• Sonuç bulunamadı

ARTICLE MAKALE

Belgede Tüm Dergi PDF (sayfa 73-78)

Da paisagem há muito se ocupa a arqueologia. Numa etapa de prospecção, por exemplo, é a paisagem que o arqueólogo observa primeiro na tentativa de identificar sítios arqueológicos, considerando os locais e elementos da paisagem que geralmente são considerados pelas populações pretéritas, por exemplo, na construção de habitações ou acampamentos provisórios. Ao identificar um sítio arqueológico, o entorno paisagístico deve ser considerado, não só pelo seu aspecto físico ou natural, mas também por seu aspecto simbólico.

Em seu conceito original, a paisagem seria composta por tudo aquilo que a vista alcança, porém esse conceito mudou a partir da introdução de novas tecnologias como a foto aérea e a imagem de satélite. A partir do início do século XX a paisagem perdeu seu caráter naturalista da representação na pintura, e assumiu outras perspectivas até se tornar um conceito científico da investigação geográfica (THOMAS, 2001; PASSOS, 2000). A disciplina geográfica teria então, a primazia no desenvolvimento do conceito e Thomas (2001, p. 166) afirma que o desenvolvimento da arqueologia da paisagem está relacionado às ideias da geografia humana. A partir da década de 1960, a geografia humana passou a concentrar-se na problemática das relações sociais e na formação cultural dos grupos humanos. Dentre as várias abordagens desse período, a geografia cultural definiu a paisagem enquanto um fenômeno cultural, que registra a tradição de um povo e dá acesso a um passado autêntico.

A arqueologia da paisagem dialoga com outras disciplinas como antropologia, ecologia, história, entre outras, porém para alguns autores ela seria a união de duas ciências, geografia e arqueologia, ambas interdisciplinares em sua essência (MORAIS, 1999).

Sobre esse “casamento” entre as disciplinas, alguns princípios de convergência e divergência entre a arqueologia e a geografia são abordados por Hodder, que considera a geografia como uma ciência espacial, sendo o espaço apenas um dos domínios da arqueologia (HODDER, 1997 apud SOUSA, 2005, p. 292). Essa aproximação entre as duas disciplinas surge no bojo dos debates da década de 1980, que, como vimos, deram a tônica das novas abordagens agrupadas sobre o rótulo de pós-processual, nas quais o indivíduo e a cultura material são entendidos como ativos.

Se nessa perspectiva, geografia e arqueologia compartilham pressupostos que se encontraram em interação no campo da arqueologia da paisagem, parece plausível refletir sobre algumas categorias espaciais a partir de um ponto de vista da geografia, levando-se em consideração que apesar de a arqueologia da paisagem desenvolver uma abordagem fundamentada na base epistemológica da arqueologia, as categorias espaciais são amplamente discutidas pela geografia.

O espaço e a paisagem são conceitos complexos pelos seus múltiplos sentidos. Um casal pode debater por “mais espaço” na relação; com o turismo espacial chegamos à popularização – multimilionária – do “espaço sideral”; e, se formos à primeira definição no verbete Aureliano (FERREIRA, 2004), a distância entre dois pontos é a primeira definição para “espaço”.

Para Cabral (2007, p. 143), a dimensão espacial e as categorias espaciais não são exclusivamente objeto geográfico, “já que como fundamento da realidade, [a dimensão espacial] é abordada por perspectivas diversas”, nas mais variadas disciplinas.

Para Milton Santos (1988), entre os objetos concretos, o espaço seria o mais interdisciplinar podendo ser definido como um conjunto de objetos e de relações, configurando-se no resultado das ações dos homens sobre o próprio espaço, intermediado pelos objetos naturais e artificiais, sendo que os objetos ajudam a concretizar uma série de relações.

Espaço e paisagem mantêm uma relação estreita e muitas vezes são tidos como sinônimos. Mas a concepção sistêmica entende a paisagem como realidade objetiva, como o resultado de uma combinação dinâmica e, por conseguinte instável, de elementos físicos, biológicos e humanos. Essa interação é singular para cada porção do espaço e torna a paisagem um conjunto individualizado, indissociável e em contínua evolução (CABRAL, 2007).

Os múltiplos sentidos da palavra paisagem foram se alterando ao longo da história. Paisagem pode designar a topografia de uma região, “ou um terreno habitado por pessoas, ou um fragmento de terra que pode ser observado de um único ponto e ser representado como tal”. Assim, a paisagem pode ser “um objeto, uma experiência, ou uma representação” e esses diferentes significados frequentemente fundem-se com outros (THOMAS, 2001).

Santos (1988, p. 25) compara a paisagem a uma fotografia somente como um recurso analítico, já que para o autor ela não é estática – a fotografia no exemplo do autor tem conotação temporal, um momento relativamente permanente. Diz ele que a paisagem “é a materialização de um instante da sociedade” onde os objetos ganham formas e sentidos diferentes.

Para entender a paisagem como instante referida por Milton Santos, imaginamos a Avenida Tiradentes até o ano de 1990, antes da construção do Sambódromo, quando não era simplesmente um elo entre o centro e a zona norte da cidade de São Paulo, pois se transformava, nos dias em que durava o carnaval, na passarela do samba – um instante da paisagem paulistana com dia e hora para acabar. Durante os dias de carnaval, a população se transformava acompanhando a configuração da paisagem comandada pela festa popular. Milton Santos, que inclui o estudo do espaço geográfico na temporalidade histórica, entende que, enquanto a paisagem é materialização de um instante da sociedade, o espaço é um dado

do próprio processo social: na matemática das categorias, o espaço é a soma da paisagem e da sociedade, e, enquanto a paisagem é um momento, o espaço contém o movimento – o que os torna um “par dialético”. Diz Santos (1988, p. 26) que “o movimento das pessoas corresponde à etapa da produção que está se dando naquele momento”, e todos são produtores – o operário, o artista de teatro, o vendedor de supermercado, o intelectual, o motorista de táxi e mesmo quem não está diretamente dentro do processo de produção, já que também consome. Já Thomas (2001, p. 174) observa que, na sociedade ocidental, a paisagem é tida como algo visual e separado do ser humano, mas assinala que em algumas sociedades não-ocidentais, como as sociedades africanas, essa “alienação” em relação à paisagem não existe, de modo que a incorporação da paisagem pode se dar de diferentes formas. A paisagem fornece uma continua lembrança das relações entre os vivos e os antepassados, sendo que essa conexão pode estar relacionada às relações de parentesco, àquele que iniciou as benfeitorias na terra. Ainda segundo o autor:

O uso contínuo de lugares através dos tempos chama a atenção para as conexões historicamente construídas. Em um nível mais específico, os vestígios da atividade humana na paisagem podem representar uma fonte de informações detalhadas sobre as relações de parentesco (THOMAS, 2001, p. 175).

O uso contínuo de lugares específicos deixa sua marca, física ou simbólica expressa na paisagem, que mesmo sofrendo uma mudança abrupta, contém elementos significativos desses lugares que tendem a permanecer na memória das pessoas.

Entendendo a paisagem enquanto uma construção cultural, num contexto de comunidades tradicionais como os remanescentes de Vila Bela, onde as mudanças ocorrem não de forma abrupta, porém cada vez mais aceleradas pelas forças do capital – mudanças nos meios de subsistência, a incorporação de terras quilombolas por grandes fazendas de gado, a atividade de madeireiras –, ainda se verifica formas tradicionais na relação com o ambiente através das técnicas de construção das casas, da culinária, das formas populares de crenças e religiosidade, do conhecimento e uso das plantas.

Nessa relação com a paisagem, na qual identificamos elementos herdados dos antepassados expressos nos modos de fazer e de perceber o lugar e atribuir significados, é possível perceber que houve uma apropriação da paisagem, dos seus recursos e de suas formas a partir de

processos cognitivos relacionados com o repertório cultural do grupo, que também é um identificador do grupo.

De acordo com (VARELA, 2008, p. 11), a identidade é formada por vários “agentes de identidade” atuantes nos processos de sua formação e expressão. Esses agentes podem ser divididos em duas categorias: uma de ordem humana, que é social e biológica, e, outra associada a fatores geográficos como o clima, a hidrologia, geologia, geomorfologia, elementos celestes, flora e fauna, entre outros. Ainda de acordo com o autor, esse agentes podem ser considerados infinitos, se partimos do pressuposto de que qualquer coisa contatada pelo ser humano se torna um “instrumento” de diferenciação ou identificação, através do qual se gera e se comunica identidade. Assim, a formação e a expressão da identidade é um processo do presente, relacionadas a contextos sociais e históricos específicos, ao mesmo tempo em que são, conforme observa Varela, um fenômeno universal da existência humana, variando apenas a maneira como cada grupo cultural as modela.

Além de ser um requisito da humanidade, a identidade também se dá por processos particulares que são contingentes, de modo que além da evidência arqueológica, Varela alerta para a necessidade de uma reflexão sobre os processos de identificação que teriam operado nos contextos sociais do passado. Mas observa o autor que esse exercício terá, contudo, que partir sempre do presente, da análise dos atuais processos de identificação e do discurso que construímos relativamente àqueles contextos sociais em que se desenvolveram os processos de identificação em consideração, procurando estabelecer a já referida relação de intersubjectividade presente/passado.

Repensando, de acordo com Varela (2008, p. 17), a identidade é inerente ao homem, porém a forma como se constitui, se apresenta, se multiplica é variada e depende do contexto, das relações com o meio físico e social. Por isso, é que Varela opta pela adoção do termo “identificação”, porque tem na identidade “um processo construtivo e dinâmico”, e “conformado por modos estruturantes de funcionamento da mente humana”.

Esses fundamentos teóricos embasam nossas primeiras formulações sobre o papel que tiveram determinadas árvores na produção e manutenção desse sistema de crenças de origem africana, já que árvores são elementos da natureza que atuam como artifícios “mnemônicos”, como diz Prins (PRINS, 1992) sobre aquilo que é capaz, como são as árvores, de invocar nas pessoas as crenças e a cultura dos antepassados.

A árvore é também um ecofato, ou seja, uma evidência não artefatual, um elemento da natureza que tem algum tipo de relevância cultural (SHARER e ASHMORE, 1979, p. 562) e que não necessariamente sofreu modificação feita pelo homem, mas que foi de alguma maneira apropriada física ou simbolicamente (GONZÁLEZ RUIBAL, 2003; FUNARI, 2003, p. 14).

Árvores são elementos fixos dentro do “sistema de atividades” proposto por Rapoport (1993, p. 13), enquanto que seres humanos são considerados elementos não-fixos da estrutura. Logo, captar o significado atribuído pelos quilombolas a determinadas árvores, permitiria termos um quadro de elementos simbólicos que, comparados aos das religiões de matriz africana, colaborariam para a identificação, se não um delineamento de crenças e culturas de antepassados, acreditando na capacidade da árvore de atuar como um ativador da memória nas pessoas.

Diversos grupos humanos atribuem significação as árvores, sobretudo no âmbito da religiosidade – não apenas os africanos ou afro-brasileiros, mas povos de diversas origens. Assim, a árvore não pode ser analisada isoladamente, pois além de pertencer a um sistema cultural ela também pertence a um ecossistema específico que determina o patrimônio vegetal/natural disponível.

Tem-se a observar também que árvores características do cerrado, vegetação predominante no quilombo do Boqueirão, podem não ser tão comuns em Salvador/BA, por exemplo, onde foram coletados os dados de campo referidos em grande parte da bibliografia por nós consultada. Devemos salientar, inclusive, que o candomblé da Bahia influenciou vários outros candomblés formados em diversos estados brasileiros, entre eles os que se incluem em nossa pesquisa empírica. De qualquer modo, em vista disso, também incluímos em nosso repertório de pesquisa um candomblé de Cuiabá, no qual as árvores do cerrado são conhecidas e estão presentes.

Cabe aqui dizer que a caracterização ambiental da região de Vila Bela está inserida na análise de dados apresentada no terceiro capítulo desta dissertação. Mas podemos introduzir desde já que em campo, no contexto sistêmico, nos focamos na coleta de dados do quintal (estruturas domésticas, pomar, horta, criação) e do entorno imediato (na maior parte área, de pastagem com a incidência de espécimes vegetais do cerrado que foram preservadas). Já no contexto arqueológico, nos detivemos no entorno das marcas da estrutura da antiga habitação, na

tentativa de delimitar o quintal e assim localizar espécimes arbóreos que pudéssemos relacionar com esta estrutura. Nesses dois contextos não seria possível desconsiderar como a população quilombola do Boqueirão pensa e se relaciona historicamente com esses aspectos da paisagem.

Belgede Tüm Dergi PDF (sayfa 73-78)

Benzer Belgeler