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ASRIN PROBLEMLERİNE İSLÂM’IN CEVABI

Belgede KENDİ RUHUMUZU ARARKEN (sayfa 104-110)

Por muito que deva à memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das camadas do passado a que tem acesso pode reter objetos que são, para ele, e só para ele, significativos dentro de um tesouro comum. (ECLÉA BOSI, 1999) Diante da importância do projeto de escolas normais rurais para o Ceará, a partir de meados de 1930, bem como da ênfase dada ao papel da professora ruralista para o desenvolvimento e redenção do ensino primário nos sertões cearenses, é que defini como uma das fontes primordiais desta investigação, o registro das histórias de vida de professoras que se formaram nas escolas normais rurais, nos anos de 1930 a 1940, com o objetivo de reconstruir identidades, experiências e práticas no seio dessas instituições escolares.

As histórias de vida de normalistas rurais é uma escolha que se justifica pela efetivação da feminização do magistério. A presença feminina no magistério primário no Ceará, como no resto do Brasil, era fato consumado, sendo a figura da professora motivo de várias representações sociais. “Representações que não apenas espelharam essas mulheres, mas que efetivamente as produziram”. (LOURO in PRIORE, 1997, p. 464).

Como ressaltado anteriormente, desde as últimas décadas do século XIX, no Brasil o processo de escolarização das mulheres se intensifica. É o momento em que são instituídas as escolas normais, movimento mundial estreitamente relacionado ao fortalecimento dos Estados Nacionais. Em tal contexto, o papel da educação constitui fator imprescindível. Neste sentido, a expansão quantitativa do campo educacional, propiciará a feminização do magistério primário. De acordo com Jane Soares de Almeida (1998, p.64),

...A mão-de-obra feminina na educação principiou a revelar- se necessária, tendo em vista, entre outras causas, os impedimentos morais dos professores educarem as meninas e a recusa à co-educação dos sexos, liderada pelo catolicismo conservador. Com a possibilidade das mulheres poderem ensinar produziu-se uma grande demanda pela profissão de professora. Aliando-se a essa demanda, o discurso ideológico construiu uma série de argumentações que alocavam às mulheres um melhor desempenho profissional na educação, devido ao fato de a docência estar ligada às idéias de domesticidade e maternidade...

Almeida defende a posição de que a inserção profissional das mulheres no magistério não foi aceita de forma pacífica pelos homens que não

queriam perder o espaço profissional. A referida autora, não concorda com a tese de que a feminização do magistério ocorre como uma concessão feita às

portador e ignora que isso fez com que houvesse uma transformação da profissão ao longo dos tempos”(idem, p 65). Ressalta, pois, que a feminização do magistério no Brasil pode ser considerada já devidamente alicerçada desde o século passado, e, quando a República aconteceu, esse fenômeno era um fato consolidado, aumentando significativamente nas décadas seguintes:

Atente-se que os ideais republicanos preconizavam um povo instruído e, na década de 1930, o escolanovismo dirigia os rumos educacionais. A crença no poder da educação para o crescimento do país repercutiu diretamente na política educacional e na criação de mais escolas. A esse aumento e a essa demanda correspondeu uma visão ideológica que atribuía às mulheres o papel de regeneradoras morais da sociedade, o que se faria principalmente pela sua inserção no campo educacional. (IDEM, 66).

Diante dessa realidade, utilizo-me das memórias de mulheres professoras. Com isso, busco entender e aprofundar questões fundamentais à redação e consolidação da tese. Neste aspecto, a partir das histórias aqui retratadas, novos elementos se configuram como pontos-chaves para compreender e analisar a proposta de formação de professoras ruralistas no Ceará, entendendo a sua concepção filosófica e o seu papel social na tentativa de promover mudanças significativas no quadro de intenso atraso da vida campesina e, por extensão, na estrutura socioeconômico do Ceará. Além disso, há de se entender quais o lugar e o significado da professora rural, em um contexto tão efervescente da educação cearense.

Qual, portanto, a essência do ser professora rural? Qual a diferença fundamental entre a professora diplomada pela Escola Normal Rural e a professora primária formada pela Escola Normal de Fortaleza, ou mesmo da professora primária leiga? O que torna esse tipo de formação tão peculiar, tão sui

geners no âmbito das propostas de formação docente encetadas pelas escolas normais já existentes desde o século anterior?

Assim, ao abordar as personagens que têm voz nesta pesquisa oral, não sigo o argumento em favor de uma entrevista completamente livre, pois as necessidades decorrentes do tipo de pesquisa desenvolvida, tornam essencial o planejamento antecipado das perguntas a fazer. Neste sentido, as entrevistas foram do tipo semidiretivo, onde tencionei a abordagem de três aspectos: 1º.

trajetória de vida: nascimento, família, infância, modo de vida, crenças, escola

primária, ideologias... 2º. experiências na Escola Normal Rural: Ingresso, expectativas quanto à formação, organização da escola, o cotidiano escolar, relação professor/aluno, direção/professor/aluno; o currículo, matérias e metodologias; relação teoria/prática; concepções de sociedade, educação, política; o papel da mulher na sociedade da época; visão que se tinha da profissão docente. 3º prática pedagógica: quando, onde e como se deu; relação com a formação recebida; metodologias; processo ensino-aprendizagem; relação professor/aluno, teoria/prática; realizações; decepções; contribuições da educação para mudanças efetivas no meio rural; o ser professora primária no meio rural.

Concordando com Thompson penso que, uma entrevista é uma relação social de pessoas, com suas convenções próprias cuja violação pode destruí-la. Diante de tal afirmação, cuidados devem ser tomados para que o pesquisador/entrevistador interfira o menos possível nos depoimentos de seus entrevistados. O testemunho do entrevistado não poderá jamais ser moldado

pelas perguntas do entrevistador. A entrevista completamente livre, porém, não pode existir, pois, " Apenas para começar, já é preciso estabelecer um contexto social, o objetivo deve ser explicado, e pelo menos uma pergunta inicial precisa ser feita; e isso tudo, juntamente com os pressupostos não expressos, cria expectativas que moldam o que vem a seguir..." (THOMPSON, 1998, p.258 ).

Os primeiros contatos com as narradoras suscitaram novos elementos norteadores da pesquisa, já que, consoante Thompson (1998, p. 254),

O primeiro ponto é a preparação de informações básicas, por meio da leitura ou de outras maneiras. A importância disso varia muito. A melhor maneira de dar início ao trabalho pode ser mediante entrevistas exploratórias, mapeando o campo e colhendo idéias e informações...

Confirmado as idéias de Thompson, a partir do contato com as narradoras e à medida que registrava suas vozes, cheguei à conclusão de que a intenção de analisar a formação nas escolas normais rurais e a repercussão dessa formação em uma prática efetiva na sala de aula não seria possível em virtude da complexidade do assunto e da insuficiência de dados que conduzissem ao entendimento mais aprofundado de uma prática educacional que passa por várias fases, contradições e desencontros nos caminhos da políticas educacionais presentes no período compreendido entre as décadas de 1940 a 1980, momento que demarca o tempo do exercício profissional das professoras formadas nas escolas normais rurais, sujeitos desta pesquisa.

Além disso, algo digno de menção é o fato de que todas as narradoras se reportam mais ao período da infância, da vida familiar e da vida escolar. No momento de falar sobre as experiências profissionais, a narrativa era mais vaga,

imprecisa e fortemente marcada pela ênfase no papel da professora como uma mãe extremada e cuidadosa, como uma educadora que primava pela instrução, pelo rigor da disciplina e pelo seu dever patriótico de formar almas boas e cristãs, de cidadãos a serviço de um País que precisava crescer econômica e culturalmente.

Diante do quadro que se configurou a partir das entrevistas, resolvi restringir a problemática da tese à formação da professora ruralista, abordando o cotidiano da escola, as idéias e filosofias subjacentes às práticas educacionais, principalmente a compreensão do ideário ruralista, peça fundamental, motor que movia as intenções, à concepção de homem, de sociedade e de Educação. Dessa forma, entender qual a influencia dessa ideologia na formação da professora, de como se via como profissional, de como se sentiu ela enquanto tal e de como se vê com o olhar de hoje.

Para a realização das entrevistas com essas personagens centrais, utilizei um roteiro semi-estruturado que permitisse um direcionamento mínimo para a obtenção das informações sobre a trajetória pessoal, educacional e profissional das entrevistandas. Dessa forma, apresentarei as suas narrações seguindo uma cronologia que fornece uma compreensão do perfil dessas mulheres em seus contextos familiar, educacional e social.

Quanto aos procedimentos concernentes à transcrição, apoio-me na visão de Thompson, ao defender a posição segundo a qual,

Ao passar a fala para a forma impressa, o historiador precisa desenvolver uma nova espécie de habilidade literária que permita que seu texto escrito se mantenha tão fiel quanto possível, tanto ao caráter quanto significado do original... Nada substitui as transcrições integrais, que incluem tudo o que está gravado, como exceção das possíveis digressões, para verificar se o gravador está funcionando e tomar um xícara de café, por exemplo (THOMPSON, 1998, p.297)

Neste sentido, optei pela transcrição integral das fitas, retratando ao pé da letra as narrativas gravadas, os diálogos e intervenções ocorridas na dinâmica da interação de entrevistadora e narradoras. No momento de transcrever, retratava suspiros, exclamações, interrogações, risos; e até choro ou vozes embargadas de emoção.

Depois da transcrição, vem a transposição do oral para o escrito, ou seja, a textualização. Esse momento, segundo Selva Guimarães Fonseca, “..exige muita atenção e sensibilidade, na medida em que se busca a organização do discurso para dar “voz” ao narrador” (1998, p. 55). Assim, seguindo a metodologia da autora acima citada, busquei realizar a textualização das narrativas, “a partir da construção de um texto contínuo, que pudesse expressar a beleza de cada história, sem a recortar, livre de interferências do entrevistador e dos vícios de linguagem oral.” (IDEM, p.55).

Esta tarefa não foi muito complicada no caso específico de nossas narradoras, pois, após vencido o receio ocasionado pela presença do gravador, as entrevistadas apresentavam boa fluência na comunicação oral, expressavam- se com muita satisfação e, às vezes, com incontida emoção, revestindo a narrativa de um conteúdo emocional que me legou sentimentos e opiniões que expressavam sinceridade e fidelidade em relação a um passado, distante no aspecto cronológico, mas muito intenso nas memórias do presente.

As normalistas rurais entrevistadas encontram-se em uma faixa etária que varia entre 76 e 93 anos de idade. Foram entrevistadas dez senhoras, das quais escolhi cinco, já que nas outras entrevistas ocorreram problemas de ordem técnica no momento da gravação, bem como em relação ao conteúdo extremamente objetivo dos depoimentos, não nos permitindo chegar ao cerne das questões a serem abordadas na presente tese. A escolha ocorreu, também, pela representatividade da amostra da pesquisa, ou seja, as escolas de Juazeiro do Norte (pioneira e encravada no seio da região do Cariri), de Limoeiro do Norte (região do baixo Jaguaribe), a de Quixadá (região do Sertão Central), a de Iguatu (região Centro/Sul do Ceará) e a de Crateús (região dos Inhamus). Quantas às outras duas escolas que inicialmente compuseram o elenco proposto pelo projeto de tese, quais sejam, as escolas de Itapipoca (região do Litoral Norte) e a de Ipu (região Norte), não foram possíveis suas inclusões. Em Itapipoca por não conseguir nenhum contato com ex-alunas e, em Ipu, embora logrando o contato com uma ex-aluna e professora da própria escola normal rural, ela não consentiu que a entrevistasse, alegando problemas de saúde.

Das cinco narradoras, duas tornar-se-iam professoras da própria Escola Normal Rural, além de exercerem o magistério primário: Maria Assunção Gonçalves e Camursina Arrais Freire, respectivamente, em Juazeiro do Norte e Limoeiro do Norte. As demais exerceram as atividades do ensino primário ou do então ginasial, conforme o que consta das experiências de Maria de Lourdes Setúbal Freitas e Maria Elvira Costa.

Herotildes Helena Ferreira, além das experiências magisteriais, desempenhou expressivo papel na vida pública de sua cidade, pois foi a primeira vereadora (mulher) de seu município e secretária da Prefeitura Municipal de Iguatu, chegando a exercer o cargo de Prefeita por um mês, em virtude do afastamento dos titulares do Poder Executivo.

Observa-se que as “meninas” que adentravam o espaço das escolas normais rurais pertenciam às classes sociais mais abastardas, oriundas da pequena burguesia rural, moças de classe média, de origem familiar geralmente ligada aos clãs mais tradicionais das cidades rurais do Cearál. Neste aspecto, seus componentes familiares eram pessoas ligadas às atividades rurais, agricultores, como assim denominavam seus pais, quando na realidade eram pequenos ou grandes produtores rurais. Outras pertenciam às famílias que tinham uma tradição no comércio, além daquelas que se dedicavam aos misteres industriais. Filhas de profissionais liberais e funcionários públicos, figuravam também como clientela de marcante presença nessas escolas de formação docente.

Quanto às primeiras experiências dessas professoras, é possível traçar um perfil do estado educacional primário na ruralidade do Ceará nas décadas de 1920 e 1930, período em que freqüentaram os bancos da escola primária. É notória a precariedade da instrução naqueles idos, mesmo para os que detinham recursos financeiros. As meninas eram alfabetizadas por professores particulares, freqüentavam o Grupo Escolar e, depois, as que detinham maior recurso iam dar continuidade aos seus estudos em Fortaleza, ou em cidades do porte do Crato, onde havia internato para meninas.

As análises há pouco apresentadas podem ser constadas pelos relatos das ex-alunas, mulheres que viveram dificuldades, experimentaram alegrias, usufruíram dos bens proporcionados pela escola e pela oportunidade de se tornarem mestras ou mulheres preparadas para os misteres da vida familiar e social.

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