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B. Kahraman, Karakter ve Tip Kavramları

I. BÖLÜM

2.2. TALÎ VE DEKORATĠF FĠGÜRLER

2.2.2. Askerler

55 Ver Anexo C – Registros Fotográficos. 56 Cf. SILVA (2003).

Uma comunidade originada da pesca e da agricultura começou a ver no turismo, ainda recente, novas possibilidades de emprego, trabalho e melhoria da renda familiar, mas também sua inserção como atividade econômica produz novos hábitos, estilos de vida, como afirma Fontelles (2004, p.93): na “atual fase do capitalismo, caracterizando-se como serviço no processo de trabalho, o turismo passa a ser importante espaço de produção – produz atitudes, estilos de vida e padrões comportamentais, principalmente nos núcleos receptores.”

Pessoas que antes viviam das pescarias e da plantação de roçados começaram a mudar algumas práticas, passando a comercializar sua própria residência, assim como comidas, bebidas, principalmente em finais de semana, na época de veraneio, quando na praia encontra-se um considerável número de visitantes. Outros buscam outras atividades. Prestam serviços como salva-vidas, como guia de turismo, agente de saúde, funcionário público da prefeitura, entre outros, mas estas atividades são exercidas por uma minoria, pois podemos encontrar uma população vivendo ainda em condições de miséria e desemprego ou tendo apenas a aposentadoria como única fonte de renda, e a renda gerada pelo turismo beneficia mais os donos de pousadas, os quais não são moradores locais.

O que percebemos é que o turismo é visto, para alguns, como algo positivo enquanto possibilidade de alternativas de trabalho.

Acho como uma coisa boa. Sabe por quê? Porque aqui o pessoal é muito carente e se isso acontecer tem fonte de trabalho pra o povo, porque aqui mesmo neste estabelecimento, é aqui no meu bar né. Se aqui tivesse uma fonte de renda que tivesse assim bem...aí tem uns dois ou três prédio ali, aí com isso já ajuda, não é? Não só aqui como aí têm as outras pousadas outros bares e cada um fazia sua barraquinha também pra vender qualquer coisa (Mãe Santa, E33 em 19/02/2002).

Mas isso aqui era um, um pedaço de terreno aqui que não habitava muita gente, não vinha praticamente turista nenhum. Isso aqui era tudo sujo, palha de coqueiro, litro quebrado, isso era copo, tudo. Então, a partir daí que eu comecei a negociar aqui na Boca da Barra, é, com a barraca (...) Então pra mim é uma, uma honra eu tá aqui na Boca da Barra

atendendo os turistas, isso é turista, surfista local, isso é autoridade, prefeita, prefeito, quem chegar aqui eu estou pra atender. E com essa chegada desse pessoal, movimenta mais o local, mas também deixa mais renda. Tem, aqui tem uma média de um bocado de jovens já, parece que trabalham né. Trabalham e com isso aí, o lugar vai, é, multiplicando... Eu e várias pessoas trabalhamos em cima do turismo. Se tiver um bote bota pra alugar, uma casa ou tem uma pousada, um restaurante... até as casas. Tão indo para casa dos filhos, tios, aluga e fica tudo apertadinho, mas vão (Belezal, E22 em 19/01/2002).

Eu tô feliz demais, consegui emprego lá e já subi de cargo, pelo menos é um dinheirinho a mais, que aqui não tinha emprego, aí com a chegada desse pessoal aí e dos turistas vai todo mundo fazendo alguma coisa. Hoje eu trabalho na boate e também na Boca da Barra como salva-vida e ainda vou surfar... e pesco também... ( Soca, anotação em caderno de campo, 2005).

Os moradores da Barra, percebendo a chegada de “outros”, começaram a buscar formas de alternativa econômica na atividade turística. Pessoas que antes trabalhavam na agricultura e pesca, foram começando a realizar serviços prestados para o turismo. Alguns pescadores inclusive deixaram de pescar e hoje colocam seus instrumentos de pesca, como barcos e canoas para passeios ao longo do rio, principalmente na época do “defeso”, quando estes deixam de pescar.

Mãe Santa é a única moradora nativa57 que ainda possui casa à beira-mar. Nesse espaço, ela construiu, no final dos anos 90, um Bar e Pousada Brisa-mar, também conhecido por Bar e Pousada de Mãe Santa. Também foi uma das primeiras, entre os moradores/nativos a construir esse tipo de estabelecimento comercial para atender às pessoas vindas de fora. Ela conta que, percebendo a procura dos surfistas e turistas que queriam passar a época de veraneio, decidiu fazer uns quartinhos, ao lado de sua casa, em 200558.

Poderíamos citar também seu Antônio Amaro, conhecido como Antônio da Arraia. Devido ser considerado um dos melhores pescadores de arraia da

57 As outras casas e pousadas pertencem a pessoas vindas de outras localidades e foram

construídas há mais ou menos quatro anos.

comunidade, decidiu também nos anos 2000 construir um estabelecimento comercial, depois que muitos turistas saíram da Barra sem ter um lugar onde pudesse, fazer refeições. O seu bar, até 2002, era um dos poucos na comunidade e um dos mais freqüentados pelos turistas e moradores.

Teve um dia que veio um pessoal aqui e não tinha nenhum lugar para eles almoçarem, aí foram embora com fome. Aí fiquei pensando que eu devia era colocar um bar e aí depois disso eu resolvi fazer (Antônio da Arraia, E51 em 28/06/2005).

O bar passou um período fechado por questões judiciais, devido a uma discussão com um dono de pousada, fazendo com que ele voltasse a sobreviver somente da “pouca pesca”59 e da construção de pequenos botes e baiteras. Ele

contou que na festa de São João de 2004, chamou um sanfoneiro para tocar em seu bar e o proprietário da pousada Porto das Ondas reclamou dizendo que ele estava fazendo política. Isso gerou uma confusão e seu Antônio foi preso temporariamente e solto sob a condição de pagar por um ano fiança à delegacia municipal. Em uma de nossas últimas conversas, ele falou em tom de revolta.

Figura 15 – “Forró de sanfona” no Bar da Arraia Fonte: Antônio da Arraia, 24/06/2004

O forró de sanfona que não faz mal a nada, veio dizer que era política que eu tava fazendo... mas eu vou tornar a abrir o bar (Antônio Arraia, E51 em 28/06/2005).

O ano passado foi a vez de Maria de Fátima, conhecida como Moça, transformar uma parte de sua casa em um pequeno restaurante60, depois de trabalhar como chefe de cozinha em pousadas locais, onde adquiriu experiência. Hoje seu estabelecimento serve como ponto de apoio aos funcionários do Programa de Saúde da Família do município de Mataraca que atendem na comunidade.

O turismo vem aos poucos se tornando um novo “mercado de trabalho”, ainda que muito pequeno e, assim como Mãe Santa, seu Antônio da Arraia, Moça,

59 Essa é uma expressão que os pescadores usam para definir a pesca de pouca produção. 60 Ver Anexo C – Registros Fotográficos

outros moradores articulam-se como podem para receber os visitantes. Alguns construíram bares, outros pequenos alojamentos, quartinhos nos fundos de sua casa ou alugam toda sua residência na época de veraneio, passando para a casa dos parentes. Isso mostra que “a mercantilização praticamente passa a ser a mola mestra de qualquer comportamento social do grupo onde até mesmo a hospitalidade passa a ser um produto vendido e comercializado” (KRIPPENDORF apud FIGUEIREDO, 1999, p.217).

Um dos momentos em que pudemos observar o maior número de residências dos nativos alugadas para pessoas de fora61 foi quando chegaram à Barra trabalhadores das empresas MILPLAN e EQUIPEX, as duas a serviço da mineradora LYONDELL. A contratação feita por essa empresa gerou emprego para alguns moradores. Foram contratados mais de vinte homens da Barra para trabalhar na mineradora.

A partir daí, algumas mulheres começaram a trabalhar em serviços gerais nas casas que foram alugadas e nas pousadas, como relatam alguns moradores,

(...) Eu saí da pousada e tava trabalhando em três casas. Saio de uma e vou para outra. Tá sendo bom porque tem muita gente trabalhando daqui (Maria das Dores, caderno de campo, 2002).

Eu e várias pessoas trabalhamos em cima do turismo. Se tiver um bote bota pra alugar, uma casa ou tem uma pousada, um restaurante... até as casas. Tão indo para casa dos filhos, tios, aluga e fica tudo apertadinho, mas vão (Belezal, E22 em 19/01/2002).

Outra alternativa de trabalho encontrada pelos moradores foi o artesanato para vender aos turistas e demais interessados. São vários os que usam de sua arte para representar as belezas naturais e a cultura da comunidade. Artesanatos em forma de cestinhas feitas da fibra da palha do coqueiro, de objetos feitos de madeira de mangue, de bijuterias, entre outros. Seu Antônio Careca, cunhado de Mãe Santa, que sempre gostou de pintar a Boca da Barra e fazia peixes e barcos com material extraído dos coqueiros e manguezais, também está fazendo bijuterias usando

61 Este fato está relacionado ao terceiro momento de ruptura da sociabilidade antes existente, na

sementes de plantas, a quenga do coco, entre outras matérias-primas encontradas no lugar. Como alternativa de trabalho, alguns moradores fazem artesanato para vender a alguns turistas que visitam ou veraneiam e demais interessados e, para eles, isso também é uma forma de divulgar o lugar.

Eu faço artesanato de tudo que é jeito, e vende bastante... dá pra ganhar um dinheirinho e divulgar aqui a arte do nosso lugar (Antônio Careca, caderno de campo em 28/12/05). Desde 2002 encontramos mulheres fazendo artesanatos de fibra da palha do coqueiro para vender para o SEBRAE e turistas62. Dentre essas mulheres, conhecemos dona Maria da Conceição, uma senhora que residia há pouco tempo na comunidade. Ela disse que fazer “esse tipo de arte” era uma boa alternativa de geração de renda, embora, o artesanato fosse mais vendido para fora da comunidade, como SEBRAE, outros municípios e em feiras. Maria da Conceição acrescenta ainda o fato de os artesãos enfrentarem dificuldades para vender seus trabalhos na própria comunidade porque os visitantes não têm o hábito de procurá- los. Foi ela também que ensinou, a outras pessoas da comunidade, a usar a fibra da palha do coqueiro para artesanato, como mostra em sua narrativa,

Maria Ramos da Conceição dos Santos. Sou de Nísia Floresta, Rio Grande do Norte. Tô aqui há dois anos (...) a gente tinha uns amigos aqui, no outro lado, sabe, a terra dos índios, aí a gente veio pra lá, a gente gostou, a gente veio pra cá morar aqui. Vim procurar trabalho. É, trabalho também. Eu achei bom aqui, porque a gente conseguiu trabalhar aqui com as fibras né. E a gente, perto com a prefeita ali, ela informou SEBRAE, aí o SEBRAE ficou comprando as vasilhas que a gente faz. (...) o material a gente pega aqui mesmo, e o SEBRAE é encarregado para... comprar. Faz o pedido e a gente faz, e eles vêm buscar, leva pra vender, vêm pagar... Aqui na Barra é difícil aparecer uma pessoa pra comprar. Somente fala. (...) Eu fiz o curso no Rio Grande do Norte e ensinei as outras. As minhas filhas todas sabem fazer. A gente pretende trabalhar, fora do SEBRAE, a gente pretende fazer bastante coisa. Trabalha uma mulher que

chama o nome dela é, Dôdo ali, trabalha Josineide, só as três que trabalha. A gente faz aqui pra o turismo (...) A gente quando manda pra feira o artesanato, aí vai tudo com o nome daqui, meu nome, telefone e tudo... A gente usa a fibra da palha do coqueiro, somente. A gente puxa a fibra da palha do coqueiro, e faz essas pessoas todinha, faz a cesta de aniversário, faz pra decoração, arranjo pra colocar arranjo, faz o peixe, tartaruga, jacaré, caranguejo, todo o tipo de material que pedirem a gente faz. Não é tão fácil não (risos), mas a gente faz (...) aquela parte da palha do coqueiro, que tem no meio, tira o palito que fica do lado né. A gente pega a parte do meio, a gente abre e puxa as fibras, passa no ralo... A gente faz bolsa de cipó...a gente tira... tira na mata. (...) Os turistas, eles vêm, mas acho que não se interessa muito. Eu vejo turista pouco difícil pra cá. Agora quando sai assim pra fora, pra uma feira, aí vende bastante (...) A prefeita sempre ela compra, quando tem uma feira em João Pessoa, ai ela manda, faz um pedido pra mim eu faço, ela leva. Vende pra lá, mas aqui, em Mataraca mesmo não (...) Esse daí, eu vendo para o SEBRAE de um real e cinqüenta... e a cestinha é um real (Ma da Conceição, E38 em 19/02/2002).

O turismo, apropriando-se das formas do capitalismo, pode gerar renda e outras alternativas de trabalho, mas por ainda ser considerado recente em Barra do Camaratuba e, apesar da chegada de “outros”, possibilitar uma pequena e relativa comercialização, não proporcionou um desenvolvimento para a comunidade e uma visão de mercado para o artesanato produzido no local. Falava-se, em 2002, na criação de um ambiente onde seriam expostos todos os artesanatos da localidade (SILVA, 2003, p. 68-70), no entanto isso nunca foi feito.

Dessa forma, os moradores, percebendo um relativo crescimento, proporcionado pelo turismo, vão buscando nele uma nova alternativa de trabalho: o comércio e a prestação de serviços. No entanto, a atividade turística não tem sido suficiente para beneficiar a população local em sua totalidade. Os moradores locais, segundo os nossos narradores (nativos, os mais “antigos”, brincantes, pescadores), muitas vezes se sentem limitados, sem recursos financeiros para investir em algo que possa gerar mais renda e, também, quando se encontram frente a interesses diferentes aos da administração pública, aliada a donos de pousada. Como mostra

Toro63, que trazia em suas narrativas de 2002 expectativas em relação ao turismo

como uma atividade possibilitadora de desenvolvimento local64,

Tá sendo algo positivo porque tá todo mundo trabalhando é, tão deixando alguma coisa (Toro, E44 em 29/05/2002). No entanto, nos últimos diálogos soavam como um “desencanto” a forma como o turismo está sendo promovido, pelos donos do capital, sem a participação dos moradores locais. Mesmo assim, essa atividade permanece como uma alternativa de melhoria de vida.

O turismo rapaz... tá do mesmo jeito. Acho que tá cada vez pior (...) O homi [Ivan Burity] tá vendendo tudo pra gringo e nós vai ficando a mercê trabalhando como pode. É o que a gente tá se envolvendo agora nesse ano, porque a gente tá querendo trazer o turismo (...) que pode trazer coisa boa também. Você viu a limpeza aí? O turismo tem tudo pra crescer aqui e a gente espera que dê certo... por enquanto eu tô aqui trabalhando no meu barquinho (Toro, E58 em 28/12/05).

Benzer Belgeler