I.2. YÖNTEM VE TERM NOLOJ :
2. BÖLÜM
6.3. HELLEN MÜZ K ALETLER :
6.3.1. HELLEN TELL MÜZ K ALETLER :
6.3.1.1. ARP ( Trigonon):
Após o primeiro contato do mundo civilizado com o tabaco, no final do século XV e início do XVI, a planta chega à Europa por quatro caminhos: Espanha, Portugal, França e Inglaterra. E, desses quatro países, o hábito ganha o mundo.
Na Europa, o tabaco se espalhou rapidamente. Após cinqüenta anos da sua chegada, praticamente se fumava em todo continente, fossem pobres ou ricos, homens, mulheres ou crianças, todos fumavam. Além do mais, o contexto da política econômica também foi alterado, pois o tabaco tornou-se a maior fonte de renda dos cofres públicos87,93.
Através da colonização européia da América, baseada na exploração e na mão-de- obra de escravos africanos, no século XVI, os espanhóis e portugueses levam o tabaco ao leste da África, de onde depois se expande para o centro e para oeste do continente. E fumar passa a ser mais um dos costumes a ser incorporado pelos povos africanos a partir do imperialismo das nações européias56.
O desenvolvimento do comércio no mundo permite a expansão do tabagismo para os demais continentes, por meio das rotas do século XVII. O tabaco, que antes era comercializado na América, Europa e África, é levado para a Ásia e depois para a Oceania, e o mundo todo passa a conhecer o prazer de fumar. Todavia, apesar do hábito tornar-se socialmente aceito, até o século XIX, se uma mulher era vista fumando significava atrevimento e disponibilidade sexual. Segundo relatos históricos, a primeira mulher a fumar em público foi a Baronesa de Dudevant, esposa do compositor Frederic Chopin36,56.
O tabaco foi consumido de diversas formas, sofisticando-se com o tempo. A princípio, a forma mais comum de consumi-lo foi com o cachimbo, tendo este predominado por quase três séculos. Utilizaram-se praticamente todos os tipos de materiais para fabricar cachimbos, como metais, marfim, cerâmica, dentre outros. Havia cachimbos caríssimos, sendo os mais célebres de propriedades de reis e nobres.
O cachimbo surge da adaptação do objeto tradicionalmente usado pelos índios norte- americanos, que aspiravam a fumaça pelo nariz, através de tubos em forma de Y. Sir Walter Raleigh trouxe o hábito da Virgínia, colônia britânica que mais tarde passaram a fazer parte
dos Estados Unidos, para a Inglaterra e, a partir daí, o cachimbo se incorpora à imagem típica do inglês93.
Impulsionado por Frederico Guilherme, o cachimbo difundiu-se na Prússia, no século XVII, a ponto de, em sua corte, ser fundado o Tabak Collegium, onde diariamente, ministros, generais, políticos e literatos discutiam, propunham e assinavam decretos, sentados em torno de uma imensa mesa, chupando cachimbos com hastes de meio metro ou mais85.
Segundo Jodelet48, a necessidade de nos ajustarmos ao mundo em nossa volta, como nesta época na Prússia, faz com que procuremos saber como nos comportar, como dominá-lo física ou intelectualmente, identificar e resolver os problemas que se apresentam. Para isso, criamos representações. Partilhamos este mundo com os outros, que nos servem de apoio, às vezes de forma convergente, outras pelo conflito, para compreendê-lo, administrá-lo ou enfrentá-lo. As representações sociais nos guiam no modo de nomear e definir diferentes aspectos da realidade, e no modo de interpretar esses aspectos, tomar decisões e, eventualmente, posicionar-se frente a eles.
Com o tempo, outras formas de consumir tabaco foram criadas. A partir do século XVIII, espalhou-se a mania de aspirar rapé. O hábito de cheirar tabaco estava se popularizando e, ao mesmo tempo, tornando-se artigo de luxo e moda nos salões, reinando por 200 anos. O pó finíssimo das folhas torradas e moídas era servido em ricas caixinhas de metal e porcelana, trabalhadas com ouro e pedras preciosas. E este era comportamento de diferenciação social determinado pelo sistema de valores e normas da época, e essa prática nos remete às funções identitária e justificadora das representações sociais3,36.
Não demorou muito para que as nações envolvidas com o consumo e a produção de fumo descobrissem que ele estava se tornando um negócio muito lucrativo, capaz de pesar na balança comercial dos países produtores e distribuidores. Os lucros obtidos através do comércio não paravam de crescer e as divisas geradas pelos impostos eram cada vez maiores. Os Estados Unidos, por exemplo, introduziram uma taxa ao tabaco para ajudar a financiar a Guerra Civil Americana, em 1776. As palavras do Presidente George Washington corroboram essa afirmação: “I say, if you can’t send money, send tobacco” – “Eu digo, se você não pode enviar dinheiro, envie tabaco” 56.
Assim, o tabaco logo passa a ser representado como sinônimo de riqueza e cobiçado pela burguesia. Segundo alguns relatos, em sua festa de casamento com Maria Luiza,
Napoleão Bonaparte ficou impressionado com a exuberância dos trajes e jóias de uma senhora desconhecida, que ofuscava até mesmo a rainha. Curioso, perguntou quem era, e se surpreendeu quando lhe responderam que era uma burguesa, esposa de um riquíssimo fabricante de tabaco. O Imperador, grande estrategista e administrador, passou para as mãos do Estado o monopólio da comercialização do tabaco, pois uma fonte tão espetacular de lucro não poderia ficar apenas nas mãos de particulares93.
As representações sociais, como essa construída por Napoleão, são produtos e processo de uma atividade de apropriação da realidade exterior ao pensamento e de elaboração psicológica e social dessa realidade. Como fenômenos cognitivos, essas representações envolvem a pertença social dos indivíduos, suas implicações afetivas e normativas com as interiorizações de experiências, práticas, modelos de condutas e pensamentos, socialmente elaborados ou transmitidos através da comunicação social48.
Uma forma de consumir tabaco e que sempre foi representada como sinônimo de elevado status econômico-social, vinculada à fama e riqueza, sendo símbolo de bom gosto e sofisticação, foi o charuto, que teve seu apogeu nos séculos XIX e XX. Em dezembro de 1983, um fato curioso confirma esse vínculo. O anúncio de página inteira da revista Variety, chamava a atenção para o "primeiro leilão do gênero - uma coleção de charutos cubanos produzidos há muitos anos". Pela primeira vez, desde que os Estados Unidos decretaram o embargo de Cuba, em 1960, os nova-iorquinos poderiam adquirir, legalmente, charutos cubanos. O New York Times noticiou o fato com um título de primeira página "Leilão de charutos cubanos atrai compradores", fez um relato do evento, com uma foto na qual se mostrava a sala de leilões, com muitas pessoas em pé. O preço estimado no catálogo pelos leiloeiros esperava conseguir de dois a doze dólares por charuto. Mas o lance que venceu a concorrência de 700 pessoas foi de 84 dólares44.
O cigarro surgiu em meados do século XIX. Como relata Rosemberg85, na Espanha, muitos anos antes, já se fumava tabaco enrolado em papel, que era chamado “papelete”. Paris foi invadida pelo cigarro em 1860. Nos Estados Unidos, houve verdadeira explosão do cigarro na década de 1880, quando se inventou uma máquina que produzia duzentas unidades por minuto. O cigarro teve uma maior expansão, por ser mais econômico, mais cômodo de carregar e usar do que o charuto ou o cachimbo, tornando-se um dos maiores fenômenos de transculturação do mundo. A primeira expansão mundial ocorreu com a Primeira Guerra
Mundial, sendo, no entanto, sua difusão praticamente no sexo masculino. A difusão entre as mulheres cresce após a Segunda Guerra Mundial.
A invenção da máquina de fabricação de cigarros e a criação do cigarro contribuíram para aumentar em milhões o número de fumantes, enriquecendo os seus fabricantes. Este quadro foi alcançado através da vinculação que os fabricantes fizeram ao esporte, com realce da associação com a beleza, liberdade, sucesso e outros aspectos, transformando-o em um hábito familiar e objeto de desejo de milhões de pessoas, principalmente a partir da década de 50, quando se desenvolveram as técnicas de publicidade56.
Todas as formas de consumo de tabaco foram representadas nos diversos ramos da manifestação cultural: do Teatro à Escultura, da Pintura ao Cinema. Por exemplo, em 1650, o “Balé do Tabaco”, na Corte de Savoia. Moliere, na peça “Don Juan” (1665), logo no primeiro ato faz referência ao tabaco. Na música erudita, Bach escreve Die tabakpfeifer (1720). As óperas “Carmen de Bizet” e a “Secreto de Susana”, de Wolf-Ferrari, contêm temas sobre tabaco. Trataram do tabaco, poetas como Baudelaire, Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos, além de muitos outros. Na literatura de ficção, autores como Thomas Mann, Ítalo Suevo, Dom Franke e Graciliano Ramos abordaram o tabagismo como tema principal ou correlato. Inúmeros filmes utilizam o cigarro como elemento de uma trama incerta e nebulosa, no desenrolar da história, como “Casablanca”, de Michael Curtiz, e “O Grande Golpe”, de Stanley Kubrick. A Pintura focaliza o tabaco desde as tapeçarias de Flandres, as telas de Goya, Van Dik, Delacroix, e até os impressionistas e cubistas Renoir, Cézanne, Degas, Monet, Van Gogh, Picasso e tantos outros85.
Em linhas gerais, traçamos o panorama de expansão e a sofisticação que o hábito alcançou, embora tenha havido aqueles que se opunham e buscavam formas de eliminar ou controlar o tabagismo, como veremos a seguir.