Pinto Ferreira (1990, pp. 203 e 204) apresenta o conceito de Município dos seguintes estudiosos:
1) Eheberg: os Municípios são corporações de direito público que se colocam entre o Estado e o indivíduo, repousando sobre uma fundamentação local e com um poder próprio para a realização de determinadas finalidades públicas.
2) Erich Becker: o Município é uma corporação territorial intercalada no Estado com governo próprio que se realiza através de órgãos escolhidos e próprios, regulando em seu próprio nome os assuntos da comunidade local nos limites das leis e com auto-responsabilidade.
3) Lane W. Lancaster: o Município é uma área mais ou menos conveniente, fixada sob a autoridade do Estado, para a execução local de funções consideradas largas e principalmente de interesse estadual.
4) Oswaldo Trigueiro: o Município é a unidade geográfica divisionária do Estado, dotada de governo próprio para a administração descentralizada de serviços estaduais e para o trato de interesses locais.
Em seguida, o autor expõe sua definição de Município, válida também para outros países democráticos:
O Município é uma corporação territorial de direito público, servindo como unidade geográfica e divisionária do Estado, dotada de governo próprio para a administração descentralizada de serviços estaduais ou provinciais e regulação de interesses locais, governo próprio que se realiza mediante a eletividade dos seus órgãos Executivo e Legislativo, aos quais geralmente se atribui a competência para arrecadação e aplicação das rendas. (FERREIRA, 1990, pp. 204 e 205).
Carlos Ari Sundfeld define o Município nos seguintes termos:
O Município é a pessoa jurídico-constitucional, integrante necessária da
dos Municípios como entidades de terceiro grau na federação brasileira decorre do próprio texto constitucional, e não de especulações doutrinárias baseadas em modelos adotados por outros países”.
federação brasileira e isônoma em relação aos demais entes federados, com capacidade para sua auto-organização, titular de competências legislativas e administrativas próprias, outorgadas diretamente pela Constituição Nacional, para a realização de interesses locais e dos objetivos fundamentais da República. (SUNDFELD, 1990, p. 45).
O autor explica o que entende por pessoa jurídico-constitucional, aduzindo que:
Só o ser politicamente capaz – competente para editar leis sobre as matérias que lhe incumba tratar – pode ser definido como pessoa jurídica no sentido constitucional. [...].
Dessa forma, para se poder definir o Município como pessoa jurídico- constitucional (ou pessoa política) necessário que disponha de competências não só administrativas, mas, sobretudo, legislativas, exercidas com independência.
... [...]. É o que, em relação ao Município, dispõe, por exemplo, o inciso I do art. 30, segundo o qual a ele cabe legislar sobre os assuntos de interesse local. Portanto, a Constituição dividiu de modo tal as competências entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios que nenhum deles necessita recebê-las do outro. (SUNDFELD, 1990, pp. 47 e 48).
Com relação à isonomia entre os entes federados, Ari Sundfeld (1990, p. 50) entende que esta decorre do fato de “as pessoas constitucionais terem esferas de competências próprias, extraídas diretamente – sem intermediação legislativa – da Constituição da República”.
Mencionado autor (1990, pp. 50-55) prossegue em sua argumentação, negando a existência de hierarquia entre a União, os Estados e Municípios, de acordo com as seguintes razões:
A) O fato de a União possuir uma parcela maior de competência legislativa é irrelevante, pois, mesmo que apenas uma matéria estivesse reservada ao Município, este seria autônomo ao tratá-la.
Continua o autor, mostrando que não há hierarquia entre leis federais, estaduais e municipais, uma vez que estas devem submissão à Constituição Federal. Dessa forma, todas as leis do país, nos seus respectivos âmbitos de incidência, retiram seu fundamento de validade da norma constitucional, sendo esta, e não a lei federal, que outorga as competências legislativas dos Estados e Municípios.
B) Quanto à questão de a União possuir uma autonomia financeira mais ampla em relação aos demais entes, isso não implica em superioridade jurídica, uma vez que a Constituição de 1988 também concedeu autonomia financeira aos Estados e Municípios, ampliando suas competências tributárias.
C) O fato de o Supremo Tribunal Federal (STF), órgão responsável por solucionar os conflitos entre as pessoas políticas (art. 102, I, f, CF/88), ser componente da União, não implica na supremacia desta sobre os demais entes federativos. Primeiramente, não há um ato de vontade da União, mas sim a aplicação de um parâmetro, qual seja, a submissão de todos ao Texto Constitucional. Em segundo lugar, a função do STF é aplicar a lei ao caso concreto, sempre de forma imparcial.
D) No que diz respeito ao Congresso Nacional, órgão pertencente à União, ter competência para reformar a Constituição Federal, também não há que se falar em superioridade. O Congresso, no exercício de referida competência, atua como um poder nacional, próprio da soberania. Ademais, esse poder de reformar a Constituição, atribuído à União, não permite que esta retire competências dos Estados e Municípios, sob pena de inconstitucionalidade, por afronta ao princípio federativo, que inclui a autonomia dos entes.
E) A possibilidade de intervenção federal nos Estados (art. 34, CF/88) e destes nos Municípios (art. 35, CF/88) não implica em superioridade do ente interventor. A intervenção só é possível com a previsão expressa da Constituição, sendo essa autorização necessária exatamente em face da autonomia dos Estados e Municípios.
F) Não há superioridade da União pelo fato de a criação do Estado ocorrer por meio de lei complementar federal (art. 18, § 3º, CF/88), nem superioridade do Estado sobre o Município pelo fato da instituição deste operar-se por meio de lei estadual (art. 18, § 4º).
Tendo em vista que o surgimento de uma nova pessoa política implica no envolvimento de áreas e populações pertencentes a mais de uma pessoa, o que pode resultar em conflitos, a CF/88, visando manter a segurança do sistema, para que não houvesse rompimento da ordem jurídica vigente, outorgou competência a uma pessoa neutra, no caso, a União e os Estados para criarem, respectivamente,
Estados e Municípios.
O autor conclui (1990, p. 55), afirmando a importância da referida igualdade entre as pessoas constitucionais, que tem como supedâneo os seguintes dispositivos da CF/88: art. 19, III15; 150, VI, a,16 e 151, I, II17.
Hely Lopes Meirelles apresenta o conceito de Município sob o aspecto sociológico, político e jurídico:
Do ponto de vista sociológico, o Município Brasileiro, como qualquer outro, é o agrupamento de pessoas de um mesmo território, com interesses comuns e afetividades recíprocas, que se reúnem em sociedade para a satisfação de necessidades individuais e desempenho de atribuições coletivas de peculiar interesse local.
Sob o aspecto político, o Município Brasileiro é entidade estatal de terceiro grau na ordem federativa, com atribuições próprias e governo autônomo, ligado ao Estado-membro por laços constitucionais indestrutíveis (CF, arts. 18, 29 e 34, VII, “c”).
Na ordem legal, o Município Brasileiro é pessoa jurídica de direito público interno (CC, art. 41, III), e, como tal, dotado de capacidade civil plena para exercer direitos e contrair obrigações em seu próprio nome, respondendo por todos os atos de seus agentes (CF, art. 37, § 6º). (MEIRELLES, 2006, pp. 125 e 126).
Ataliba Nogueira, citado por Arthur Machado Paupério (1973, p.14), define o Município como “a associação natural dos vizinhos, em território determinado”.
José Moreira da Silva, ao tratar do conceito de Município, aduz que:
Município, não é como imaginam muitos políticos, um pedaço de território. O termo município, etimologicamente falando, vem de MUNUS-CAPIO, isto é, assumir o encargo da administração desse pequeno núcleo humano. O município é uma associação perfeitamente legítima, isto é, legal, pois corresponde a um instituto e a uma necessidade natural do homem, o qual ele usa como instrumento para si mesmo. A constituição político- administrativa se baseia nesse núcleo, cujas necessidades locais, coletivas, se apóiam na administração municipal. (SILVA, 1974, p. 12).
15 O art. 19, III, da CF/88, veda à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criar
preferências entre si.
16 O art. 150, VI, a, da CF/88, veda à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios
instituir impostos sobre patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros.
17 O art. 151, I e II, da CF/88, veda à União instituir tributo que não seja uniforme em todo o território
nacional ou que implique distinção ou preferência em relação a Estado, ao Distrito Federal ou a Município, em detrimento de outro, bem como tributar a renda das obrigações da dívida pública dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, ou a remuneração e os proventos dos respectivos agentes públicos, em níveis superiores aos que fixar para suas obrigações e para seus agentes. Pode-se mencionar também o inciso III do referido dispositivo que veda à União instituir isenções de tributos da competência dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios.
Desse modo, podemos definir o Município como sendo uma pessoa jurídica de direito público interno, que integra a estrutura da federação brasileira, possuindo autonomia política, normativa, administrativa e financeira, que serão analisadas no capítulo seguinte.