Suları ve Gıda Sanayi Ticaret A.ù

PROGRAMA?

“(...) ainda choca quando a gente adentra o nosso corpo negro num espaço” (GSEPPIR1, em 25 de outubro de 2013).

Conforme evidenciado no capítulo anterior, uma das mudanças substantivas do objeto de estudo em questão – que resultaria na alteração de seu título para Programa Pró- Equidade de Gênero “e Raça” a partir de um novo Decreto – fora a inclusão da dimensão racial de forma explícita em sua concepção. No entanto, segundo as vozes do campo-tema evidenciaram, a opinião das gestoras sobre essa modificação na redação (e na perspectiva) do

160 Programa não é consensual tanto internamente, quanto àquilo que se refere à materialização desse olhar inter-relacionado nas ações empreendidas pelas organizações participantes.

Para que possamos tratar desta zona de incerteza, torna-se relevante primeiramente compreender a ideia por trás do sentido de compor o nome do Programa também sob o prisma da perspectiva racial. Um primeiro ponto importante para iluminar esse sentido é ressaltar que o lugar de onde se coloca essa perspectiva é a SPM que possui como seu objetivo principal “[...] promover a igualdade entre homens e mulheres e combater todas as formas de preconceito e discriminação herdadas de uma sociedade patriarcal e excludente.”59 Ou seja, tem como foco prioritário ações que possam recompor as relações de

gênero sob um patamar de igualdade. Para tanto, tem como público-alvo prioritário as mulheres. Então por que destacar a perspectiva racial dentro desse universo de mulheres? A ideia de mulheres enquanto uma categoria em seu sentido amplo já não supõe abarcar as mulheres negras (brancas, indígenas, lésbicas etc.) em toda a sua diversidade?

Para assuntar essas perguntas é preciso reconhecer que a associação da dimensão racial à de gênero advém de um contexto histórico no qual o feminismo negro ganha expressão principalmente a partir da década de 80 (no contexto nacional e internacional). O posicionamento deste movimento viria a destacar que as “mulheres nem sempre vivenciam o sexismo da mesma forma, assim como homens e mulheres não vivenciam o racismo de forma idêntica” (CRENSHAW, 2002, CARNEIRO, 2003) e que, por isso, seria importante o reconhecimento pela esfera estatal das diferentes opressões em inter-relação como constitutivas dos sujeitos. Como resultado desse processo, cada vez mais o Estado tem buscado incorporar uma perspectiva múltipla de ação que reconheça a interação e relação entre as categorias de raça e gênero (HANCOCK, 2007; VERLOO, 2009).

Entretanto, tal posicionamento por parte do Estado não está isento de conflitos. Segundo aponta Alonso (2010), ao passo que a possibilidade de atuar segundo a perspectiva da interseccionalidade de gênero e raça contribui para ampliar a agenda política, também pressupõe um desafio para as políticas de igualdade existentes. Alonso chama a atenção para o fato de que “a inclusão tem gerado um certo nível de competição entre organizações e instituições que representam desigualdades diferentes” reproduzindo aquilo que Hancock chama em seu trabalho de “opression olympics” (ALONSO, 2010, p. 35). A descrição desse

161 efeito da “disputa de desigualdades diferentes”, notado por Hancock e Alonso, contribui para iluminar uma conversa registrada60 pela pesquisadora entre gestoras da SPM acerca da relevância da inclusão da dimensão de raça no Programa, conforme exposto no excerto abaixo transcrito:

G1 – Mas o meu problema é que quando você coloca raça essa não é apenas uma questão das mulheres. Mas é também uma questão dos homens.

G2 – Mas daí nós não estamos falando dos homens, nós estamos falando das mulheres. G1 – Desculpa. Mas eu não vejo como o Pró-Equidade fica tratando só da questão das mulheres negras. Esse que pra mim é o conflito.

G2 – Não é só tratando das mulheres negras. No meu entendimento você tem que fazer a agregação. Porque eu estava na discussão aqui. (...) Lembra? Que teve até algumas discussões no comitê de monitoramento... E que embasou essa questão. E eu sempre fui favorável que a questão racial entrasse.

G3 – Inclusive aqui na Secretaria a gente trabalha articulando.

G2 – Pois é... é exatamente isso que eu acho. Eu acho que a gente não pode desconstruir isso. G1 – Mas o comitê técnico nem foi ouvido. Foi conversa interna aqui dentro. Na época que eu era do comitê técnico, o comitê já recebeu a orientação de descer com raça. Entendeu? Não era uma coisa simples de mapear. Eu sei porque eu monitorei muitas empresas e vi as dificuldades de como fazer esse acerto.

G2 – Que tem dificuldade, tem. É bom que você61 tem a posição da “G1” e imagino também que você verá o que diz a (nome de outra gestora)...

G1 – Não é identificado, não. G2 – Não. Eu sei... Mas é que...

G1 – Mas a sua posição é muito clara. Foi até bom você ter entrado aqui.

G2 – Pra você62 ver que não existe uma posição unânime sobre isso. E nem pode existir, porque é um programa que está em formação. E a gente só vai poder avaliar, sei lá... daqui uma década, duas décadas.

Essa conversa entre as gestoras demonstra a “confusão” de lugar institucional das políticas quando diferentes eixos de subordinação passam a ser considerados de forma articulada: neste caso, gênero “e” raça. A gestora identificada como G1 quando diz “Mas o meu problema é que quando você coloca raça essa não é apenas uma questão das mulheres. Mas é também uma questão dos homens.” revela um conflito de sentidos derivado do fato de que em seu entendimento uma ação pública realizada dentro de uma secretaria dirigida

60A conversa aconteceu de forma espontânea, durante a entrevista com uma das gestoras que foram acessadas

pela pesquisa. Na ocasião, estavam presentes três gestoras que fazem parte de núcleos estratégicos da SPM.

61 O pronome “você” se refere à pesquisadora. 62 Idem.

162 especificamente a mulheres deveria necessariamente realizar apenas políticas para as mulheres. Desta forma, a incorporação da dimensão racial estaria, em sua visão, contribuindo para ampliar o sentido da proposta para um público que não é o alvo da SPM: os homens negros. Por outro lado, G2 alerta que ao agregar a dimensão de raça à de gênero o Programa estaria contribuindo para direcionar o seu olhar especificamente para as mulheres negras, não necessariamente ampliado para os homens negros.

Interessante notar que esse conflito de sentidos proveniente de diferentes interpretações para a inclusão da dimensão racial no Programa não foi notado apenas no diálogo acima, mas também em outras conversas com gestoras da SPM. Em uma delas, quando a pesquisadora abre o seguinte questionamento “Se uma empresa inscrever no Pró- Equidade de Gênero e Raça ações voltadas à população negra no sentido amplo que não só mulheres, vale?”, a gestora demonstra certa incerteza em sua resposta:

Pois é, agora tu me pegou. Eu acho que essa pergunta você poderia fazer para a [nome de outra gestora]. Porque, na verdade, outro dia, até um que é da minha equipe, perguntou como é, você está falando da questão racial, gênero e raça você não vai dizer que vai beneficiar só as mulheres negras, por óbvio tu está fazendo uma inclusão da raça como um todo, porque nós também não vamos ser sexistas, né? Mas também não te dou 100% de certeza, porque eu acho que, se aparecer uma ação voltada só para os homens negros, nós vamos perguntar cadê as mulheres. Ela não precisa ser uma ação só para as mulheres negras, mas ela não pode ser uma ação só para os homens negros. Eu enxergo dessa maneira, vou trabalhar dessa maneira. Eu não vou ser sexista no sentido de não aceitar, por exemplo, uma política... (GSPM4, em 22 de outubro de 2013).

Mais uma vez a narrativa desta outra gestora denota o conflito de sentidos relacionado a falta de clareza sobre a inclusão da perspectiva racial na SPM. Seu discurso evidencia ainda que a dificuldade de compreender o sentido da inclusão de raça institucionalmente na SPM transborda para o Programa naquilo que se refere à orientação sobre como as organizações participantes devem incorporar a dimensão racial. Conforme uma das gestoras (G1) expôs, em sua percepção, muitas empresas possuem dificuldade de “fazer o acerto” de como compor a perspectiva racial em correlação com a de gênero. Entretanto, essa dificuldade se revela também latente dentro da SPM quando GSPM4 diz que não possui “100% de certeza” se uma ação proposta para afrodescendentes em seu sentido amplo é ou não condizente com aquilo que o Programa espera. Logo, a partir dos discursos das gestoras podemos ser levada/os a compreender que o conflito de sentidos sobre como lidar com a

163 perspectiva racial é latente tanto interna quanto externamente à SPM naquilo que se refere às ações propostas pelas organizações participantes do Programa. Ou seja, tais fatos nos levam a observação de que a inclusão da dimensão de raça no Programa não é uma “zona de incerteza pertinente” resolvida simplesmente por estar formalmente instituída, mas é um sentido que ainda está sendo construído pela prática da SPM e das organizações participantes.

Curioso notar ainda o desconforto de GSPM4 quando supõe que a não aceitação de ações que comportam a dimensão racial em seu sentido amplo poderia se revelar uma postura institucional “sexista”. A pergunta que se deve fazer sobre esse argumento é: por que aceitar apenas ações voltadas às mulheres negras desconsiderando os homens negros poderia ser uma postura interpretada como sexista se a própria SPM dirige suas ações apenas às mulheres como estratégia de luta feminista? Muito provavelmente o que gera essa percepção da gestora é o fato de que os homens negros também representam grupos historicamente excluídos e, portanto, desconsiderá-los nas ações - mais do que ser uma postura potencialmente “sexista” - atentaria contra uma perspectiva de justiça social e de direitos humanos. 63

Além dos conflitos de sentidos já expostos, a ideia de “opression olympics” apontada por Alonso e Hancock também nos leva a refletir sobre a “concorrência” entre diferentes minorias segundo a interpretação governamental naquilo que se refere à organização do Estado para tratar de políticas especificamente dirigidas às diferentes minorias.

No contexto do governo federal, pelo fato de existir um ministério para tratar da transversalidade de gênero (SPM) e outro de raça (SEPPIR), a interseccionalidade entre essas duas dimensões nas políticas – como pressupõe o Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça - não estaria isenta de conflitos sobre um lugar institucional para se acomodar. Uma das gestoras entrevistadas busca “organizar” em seu discurso esse lugar institucional do Programa na SPM e os limites implicados nessa acomodação naquilo que tange o tratamento do tema racial:

(...) nós tentamos fazer com que a empresa faça um programa e proponha ações que façam essa intersecção prioritariamente de gênero e raça. Até porque a gente tem também um cuidado institucional de que este é um programa da SPM, que a SEPPIR participa como

63 Sobre esse aspecto é interessante relembrar que no Brasil mulheres brancas em média ganham mais do que

164 parceira, mas a direção geral do debate de igualdade racial é da SEPPIR, não é da SPM. Então a gente faz junto, tem uma inter-relação, mas no programa a nossa insistência é que sejam ações, medidas e um plano de trabalho que trabalha a intersecção entre gênero e raça. Claro que nós aceitamos ações gerais, porque as ações gerais impactam também sobre as mulheres. Agora, se a gente tiver uma ação que vai impactar positivamente sobre os homens negros e não impacte sobre as mulheres negras nós vamos ter que discutir. Nunca aconteceu, estou só te dizendo na lógica, no pensamento, na lógica do Programa. Exatamente a dinâmica de como entrou raça eu não sei, eu não estava aqui e quando eu cheguei a quarta edição já estava decidida assim (GSPM6, em 24 de outubro de 2013).

Conforme a gestora aponta, o cuidado institucional que abarca o Programa é prioritariamente da SPM, ainda que a SEPPIR seja uma das parceiras diretas. Assim, segundo sua percepção, essa localização do Programa na SPM é aquilo que deveria orientar a sua lógica de funcionamento priorizando, portanto, as mulheres negras. Entretanto, é interessante notar que esse sentido é criado pela gestora a partir de uma interpretação sobre uma decisão da qual não participou.

Conforme a gestora nos conta, essa decisão haveria “chegado” já na quarta edição do Programa quando a incorporação da dimensão racial já estava dada. Assim, a gestora não consegue especificar com certeza quais eram as intenções que estavam por trás da decisão institucional de contemplar a dimensão racial. Contudo, supõe que o foco principal dessa incorporação dentro da SPM deve ser as mulheres negras, apesar de compreender que ações com o recorte racial em seu sentido amplo são passíveis de serem aceitas – ainda que isso esbarre em um limite institucional da SPM.

5.2 SEGUNDA “ZONA DE INCERTEZA PERTINENTE”: QUAIS TIPOS DE

Benzer Belgeler