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Agnes Heller nasceu em Budapeste, Hungria, no dia 12 de maio de 1929, meses antes da crise mundial causada pela queda da Bolsa de Nova York que, segundo o historiador Eric Hobsbawm (2010, p. 96), “[...] equivaleu a algo próximo de um colapso econômico mundial”.

Neste período, a Hungria, estava se reerguendo das cinzas causada pela 1ª Guerra Mundial e suas consequências. Em 28 de junho de 1919 é assinado o Tratado de Versalhes, em Paris. A Europa sofreu uma reorganização territorial, a desagregação interna de seus territórios e a aceleração da queda das suas potências centrais.

Estes acontecimentos trouxeram algumas consequências para a Hungria. Até 1920 a Hungria pertencia ao Império Austro-Húngaro. Porém, em consequência de suas derrotas militares na 1ª Guerra Mundial, possibilitou a afirmação das minorias nacionais.

A Hungria foi forçada a assinar no dia 04 de junho de 1920, no Palácio Petit Trianon, em Versalhes um acordo, que ficou conhecido como Tratado de Trianon. Este tratado pôs fim ao Império Austro-Húngaro, separando o território da Áustria e da Hungria, pondo fim à dinastia dos Habsburgo e transformando a Hungria num “pequeno país satélite” (SZACKI, 1972).

O Tratado de Trianon desmembrou grande parte territorial do Império Austro- Húngaro, abolindo assim, a sua unidade nacional, histórica, física e econômica, como também, afastando a Hungria central de suas fontes de matérias-primas e de combustível, o que criou uma situação econômica catastrófica.

Com este tratado, a Hungria passa a ser submetida ao domínio dos países vizinhos:

[...] após a conclusão do Tratado de Trianon, as condições de vida tornaram-se ruins e os empregos difíceis de achar, os proprietários de terra voluntariamente deixaram de usar a sua maquinaria agrícola, para prover mais empregas ao trabalhador manual. (MONTGOMERY, 1999, p. 50).

Como é de conhecimento geral, a eclosão da 1ª Guerra Mundial, teve como estopim o assassinato do arquiduque austro-húngaro Francisco Ferdinando, em Sarajevo, em 1914 e a guerra durou até 1918. Segundo os historiadores, com o

Tratado de Trianon a Hungria perdeu cerca de 71,5% de seu território e 63,6% de sua população. Nessa época, era um país estritamente agrícola e, por isso, a Hungria ficou numa situação muito complicada economicamente falando, instaurando-se uma crise em todo o seu território.

Em contrapartida, para situar os acontecimentos ao redor da Hungria que terão influência direta na sua história e na vida de Heller, destacamos também a eclosão da Revolução Russa de 1917, a instauração do comunismo leninista em 1917 a 1924 e do stalinismo entre os anos de 1924 a 1953. Stalin passou a centralizar todo o poder da antiga União Soviética e a perseguir implacavelmente seus opositores políticos, num projeto de industrialização maciça, coletivização agrária e ditadura nazi-fascista logo em seus primeiros anos de mandato.

No oeste da Hungria, a ideologia fascista de Mussolini se consolidava na Itália e na Alemanha e a República Weimar (1918-1933) nascia em meio a uma frustrada revolução socialista. Em 1919 é fundado o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, logo chamado de Partido Nazista. Após ser nomeado chanceler da Alemanha, Adolf Hitler211 proclama em 1933 o III Reich, passando a instituir uma política fundamentada na ideologia nazista.

Como se vê, Heller nasceu num período de grande efervescência mundial e, em especifico, na Europa. Nesta época, Budapeste - cidade natal de Agnes Heller - era bem diferente daquela encontrada pelo chanceler alemão, Otto Von Bismark, em 1852 que, em uma missão para o rei da Prússia, em Buda, encantado pela beleza da cidade, descrever numa carta endereçada a sua esposa:

[...] a vista é encantadora. As torres do Castelo no alto sobre a colina. Quando olho para baixo, vejo primeiro o Danúbio, sobrearqueado pela ponte pênsil; depois, a cidade de Pest e, atrás dela, estende-se a planície sem fim, fundindo-se no vapor azul-avermelhado da tarde. À esquerda de Pest, meus olhos podem vaguear rio acima; na sua margem direita, é, primeiro, margeado pela Cidade de Buda; em seguida, estão as montanhas azuis, mais azuis, finalmente vermelho castanhas, contra o céu inflamado da tarde. Separando as duas cidades, o largo espelho de água quebrado pela ponte pênsil e uma ilha cheia de árvores. (BISMARCK apud MONTGOMERY, 1999, p. 37).

211 Adolf Hitler (1889-1945), austríaco, foi líder do Partido Nazista a partir de 1921, tornou-se o ditador unipartidário e disseminou a ideia anti-semitista pelo mundo. Em 1933 proclamou o III Reich (império) alemão e a redenção da raça ariana. Pela sua grande capacidade de liderar as massas, foi instituído o slogan alemão “Ein Reich, ein Volk, ein Führer” – “um império, um líder, um povo”.

Budapeste é a capital da Hungria, cidade cortada ao meio pelas águas do Danúbio, rio tão exaltado pelos artistas e músicos ao longo dos anos. O Danúbio divide a cidade em duas partes: Pest a parte baixa de onde pode ser avistada a Colina do Castelo, que fica na parte alta da capital; e Buda, onde se localiza o imponente Palácio Real e a Colina Gellért. As duas partes são ligadas por várias pontes destacando a Széchenyi Lánchíd, ou Ponte das Correntes como é popularmente conhecida. Cidade que é constituída por uma vasta cultura popular e aristocrática nos seus mais de 1.000 anos de história.

O reino da Hungria foi estabelecido pelo Rei Estevão I, no ano 1.000 da era cristã. Sua localização geográfica propiciou o desenvolvimento de uma cultura aristocrática, própria na Europa Central num intercâmbio com a Europa Oriental e, ao mesmo tempo, guarda a sutileza e simplicidade dos magiares212 e dos judeus.

Sua localização de fronteira, fez com que a Hungria sofresse ao longo dos anos, pressões militares tanto do Oriente como do Ocidente.

Entre 1241 e 1242 sofreu a invasão dos mongóis. No século XVI a dos turcos otomanos que ocuparam grande parte do país e o restante ficou sob o domínio da casa dos Habsburgos da Áustria213. Com o fim do jugo otomano (1526-1718), toda a Hungria passou a ser dominada pela aristocrática casa dos Habsburgos.

Em 1848, um levante liderado por Lajos Kossuth214, lutou pela independência do país. Porém, um pedido de ajuda do imperador austríaco Francisco José ao czar russo Nicolau I, fez com que as tropas russas esmagassem o levante. Em 1867 firmou-se o Império Habsburgo austro-húngaro, que duraria até o final da I Guerra Mundial.

Segundo Konder (1980, p. 19),

[...] o império austro-húngaro era uma espécie de Frankentein, um monstro formado artificialmente com pedaços de diferentes organismos. Com a anexação da Bósnia, em 1908, ele se tornou o segundo Estado europeu, em matéria de superfície, e o terceiro, ao nível da população. O clima espiritual da chamada “Belle Époque” se fazia sentir em Budapeste quase com a mesma intensidade com que era vivido em Viena, capital do império.

212

Povos de origem eurasiana que migraram para a bacia dos Cárpatos no século X. Eles representavam a interface entre o Ocidente e o Oriente, entre a Europa e a Ásia, entre o cristianismo e o islamismo (SZABO; SEGRILLO; AQUINO; AUBERT, 2006, p. 12). A língua húngara tem influência direta desses povos.

213

Paul Kennedy, em seu livro Ascensão e queda das grandes potências (1989), traz um bom estudo sobre a dinastia dos Habsburgo.

Mas os espíritos mais lúcidos percebiam que havia alguma coisa de podre no ar e viam na futilidade reinante um sinal de fim de festa.

Realmente, entre 1871 e 1914 não houve nenhuma guerra na Europa em que exércitos de grandes potências cruzassem alguma fronteira hostilmente (HOBSBAWM, 2010). Porém, esta calmaria chegaria ao fim após o assassinato do príncipe herdeiro do império austro-húngaro, Francisco Ferdinando em 1914, estourando, assim, a I Guerra Mundial envolvendo todas as potências mundiais.

Nesse período, o desespero provocado pela escassez e pela inflação na Rússia czarista, em 1916, conduziu à reativação do movimento grevista e a manifestações populares. Estes eram os anúncios para o que se chamou de Revolução Russa de 1917. No início deste ano, essas manifestações derrubaram a autocracia czarista russa e, no final do mesmo ano, era instaurado o regime socialista/comunista soviético.

Esses acontecimentos influenciaram decididamente o rumo da história da Hungria. Em 1919, Béla Kun215, fundador do Partido Comunista Húngaro216, tentou transformar a Hungria numa República Soviética: a República Húngara dos Conselhos, que duraria apenas 133 dias. Após ser derrotada essa iniciativa, a Hungria passou a ser governada pelo regente almirante Miklós Horthy217, chefe do que ele afirmava ser o “reino da Hungria”, estabelecendo um Estado autoritário aos moldes da oligarquia do século XVIII. Nesse período a Hungria era um país estritamente agrícola, conforme já apontamos.

Após a 1ª Guerra Mundial, a Áustria e a Hungria não possuíam força militar, nem qualquer potencial bélico. A Áustria tinha perdido Sudetenland, região industrial localizada no nordeste da Boêmia, e a Hungria, foi obrigada a ceder grande parte de seu território a Áustria, Tchecolosváquia, Iugoslava e Romênia.

215

Bela Kun (1889-1936), político comunista, dirigiu a República Húngara dos Conselhos. Ficou exilado em Viena e, posteriormente, na União Soviética, onde desempenhou diferentes funções dentro do partido. Foi executado durante o expurgo stalinista.

216

O Partido Comunista Húngaro foi formado em 1918. Originalmente denominado Partido dos Comunistas Húngaros, posteriormente, em novembro de 1944, passou a ser denominado Partido Comunista Húngaro. Com a fusão com os social-democratas, em junho de 1948, recebeu a denominação de Partido dos Trabalhadores da Hungria. Após o levante húngaro de 1956, o governo Kádár renomeou-o como Partido Socialista Operário Camponês da Hungria.

217

Miklós Hothy (1869-1957), Contra-Almirante da marinha habsburguesa que, em 1919, apoia a aliança contra a República Húngara dos Conselhos. Em 1920 é chefe do regime reacionário da Hungria. Destituído em 1944 pelo golpe nazista, é preso como prisioneiro de guerra pelos Aliados.

Em entrevista publicada na Revista Ensaio, nº 13, István Mészaros218 afirma que o período compreendido entre os anos de 1929 a 1933 foram tempos de crise. Como se vê, Heller viveu seus primeiros anos, mergulhada num clima de intensa crise econômica e efervescência política.

[...] éramos muito pobres, mal tínhamos o que comer, mas a pouca comida era valorizada. Estávamos sempre com bom ânimo, poderíamos rir e contar histórias juntos. Devo muito a meu pai... (HELLER, 2002, p. 24).

O pai de Agnes Heller era um homem cético e de vasta cultura. Foi ele quem a conduziu para entender as diversas maneiras do mundo do espírito (da essência do ser humano) e da erudição. (idem, p. 23).

Em entrevista a Francisco Ortega, Heller (2002) conta que aos quatro anos seu pai lhe ensinou o imperativo categórico kantiano. O significado desse aprendizado na vida de Agnes Heller, na mais tenra infância, sem sombra de dúvidas, irá refletir de maneira significativa ao longo de sua trajetória e de sua produção intelectual, sobretudo, pela importância que o seu pai teve em sua vida.

Heller, já na sua maturidade teórica, traz importante contribuição para o estudo de Kant. Em suas análises sobre este pensador moderno, no texto intitulado

La “primeira” y la “segunda” ética de Kant219, publicado no livro Crítica de la

Ilustração, livro que contém uma série de trabalhos de Heller produzidos ao largo de

1970 que, com a mesma intencionalidade teórica, faz algumas reflexões críticas do pensamento da Modernidade.

Nesse texto, expõe com maestria o imperativo categórico kantiano. Ao analisar a obra de Kant entre os anos de 1780 e 1790, estabelecendo um diálogo rigoroso entre Schiller (1759-1805), Goethe (1749-1832) e Simmel (1858-1918), verificando primeiramente que Kant pretendia estabelecer uma teoria do conhecimento e da ética, afirmando, assim, que Kant esperava que “[...] qualquer criança de 10 anos pudesse compreender o imperativo categórico”220.

Segundo Barroco (2008, p. 139),

218 István Mészáros. Nasceu em Budapeste em 1930, começou a trabalhar como assistente de Georgy Lukács de 1951 até 1956. Mészáros seria o sucessor de Lukács na Universidade de Budapeste, porém, após o levante húngaro de 1956, exilou-se na Itália, onde lecionou na Universidade de Turim e posteriormente, indo trabalhar na Escócia, no Canadá e Inglaterra. Autor de uma vasta obra é considerado um dos mais importantes pensadores marxistas da atualidade.

219

HELLER, Agnes. Crítica de la Ilustração: las antinomias Morales de la razão. Trad. Gustau Muñoz e José Ignacio López Soria. Barcelona: Península, 1984, p. 21-96.

220

[...] Kant busca uma resposta ética para o antagonismo entre a defesa da liberdade e a luta por interesses privados. Sua saída é transcendental, pois sua ética permanece fiel aos princípios universais, mas se torna incompatível com a vida empírica.

Kant tinha como pressuposto que homens e mulheres são ao mesmo tempo “ser de razão” e “ser empírico”, portanto, devem estabelecer uma regra que expressasse através do dever, um convite objetivo à ação. Esta regra (ou fórmula) foi denominada por Kant por imperativo categórico221.

Para Barroco (idem, ibidem),

[...] a doutrina do imperativo categórico baseia-se no principio da universalidade: uma norma é moral quando pode ser universalizável, quando ultrapassa os casos particulares e os interesses. Opondo-se ao utilitarismo moral, Kant entende que uma ação só é moral quando é independente de objetos externos, de móveis empíricos, sensíveis, logo, de utilidade ou de interesses e consequências concretas. É desse modo que necessidade e liberdade se separam: o mundo empírico é o espaço da necessidade; a liberdade é o espaço das ações humanas, da capacidade radical e teleológica que não se realiza, segundo ele, por necessidades causais.222

No cerne do pensamento kantiano está o dever (uma deontologia223), ou seja, um sistema de moral ou conjunto de deveres norteadores para a vida social. Kant fez uma distinção224 entre Razão Pura e Razão Prática, entre Vernunft (mente) e Verstand (intelecto; faculdade dos conceitos; propriedade intelectiva das

pessoas)225.

221

Não cabe aqui fazer uma análise aprofundada sobre o pensamento kantiano, porém, iremos expor os pontos que achamos importantes para situar essa base teórica da vida prática e intelectual de Agnes Heller. Para Heller, o imperativo categórico kantiano está sintetizado em quatro máximas morais: “[...] atua de maneira tal que a máxima de tua vontade possa servir sempre e também como

principio de lei de caráter geral; atua somente conforme aquelas máximas que podes desejar que se converta em lei geral; atua como que a máxima de tua ação tenha que converter-se por tua vontade em lei geral e natureza; atua de tal maneira que trates a humanidade, tanto em tua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e em todo momento como um fim e nunca como um simples meio” (HELLER, 1984, p. 56 – grifos nossos). Em nossas análises, percebemos que estes princípios compõem o alicerce do pensamento moral helleriano.

222

Grifos da autora. 223

Para Abbagnano (2007), entende-se por deontologia uma ciência da moralidade, ou seja, uma ciência que busque ensinar homens e mulheres como “dirigir suas emoções de tal modo que as subordine na medida do possível, ao seu bem-estar” (BENTHAN apud ABBAGNANO, 2007, p. 208). 224

Do grego - κρισεις – krisis, ordenança; distinção. 225

O objeto das reflexões de Kant é a liberdade e a felicidade e delas dependem, consequentemente, da natureza empírica os sujeitos particulares, ou seja, da força da autonomia (um agir-por-si-mesmo). Kant adota como terminologia epistemológica, o termo imperativo que segundo Abbagnano (2007, p. 628), pode ser entendido como uma analogia ao termo bíblico “mandamento”, que expressa uma norma da Razão, portanto, um dever. Distingue os imperativos (ou ordens da Razão) em hipotéticos

A influência do pensamento kantiano no corpus teórico helleriano não pode ser negada, porém, isso não quer dizer que podemos rotulá-la assim, aliás, somos contrários, assim como Heller a qualquer “ismo” no sentido pejorativo da expressão. É a própria Heller quem irá esclarecer esta questão:

[...] sou muito influenciada pela concepção de Kant. [...] De qualquer modo, porém, não sou kantiana, não só porque recuso a primeira ética de Kant, que se tornou depois a sua ética “clássica”, mas também porque não creio que o simples formalismo na ética possa servir como ponto de partida válido (HELLER, 1982, p. 160-161).

Voltando aos aspectos históricos, em agosto de 1934, morre o presidente da Alemanha, Paul Von Hinderburg226. Assume no seu lugar, Adolf Hitler que é aceito pelo povo como presidente e chanceler da Alemanha. O fascismo atraía o jovem Adolf. Numa versão pessoal deste movimento, vislumbrava como o nazismo poderia levá-lo a cumprir o que ele acreditava ser seu destino: limpar a Alemanha dos “elementos impuros” e restaurar seu antigo sonho e poder: a supremacia da raça ariana.

Para os judeus de toda a Europa iniciava-se um período de grande terror. Um prelúdio de medo se abatia sobre a população judia pelo sentimento anti-semita que começava a despontar com a perseguição de Hitler a este povo, principalmente na Hungria após a 1ª Guerra Mundial.

De 1934 a 1944, a Hungria sofre com as invasões da Alemanha nazista em suas fronteiras. Em 25 de julho 1934, Engelbert Dolfuss227, chanceler da Áustria, é assassinado. O medo toma conta da Hungria contra o que significava o aparecimento do exército alemão nas suas fronteiras.

Em agosto de 1938, Hitler toma a Áustria e traz o exército alemão para as fronteira da Hungria. No dia 15 de março de 1939, invade a Boêmia. Em setembro de 1939 inicia-se a II Guerra Mundial e, em 1940, a Romênia passa à subserviência da Alemanha. No dia 21 de junho de 1941, Hitler lança seu ataque à Rússia.

(ou condicionais) e categóricos (ou absolutos). Estes, por sua vez, estão relacionados à prudência. Assim como os primeiros pensadores modernos, Kant acreditava que os indivíduos agiam naturalmente por interesses (forma natural do egoísmo humano) que levava a tratar as coisas e as pessoas como meio e/ou instrumento para a realização dos seus desejos. Portanto, caberia a Razão regular estas motivações instintivas da natureza humana.

226 Presidente da Alemanha de 1925 a 1934. 227

Engelbert Dollfuss (1892-1934), político austríaco socialista-cristão. Foi assassinado pelos nazistas, durante um golpe de Estado em 1934.

Até 1943 um milhão, duzentos e cinquenta mil judeus ainda estavam vivos tanto na Hungria, como na Eslováquia, Romênia e Bulgária. Até março de 1944, a Hungria era o único país europeu em que os judeus (em torno de um milhão) poderiam viver com segurança. No dia 19 de março de 1944, as tropas alemãs chegam a Budapeste e a Hungria passa a ser submetida ao nazismo de Hitler:

[...] a fúria de Hitler contra a Hungria foi, em grande parte, provocada pela proteção concedida aos judeus, dos quais um grande número sobreviveu ao período nazista na Hungria, pois, na época em que os exércitos alemães realmente assumiram o comando, Hitler estava próximo do seu fim. (MONTGOMERY, 1999, p. 107).

Este período trará à memória de Agnes Heller cicatrizes profundas. De ascendência judia, Heller tinha verdadeira admiração pelo pai que, por seu conhecimento da língua alemã, ajudava muitos judeus a reunir documentos para escaparem do horror da perseguição nazista aos povos semitas.

Ao longo da história da Hungria, os judeus tiveram uma longa e especial ligação com o país. Assim como os magiares, que eram considerados povos itinerantes que encontraram na Hungria, campo para uma verdadeira simbiose entre os seus compatriotas e se identificaram com aquele território historicamente cobiçado e esfacelado.

Os judeus tiveram papel fundamental no desenvolvimento econômico, cultural, político e social da Hungria. Em Budapeste, encontraram campo fértil para o seu enriquecimento, ocupando lugar de destaque na vida social e intelectual húngara. Contudo, também enfrentaram momentos de perseguição, principalmente no período em que a Hungria esteve sobre ameaça e sob o jugo do nazismo alemão.

No dia 19 de março de 1944, o exército nazista alemão invadiu a Hungria, Heller era uma adolescente judia de quatorze anos. John Flournoy Montgomery228 descreve este acontecimento:

[...] à meia-noite de 18 para 19 de março [1944], poderosas forças alemãs, somando onze divisões e incluindo trens blindados, armas motorizadas e os mais pesados tanques “tigre”, partiram da Áustria para o território húngaro, chegando a Budapeste às quatro horas da manhã. Simultaneamente, os campos de pouso húngaros foram invadidos por tropas de paraquedistas,

228

O livro de Montgomerry foi escrito no calor das cinzas da II Guerra Mundial. Foi embaixador dos Estados Unidos na Hungria entre os anos de 1933 a 1941. Seu livro foi editado pela primeira vez em 1947.

que encontraram somente leve resistência, pois todas as forças húngaras estavam concentradas nas fronteiras leste e sudeste da Hungria. Temendo a retaliação dessas tropas, os alemães, auxiliados por tropas romenas, fecharam a metade lesta da Hungria na linha do rio Tisza, para prevenir seu contato com Budapeste, mantendo esse controle por várias semanas. (MONTGOMERY, 1999, p. 189).

Nessa época, Heller experimentou sua primeira experiência traumática: o holocausto. Perdeu amigos e parentes, mas a perda maior foi seu pai, que fora deportado juntamente com cerca de 450.000 outros judeus húngaros para os

Benzer Belgeler