2.7 DİĞER VAKIFLAR
3.1.2 Armudili Nahiyesi
Como colocamos no início desse capítulo, a base da tentativa de dar vida ao espaço de encontros entre performers e suas práticas que se denominou de CRPB era a tentativa de produzir uma coletividade cooperativa e gerativa de visibilidade para o campo da performance arte brasileira.
Desde suas duas edições locais o intuito do Circuito BodeArte mostrava-se no sentido de um movimento de aproximação entre fazeres isolados, comunicar, circuitar corpos e experiências em seus componentes para produzir um fluxo atravessamento e percepção de uma paisagem mais ampla e plural da criação em performance arte.
Devido a experiência dos seus integrantes como bolsistas de projetos de pesquisa e extensão relacionados ao campo da performance arte, e coordenados pela Prof.ª Dr.ª Naira Ciotti, o ES3 teve contato com o conceito de emergência, tal qual trabalhado por Steven Johnson (2004). Esse conceito se constituiu de maneira fulcral não como uma ferramenta de aplicação usada pelo Coletivo, mas como princípio de uma lição importante quando nos referimos ao BodeArte, e mesmo ao momento de formação do ES3: coletividade além de uma forma de inteligência, é uma forma de sobrevivência.
Para pensar o conceito de emergência, Johnson se concentrou primeiramente sobre a figura de um estranho organismo semelhante a uma ameba, o Dictyostelium discoideum, estudado por diversos ramos, inclusive a matemática, por seu comportamento assimétrico quanto a sua definição enquanto grupo, ou indivíduos isolados em si. Como descreve Johnson:
(...) Quando o ambiente é mais hostil, o discoideum age como um organismo único; quando o clima refresca e existe uma oferta maior de alimento, „ele‟ se transforma em „eles‟. O discoideum oscila entre ser uma criatura única e uma multidão (JOHNSON, 2004, p. 10).
Esse movimento de grupo coordenado e paradoxal, pois ora institui a união e ora reordena nova divisão, atrela a próxima questão apresentada por Johnson sobre o comportamento não usual desse(s) organismo(s). Seria esta a retirada de um paradigma usual de olhar organizativo que pressupõe a ação de um líder, uma inteligência organizativa centralizadora que reúne os demais organismos e coordena esse movimento de união e separação, a que se chama de um formato top-down (de cima para baixo).
Como experimentos com o discoideum vieram a comprovar, sua ação não é coordenada “de cima para baixo”, não existe uma liderança isolada que a comande, o que ocorre nele é um comportamento bottom-up (de baixo para cima), um fenômeno coletivo que integra as inteligências individuais numa ação que emerge desse comportamento agenciado pelo grupo num esforço de sobrevivência, e não por esta ou aquela liderança.
Existem para Johnson, diante dessa perspectiva, ações de indivíduos em interação com o ambiente que geram soluções para questões razoavelmente mais simples, e comportamentos que coordenam a emergência da reunião de indivíduos para uma ação de caráter mais amplo que tenta lidar com a demanda de um problema de ordem mais complexa. Esse movimento de ações localizadas em cenários individuais para comportamentos bottom-up de organização complexa que emergem quando esse grupo de indivíduos se reúne, é o que Johnson denominou como emergência.
Essa inteligência da coletividade que se agrega como tal para lidar com problemáticas e condições complexas é a tática prática que estaria constituída na reunião de performers criada pelo Circuito BodeArte. Claramente ela não se constitui apenas como uma tática, tendo funções e modos de ser mais amplos dentro do Circuito, e elaborando os movimentos de vida deste, mas nos referimos a ela através dessa metáfora pensando justamente no pressuposto da sobrevivência.
Colocamos e reiteramos que essa sobrevivência a que nos referimos não é uma sobrevida, um fragmento de vida, mas se conecta mais propriamente ao significado etimológico do termo (supravivere), viver além da expectativa, viver além da precariedade de recursos próprios para financiar um festival de performance na cidade do Natal no Rio Grande no Norte, viver além e apesar das projeções feitas de um evento independente de performance arte.
A coletividade criada pelo BodeArte, ou melhor criada por aqueles que (per)formam o BodeArte através de seu interesse e investimento, é a forma de sobrevivência encontrada para criar potências de ação cooperativa e comunicativa entre contextos diversos de performance. Ela é também um espaço, como já mencionado, que não dilui os sujeitos, não é uma
coletividade que sobrepuja as perspectivas de cada sujeito, nem tampouco uma coletividade permanente a qual os performers estão atrelados sem possibilidade de saída.
Como o Dictyostelium discoideum, a conjunção criada pelo BodeArte possui momentos de união e de co-existência, isso é, modos de existência coletivos onde a ação dos participantes inscritos e colaboradores é de troca coordenada para a sobrevivência e circuitação de uma performance de acontecimento do evento em suas diversas esferas, e modos de co-existência onde a colaboração se constitui na distância, ou através de outros projetos de produção, e os participantes inscritos e colaboradores estão voltados aos seus contextos e processos próprios de criação.
Para a existência dessa coletividade é importante que atentemos também para o nome do próprio evento: Circuito. Como circuito o BodeArte criou uma perspectiva acionada desse termo, o “circuitar”, uma ação de fazer mover a si e a sua performance em meio a outros elementos e componentes que caracterizam o circuito. Como o circuito eletrônico que engloba desde a tecnologia dos microprocessadores, como os chips, até os circuitos integrados dos grandes computadores, passando pelos aparelhos domésticos, o seu princípio básico da estrutura é o fluxo, a passagem, o movimento de uma corrente. Se o movimento se rompe, se cessa o fluxo entre seus múltiplos elementos, o circuito e o Circuito BodeArte perdem sua potência como tal, não fazem a energia agir.
Assim o princípio apresentado nesse ponto é o de sobrevivência pela coletividade, assim como de sobrevivência da coletividade. É pungente perceber que assim como a coletividade vira uma estratégia de sobrevivência, ela também necessita de meios e processos para se manter, ativados, no caso do BodeArte, pelos seus participantes, produtores, técnicos, assim como pelo próprio público.
É dessa sobrevivência da coletividade como ação política que falaremos no último ponto deste capítulo, como a ação entre corpos e práticas potencializa mutuamente as ações dos performers e da performance como área de produção artística e linguagem no Circuito BodeArte.