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Os modelos fonológicos baseados no uso nasceram em oposição ao paradigma reducionista associado à aplicação de regras aos processos de mudança/aquisição linguísticas. Especificamente, a FU (BYBEE, 2001) assumiu que a utilização recorrente das formas linguísticas implicou alterações na representação mental dos itens lexicais, vindo a afetar sua produção. A autora propôs ainda a incorporação da substância linguística, entendida como um modelo de redes relacionando informações fonéticas e semânticas. As características da FU (BYBEE, 2001, p. 6-8) foram elencadas a seguir:

a) a experiência afetava a representação mental. O uso de padrões de percepção e produção mais ou menos frequentes afetaram diretamente essas representações; b) a representação mental de objetos linguísticos tinham as mesmas características dos objetos físicos. Características redundantes eram sempre armazenadas;

c) a categorização era baseada na similaridade ou identidade dos itens linguísticos, derivando numa organização e armazenamento em rede do sistema fonológico; d) as generalizações entre os itens fonológicos não eram separadas das representações mentais, mas emergiam diretamente destas;

e) a organização lexical propiciou generalizações e segmentações em diversos níveis, permitindo que unidades como afixos, sílabas e segmentos emergissem; f) o conhecimento gramatical era visto como conhecimento de base procedimental. Um falante nativo formava suas construções linguísticas automaticamente, sem explicar conscientemente os mecanismos envolvidos. Na FU, a palavra foi considerada o lócus de representação mental. Bybee (2001, p. 30) definiu a palavra como uma “unidade de uso que é isoladamente apropriada tanto no campo fonológico quanto no campo pragmático.”14

e adicionou que a noção “inclui sequências que são ortograficamente diversas palavras”15

. O léxico mental dos falantes de uma língua constituiu-se da forma fonológica das palavras e conjuntos de palavras nela recorrentes. A organização não foi feita a partir de uma lista, mas a partir de redes que propiciaram um armazenamento compacto e o acesso eficiente dos dados.

No armazenamento em rede, as formas regulares e irregulares eram associadas conforme suas semelhanças fonológicas, morfológicas e semânticas. O modelo de redes (BYBEE, 2001), de base conexionista, foi desenvolvido como resposta aos modelos cognitivos de processamento duplo, que preconizavam o acesso direto às formas irregulares e um acesso por meio de regras das formas regulares. Central no modelo utilizado pela FU é o conceito de esquema. Segundo Bybee (2001, p. 27) os esquemas:

a) não tinham existência independente das palavras nas quais estavam inseridos; b) eram afetados pela frequência de ocorrência em que eram utilizados no léxico; c) eram também afetados pela frequência de tipo;

d) eram gradientes, sendo que um exemplar podia se encontrar mais ou menos distante do melhor exemplar de uma categoria.

14“a unit of usage that is both phonologically and pragmatically appropriate in isolation.” 15“include sequences that are orthographically several words.”

A Figura 4 demonstrou a relação entre itens lexicais baseado na utilização dos esquemas.

Figura 4 - Esquema de conexões lexicais em redes de palavras do PB (tio, tipo, linguístico, determinístico, clientes, estudantes), e do inglês (em itálico, cheap,* team).

Foram enfatizadas na Figura 4, por meio de linhas contínuas, as relações entre as sílabas /ti/ realizadas em sua forma palatalizada [tʃi] juntamente com algumas palavras do inglês, apresentadas em itálico. Destacamos ainda as relações morfológicas entre as palavras

linguístico e determinístico, bem como a relação de plural das palavras clientes e estudantes. Adicionalmente, a figura exemplificou a força dos esquemas, cuja produtividade pode ser utilizada em empréstimos, neologismos e ao aprender uma língua estrangeira, como o ILE (CRISTÓFARO-SILVA, 2003b). A palatalização em tais contextos foi decorrente da associação entre o PB e o ILE.

Sobre a distinção entre a frequência de tipo e de ocorrência Bybee (2001) apontou que frequência de ocorrência (token) refere-se ao número de vezes em que uma unidade linguística, geralmente uma palavra, ocorre num corpus. A importância de analisar a frequência de ocorrência associou-se a seus efeitos na emergência de fenômenos de mudança linguística: (a) em itens lexicais de maior frequência de ocorrência, foram favorecidos fenômenos de mudança linguística de origem fonética, devido à maior automação/sobreposição de sequências motoras justapostas. Foi o caso da palatalização das

oclusivas alveolares. Palavras com maior frequência de ocorrência apresentaram mudança linguística de origem fonética primeiramente que palavras com menor frequência, como observado nos estudos de Guimarães (2004) e Leite (2006); (b) em itens lexicais de menor frequência de ocorrência, foram favorecidos fenômenos de mudança linguística por analogia a itens de maior frequência. Dada a menor familiaridade, tendemos a favorecer fenômenos em direção a um sistema linguístico homogêneo.

Mudanças sonoras diacrônicas podem começar pela maior sobreposição dos gestos articulatórios, criando maior sobreposição segmental de origem fonética, e ser posteriormente simplificada através da perda dos gestos por meio de analogia. Foi o caso da monotongação da sequência oe em /œ/ do inglês antigo, resultante de uma sobreposição dos gestos vocálicos, que afetou primeiramente palavras de maior frequência. Posteriormente, a existência da vogal média anterior arredondada /œ/, incomum no sistema vocálico do inglês, acarretou uma segunda mudança por analogia às vogais não-arredondadas no inglês médio. A perda da sobreposição dos gestos, gerando o sistema vocálico do inglês moderno, emergiu primeiramente nas palavras menos frequentes (BYBEE, 2001, p. 82-3).

A frequência de tipo refere-se ao número de ocorrências de um determinado padrão linguístico, como o número de ocorrências do padrão acentual proparoxítono, do encontro consonantal /tr/ ou do afixo iso- em algum corpus. A frequência de tipo é de grande importância, uma vez que é ela quem determina a produtividade dos padrões. Quanto mais frequente for um determinado padrão, maior a sua produtividade. Novas construções teriam uma maior probabilidade de fazerem uso de um tipo mais frequente. Bybee (2001, p. 120) argumentou que uma maior frequência de tipo do afixo do passado regular -ed contribuiu para a melhor análise de palavras como played e spilled, em oposição a broke e went. A recorrência do sufixo regular, quando comparado a outros padrões, explicou a produtividade do padrão em neologismos.

No que tange ao gesto articulatório, unidade de análise da FU, Bybee (2001, p. 69) enfatizou o desconforto causado por uma notação marcadamente alfabética e segmental dos fenômenos fonológicos. Como solução ao problema, a autora propôs a utilização da fonologia articulatória (BROWMAN; GOLDSTEIN, 1992), compatível com uma visão de gramática baseada no uso. A adoção da fonologia articulatória como paradigma de análise decorreu da análise de fenômenos gradientes de mudança sonora, fazendo uso de contínuos. A teoria dos gestos articulatórios considerou a fala uma atividade motora espaço-temporal, e considerou a língua um conhecimento procedimental. Tais características da fonologia

articulatória eram compatíveis com o paradigma da complexidade (BROWMAN; GOLDSTEIN, 1995).

Implicações da FU no ensino de segunda língua/língua estrangeira foram discutidas por Bybee (2008). No que tange à frequência de ocorrência, enfatizaram-se os efeitos da repetição dos itens de alta frequência, bem como sua autonomia e os efeitos de redução sonora. A autora (BYBEE, 2008, p. 219) propôs que o efeito da repetição implica que itens cujos aprendizes são expostos com maior frequência teriam uma produção mais acurada. Portanto, esta pesquisa tem por hipótese que aprendizes brasileiros de ILE fazem maior uso da palatalização indevida das alveolares em itens lexicais menos frequentes.

O efeito da repetição de uma sequência lexical pode acarretar um aprendizado autônomo, sem levar em conta o significado das unidades que constituem a sequência. No meu percurso de aquisição do francês língua estrangeira, por algum tempo acreditei que a expressão au revoir significasse “até logo”. Recentemente percebi que a expressão envolve o

artigo definido au seguido do verbo revoir “rever”.

A constante repetição também gerou um efeito negativo para o aprendiz de línguas estrangeiras, o efeito de redução fonética. Tal efeito era causado pela automação de rotinas neuromotoras decorrentes da maior frequência, o que facilita a produção dos nativos, ao passo que constitui um desafio para não-nativos. Frases como I am going to podem ser realizadas [aɪmgoɪŋtu] em sua forma canônica, ou [aɪmənə] em sua forma reduzida (BYBEE, 2008). O domínio de tais formas por parte de um aprendiz brasileiro é dificultada já que o PB determina fenômenos de redução/coarticulação distintos do inglês.

Os efeitos da frequência de tipo passaram a ser importantes para os aprendizes de línguas. Uma maior frequência de tipo emprestou às estruturas linguísticas uma representação mais robusta. A familiaridade do tipo linguístico em um número suficiente de ocasiões possibilitou ao aprendiz de línguas a aquisição dos efeitos de produtividade, por analogia.

Bybee (2008, p. 232-3) concluiu que a compreensão da gramática como fenômeno emergente do uso contém boas e más notícias para aprendizes de ILE,

[…] é difícil para o aprendiz adulto ou o aprendiz em sala de aula ter uma

exposição semelhante ao nativo de sua língua alvo. Adicionalmente, muitos adultos não possuem a plasticidade necessária ao estabelecimento de rotinas neoromotoras para a nova língua.16

16“it is difficult for the adult learner or the classroom learner to get completely native-like exposure to

the target language. In addition, many adults lack the plasticity needed to set up native-like

Todavia, a autora enfatizou que as mesmas habilidades cognitivas utilizadas na construção da língua materna, como a analogia, a categorização e a automatização, entre outras, podem ser aplicadas na construção de uma língua estrangeira. Tais habilidades permitiriam adquirir a língua alvo sem uma reprodução fiel da frequência a que está sujeito o falante nativo.

Esperamos que este trabalho enriqueça a literatura de aquisição de línguas estrangeiras numa perspectiva fonológica baseada no uso (KANG, 2007; BYBEE, 2008; NGUYEN; WAUQUIER; TULLER, 2009). Damos sequência às discussões abordando o ME.

Benzer Belgeler