3. ARTIRILMIŞ GERÇEKLİK (AUGMENTED REALITY)
3.3. Artırılmış Gerçeklik Tarihi
Um ponto nas propostas de Eco merece a nossa especial atenção, porque constitui um tema nevrálgico de onde parte ele, quer para a crítica endereçada a Katz e Fodor, quer para a fundamentação de seu modelo de descrição semântica. Trata-se da distinção entre denotação e conotação.
Tendo expurgado o referente da função sígnica e definido o significado como unidade cultural, Eco caracteriza a denotação como uma valência no interior do sistema semântico de uma língua. A denotação seria ‘a referência imediata que o código atribui ao termo numa dada cultura’ (1974: 46). O lexema /casa/, por exemplo, denota, em português, aquela valência semântica que faz de casa aquilo que se opõe, no sistema semântico da língua portuguesa, a choupana e mansão.
Neste primeiro momento, denotação aproxima-se da noção de significado como oriundo da oposição entre unidades de parte do sistema do conteúdo pertinentizado (campo semântico); noutros termos, o significado constitui um valor emanante do sistema, individuado apenas negativamente por opor-se às outras regiões do plano do conteúdo de um dado campo semântico.
Noutro momento, Eco (1991c: 45-8, 73-5) subscreve o que diz Hjelmeslev ao caracterizar a denotação como uma semiótica cujos planos da expressão e do conteúdo não são, eles mesmos, constituídos por uma outra semiótica; e a conotação, ao contrário, como uma semiótica em que o plano da expressão é já uma semiótica41. Utiliza inclusive o esquema de Barthes para representar o processo da conotação. Procede, depois, a uma alteração do esquema (reproduzido abaixo), de modo a contemplar os múltiplos códigos conotativos que podem estar ligados a um mesmo código denotativo, sendo que as conotações assim geradas não dependem uma da outra, podem até mesmo se contradizer.
conteúdo expressão expressão conteúdo
conteúdo expressão conteúdo
expressão conteúdo
Pelo exposto, podemos facilmente perceber que, por um lado, Eco considera a denotação uma função sígnica operada antes mesmo de qualquer contextualização discursiva, isto é, uma relação entre um significante e um significado, sendo que este, como posição no campo semântico, é ‘puro paradigma’ (op. cit.: 45). Trata-se, neste primeiro caso, do significado do significante isolado, ou, se se quiser, do lexema. Por outro lado, Eco opera com a definição hjelmsleviana de denotação como indicação (função sígnica) de uma unidade cultural em primeira instância, sem prévias mediações.
Assim é que, ao tratar das marcas semânticas do semema42, Eco (1991c) esboça uma distinção entre marcas denotativas e conotativas, que aproxima mais uma vez suas postulações das de Hjelmslev. Eis o que assevera Eco:
Chamamos DENOTATIVAS às marcas cuja soma (ou hierarquia) constitui e identifica uma unidade cultural à qual o significado corresponde em primeira instância e sobre a qual se baseiam as conotações sucessivas.
Ao contrário, chamamos CONOTATIVAS às marcas que contribuem para a constituição de uma ou mais unidades culturais expressas pela função sígnica anteriormente constituída. (op. cit.: 74)
41 Eco (1991c: 45) define conotação (ou a semiótica conotativa) como uma espécie de ‘supra-elevação’ de códigos em que se tem ‘uma significação veiculada por uma significação anterior’.
42 Para Eco, semema corresponde a um percurso de leitura, gerado pela narcotização ou enfatização de semas, a partir do retículo sêmico, que constitui o lexema.
O conteúdo do excerto acima parece conflitar com o outro, já mencionado, no qual a denotação se opõe à conotação nestes termos: aquela constituiria apenas uma posição valencial no sistema semântico de uma língua (nos termos de Eco, ser puro paradigma), ao passo que esta corresponde a ‘toda a seqüência dos interpretantes, através da qual o processo de semiose faz viver o lexema e o torna praticável’ (op. cit.: 42). Ora, para Eco, a seqüência de interpretantes disparada por um signo constitui o processo da conotação. Logo, o sentido denotativo tem um caráter demasiado pouco específico, porque se o tentarmos representar não o faremos senão através de um interpretante, o que dispara o processo semiótico gerador da conotação43. Quer dizer, o sentido de denotação é encampado pelo de conotação, tornando-se inútil. Prova-o o texto infra no qual se define a conotação:
...a conotação é um conjunto de todas as unidades culturais que uma definição intensional do significante pode pôr em jogo; e é, por conseguinte, a soma de todas as unidades culturais que o significante pode revocar institucionalmente à mente do destinatário. Onde o ‘pode’ não alude a nenhuma possibilidade psíquica, mas a uma disponibilidade cultural. Numa cultura, a seqüência dos interpretantes de um termo demonstra que esse termo pode ligar-se a todos os outros signos que de alguma forma a ele foram reportados (op. cit.: 42)
Prova-o também a tipologia conotacional que segue: a) conotação como significado definicional;
b) conotação das unidades semânticas componentes do significado; c) definições ‘ideológicas’;
43 Isto fica claro quando Eco elenca os tipos de conotação, entre os quais inclui a conotação definicional, que, à primeira vista, parece constituir a própria denotação. Ainda mais quando encontramos em Eco passagens como esta: ‘Ademais, considere-se que uma representação semântica satisfatória pretenderia que | solteiro | conotasse [destaque nosso] também o contrário de seu antônimo, portanto << - casado >>‘ (1991: 90). Ora, neste caso, o significante mencionado conota não-casado, remetendo-nos assim para o campo semântico estado civil e para as oposições que o estruturam. Seria de esperar-se que uma tal marca, << - casado >>, ao remeter-nos para o eixo semântico referido, constituísse uma marca denotativa, o que não ocorre. Portanto, seguindo o raciocínio supra, é-nos lícito concluir que tudo na mensagem é conotação, não passando a denotação de um valor (extremamente abstrato, diga-se de passagem) valencial, cuja razão de ser está nas relações opositivas estruturantes de um campo semântico. Contudo, os traços que poderiam ser utilizados para a individuação da região do conteúdo correspondente a um dado significante são, eles mesmos, considerados por Eco marcas conotativas.
O conceito hjelmsleviano de conotação e denotação, que Eco também abraça, está melhor fundamentado e nos permite compreender as relações entre denotação e conotação como algo dinâmico, como um processo que desliza de interpretante para interpretante, um processo em que o significado
denotativo configura-se a partir do feixe de semas imediatamente associado a um significante pelo grupo falante, isto é, ‘CODIFICADO ou de algum modo reconhecido e INSTITUCIONALIZADO pela sociedade’ (Eco 1991: 89).
d) conotações emotivas;
e) conotações por hiponímia, hiperonímia e antonímia; f) conotações por tradução em outro sistema semiótico; g) conotações por artifício retórico;
h) conotações retórico-estilísticas; i) conotações axiológicas globais.
Esta lista, diz-nos Eco, não pretende ser exaustiva, ‘quer apenas mostrar quais e quantos são os modos pelos quais o par formado por um significante e seu significado denotado (o que Saussure chamava ‘o signo em sua unidade’) pode remeter a outras unidades culturais que, por sua vez, a cultura exprime mediante outros signos’ (op. cit.: 45). Mais do que isso, ela abrange o que muitos poderiam chamar de sentido denotativo de um termo, o significado definicional (item a da lista supra).
Feito o balanço sobre as noções de denotação e conotação em Eco, constatamos que caminham em paralelas duas acepções: uma de Hjelmslev, outra do próprio Eco, sem que, assim nos parece, haja uma possibilidade de síntese entre ambas. Ao nosso ver, sustenta-se ainda a noção tradicional, tal como formulada pelo lingüista dinamarquês.